Estado da Arte numa Tese de Fisioterapia sobre Lombalgia Crónica: Como Organizar os Estudos Anteriores (2026)
A lombalgia é um dos temas mais frequentes nas teses de Fisioterapia e, por isso, o estado da arte corre o risco de se tornar uma lista interminável de ensaios sem fio condutor. Para o júri, o que conta não é quantos estudos citou, mas se organizou a evidência de forma que conduza à sua pergunta de investigação: que intervenção, em que população, comparada com quê e medida como. Este guia mostra como organizar os estudos anteriores sobre lombalgia crónica numa tese de Fisioterapia, como ler e resumir cada tipo de estudo (revisão sistemática, ensaio, estudo observacional) e como escrever três entradas de exemplo a partir de publicações reais.
Comece por delimitar o que é “lombalgia crónica”
Na literatura, “lombalgia” é um termo amplo. Antes de organizar estudos, escreva a sua definição de trabalho, porque ela determina que estudos entram. Duas referências ajudam. A revisão Cochrane sobre exercício terapêutico na lombalgia crónica (Hayden e colaboradores, 2021) inclui ensaios clínicos aleatorizados com adultos com lombalgia crónica inespecífica de duração superior a 12 semanas, e avalia o efeito do exercício sobre a dor e as limitações funcionais. Já o artigo de síntese publicado na Lancet (Hartvigsen e colaboradores, 2018) lembra que, na quase totalidade das pessoas com lombalgia, não é possível identificar uma causa nociceptiva específica e que apenas uma pequena proporção tem uma causa patológica bem conhecida, como uma fratura vertebral, uma neoplasia ou uma infeção.
Na tese, escreva: população (adultos, idosos, grávidas, trabalhadores), duração (mais de 12 semanas, se seguir a definição da revisão Cochrane), tipo (inespecífica ou com causa conhecida) e fase (primeiro episódio, recorrente, persistente). Isto evita misturar estudos que respondem a perguntas diferentes.
Organize por pergunta clínica, não por ano
Em Fisioterapia, a organização mais útil segue a estrutura PICO (população, intervenção, comparação, outcome/resultado). Em vez de um capítulo cronológico, construa blocos que correspondam às perguntas que a sua tese poderia fazer:
- Carga e epidemiologia: quantas pessoas são afetadas e que fatores se associam à lombalgia persistente.
- Intervenções de exercício: exercício geral, específico, aeróbio, pilates, controlo motor.
- Outras intervenções: terapia manual, educação, modalidades físicas.
- Fatores moderadores: idade, sexo, adesão, fatores psicossociais.
- Medidas de resultado: instrumentos de dor e de incapacidade usados nos estudos.
Cada bloco termina com a frase que o estado da arte deve sempre ter: o que se sabe, onde há divergência e o que falta. Se ainda está a definir a estrutura global da revisão, o guia sobre como escrever a revisão de literatura da tese descreve o processo completo, e o artigo sobre quantos artigos ler para a revisão de literatura propõe critérios de paragem.

Que tipos de estudo vai encontrar e como resumir cada um
| Tipo de estudo | O que dizer no resumo | Cuidado na leitura |
|---|---|---|
| Revisão sistemática ou meta-análise | Pergunta, bases de dados, número de estudos, resultado principal, certeza da evidência | Verificar a data da pesquisa e se a revisão foi atualizada |
| Ensaio clínico aleatorizado | Amostra, intervenção, comparador, duração, resultados em dor e função | Verificar o risco de enviesamento e o tamanho da amostra |
| Estudo observacional (transversal, coorte) | População, desenho, variáveis, associações encontradas | Associação não é causalidade; verificar o controlo de confundidores |
| Estudo-piloto ou de viabilidade | Objetivo de viabilidade, amostra, resultados preliminares | Os resultados são exploratórios e geram hipóteses; não provam eficácia |
Uma revisão Cochrane serve de âncora para cada bloco de intervenção: pesquisa em várias bases, seleção por dois revisores e avaliação do risco de enviesamento. A revisão sobre exercício e lombalgia crónica pesquisou as bases CENTRAL, MEDLINE, Embase, CINAHL, PsycINFO, PEDro e SPORTDiscus, além de registos de ensaios, e incluiu 249 ensaios de exercício terapêutico. Ao citar uma revisão, diga sempre a data da pesquisa: a evidência de uma revisão antiga pode ter sido ultrapassada por ensaios mais recentes.
Três entradas de exemplo, construídas a partir de publicações reais
As entradas seguem uma fórmula de cinco frases: quem e quando, o quê, como, resultado e relação com a sua tese. Foram escritas com informação dos resumos; antes de as usar como modelo, leia sempre a publicação completa.
1. Carga da lombalgia (Hartvigsen e colaboradores, 2018, The Lancet, vol. 391, pp. 2356–2367). Artigo de síntese que descreve a lombalgia como uma queixa muito frequente em países de rendimento alto, médio e baixo e em todas as idades. Os autores referem que os anos vividos com incapacidade devido à lombalgia aumentaram 54% entre 1990 e 2015 e que a lombalgia é a principal causa de incapacidade no mundo; indicam ainda que fatores como o sofrimento psicológico, a intensidade inicial da dor e a dor em vários locais aumentam o risco de lombalgia persistente e incapacitante. Para a sua tese: serve de enquadramento e de justificação de relevância; não é um estudo de intervenção, por isso não responde à eficácia de nenhuma técnica.
2. Exercício terapêutico (Hayden e colaboradores, 2021, Cochrane Database of Systematic Reviews, CD009790). Revisão sistemática que avalia o impacto do exercício na dor e nas limitações funcionais de adultos com lombalgia crónica inespecífica, face a nenhum tratamento, cuidados habituais, placebo e outros tratamentos conservadores. Incluiu 249 ensaios e definiu como clinicamente importantes uma diferença de 15 pontos na dor e de 10 pontos nas limitações funcionais, numa escala de 0 a 100. Para a sua tese: é a referência para justificar a escolha do exercício como intervenção e para definir a diferença clinicamente importante; leia os resultados e a certeza da evidência no texto completo.
3. Atividade física e incapacidade em grávidas portuguesas (Teixeira, Santos, Festas e Bernardo, 2026, International Journal of Environmental Research and Public Health, vol. 23, artigo 245). Estudo transversal analítico com 192 grávidas portuguesas, com questionário online que incluiu o Pregnancy Physical Activity Questionnaire e o Oswestry Disability Index. A maioria tinha atividade leve ou sedentária (69,1%) e a incapacidade foi em geral ligeira (ODI médio de 11,5), mas 42,2% reportaram incapacidade moderada e 11,0% grave. As associações foram fracas, e os autores pedem cautela por causa do desenho transversal. Para a sua tese: é um exemplo português do uso do ODI e mostra como um estudo transversal descreve associações; não permite concluir que a atividade física reduz a incapacidade.
Repare que cada entrada indica o tipo de estudo e diz o que ele permite (e não permite) concluir. Esse hábito é o que separa um estado da arte de um catálogo de resumos.
Quadro-síntese para a tese
| Estudo | Tipo | População | Resultado principal | Limite |
|---|---|---|---|---|
| Hartvigsen et al. (2018) | Síntese narrativa | Qualquer idade, vários países | Principal causa de incapacidade no mundo; recorrência frequente | Não avalia intervenções |
| Hayden et al. (2021) | Revisão sistemática Cochrane | Adultos com lombalgia crónica inespecífica | Avalia o efeito do exercício na dor e na função (249 ensaios) | Pesquisa até 2018, ensaios posteriores por integrar |
| Teixeira et al. (2026) | Transversal analítico | 192 grávidas portuguesas | Associações fracas entre sedentarismo e incapacidade | Desenho transversal e questionário online |
Ao copiar este modelo, acrescente as colunas que o seu estudo exige (instrumento de dor, duração da intervenção). Para interpretar tamanhos de efeito nos estudos que citar, consulte o artigo sobre tamanho do efeito na tese.
Como terminar: a lacuna em Fisioterapia
A lacuna numa tese de Fisioterapia costuma ter uma de quatro formas: uma população pouco estudada (por exemplo, idosos ou grávidas em Portugal), uma intervenção com poucos ensaios (por exemplo, um tipo de exercício específico), um comparador em falta ou uma medida de resultado pouco usada. O estudo-piloto de Azul e colaboradores (2026, Medicina, vol. 62, artigo 1021), por exemplo, avaliou a viabilidade de um programa de pilates com aparelhos de 12 semanas em 13 adultos mais velhos, com abordagem de métodos mistos, e os próprios autores assinalam que, sem grupo de controlo e com amostra muito pequena, os resultados são exploratórios e geradores de hipóteses; é exatamente o tipo de lacuna a que uma tese com ensaio controlado poderia responder.
Escreva três frases seguidas no fim da secção: (1) “A evidência converge em…”; (2) “Permanece em aberto…”; (3) “Esta tese estuda…, em…, comparando… com…, medido por…”. Em seguida passe à metodologia; se precisa de apoio para a escrever, veja o guia sobre como escrever a metodologia de uma tese de Fisioterapia. Para ver a mesma lógica noutra área, leia o estado da arte de uma tese sobre abandono escolar.

Medidas de resultado: o que cada estudo mede e como comparar
Uma das maiores dificuldades de um estado da arte sobre lombalgia é que os estudos medem a dor e a incapacidade com instrumentos diferentes. Crie um quadro à parte com os instrumentos mais usados nos estudos que citou e use-o para comparar. Dois exemplos retirados dos estudos acima: o Oswestry Disability Index (ODI), usado para medir a incapacidade funcional relacionada com a lombalgia no estudo com grávidas portuguesas, e a conversão das medidas de dor e de limitação funcional para uma escala de 0 a 100 pontos, que a revisão Cochrane usou para poder agrupar ensaios. Nessa revisão, uma diferença de 15 pontos na dor e de 10 pontos nas limitações funcionais foi considerada clinicamente importante para a comparação principal.
Na sua tese, indique para cada instrumento: o que mede (dor ou função), a escala e o sentido de interpretação (pontuação mais alta é pior ou melhor), a versão em português usada e a diferença mínima clinicamente importante, se existir, com a fonte. Sem isto, o júri não consegue perceber se uma melhoria de dois pontos é relevante ou ruído. Quando citar estudos que usam medidas diferentes, escreva a comparação em termos de direção do efeito e de relevância clínica, e não só de significância estatística.
Como declarar a estratégia de pesquisa
Mesmo num estado da arte narrativo, o júri espera ver como encontrou os estudos. Escreva, num parágrafo curto ou num quadro: as bases de dados pesquisadas (por exemplo, MEDLINE, Embase, CINAHL, PEDro e SPORTDiscus, se a sua instituição lhes der acesso), os termos de pesquisa em inglês e em português, os filtros (idioma, população, anos), a data em que fez a pesquisa e os critérios para incluir ou excluir estudos. Guarde as equações de pesquisa e o número de resultados em cada fase: se a tese evoluir para uma revisão sistemática, já terá o essencial documentado.
Atualize a pesquisa perto da entrega. A lombalgia é um tema com publicações frequentes, e uma tese que cita apenas estudos até ao início do trabalho pode deixar de fora ensaios recentes que respondem à mesma pergunta.
Erros frequentes no estado da arte sobre lombalgia
- Misturar lombalgia aguda e crónica, ou específica e inespecífica, sem definir cada uma.
- Citar apenas resumos e atribuir a um estudo conclusões que o resumo não permite.
- Tratar um estudo observacional como se provasse eficácia.
- Ignorar a data da pesquisa de uma revisão e usar evidência desatualizada.
- Listar estudos sem comparar populações, intervenções e medidas de resultado.
- Esquecer a medida de resultado: dor e incapacidade são coisas diferentes e medem-se com instrumentos diferentes.
- Não declarar a estratégia de pesquisa: bases de dados, termos e datas.
Checklist antes de entregar
- Definição de lombalgia crónica (duração, tipo e população) escrita e coerente.
- Estudos organizados por pergunta clínica (PICO), com blocos claros.
- Cada estudo resumido com tipo, amostra, resultado e relação com a tese.
- Revisões citadas com data de pesquisa e certeza da evidência.
- Quadro-síntese com todos os estudos principais.
- Lacuna e pergunta de investigação no fim da secção.
Perguntas Frequentes
Quantos estudos devo incluir no estado da arte da tese?
Não há um número fixo. Use um critério de paragem (os novos estudos deixam de acrescentar temas) e justifique-o. Em lombalgia há muita literatura, por isso delimite pela população, pela intervenção e pelo período.
Devo fazer uma revisão sistemática ou um estado da arte narrativo?
Depende do que o curso aceita. Uma revisão sistemática segue um protocolo com critérios de inclusão e bases de dados definidas; um estado da arte narrativo organiza a literatura relevante para a pergunta. Confirme com o orientador.
Posso usar revisões Cochrane como fonte principal?
Pode e é boa prática para cada intervenção, mas cite a data da pesquisa e verifique se existe uma atualização mais recente. Complemente com ensaios publicados depois da data da revisão.
Como cito estudos que só li no resumo?
Evite. Leia o artigo completo, sobretudo para amostra, desenho e limitações. Se só tiver acesso ao resumo, não retire conclusões que ele não permite.
Que bases de dados devo pesquisar para a lombalgia?
As revisões de referência combinam bases gerais e específicas: a revisão Cochrane sobre exercício pesquisou, entre outras, MEDLINE, Embase, CINAHL, PEDro e SPORTDiscus. Escolha as bases a que a sua instituição dá acesso e registe os termos e a data.
Preciso de parecer ético para um estado da arte?
Para uma revisão da literatura sem recolha de dados de pessoas, normalmente não. Se a tese incluir um estudo empírico com participantes, o parecer da comissão de ética é necessário.
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