Quadro Conceptual de uma Tese de Enfermagem: Como Construir e Desenhar o Esquema (2026)
Muitas dissertações de Enfermagem têm um capítulo de enquadramento teórico extenso e, mesmo assim, o júri pergunta: “como é que a teoria se liga ao seu estudo?”. A resposta está no quadro conceptual: um esquema, acompanhado de texto, que mostra os conceitos do seu estudo e as relações que espera encontrar entre eles, ancorados numa teoria de enfermagem. Este guia explica a diferença entre quadro conceptual e enquadramento teórico, os passos para o construir, os erros mais frequentes e três exemplos com teorias de enfermagem reais, com um esquema desenhado em tabela que pode adaptar.
Quadro conceptual, quadro de referência, enquadramento teórico: a terminologia
Em dissertações de enfermagem aparecem nomes diferentes para figuras semelhantes: “quadro conceptual”, “quadro de referência”, “modelo conceptual” ou “modelo de análise”. Confirme no guia da sua escola qual é o termo adotado e use-o de forma constante. O importante é distinguir três coisas:
| Peça | O que é | O que responde |
|---|---|---|
| Enquadramento teórico | Apresentação da teoria ou das teorias existentes e da evidência | Que teorias e conceitos existem sobre o tema? |
| Quadro conceptual | Esquema do seu estudo, com os conceitos e as relações que a teoria sugere | Como pensa que os conceitos se relacionam neste estudo? |
| Hipóteses ou questões de investigação | Afirmações ou perguntas testáveis derivadas do esquema | O que vai verificar? |
O quadro conceptual é, por isso, uma ponte: lê-se a partir da teoria e vai até às hipóteses. Se ainda está a escolher a teoria, o guia sobre que teoria de enfermagem usar na dissertação compara as mais frequentes; este artigo parte do princípio de que já escolheu uma e mostra como a transformar em esquema.
O que o esquema deve conter
- Conceitos centrais da teoria que o seu estudo usa (não todos os conceitos da teoria: só os que o seu estudo investiga).
- Variáveis ou fenómenos do seu estudo, ligados a esses conceitos.
- Setas com sentido: cada seta é uma afirmação (A influencia B, A medeia B).
- Contexto: o serviço, a população ou o ciclo de vida em que o estudo decorre.
- Resultado que a enfermagem pretende alcançar ou que o estudo mede.
Na tradição da disciplina, os conceitos de pessoa, ambiente, saúde e enfermagem formam o chamado metaparadigma da enfermagem, discutido por Jacqueline Fawcett num artigo de 1984 na revista Image: the Journal of Nursing Scholarship (vol. 16, n.º 3, pp. 84–87). Muitas teorias de enfermagem definem estes conceitos à sua maneira; ao construir o esquema, indique como cada um aparece no seu estudo.
Cinco passos para construir o quadro conceptual
- Liste as perguntas ou os objetivos. O esquema serve para os responder. Sem objetivos claros, o esquema fica decorativo.
- Escolha a teoria e identifique os seus conceitos. Reproduza apenas os que usa, com a definição da fonte primária.
- Ligue os conceitos às variáveis do estudo. Para cada conceito, escreva a variável ou a categoria que o representa e o instrumento ou a pergunta que o mede.
- Desenhe as relações. Decida o que é variável independente, dependente, mediadora ou contexto, e coloque setas apenas onde a teoria as sustenta.
- Escreva o texto de acompanhamento. Um esquema sem texto não se defende. Explique cada seta em uma frase, citando a teoria.

Exemplo 1: Orem e o autocuidado (ilustrativo)
A teoria do défice de autocuidado de Dorothea Orem é descrita como uma teoria de grande alcance, particularmente usada em contextos de reabilitação e de cuidados de saúde primários, em que o doente é encorajado a ser o mais independente possível. Os requisitos de autocuidado dividem-se em universais (necessidades que todas as pessoas têm), de desenvolvimento e de desvio de saúde, e o défice de autocuidado ocorre quando a pessoa não consegue satisfazer os seus requisitos. As modalidades de apoio da enfermagem vão da compensação total à compensação parcial e ao apoio educativo.
Estudo ilustrativo: doentes com doença crónica e autocuidado no domicílio. O quadro conceptual pode ligar os requisitos de desvio de saúde (por exemplo, a gestão da medicação) aos défices de autocuidado identificados por um instrumento da sua escolha, e estes à modalidade de apoio prestada pela equipa (educação, apoio parcial). A variável de resultado é o autocuidado após uma intervenção educativa. Cada caixa do esquema corresponde a um conceito da teoria e a uma medida concreta no estudo.
Exemplo 2: Pender e os comportamentos de promoção da saúde (ilustrativo)
O modelo de promoção da saúde de Nola Pender foi publicado em 1982 e revisto em 1996 e 2002, e é usado em investigação, ensino e prática de enfermagem para explicar e prever comportamentos promotores de saúde. Os seus componentes principais incluem as características e experiências individuais (comportamento prévio e fatores pessoais biológicos, psicológicos e socioculturais), as cognições e os afetos específicos do comportamento e o resultado comportamental.
Estudo ilustrativo: adolescentes e atividade física. O esquema pode ter três colunas: à esquerda, características individuais (idade, atividade prévia, perceção de competência); ao meio, cognições e afetos (benefícios percebidos, barreiras percebidas, autoeficácia); à direita, o comportamento (minutos de atividade física por semana). A tese testa se as cognições medeiam a relação entre as características e o comportamento. O guia sobre mediação ou moderação e o modelo PROCESS mostra a análise que corresponderia a este desenho.
Exemplo 3: Meleis e as transições (ilustrativo)
A teoria de médio alcance das transições, de Meleis, Sawyer, Im e colaboradores (2000, Advances in Nursing Science, vol. 23, n.º 1, pp. 12–28), parte da ideia de que as mudanças na saúde e na doença criam um processo de transição e de que as pessoas em transição tendem a estar mais vulneráveis a riscos. A teoria é composta por tipos e padrões de transição, propriedades das experiências de transição, condições facilitadoras e inibidoras, indicadores de processo, indicadores de resultado e terapêuticas de enfermagem.
Estudo ilustrativo: a transição de um doente do hospital para o domicílio após uma cirurgia. O esquema abaixo, em tabela, mostra como cinco das seis componentes da teoria se transformam em caixas com variáveis do estudo (as propriedades das experiências de transição ficam de fora neste exemplo):
| Componente da teoria | → | No estudo ilustrativo | → | Como se mede |
|---|---|---|---|---|
| Tipo e padrão de transição | → | Transição saúde-doença: alta após cirurgia | → | Critério de inclusão e registo clínico |
| Condições facilitadoras e inibidoras | → | Apoio familiar, literacia em saúde, acesso a cuidados | → | Questionário sociodemográfico e escalas escolhidas |
| Indicadores de processo | → | Sentir-se apoiado, interação com os profissionais | → | Escala ou entrevista, a definir |
| Indicadores de resultado | → | Domínio de novas competências, reinternamento | → | Lista de verificação e dados do serviço |
| Terapêuticas de enfermagem | → | Programa de preparação da alta e telefonema de seguimento | → | Descrição da intervenção e registo da adesão |
As escalas e os indicadores concretos são os que a sua pergunta justificar; o objetivo do quadro é que cada linha da teoria tenha correspondência no estudo ou uma justificação para não a ter. Para escolher os instrumentos de medida em enfermagem, veja escalas clínicas, desenhos pré-pós e concordância.
Do esquema às hipóteses: uma tabela de correspondência
Uma forma simples de testar se o esquema está bem construído é fazer uma tabela em que cada seta corresponde a uma hipótese, a uma variável medida e a um teste. A tabela seguinte usa o estudo ilustrativo sobre adolescentes e atividade física; os valores e as escalas são decisões do estudo, não resultados.
| Seta do esquema | Hipótese | Variáveis e medida | Análise prevista |
|---|---|---|---|
| Características individuais → cognições | H1: a atividade física prévia está associada a maior perceção de benefícios | Atividade prévia (questionário) e benefícios percebidos (escala escolhida) | Correlação ou regressão simples |
| Cognições → comportamento | H2: a autoeficácia prevê a atividade física semanal | Autoeficácia (escala) e minutos de atividade por semana | Regressão múltipla com controlo da idade |
| Características → cognições → comportamento | H3: as cognições medeiam a relação entre atividade prévia e comportamento | As três variáveis anteriores | Análise de mediação |
Se uma seta do esquema não tem linha na tabela, retire-a ou arranje uma hipótese; se uma hipótese não tem seta, o esquema está incompleto. Esta verificação evita a pergunta mais comum do júri: “porque é que o esquema mostra isto e as hipóteses testam aquilo?”.
Como escrever o texto que acompanha o esquema
O esquema nunca vai sozinho. O texto que o acompanha tem quatro partes curtas: (1) a teoria de que parte, com autor, ano e a fonte primária; (2) os conceitos que usa e como os define no seu estudo; (3) a descrição de cada relação, uma frase por seta; (4) as limitações do esquema, isto é, o que ele não inclui. O parágrafo seguinte é um modelo ilustrativo, para mostrar o tom e a ordem.
“O quadro conceptual deste estudo (Figura 1) assenta no modelo de promoção da saúde de Pender, do qual retém três componentes: as características e experiências individuais, as cognições e afetos específicos do comportamento e o comportamento de promoção da saúde. Admite-se que as características individuais influenciam as cognições, e que estas, por sua vez, influenciam o comportamento. O esquema não inclui as influências interpessoais e situacionais, que ficam fora do âmbito deste estudo.”
Repare que o parágrafo diz de forma explícita o que ficou de fora. É uma boa prática: antecipa a pergunta do júri sobre as partes da teoria que não foram usadas e mostra que a escolha foi deliberada.
Que tipo de esquema usar
- Esquema derivado da teoria. Reproduz uma parte da teoria com os conceitos que o estudo usa; é o mais adequado quando a teoria orienta a recolha e a análise.
- Modelo de variáveis. Para estudos quantitativos: variáveis independentes, mediadoras, moderadoras e dependentes, com setas que representam as hipóteses.
- Mapa de conceitos ou categorias. Para estudos qualitativos: categorias e subcategorias previstas, a ser refinadas com os dados.
- Modelo lógico. Para estudos de intervenção: necessidades, atividades, resultados esperados e indicadores.
O tipo escolhido deve coincidir com o desenho do estudo. Se o seu estudo é de métodos mistos ou de natureza qualitativa, descreva no texto que o esquema é provisório e será reformulado após a análise.
Erros frequentes no quadro conceptual de enfermagem
- Copiar o esquema da teoria sem o adaptar ao estudo.
- Incluir todos os conceitos da teoria, incluindo os que o estudo não mede.
- Setas sem justificação: relações desenhadas por intuição e não derivadas da teoria.
- Esquema diferente das hipóteses. Se o esquema tem três relações e as hipóteses testam duas, o júri nota.
- Misturar teorias incompatíveis no mesmo esquema sem explicar a integração.
- Figura sem texto de apoio, sem legenda nem fonte.
- Dizer que a teoria foi “testada” quando o estudo só a usou como orientação.

Checklist antes de entregar
- A teoria está citada na fonte primária e só os conceitos usados aparecem no esquema.
- Cada conceito tem uma variável ou categoria e uma forma de medição.
- Cada seta tem uma justificação teórica de uma frase.
- O esquema coincide com as hipóteses ou com as questões de investigação.
- O texto de acompanhamento descreve o esquema e indica a fonte.
- A figura tem legenda e está numerada.
Perguntas Frequentes
Qual é a diferença entre quadro conceptual e enquadramento teórico?
O enquadramento teórico apresenta a teoria e a evidência existente. O quadro conceptual é o esquema do seu estudo, que mostra como os conceitos da teoria se ligam às suas variáveis e às suas hipóteses.
Preciso de uma teoria de enfermagem para fazer o quadro conceptual?
Pode usar teorias de outras disciplinas, mas numa dissertação de enfermagem é habitual ancorar o estudo numa teoria da disciplina. Confirme as expectativas da sua escola com o orientador.
O quadro conceptual vai no capítulo teórico ou na metodologia?
Normalmente no fim do enquadramento teórico, como ponte para a metodologia. Algumas escolas pedem-no na metodologia; siga o guia da sua instituição.
Posso usar um esquema já publicado?
Pode adaptá-lo e deve citar a fonte, indicando que o adaptou. Copiar uma figura sem indicar a origem pode constituir plágio.
Em estudos qualitativos também é preciso quadro conceptual?
Muitas escolas pedem-no como orientação inicial. Descreva-o como provisório, porque as categorias finais emergem da análise dos dados.
Como desenho o esquema?
Qualquer programa de apresentações ou de desenho serve. Mantenha as caixas pequenas, as setas com sentido e a legenda com a fonte; uma tabela com as colunas “conceito”, “variável” e “medição” é uma alternativa aceitável se o esquema ficar confuso.
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