Como Escrever o Estado da Arte de uma Tese sobre Abandono Escolar: Estudos Anteriores com Exemplos (2026)
O estado da arte de uma tese sobre abandono escolar é a secção em que mostra ao júri o que já se sabe, onde os estudos discordam e que lacuna a sua investigação vem preencher. Não é uma lista de resumos nem um capítulo de teoria: é uma síntese organizada de estudos empíricos anteriores, de preferência do contexto português, que termina na sua pergunta de investigação. Este guia mostra a estrutura, a fórmula de resumo de cada estudo e três entradas de exemplo construídas a partir de artigos reais, com os dados nacionais que pode usar para enquadrar o tema.
Estado da arte, enquadramento teórico e revisão da literatura: três coisas diferentes
Muitas dissertações juntam tudo num único capítulo e perdem clareza. Distinga-os desde o início:
| Secção | Responde a | Conteúdo no caso do abandono escolar |
|---|---|---|
| Enquadramento teórico | Que conceitos e teorias explicam o fenómeno? | Definições de abandono, saída precoce e insucesso; modelos explicativos |
| Estado da arte (estudos anteriores) | O que já foi investigado, com que métodos e com que resultados? | Estudos empíricos agrupados por tema, com amostras e resultados |
| Lacuna e pergunta de investigação | O que falta saber? | A fronteira entre o que está estudado e o que a sua tese estuda |
Se ainda está a decidir a organização geral, o guia sobre como escrever a revisão de literatura da tese descreve o processo completo; este artigo concentra-se no caso do abandono escolar. Para ver a mesma lógica aplicada a outra área, veja o estado da arte numa tese de Geologia.
Comece por definir o que conta como abandono
Na literatura, “abandono escolar”, “saída escolar precoce” e “insucesso escolar” são frequentemente confundidos, e cada estudo define-os de forma diferente. Os estudos portugueses que vai citar mostram isso mesmo: um artigo sobre abandono escolar precoce compara adolescentes que deixaram a escola sem concluir o 9.º ano ou antes dos 16 anos (“desistentes”) com os que continuaram a estudar (“persistentes”); outro refere-se a alunos que, sem um determinado curso, teriam abandonado a escola; e um terceiro estuda o insucesso, não o abandono. Antes de resumir qualquer estudo, escreva a sua definição de trabalho e indique, para cada estudo, se a definição é compatível com ela.
O indicador europeu mais usado para enquadrar o tema é a taxa de saída precoce da educação e formação (early leavers from education and training), do Eurostat, para a faixa etária dos 18 aos 24 anos. Na atualização do Eurostat de setembro de 2026, o valor para Portugal foi de 13,5% em 2015 e de 6,1% em 2025, enquanto a média da UE27 passou de 11,0% para 9,1%. A série não desce sempre: Portugal registou 6,3% em 2022, 8,1% em 2023 e 6,6% em 2024. Cite o indicador, o ano e o conjunto de dados de onde retirou cada valor, e explique que mede a população de 18 a 24 anos, o que não é a mesma coisa que o abandono num dado agrupamento de escolas.
Como organizar os estudos anteriores
Há três formas comuns de organizar esta secção, e a escolha deve seguir a lógica da sua pergunta:
- Por tema. Fatores individuais, familiares, escolares e de política educativa. É a mais usada porque permite comparar estudos e apontar contradições.
- Do geral para o específico. Estudos internacionais, nacionais e locais, até chegar ao contexto do seu estudo (um concelho, um agrupamento, um curso).
- Por abordagem metodológica. Estudos quantitativos, qualitativos e de intervenção, útil quando a sua tese introduz um método novo no tema.
Dentro de cada bloco, siga sempre a mesma sequência: o que se sabe, onde há divergência e o que falta. Quantos estudos incluir é uma pergunta que depende da área e do orientador; o artigo sobre quantos artigos ler para a revisão de literatura propõe critérios de paragem em vez de um número fixo.
Um exemplo de estrutura temática para uma tese sobre abandono escolar, que pode adaptar: (1) fatores individuais, como percursos de retenção, motivação e comportamento; (2) fatores familiares, como o contexto socioeconómico e o acompanhamento escolar; (3) fatores escolares, como a relação entre professores e alunos e a existência de percursos alternativos, por exemplo os cursos de educação e formação; (4) políticas e programas de combate ao abandono; (5) a lacuna que a sua tese estuda. Cada ponto deve ter pelo menos dois ou três estudos, para que possa mostrar convergência ou divergência e não apenas descrever um estudo isolado.

A fórmula para resumir cada estudo em cinco frases
Um resumo útil para um estado da arte responde sempre às mesmas perguntas, pela mesma ordem:
- Quem e quando: autor, ano e revista.
- O quê: objetivo do estudo.
- Como: desenho, amostra e instrumentos.
- Resultado: o achado principal, sem exagerar.
- Para si: o que este estudo implica para a sua tese (apoia, contradiz ou deixa em aberto).
Use verbos de reporte proporcionais à evidência: “conclui” não é o mesmo que “sugere”. O guia sobre verbos para citar autores na tese explica o que cada um compromete.
Três entradas de exemplo, construídas a partir de artigos reais
As entradas abaixo seguem a fórmula, usando informação dos resumos dos artigos. Antes de as usar como modelo, leia sempre o artigo completo e confirme os dados.
1. Abandono precoce e comportamento anti-social (Taborda-Simões, Fonseca e Lopes, 2011, Revista Portuguesa de Pedagogia, pp. 187–198). O estudo examinou o efeito do abandono escolar precoce sobre várias formas de comportamento anti-social numa amostra de adolescentes portugueses, com dados de um estudo longitudinal em curso na Universidade de Coimbra. Comparou os que abandonaram sem concluir o 9.º ano ou antes dos 16 anos com os que continuaram a estudar. Os que abandonaram precocemente apresentavam mais formas de inadaptação, incluindo comportamentos e atitudes anti-sociais, nas fases intermédia e final da adolescência. Para a sua tese: reforça a ligação entre abandono e inadaptação, mas não diz o que causou o abandono; se a sua pergunta é sobre causas, este estudo é contexto, não resposta.
2. Cursos de Educação e Formação como resposta ao abandono (Patrício e Ribeiro, Gestão e Desenvolvimento, n.º 15–16, pp. 121–141). Estudo em 14 escolas de 10 concelhos da região Douro Sul, com inquérito a 235 professores e 544 alunos. Dos 544 alunos inquiridos, 260 (47,79%) responderam que, se não frequentassem um curso de educação e formação, já teriam abandonado a escola. Os autores concluem que estes cursos são uma resposta ao insucesso e ao abandono na região. Para a sua tese: o desenho é autodeclarado (os alunos dizem o que fariam), o que limita a conclusão; se estuda outra região ou outro tipo de curso, a lacuna é a transferência para o seu contexto.
3. Insucesso escolar de crianças em acolhimento residencial (Ferreira e Cosme, 2021, Education Policy Analysis Archives, vol. 29, art. 87). Com dados dos percursos escolares no ensino básico de três agrupamentos de escolas, os autores comparam as taxas de insucesso destas crianças e jovens com as taxas nacionais: no 1.º ciclo a taxa é treze vezes superior, no 2.º ciclo onze vezes e no 3.º ciclo seis vezes superior à média nacional. Para a sua tese: estuda insucesso, não abandono, mas mostra uma população vulnerável e um modo de comparar com taxas nacionais; se a sua tese é sobre um grupo específico, este é um modelo de comparação.
Repare no que estas três entradas têm em comum: cada uma diz o que o estudo fez, o que encontrou e o que deixa para a sua tese. Isso é o que transforma uma lista de resumos em estado da arte.
Quadro-síntese: o instrumento que o júri mais lê
Depois dos blocos temáticos, inclua uma tabela comparativa com uma linha por estudo. É a parte da secção que o júri consulta primeiro.
| Estudo | Amostra | Desenho | Achado principal | Limite |
|---|---|---|---|---|
| Taborda-Simões et al. (2011) | Adolescentes portugueses de um estudo longitudinal | Comparação desistentes e persistentes | Mais comportamento anti-social nos que abandonaram | Não identifica causas do abandono |
| Patrício e Ribeiro | 235 professores e 544 alunos, 14 escolas | Inquérito | 47,79% dos alunos diriam que teriam abandonado sem o curso | Resposta autodeclarada; uma região |
| Ferreira e Cosme (2021) | Três agrupamentos de escolas | Análise de percursos escolares | Insucesso muito superior à média nacional | Mede insucesso, não abandono |
Como terminar: da síntese à lacuna
A última página do estado da arte tem uma função precisa: conduzir o leitor à sua pergunta de investigação. Uma fórmula que funciona é escrever três frases seguidas: (1) “Os estudos reportados convergem em…”; (2) “Divergem ou deixam em aberto…”; (3) “Esta tese estuda…, no contexto de…, com o objetivo de…”. Por exemplo, se os estudos que encontrou usam dados autodeclarados de alunos de uma região, a lacuna pode ser incluir a perspetiva das famílias ou de outro território. Para encontrar linhas e dados que sustentem a lacuna, consulte os 32 temas de tese em Educação com os dados que já existem.
Erros frequentes no estado da arte sobre abandono escolar
- Misturar abandono, saída precoce e insucesso sem definir cada termo.
- Citar apenas resumos e atribuir ao estudo conclusões que o resumo não permite.
- Só estudos estrangeiros, sem pelo menos um enquadramento nacional.
- Uma lista cronológica sem comparação nem síntese.
- Estudos antigos sem justificação: se citar um estudo de há mais de uma década, diga porque ainda é relevante.
- Dados oficiais sem data nem fonte, como a taxa de saída precoce sem indicar o ano e o conjunto de dados.
- Esquecer a ética se a sua tese recolhe dados em escolas; veja o pedido de autorização no artigo sobre inquéritos em meio escolar e o pedido à DGE.

Checklist antes de entregar a secção
- Definição de abandono, saída precoce e insucesso escrita e usada de forma coerente.
- Estudos organizados por tema, nível ou método, com uma ordem explicada.
- Cada estudo resumido com autor, ano, revista, amostra, resultado e relação com a sua tese.
- Pelo menos um enquadramento com dados nacionais datados e com fonte.
- Quadro-síntese com todos os estudos.
- Parágrafo final com a lacuna e a pergunta de investigação.
Perguntas Frequentes
Quantos estudos preciso de citar no estado da arte?
Não há um número fixo. Depende do curso, do orientador e da quantidade de estudos existentes sobre o seu recorte. Use um critério de paragem (os novos estudos deixam de acrescentar temas) e justifique-o na metodologia da revisão.
Posso usar dados de estudos de outros países?
Pode, para mostrar o debate internacional, mas deve incluir também estudos portugueses e explicar as diferenças de contexto, como a idade da escolaridade obrigatória e a organização dos ciclos.
Qual a diferença entre abandono escolar e saída precoce?
Os estudos usam definições diferentes. O indicador europeu de saída precoce refere-se a jovens de 18 a 24 anos; outros estudos definem abandono pela saída antes de concluir o 9.º ano ou antes dos 16 anos. Defina o termo que usa e diga como cada estudo o define.
Preciso de ler o artigo completo ou chega o resumo?
Leia o artigo completo. O resumo serve para localizar o estudo, mas amostra, método e limitações que o júri pede estão no texto.
O estado da arte pode ser uma revisão sistemática?
Pode, se o curso o permitir. Nesse caso, siga um protocolo com critérios de inclusão e exclusão, e descreva a pesquisa em bases de dados. Confirme com o orientador se a revisão sistemática substitui ou complementa o estudo empírico.
Onde encontro os dados nacionais mais recentes?
O Eurostat publica a taxa de saída precoce da educação e formação e o INE publica indicadores nacionais; cite sempre o ano e o conjunto de dados. Os valores mudam com atualizações, por isso verifique a versão mais recente antes de entregar.
Como o Tesify ajuda a planear a tese
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