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Como Escrever a Metodologia de uma Tese de Fisioterapia: Guia Passo a Passo (2026)

Como Escrever a Metodologia de uma Tese de Fisioterapia: Guia Passo a Passo (2026)

A metodologia de uma tese de Fisioterapia justifica o desenho de estudo escolhido — ensaio clínico, estudo observacional ou estudo de caso único —, descreve com precisão os instrumentos clínicos de avaliação usados (goniómetro, escalas de dor, testes funcionais) e explica o tratamento estatístico dos dados de desfecho. É um capítulo com uma componente clínica muito específica, que precisa de detalhe suficiente para outro fisioterapeuta conseguir replicar a intervenção. Este guia percorre o processo passo a passo.

Se procura primeiro um enquadramento mais genérico de metodologia de investigação, o guia completo de metodologia de investigação explica os paradigmas e as abordagens comuns a qualquer área. Aqui o foco é a Fisioterapia: os desenhos, os instrumentos clínicos e as armadilhas específicas desta área da saúde.

Que desenho de estudo escolher numa tese de Fisioterapia?

A escolha do desenho decorre da pergunta de investigação e da fase de evidência em que o tema se encontra.

Desenho Quando se aplica Exemplo
Ensaio clínico randomizado (ECR) Testar o efeito de uma intervenção com grupo de controlo e randomização Comparar um protocolo de reabilitação pós-cirúrgica do joelho com o protocolo padrão
Estudo quasi-experimental Testar uma intervenção sem randomização possível — grupos clínicos já formados Comparar dois turnos de um serviço de reabilitação cardiorrespiratória já constituídos
Estudo observacional transversal Caracterizar uma variável clínica num único momento, sem intervenção Prevalência de dor lombar crónica numa amostra de trabalhadores
Estudo de caso único (single-case, desenho ABA) Documentar em profundidade a resposta de um doente a uma intervenção, com medições repetidas antes, durante e depois Evolução funcional de um doente com AVC ao longo de um protocolo de doze semanas
Estudo de coorte Acompanhar um grupo ao longo do tempo, sem intervenção do investigador Evolução da capacidade funcional de doentes com doença pulmonar obstrutiva crónica ao longo de um ano

O estudo de caso único é particularmente comum em teses de Fisioterapia de mestrado, porque exige menos recursos do que um ensaio clínico com grupo de controlo e ainda assim permite uma análise longitudinal rigorosa através de medições repetidas — desde que o número de medições seja suficiente para uma análise de tendência credível, tipicamente cinco ou mais pontos de avaliação.

Estudante de Fisioterapia a usar um goniómetro num laboratório de competências clínicas universitário

Instrumentos clínicos de avaliação mais usados

A escolha do instrumento depende do domínio que quer medir — amplitude articular, força, dor, equilíbrio ou incapacidade funcional. A tabela seguinte resume os instrumentos mais citados em dissertações desta área.

Instrumento O que mede Exemplo de aplicação
Goniómetro (universal ou digital) Amplitude articular de movimento Evolução da flexão do joelho após artroplastia
Dinamómetro manual ou isocinético Força muscular Comparação da força do quadricípite entre membro operado e não operado
Escala Visual Analógica (EVA) da dor Intensidade da dor auto-reportada, numa linha de 0 a 10 Evolução da dor lombar ao longo de um protocolo de exercício
Timed Up and Go (TUG) Mobilidade funcional e risco de queda Avaliação pré e pós-intervenção em idosos institucionalizados
Escala de Equilíbrio de Berg Equilíbrio funcional, sobretudo em populações com risco de queda Doentes pós-AVC ou idosos frágeis
Oswestry Disability Index (ODI) Incapacidade funcional associada a dor lombar, autopreenchido Impacto funcional da lombalgia crónica antes e depois da intervenção

Para cada instrumento, o capítulo de metodologia deve declarar a versão exata usada (por exemplo, a versão portuguesa validada do Oswestry, quando exista), o procedimento de aplicação e, sempre que a literatura o reporte, os valores de fiabilidade e validade do instrumento — um detalhe que muitas dissertações omitem e que reforça a credibilidade da secção de instrumentos.

Amostra e critérios de inclusão e exclusão

A definição da amostra numa tese de Fisioterapia exige particular cuidado com critérios clínicos de exclusão — comorbilidades, contraindicações ao exercício, uso de medicação que interfira com o desfecho medido. Os elementos que a secção de amostra deve conter:

  • População-alvo — por exemplo, doentes com lombalgia crónica inespecífica há mais de três meses.
  • Critérios de inclusão — idade, diagnóstico confirmado, ausência de cirurgia prévia recente.
  • Critérios de exclusão — patologias que confundam o desfecho, gravidez (em protocolos com determinados exercícios), défice cognitivo que impeça o preenchimento de escalas de auto-relato.
  • Cálculo do tamanho da amostra — idealmente com base numa análise de poder estatístico apoiada no efeito esperado da intervenção, não apenas na disponibilidade de doentes no serviço clínico.

Configuração de teste de equilíbrio e cronómetro junto a uma folha de escala de dor num contexto clínico

Como estruturar o procedimento de recolha de dados

Descreva o procedimento em sequência cronológica, com detalhe suficiente para replicação: (1) avaliação inicial com todos os instrumentos escolhidos, em condições padronizadas; (2) descrição exata do protocolo de intervenção — frequência, duração, intensidade, progressão de carga; (3) reavaliações intermédias, se o desenho as incluir; (4) avaliação final com os mesmos instrumentos e nas mesmas condições da avaliação inicial. Um erro frequente é variar as condições de avaliação entre o pré e o pós-teste — por exemplo, medir a EVA da dor de manhã na primeira avaliação e à tarde na segunda — o que introduz uma variável de confusão que compromete a interpretação do resultado.

Que testes estatísticos usar na análise de dados

A escolha do teste segue a lógica comum a qualquer desenho pré-pós ou de comparação de grupos: teste t emparelhado ou Wilcoxon para comparar o mesmo doente antes e depois; teste t independente ou Mann-Whitney para comparar grupo de intervenção e grupo de controlo; ANOVA de medidas repetidas quando há três ou mais momentos de avaliação no mesmo grupo. Se ainda não decidiu entre a versão paramétrica e a não paramétrica, ou entre comparar dois ou mais grupos, o guia de decisão para escolher o teste estatístico certo aplica-se diretamente a estes desenhos pré-pós tão comuns em Fisioterapia.

Para desenhos de caso único com medições repetidas ao longo de várias semanas, a análise não se limita a comparar dois pontos — é preciso avaliar a tendência ao longo da série. Se o seu protocolo gerou uma série de cinco ou mais avaliações, o procedimento de análise de tendência e sazonalidade está descrito no guia de análise de séries temporais na tese, adaptável a séries clínicas mais curtas com a devida cautela metodológica.

Considerações éticas específicas da Fisioterapia

Estudos com intervenção física em doentes exigem, além da aprovação da comissão de ética da instituição, uma avaliação cuidadosa do risco físico da intervenção e do consentimento informado que descreva esse risco em linguagem acessível. Populações vulneráveis — idosos frágeis, doentes pós-AVC com défices cognitivos, crianças — exigem procedimentos adicionais de consentimento e, nalguns casos, a presença de um cuidador ou responsável legal no processo de consentimento. Submeta o protocolo à comissão de ética assim que o desenho estiver definido, porque a recolha de dados clínicos raramente pode começar sem essa aprovação prévia, e o atraso na submissão é uma das causas mais comuns de derrapagem no cronograma da tese.

Um exemplo completo: protocolo de caso único para lombalgia crónica

Para tornar a lógica concreta, veja como os elementos anteriores se encadeiam num exemplo de protocolo de caso único aplicado a um doente com lombalgia crónica inespecífica:

Desenho: estudo de caso único, desenho ABA — fase de linha de base (A) de duas semanas sem intervenção, fase de intervenção (B) de oito semanas com um programa de exercício terapêutico progressivo, e fase de retorno à linha de base (A) de duas semanas após o fim da intervenção, com avaliações semanais ao longo das doze semanas.

Instrumentos: EVA da dor (0-10) e Oswestry Disability Index, aplicados no mesmo dia da semana e à mesma hora em todas as avaliações, para eliminar variação circadiana como fonte de confusão; amplitude de flexão lombar medida com goniómetro digital, sempre pelo mesmo avaliador, para reduzir variabilidade inter-avaliador.

Procedimento: as duas primeiras semanas registam três avaliações da EVA e do ODI sem qualquer intervenção, para estabelecer a variabilidade natural do doente antes de introduzir a variável independente. Só depois de estabelecida essa linha de base é que o protocolo de exercício é iniciado, com progressão de carga documentada semana a semana num diário de treino que entra como anexo na tese.

Análise: a série de doze avaliações semanais de EVA e ODI é representada graficamente, com inspeção visual da tendência entre as três fases (A-B-A) complementada por uma estatística de mudança de nível, mais robusta do que uma simples comparação entre o primeiro e o último ponto da série — precisamente a lógica de análise de tendência referida na secção anterior sobre séries de medições repetidas.

Erros comuns a evitar no capítulo de metodologia

  • Escolher o desenho pela conveniência clínica, não pela pergunta de investigação. Um estudo de caso único não substitui um ensaio clínico quando a pergunta exige comparação de grupos.
  • Omitir a versão e a validação do instrumento. «Usámos a escala de Berg» sem indicar a versão e a fiabilidade reportada na literatura é uma descrição incompleta.
  • Variar as condições de avaliação entre o pré e o pós-teste. Compromete diretamente a validade interna do estudo.
  • Não declarar o cálculo do tamanho da amostra. Recrutar «quem apareceu na clínica» sem qualquer justificação de poder estatístico enfraquece a defesa dos resultados não significativos.
  • Analisar séries de medições repetidas como se fossem apenas dois pontos. Um desenho ABA com cinco avaliações merece uma análise de tendência, não apenas uma comparação entre a primeira e a última.

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Perguntas frequentes

Um estudo de caso único é aceite numa tese de mestrado em Fisioterapia?

Sim, é um desenho amplamente aceite e frequente em teses de mestrado, sobretudo com o desenho ABA de medições repetidas antes, durante e depois da intervenção. A condição é ter medições suficientes — tipicamente cinco ou mais — para sustentar uma análise de tendência credível.

Preciso de declarar a versão validada de cada escala usada?

Sim. Escalas como o Oswestry ou a EVA têm versões e, nalguns casos, validações para português europeu — declarar a versão exata e a sua fiabilidade reportada é o que torna a secção de instrumentos verificável e defensável.

Que teste estatístico uso para comparar a mesma medida antes e depois da intervenção?

Um teste t emparelhado, se os dados forem normais, ou o teste de Wilcoxon para amostras relacionadas, se a normalidade não se verificar. A escolha depende do resultado do teste de normalidade aplicado à diferença entre as duas medições.

Quantos participantes preciso para um ensaio clínico de Fisioterapia?

Não existe um número fixo — depende do efeito esperado da intervenção, do nível de significância e da potência desejada, calculados com uma análise de poder estatístico, idealmente com apoio do orientador e de software como o G*Power.

Posso combinar dados quantitativos clínicos com entrevistas qualitativas?

Sim, é um desenho misto cada vez mais comum, sobretudo quando se quer complementar os desfechos funcionais com a experiência subjetiva do doente sobre a intervenção. Nesse caso, a metodologia deve declarar claramente a sequência e o peso relativo de cada componente.

Em resumo

A metodologia de uma tese de Fisioterapia começa na escolha do desenho — ensaio clínico, quasi-experimental, observacional, caso único ou coorte — de acordo com a pergunta de investigação, não com a conveniência clínica. Descreva os instrumentos com a versão e a fiabilidade reportada, mantenha as condições de avaliação constantes entre o pré e o pós-teste, calcule o tamanho da amostra com base num efeito esperado, e trate séries de medições repetidas como uma análise de tendência, não como dois pontos isolados.

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