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O Resultado Não Deu Significativo: Foi Falta de Poder Estatístico? (2026)

O Resultado Não Deu Significativo: Foi Falta de Poder Estatístico? (2026)

O t de Student deu p = 0,087. A diferença entre os grupos existe, vai no sentido previsto, mas não atinge o limiar. E vem a pergunta inevitável, feita ao orientador ou ao Google às duas da manhã: «a minha amostra era pequena de mais?»

A resposta honesta é: talvez — e há uma forma correta e uma forma errada de o descobrir. A forma errada é a que o SPSS oferece com um clique e que muitos júris já rejeitam. A forma correta chama-se análise de sensibilidade, demora cinco minutos no G*Power e transforma uma limitação envergonhada numa secção de metodologia competente.

Resposta rápida: Não calcule o poder post-hoc observado — o «poder observado» que o SPSS produz é uma transformação direta do valor-p e não acrescenta informação nenhuma (quanto maior o p, menor o poder observado, sempre). O que deve fazer é uma análise de sensibilidade: no G*Power, fixe α = 0,05, poder = 0,80 e o seu n real, e calcule o efeito mínimo detetável. A frase que resulta — «com n = 62 por grupo, o estudo teria 80% de probabilidade de detetar d ≥ 0,51; efeitos inferiores ficariam fora do alcance» — é defensável, informativa e responde à pergunta do júri antes de ela ser feita. Junte o intervalo de confiança do efeito observado e terá a limitação completamente enquadrada.

Não significativo não é «não há efeito»

Um valor-p acima de 0,05 diz uma coisa só: os dados recolhidos não são suficientemente incompatíveis com a hipótese nula para a rejeitar ao nível convencionado. Não diz que a hipótese nula é verdadeira, nem que o efeito é zero, nem que a intervenção não funciona.

Douglas Altman e Martin Bland resumiram isto num artigo de uma página no BMJ em 1995 cujo título ficou como regra da disciplina: Absence of evidence is not evidence of absence (DOI 10.1136/bmj.311.7003.485). O argumento é simples e continua a ser violado em teses todos os anos: quando um estudo é pequeno, um resultado não significativo é perfeitamente compatível com um efeito grande, apenas mal estimado.

Há, portanto, duas explicações possíveis para o seu p = 0,087 e a análise tem de distinguir entre elas:

  • O efeito é realmente muito pequeno ou nulo na população — e o estudo, mesmo com poder adequado, não tinha o que detetar.
  • O efeito existe e é relevante, mas o estudo não tinha poder para o apanhar — a amostra era insuficiente para a magnitude em causa.

O valor-p sozinho não distingue as duas situações. Uma secção de resultados que se limita a escrever «não foram encontradas diferenças estatisticamente significativas (p = 0,087)» está, por isso, incompleta — e é essa incompletude que o júri aponta.

Rede de pesca de malha larga contra a luz, com objetos pequenos a escaparem pelos buracos
Uma amostra pequena é uma rede de malha larga: não apanhar nada não prova que o mar está vazio.

Poder observado post-hoc: porque é circular

A tentação é imediata. No SPSS, em Opções, existe a caixa «Poder observado». Marca-se, corre-se de novo a ANOVA e sai uma coluna com valores como 0,38. A tese escreve então: «o poder observado foi de 0,38, o que sugere que a ausência de significância se deve à dimensão reduzida da amostra».

O problema é que essa frase não contém informação. O poder observado — também chamado poder post-hoc, poder retrospetivo ou achieved power — é calculado assumindo que o efeito verdadeiro na população é exatamente igual ao efeito que observou na sua amostra. Como o efeito observado e o valor-p são funções um do outro, o poder observado é apenas o valor-p reescrito noutra escala.

John Hoenig e Dennis Heisey demonstraram formalmente esta relação monótona em The American Statistician (2001), num artigo intitulado The Abuse of Power: The Pervasive Fallacy of Power Calculations for Data Analysis (DOI 10.1198/000313001300339897). A consequência prática é constante e verificável: todo o resultado não significativo tem, por construção, poder observado baixo. Sempre. Se p > 0,05, o poder observado será inferior a cerca de 0,50, independentemente de a amostra ter 30 ou 3000 casos.

A armadilha na defesa. Escrever «o poder observado foi de 0,38» convida o arguente a perguntar «e como é que o poder poderia ter sido outro, dado que o resultado não foi significativo?». Não há resposta possível, porque não podia. Um arguente familiarizado com a literatura metodológica lerá a frase como sinal de que o candidato usou o menu sem perceber o que produziu.

A crítica dirige-se ao poder calculado a partir do efeito observado, não ao conceito de poder, que é central. O poder calculado antes da recolha, com um efeito vindo da literatura, continua a ser uma peça legítima da metodologia: é o que trata o guia de como calcular o tamanho da amostra com o G*Power.

Análise de sensibilidade: a pergunta certa

Qualquer cálculo de poder relaciona quatro quantidades: o nível de significância (α), o poder (1 − β), a dimensão da amostra (n) e a magnitude do efeito. Fixando três, obtém-se a quarta. O que muda entre os tipos de análise é qual delas é a incógnita.

Tipo de análise Fixa-se Calcula-se Quando se usa
A priori α, poder, efeito esperado n Antes de recolher — planeamento
Sensibilidade α, poder, n real efeito mínimo detetável Depois de recolher — é esta que precisa
Critério poder, n, efeito α Raro em teses
Post-hoc observado α, n, efeito observado poder Nunca — é circular

A diferença decisiva está na penúltima linha versus a última: a análise de sensibilidade usa um poder convencionado (0,80, ou 0,90) e devolve um efeito; a análise post-hoc usa o efeito que lhe calhou e devolve um poder. A primeira responde a «que magnitude é que este estudo conseguia ver?»; a segunda responde a «que probabilidade tinha eu de ver aquilo que vi?», que é uma pergunta sem conteúdo.

O resultado da análise de sensibilidade tem nome próprio na literatura metodológica: efeito mínimo detetável (minimum detectable effect size). É um número que descreve honestamente o alcance do desenho e que se interpreta em confronto com a literatura. Se a sua área reporta tipicamente efeitos de d ≈ 0,30 e o seu estudo só detetava d ≥ 0,51, ficou provado que o resultado não significativo é inconclusivo, não negativo — e isso é uma conclusão metodológica sólida.

Fazer a análise de sensibilidade no G*Power

O G*Power é gratuito e distribuído pela Universidade de Düsseldorf. O procedimento tem sempre a mesma forma: escolher a família de testes, escolher o teste, e — este é o passo que quase ninguém encontra — mudar o campo Type of power analysis para «Sensitivity: Compute required effect size».

Para um t de amostras independentes:

  1. Test family → t tests; Statistical test → Means: Difference between two independent means (two groups).
  2. Type of power analysis → Sensitivity.
  3. Preencha: Tails = Two; α err prob = 0,05; Power = 0,80; Sample size group 1 e group 2 com os n reais de cada grupo.
  4. Calculate. O campo Effect size d devolve o d de Cohen mínimo detetável.

Para uma ANOVA de um fator: Test family → F tests; Statistical test → ANOVA: Fixed effects, omnibus, one-way; Type of power analysis → Sensitivity; preencha α, poder, número total de casos e número de grupos. O output é o f de Cohen, que se converte em η² parcial pela relação η²p = f² / (1 + f²).

Para uma correlação: Exact → Correlation: Bivariate normal model → Sensitivity. O r mínimo detetável costuma surpreender: com n = 50 anda em torno de 0,38, bastante acima de muitas correlações reais em ciências sociais.

Para uma regressão múltipla: F tests → Linear multiple regression: Fixed model, R² deviation from zero → Sensitivity, indicando o número de preditores; o output é o f² de Cohen. Cada preditor adicional consome graus de liberdade e faz subir o efeito mínimo detetável — assunto vizinho de o meu R² deu 0,18: a regressão está perdida?.

A saída vem em unidades de tamanho do efeito, pelo que é preciso saber traduzi-la: a correspondência entre d, f, η² e r está reunida no guia de tamanho do efeito na tese.

Fita métrica esticada entre dois lápis muito afastados sobre uma secretária, representando um intervalo de confiança largo
Um intervalo de confiança largo diz o mesmo que a análise de sensibilidade — e diz na escala do próprio efeito.

Intervalos de confiança e testes de equivalência

Há uma segunda via, complementar e mais barata: reportar o intervalo de confiança a 95% do efeito. Um IC exibe a imprecisão diretamente, sem cálculo adicional, e é hoje exigido pelas normas de reporte da APA.

Compare as duas frases. «A diferença não foi significativa (p = 0,087)» esconde tudo. «A diferença média foi de 3,2 pontos, IC 95% [−0,5; 6,9]» mostra um estudo compatível com uma vantagem de quase 7 pontos e também com uma pequena desvantagem: inconclusivo, e vê-se porquê. Se o intervalo fosse [−0,4; 0,6], a leitura seria oposta — qualquer efeito relevante ficaria excluído com precisão.

É essa segunda situação que abre a porta ao passo mais avançado. Para afirmar que não existe efeito relevante — e não apenas que não o detetou — o instrumento correto é um teste de equivalência, tipicamente o procedimento TOST (two one-sided tests): define-se previamente a menor diferença com significado prático na área e verifica-se se o efeito observado cabe dentro dessa margem. Não está no menu do SPSS; faz-se no jamovi (módulo TOSTER), no JASP ou no R. É raro em teses portuguesas e, por isso mesmo, distintivo.

O que escrever na tese

A análise de sensibilidade pertence à secção de análise de dados ou ao início dos resultados; a sua interpretação pertence às limitações. Um exemplo de redação que fecha a questão:

«Uma análise de sensibilidade conduzida no G*Power 3.1, fixando α = 0,05 e poder = 0,80 para os n efetivamente obtidos (n1 = 58, n2 = 61), indicou que o estudo tinha capacidade para detetar efeitos de magnitude igual ou superior a d = 0,52. Uma vez que a literatura na área reporta para esta intervenção efeitos entre d = 0,20 e d = 0,35, o resultado não significativo obtido (t(117) = 1,72; p = 0,087; d = 0,32; IC 95% [−0,05; 0,68]) deve ser interpretado como inconclusivo e não como evidência de ausência de efeito. A dimensão da amostra constitui, assim, a principal limitação deste estudo, e a replicação com n ≥ 250 por grupo é a recomendação metodológica que dele decorre.»

Repare no que essa redação faz: nomeia software e versão, declara os parâmetros fixados, dá o efeito mínimo detetável, confronta-o com a literatura, qualifica o resultado com a palavra correta (inconclusivo) e converte a limitação numa recomendação quantificada. É a diferença entre pedir desculpa pela amostra e analisá-la.

Se várias hipóteses ficaram por confirmar e é o capítulo inteiro da discussão que está em causa, o guião completo está em as hipóteses não se confirmaram: como escrever a discussão. E para o enquadramento geral da redação de resultados, veja como escrever o capítulo de resultados.

Três coisas que não deve fazer

1. Recolher mais dados até o p descer. Chama-se paragem opcional e é uma das formas mais eficazes de fabricar falsos positivos: verificar o valor-p a cada dez participantes e parar quando cruza 0,05 pode elevar a taxa real de erro de tipo I para bem acima de 20%. Se ampliar a amostra, defina o n final antes de voltar a olhar para os resultados e declare que o fez.

2. Trocar de teste à procura de significância. Correr um Mann-Whitney depois de o t falhar, esperando que o não paramétrico «dê», é seleção de resultados. A escolha entre paramétrico e não paramétrico decide-se pelos pressupostos, antes de ver os valores-p — como está descrito em testes não paramétricos na tese e no guia de decisão sobre que teste usar.

3. Partir a amostra em subgrupos à procura de um efeito. Se o efeito global não apareceu, testar homens e mulheres separadamente, depois por escalão etário, depois por antiguidade, produz quase de certeza um resultado significativo — e quase de certeza falso. Se o fizer, identifique as análises como exploratórias e ajuste, conforme explicado em comparações múltiplas e correção do alfa.

Transformar a limitação numa secção competente

Um resultado não significativo bem enquadrado vale mais do que um significativo mal explicado. O Tesify mantém metodologia, resultados e limitações à vista ao mesmo tempo, para que a análise de sensibilidade e a sua interpretação sejam escritas em conjunto — 100% escrito por si. Comece a sua tese no Tesify →

Perguntas frequentes

Posso calcular o poder estatístico depois de recolher os dados?

Pode e deve, mas não sob a forma de poder observado. O poder calculado a partir do efeito que obteve na amostra é uma transformação direta do valor-p e não acrescenta informação: um resultado não significativo terá sempre poder observado baixo. O cálculo correto depois da recolha é a análise de sensibilidade, que fixa alfa, poder e o n real e devolve o efeito mínimo que o estudo conseguia detetar.

O que é o efeito mínimo detetável?

É a menor magnitude de efeito que o seu desenho, com a amostra que efetivamente obteve, teria 80% de probabilidade de detetar ao nível de significância adotado. Obtém-se no G*Power escolhendo «Sensitivity: Compute required effect size». Comparando-o com as magnitudes reportadas na literatura da área, fica-se a saber se o resultado não significativo é inconclusivo ou se corresponde a uma ausência real de efeito relevante.

Devo usar a caixa «poder observado» do SPSS?

Não é recomendável. A caixa existe em Opções na ANOVA e no modelo linear geral, mas produz o poder retrospetivo calculado sobre o efeito observado, criticado desde o artigo de Hoenig e Heisey de 2001 em The American Statistician por ser logicamente circular. Se já o incluiu na tese, substitua-o por uma análise de sensibilidade no G*Power e pelo intervalo de confiança do efeito.

Como justifico uma amostra pequena na tese?

Explicando o que a amostra permitia e o que não permitia, com números. Declare os constrangimentos reais da recolha, apresente a análise de sensibilidade com o efeito mínimo detetável, confronte esse valor com as magnitudes típicas da literatura e conclua se os resultados são inconclusivos ou informativos. Termine com uma recomendação quantificada de dimensão para estudos futuros. Uma limitação analisada não penaliza; uma limitação omitida, sim.

Posso concluir que não existe diferença entre os grupos?

Não a partir de um valor-p não significativo, que apenas indica ausência de evidência suficiente. Para afirmar equivalência é necessário um teste próprio, o procedimento TOST, no qual se define previamente a margem mínima com relevância prática e se verifica se o efeito observado está contido nela. Está disponível no jamovi através do módulo TOSTER, no JASP e no R, mas não no menu-base do SPSS.

Posso recolher mais participantes até o resultado ficar significativo?

Não com essa regra de paragem. Consultar repetidamente o valor-p e parar assim que ele cruza 0,05 é paragem opcional e inflaciona substancialmente a taxa de falsos positivos. Se necessitar de ampliar a amostra, fixe o novo n total antes de voltar a analisar, declare essa decisão na metodologia e, se possível, registe-a previamente.

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