Como Escrever o Capítulo de Resultados da Tese 2026
O capítulo de resultados é um dos mais mal compreendidos de toda a tese. A maioria dos estudantes sabe que deve “apresentar os dados” — mas na prática acaba por misturar a apresentação com a interpretação, transforma tabelas em texto duplicado ou esquece de relacionar os resultados com as perguntas de investigação. O erro custa caro: os júris de defesa penalizam consistentemente a falta de separação entre resultados e discussão. Este guia mostra-te exactamente como escrever o capítulo de resultados da tese, passo a passo, com exemplos concretos para abordagens quantitativas e qualitativas.
Em 2026, com a proliferação de ferramentas de IA que geram texto académico em segundos, a distinção entre resultados puros e interpretação tornou-se ainda mais crítica. Os orientadores estão mais atentos, os detectores de inconsistência são mais sofisticados, e um capítulo de resultados bem estruturado é um sinal claro de maturidade investigativa. Segue os seis passos abaixo para chegar à defesa sem surpresas.
O que é (e o que não é) o capítulo de resultados
O capítulo de resultados — também chamado de “Apresentação dos Resultados” ou, em inglês, Results — tem uma única função: mostrar o que encontraste, sem dizer o que isso significa. É um capítulo descritivo e factual. O que os dados são, não o que os dados revelam sobre o mundo.
Aquilo que o capítulo de resultados não é:
- Não é um resumo dos dados brutos. Apresentas estatísticas resumidas, categorias temáticas ou padrões — não transcreves folhas de cálculo completas.
- Não é uma repetição da metodologia. Não reexplicas como recolheste os dados; dizes o que recolheste.
- Não é a discussão. Nenhuma frase deve comparar os teus dados com a literatura, propor causas ou tirar conclusões práticas. Isso é trabalho do próximo capítulo — podes aprender a fazê-lo no guia como escrever a discussão da tese passo a passo.
A distinção parece óbvia no papel, mas na prática é frequentemente violada. O blogue De Olho no Paper documenta bem como o processo de escrita de uma dissertação levanta exactamente esta dificuldade: a tentação de interpretar é permanente, especialmente quando estás há meses a trabalhar com os mesmos dados.
Antes de escrever: organiza os teus dados
Antes de digitares uma única palavra, faz este exercício de 20 minutos:
- Lista todas as perguntas de investigação (ou hipóteses) da tua tese.
- Para cada pergunta, identifica os dados que respondem directamente a essa pergunta.
- Decide o formato: texto corrido, tabela ou figura.
- Ordena os dados na sequência mais lógica para o leitor — geralmente a mesma ordem em que as perguntas aparecem na introdução e na metodologia.
Este mapeamento prévio evita o problema mais comum: um capítulo de resultados que parece um arquivo solto de dados sem fio condutor. A estrutura dos resultados deve espelhar a estrutura da metodologia. Se estudaste três grupos, apresentas três blocos de resultados. Se fizeste duas fases de recolha de dados, o capítulo tem duas secções principais.
Passo 1 — Estrutura por pergunta de investigação
O método mais claro e melhor avaliado pelos orientadores é organizar o capítulo por pergunta de investigação. Cada subsecção tem um título que remete directamente para a pergunta que responde:
- “3.1 Resultados relativos à Pergunta 1: Qual a frequência de uso de IA em contexto académico?”
- “3.2 Resultados relativos à Pergunta 2: Existe associação entre uso de IA e qualidade percebida da tese?”
Esta estrutura tem duas vantagens práticas. Primeira: o júri consegue verificar rapidamente que todas as perguntas foram respondidas. Segunda: tu próprio notas quando há dados que não respondem a nenhuma pergunta — sinal de que esse material deve ser cortado ou movido para um apêndice.
Em teses qualitativas baseadas em análise temática de Braun e Clarke, a estrutura habitual é por tema emergente, não por pergunta. Nesse caso, cada subsecção apresenta um tema com os seus sub-temas e citações ilustrativas.
Passo 2 — Texto, tabelas e figuras: regras de uso
A escolha entre texto, tabela e figura não é estética — é funcional. Usa cada um quando serve melhor:
| Formato | Quando usar | Quando evitar |
|---|---|---|
| Texto corrido | Resultados simples, narrativas qualitativas, citações de participantes | Quando há 4 ou mais valores a comparar |
| Tabela | Dados numéricos, comparações entre grupos, médias e desvios-padrão | Quando só há dois valores a apresentar |
| Figura / Gráfico | Tendências ao longo do tempo, distribuições, correlações visualmente evidentes | Quando o gráfico repete exactamente o que uma tabela já mostra |
A regra de ouro: nunca duplica a mesma informação em texto e tabela. O texto introduz a tabela (“A Tabela 1 apresenta as médias por grupo…”) e destaca o dado mais relevante; a tabela fornece os valores completos. O leitor não deve ter de ler as duas versões para obter a mesma informação.
Passo 3 — Formata tabelas e figuras (ABNT e APA)
A formatação de tabelas e figuras é um ponto técnico com impacto directo na avaliação. Em muitas universidades brasileiras e portuguesas, um erro de formatação sistemático pode resultar em pedido de revisão antes da defesa.
Normas ABNT (NBR 14724):
- O título da tabela fica acima da tabela, alinhado à esquerda: “Tabela 1 — Frequência de resposta por categoria”
- O título da figura fica abaixo da figura: “Figura 1 — Distribuição das respostas por género”
- A fonte é indicada imediatamente abaixo do elemento, em tamanho 10, mesmo que seja “Fonte: elaboração própria”
- As tabelas têm linhas horizontais mas não devem ter linhas verticais internas
Normas APA 7.ª edição:
- O título fica sempre acima, tanto em tabelas como em figuras, em itálico: Frequency of AI Use by Academic Level
- A nota de rodapé da tabela começa com “Nota.” em itálico, seguida de explicação
- As figuras têm legenda (Note.) posicionada abaixo
Para uma referência visual completa sobre a formatação de tabelas, consulta o guia publicado pelo Infonormas sobre a norma ABNT para tabelas no TCC. Para a lista de figuras e quadros no documento, o artigo como fazer a lista de figuras e quadros ABNT/APA tem o passo a passo no Word.
Passo 4 — Escreve o parágrafo de abertura de cada subsecção
Cada subsecção do capítulo de resultados começa com um parágrafo de orientação — uma frase ou duas que anunciam o que o leitor vai encontrar, sem ainda dizer o que significa. Exemplos:
“Esta secção apresenta os resultados da análise de conteúdo das 28 entrevistas realizadas entre Outubro e Dezembro de 2025. Os dados são organizados em torno dos três temas principais identificados na análise temática.”
“A Tabela 2 apresenta as estatísticas descritivas das respostas ao questionário (n = 312). Os valores da escala de Likert variam entre 1 e 5.”
Repara: nenhuma destas frases diz “isto demonstra que” ou “o que nos permite concluir”. Anuncia apenas o que se segue.
Passo 5 — Elimina toda a interpretação
Depois de escreveres o primeiro rascunho, percorre o capítulo à procura de frases interpretativas. São fáceis de identificar: começam com ou contêm expressões como:
- “Isto indica / sugere / revela / demonstra que…”
- “Este resultado pode ser explicado por…”
- “Estes dados são consistentes com…” (seguido de citação de outro estudo)
- “Assim sendo, podemos concluir…”
- “O que era esperado tendo em conta a teoria de…”
Cada vez que encontras uma dessas frases, tens duas opções: apagar a interpretação e ficares só com o facto (“A média do grupo A foi 3,8”), ou mover a frase para o capítulo de discussão. O blogue Ciência Prática explica como esta separação entre descrição e interpretação é a base da escrita científica clara.
Passo 6 — Faz a revisão de correspondência com a metodologia
O último passo antes de entregar o capítulo ao orientador é a revisão de correspondência. Pega na tua secção de metodologia e cria uma tabela de verificação com duas colunas:
| Instrumento / variável na metodologia | Resultado correspondente nos resultados? |
|---|---|
| Questionário de bem-estar (28 itens) | ✓ Tabela 3, secção 3.1 |
| Entrevista semi-estruturada (n = 15) | ✓ Tema A, B e C, secção 3.2 |
| Análise documental (3 relatórios) | ✗ Em falta — adicionar secção 3.3 |
Qualquer instrumento descrito na metodologia sem resultado correspondente é uma inconsistência que o júri vai apontar durante a defesa. Para aprofundar a metodologia mista e a correspondência entre instrumentos e resultados, consulta o guia sobre revisão sistemática da literatura.

Erros mais comuns (e como evitá-los)
- Duplicar informação — apresentar o mesmo dado em texto e tabela. Solução: o texto comenta; a tabela mostra.
- Títulos de tabelas/figuras ausentes ou mal posicionados — solução: usa os modelos ABNT ou APA rigorosamente; vai ao artigo sobre formatação ABNT completa para referência rápida.
- Resultados sem correspondência metodológica — dados que “aparecem” nos resultados mas não foram descritos na metodologia. Solução: a tabela de verificação do Passo 6.
- Misturar resultados com discussão — o erro mais penalizado. Solução: lê cada frase e pergunta “estou a descrever ou a interpretar?”
- Capítulo sem fio condutor — lista de resultados sem ligação. Solução: estrutura por pergunta de investigação (Passo 1).
- Excertos qualitativos sem código — citar participantes sem identificação (P1, P2, etc.) viola boas práticas de investigação qualitativa. Consulta o guia sobre análise temática de Braun e Clarke.
Perguntas Frequentes
Qual é a diferença entre resultados e discussão numa tese?
O capítulo de resultados apresenta os dados sem os interpretar. A discussão interpreta esses dados, compara-os com a literatura e explica as implicações. Misturar os dois é o erro mais comum e mais penalizado pelos júris. Aprende a fazer a discussão no guia como escrever a discussão da tese passo a passo.
Devo usar texto, tabelas ou figuras no capítulo de resultados?
Usa texto para descrever resultados simples, tabelas para dados numéricos comparativos e figuras para tendências visuais. Nunca duplica a mesma informação em texto e tabela — o texto introduz e destaca; a tabela fornece os valores completos.
O capítulo de resultados deve ter uma introdução própria?
Sim. Um parágrafo de abertura que recorda brevemente os objetivos e anuncia como os resultados estão organizados (por pergunta de investigação, por grupo, por instrumento) é considerado boa prática académica e ajuda o júri a navegar o capítulo.
Quantas páginas deve ter o capítulo de resultados?
Não há uma regra fixa. Em teses de mestrado quantitativas, o capítulo costuma ter 15 a 25 páginas. Em teses qualitativas, com excertos de entrevistas, pode chegar a 40 páginas. O que importa é que todos os dados relevantes estejam presentes e bem organizados.
Posso citar autores no capítulo de resultados?
Raramente e apenas para identificar um instrumento ou escala utilizada (por exemplo, “Escala de Burnout de Maslach (Maslach, 1981)”). Qualquer citação que compare os teus dados com os de outros estudos pertence à discussão, não aos resultados.
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