Escalas Clínicas, Desenhos Pré-Pós e Concordância: Que Teste Pede Cada Variável de Enfermagem (2026)
A escolha do teste depende de três coisas e de mais nenhuma: o tipo da variável dependente, o número de grupos que compara e se as observações são independentes ou emparelhadas. A tabela abaixo resolve 95% das teses de Enfermagem em menos de um minuto.
O que muda em Enfermagem não é a lógica da decisão, é o material: o que tem em mãos são pontuações de escalas validadas, itens Likert isolados, contagens de quedas, medições repetidas no mesmo doente e avaliações feitas por dois profissionais diferentes. Para o quadro geral de decisão — aplicável a qualquer área e com o passo a passo no SPSS — o ponto de partida é o guia sobre qual teste estatístico usar na tese e como decidir no SPSS. Este artigo é a especialização desse guia nas variáveis que aparecem realmente numa tese de Enfermagem.
Tabela de decisão rápida
| O que quer saber | Variável dependente | Teste (se pressupostos cumpridos) | Alternativa não-paramétrica |
|---|---|---|---|
| Diferença entre 2 grupos independentes | Contínua | t de Student para amostras independentes | Mann-Whitney U |
| Diferença antes/depois nos mesmos doentes | Contínua | t de Student emparelhado | Wilcoxon |
| Diferença entre 3+ grupos independentes | Contínua | ANOVA one-way + post-hoc | Kruskal-Wallis + Dunn |
| 3+ momentos nos mesmos doentes | Contínua | ANOVA de medidas repetidas | Friedman |
| Associação entre duas variáveis categóricas | Categórica | Qui-quadrado de independência | Teste exato de Fisher (células < 5) |
| Proporção antes/depois nos mesmos sujeitos | Binária | — | Teste de McNemar |
| Relação entre duas variáveis contínuas | Contínua | Correlação de Pearson | Correlação de Spearman |
| Prever um desfecho contínuo | Contínua | Regressão linear múltipla | — |
| Prever um desfecho sim/não | Binária | Regressão logística binária | — |
| Concordância entre dois avaliadores | Categórica ou contínua | Kappa de Cohen ou CCI | — |
| Capacidade discriminativa de uma escala | Binária (padrão-ouro) | Curva ROC / área sob a curva | — |
Passo 1 — Classifique a sua variável dependente
Esta é a decisão que determina metade da tabela e é onde as teses de Enfermagem escorregam com mais frequência.
- Contínua: escala visual analógica da dor (0–10), pontuação total do Índice de Barthel, escore de Braden, tensão arterial, número de dias de internamento, total de uma escala de qualidade de vida.
- Ordinal: grau da úlcera por pressão (I a IV), classificação de triagem, um item Likert isolado.
- Binária: caiu / não caiu, readmitiu / não readmitiu, aderiu / não aderiu ao regime terapêutico.
- Nominal com 3+ categorias: serviço de proveniência, tipo de acesso vascular, destino após alta.
O caso ambíguo é sempre o mesmo: o total de uma escala de Likert. Um item isolado é ordinal e deve ser analisado como tal. Um total somado de 10 ou 20 itens comporta-se, na prática, como variável contínua e é analisado com testes paramétricos — é o que a literatura de investigação em saúde faz e é o que o júri espera. Reportar Mann-Whitney para um total de escala de 20 itens não está errado, mas é desnecessariamente conservador e perde poder.
Há ainda um quarto tipo que aparece com frequência em Enfermagem e não encaixa em nenhuma linha da tabela: contagens. Número de quedas por doente, número de episódios de dor irruptiva, número de reinternamentos. São inteiros não negativos, muito assimétricos e com excesso de zeros. Tratá-los como contínuos numa regressão linear produz previsões negativas e resíduos impossíveis; o modelo adequado é de Poisson ou binomial negativo.
Passo 2 — Conte os grupos e verifique se são independentes
Grupos independentes significa que cada doente aparece uma única vez. Se comparou os mesmos doentes antes e depois de uma intervenção educativa, ou o mesmo enfermeiro em dois turnos, os dados são emparelhados e usar o teste errado inflaciona o erro. É um erro que o júri deteta de imediato.
Atenção ao caso híbrido, comum em teses de Enfermagem: dois grupos (intervenção e controlo) medidos em dois momentos. Isto não é um t-test; é uma ANOVA mista com um fator entre-sujeitos e um fator intra-sujeitos, ou uma ANCOVA com o pré-teste como covariável. O procedimento e a interpretação da esfericidade estão em ANOVA de medidas repetidas, esfericidade e teste de Mauchly no SPSS.
Há também um caso de independência aparente que engana muita gente: doentes recolhidos em vários serviços ou várias unidades. Doentes do mesmo serviço parecem-se mais entre si do que doentes de serviços diferentes, porque partilham equipa, protocolos e casuística. Se recolheu em cinco ou seis unidades e o serviço é relevante para o desfecho, a independência está comprometida — no mínimo, inclua o serviço como fator ou como covariável e discuta a limitação.
Passo 3 — Verifique os pressupostos (e saiba quando não interessam)
Os testes paramétricos assumem normalidade da variável dependente dentro de cada grupo e, na comparação de grupos, homogeneidade das variâncias.
Normalidade. Use Shapiro-Wilk até n = 50 por grupo e Kolmogorov-Smirnov com correção de Lilliefors acima disso. Mas não seja fundamentalista: com n acima de 30 por grupo, o teorema do limite central protege o t-test e a ANOVA contra desvios moderados. Uma assimetria ligeira numa amostra de 80 doentes não obriga a mudar para Mann-Whitney. Repare também que a normalidade exigida é a da variável dentro de cada grupo, não a da amostra total — testar a normalidade do conjunto quando os grupos têm médias diferentes produz um resultado enganador.
Homogeneidade de variâncias. Teste de Levene. Se der significativo, o SPSS oferece a linha «variâncias não assumidas» (correção de Welch) — use-a e diga-o no texto.
Quando os pressupostos realmente falham: amostras pequenas (n < 20 por grupo), distribuições fortemente assimétricas, presença de valores extremos que não pode remover, ou variável dependente claramente ordinal. Aí, o não-paramétrico é a escolha certa e não é uma derrota.
Os sete cenários mais comuns em teses de Enfermagem
1. Intervenção educativa e conhecimento dos doentes
Aplica um questionário de conhecimentos antes da sessão e duas semanas depois, ao mesmo grupo. Variável dependente contínua, dois momentos emparelhados: t emparelhado ou Wilcoxon. Reporte a diferença de médias com intervalo de confiança e o tamanho do efeito — sem ele, um p < 0,05 numa amostra grande não diz se a intervenção tem relevância clínica. Que medida usar em cada teste está em que tamanho do efeito reportar em cada teste.
2. Burnout em enfermeiros por serviço
Compara exaustão emocional entre urgência, cuidados intensivos e internamento. Três grupos independentes, variável contínua: ANOVA one-way com post-hoc de Tukey (variâncias homogéneas) ou Games-Howell (heterogéneas). Se a distribuição for muito assimétrica, Kruskal-Wallis com comparações par a par corrigidas. Um erro clássico: reportar que «a ANOVA foi significativa, logo a urgência tem mais burnout». A ANOVA diz apenas que pelo menos um par difere; qual par é que difere só o post-hoc responde.
3. Fatores associados a quedas no internamento
Desfecho binário. A análise correta é regressão logística binária: dá-lhe odds ratios ajustados, que é exatamente o que a discussão precisa. Comece com qui-quadrado ou Fisher variável a variável para a análise bivariada e leve para o modelo as que ficarem abaixo de p = 0,20. Não meta 15 preditores num modelo com 40 quedas — a regra prática é 10 eventos por preditor, explicada em quantos casos precisa por variável na regressão.
4. Validade de uma escala de risco
Quer saber se a escala de Braden identifica bem quem desenvolve úlcera por pressão. Isto é análise diagnóstica, não comparação de médias: curva ROC, área sob a curva, sensibilidade, especificidade e escolha do ponto de corte. O procedimento completo, incluindo o índice de Youden, está em curva ROC na tese em saúde.
5. Relação entre adesão terapêutica e qualidade de vida
Duas variáveis contínuas: Pearson se ambas forem aproximadamente normais, Spearman caso contrário. Se quiser controlar idade e comorbilidades, passa a correlação parcial ou a regressão linear múltipla. Uma correlação de 0,25 é fraca mas pode ser significativa com n = 200 — a discussão tem de distinguir significância estatística de magnitude.
6. Satisfação dos utentes com os cuidados por escalão etário
Tentação frequente: dividir a idade em três escalões e correr uma ANOVA. É quase sempre a pior opção, porque categorizar uma variável contínua deita fora informação e reduz o poder. Se a idade é contínua e a satisfação é contínua, use correlação ou regressão. Só categorize se houver uma razão clínica real para o ponto de corte — por exemplo, se estudar especificamente o grupo com 65 ou mais anos.
7. Concordância entre a avaliação do enfermeiro e um instrumento estruturado
Aqui não há grupos a comparar: há acordo a quantificar. Para classificações categóricas (risco baixo, moderado, alto), use kappa ponderado. Para medidas contínuas repetidas por dois avaliadores, use o coeficiente de correlação intraclasse. Nunca use uma correlação de Pearson para concordância: duas séries podem correlacionar-se perfeitamente estando sistematicamente desviadas uma da outra.
Sabe qual é o teste. Falta escrever o capítulo.
O Tesify escreve consigo a metodologia e a apresentação de resultados da sua tese de Enfermagem, com a linguagem técnica correta e a estrutura que o júri espera — a partir das suas decisões de análise.
Erros que aparecem em quase todas as defesas
- Fazer 30 t-tests e reportar os três significativos. Com alfa de 0,05 e 30 comparações, espera-se pelo menos um falso positivo. Ou corrige o alfa, ou declara as análises como exploratórias.
- Usar qui-quadrado com células de frequência esperada abaixo de 5. Numa tabela 2×2, passe para o teste exato de Fisher.
- Confundir «não significativo» com «não há diferença». Muitas teses de Enfermagem têm amostras de 60 doentes, onde só efeitos grandes atingem significância. A distinção está em se o resultado não foi significativo, foi falta de poder estatístico.
- Correlacionar tudo com tudo numa matriz de 15 variáveis. São 105 correlações; algumas serão significativas por acaso.
- Reportar apenas o valor-p. Sempre: estatística de teste, graus de liberdade, p exato, tamanho do efeito e intervalo de confiança.
- Mudar de teste até um dar significativo. Correr Mann-Whitney depois de o t-test falhar, e reportar apenas o segundo, é uma prática que o júri identifica quando pergunta pela verificação de pressupostos. Decida o teste antes de olhar para o resultado.
Como escrever os resultados
Um resultado bem reportado tem sempre a mesma anatomia. Exemplo:
«A dor média diminuiu de 6,8 (DP = 1,4) antes da intervenção para 4,1 (DP = 1,7) após a intervenção. A diferença foi estatisticamente significativa, t(58) = 9,42, p < 0,001, d de Cohen = 1,22, IC 95% [2,12; 3,28], correspondendo a um efeito de grande magnitude.»
Repare no que está lá: médias e desvios-padrão dos dois momentos, estatística de teste com graus de liberdade, valor-p, tamanho do efeito e intervalo de confiança da diferença. Nada de interpretação clínica — isso pertence à discussão, não aos resultados.
Quanto à organização do capítulo, siga a mesma ordem das hipóteses: caracterização da amostra primeiro, depois estatística descritiva das variáveis principais, depois cada hipótese pela ordem em que foi enunciada na introdução. Cada tabela deve ser compreensível sozinha, com nota de rodapé a explicar as siglas, e o texto não deve repetir todos os números da tabela — deve apontar o que interessa e remeter para ela.
Perguntas frequentes
Posso usar t-test com 20 doentes por grupo?
Pode, se a variável dependente tiver distribuição aproximadamente normal em cada grupo. Com 20 por grupo, verifique a normalidade com Shapiro-Wilk e inspecione o histograma. Se houver assimetria marcada ou valores extremos, use Mann-Whitney. Note que com 20 por grupo só detetará efeitos grandes.
Um item Likert isolado analisa-se com média?
Formalmente não: um item isolado é ordinal e descreve-se com mediana, moda e frequências por categoria. A média só é defensável para o total de uma escala com vários itens. Se precisar de comparar grupos num item isolado, use Mann-Whitney ou Kruskal-Wallis.
Que software usar na tese de Enfermagem?
O SPSS continua a ser o mais aceite nas escolas superiores de saúde e a maioria das universidades portuguesas disponibiliza licença institucional. O JASP é gratuito, tem interface semelhante e produz output já em formato APA, sendo uma alternativa perfeitamente defensável perante o júri.
Tenho de fazer análise multivariada numa tese de mestrado?
Não obrigatoriamente. Numa dissertação de mestrado em Enfermagem, estatística descritiva sólida com comparações bivariadas bem escolhidas e corretamente reportadas é suficiente. A regressão só se justifica quando a pergunta de investigação é sobre predição ou sobre efeito ajustado a fatores de confundimento.
O que faço aos dados em falta?
Reporte sempre quantos e onde. Abaixo de 5% em falta e distribuídos ao acaso, a exclusão listwise é aceitável. Acima disso, ou se as faltas se concentrarem num subgrupo, discuta o padrão e considere imputação pela média da subescala quando faltam poucos itens de um instrumento validado.
Preciso de calcular a amostra antes de recolher?
Sim, e o cálculo a priori no G*Power deve constar da metodologia com os parâmetros usados: teste, tamanho de efeito esperado, alfa e poder de 0,80. Um cálculo feito depois da recolha para justificar a amostra obtida é circular e o júri reconhece-o.
Posso comparar a minha amostra com valores normativos publicados?
Pode, com o t-test para uma amostra, comparando a sua média com o valor normativo. Exige que o valor de referência venha de uma população comparável e que declare a fonte. É uma análise útil quando não tem grupo de controlo.
Como analiso um estudo de caso-controlo em Enfermagem?
Compare a exposição entre casos e controlos com qui-quadrado na análise bivariada e com regressão logística para obter odds ratios ajustados. Se os casos foram emparelhados individualmente com controlos por idade e sexo, use regressão logística condicional, porque o emparelhamento quebra a independência das observações.
Em resumo
Antes de abrir o SPSS, escreva numa folha: qual é a variável dependente e de que tipo, quantos grupos comparo, são independentes ou emparelhados. Com essas três respostas, a tabela do início do artigo dá-lhe o teste. Tudo o resto — pressupostos, correções, tamanho do efeito — é refinamento sobre uma decisão que já está tomada corretamente.
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