Concordância Entre Avaliadores na Tese: Kappa, Kappa Ponderado e ICC — e Que Valor É Aceitável (2026)
Resultado-chave: a estatística que deve reportar depende do tipo de dados, não da preferência do orientador. Categorias nominais com dois avaliadores → kappa de Cohen. Categorias ordenadas → kappa ponderado. Três ou mais avaliadores em categorias → kappa de Fleiss. Medidas contínuas → coeficiente de correlação intraclasse (ICC). E, em nenhum dos casos, a percentagem de acordo simples é resposta suficiente.
Se a sua tese tem dois codificadores, dois observadores, dois avaliadores clínicos ou dois investigadores a triar artigos numa revisão, precisa de um destes números. Este artigo dá-lhe a tabela de escolha, as faixas de interpretação com a fonte de cada uma, e a frase exacta que escreve nos resultados.

Porque a percentagem de acordo não chega
Imagine dois avaliadores a classificar 100 casos como «presente» ou «ausente», e que 90 % dos casos são realmente «ausente». Se ambos disserem sempre «ausente», o acordo bruto é 100 %. Se ambos responderem completamente ao acaso, mas com a mesma tendência de 90/10, ainda assim concordam em cerca de 82 % dos casos — só por acaso.
É esta a razão de ser das estatísticas de kappa: corrigem o acordo observado pelo acordo que seria esperado ao acaso. Um kappa de 0 significa «não melhor do que o acaso»; 1 significa acordo perfeito; valores negativos significam acordo pior do que o acaso, o que normalmente sinaliza um erro de codificação das categorias.
Reportar apenas «os codificadores concordaram em 87 % dos casos» é, por isso, insuficiente. Reporte a percentagem de acordo e a estatística corrigida — a primeira é intuitiva, a segunda é interpretável.
Tabela de escolha: que estatística usar
| Os seus dados | Nº de avaliadores | Estatística | Nota |
|---|---|---|---|
| Categorias nominais (presente/ausente; tema A/B/C) | 2 | Kappa de Cohen | O caso mais comum na codificação qualitativa |
| Categorias ordenadas (leve / moderado / grave) | 2 | Kappa ponderado | Penaliza mais os desacordos distantes do que os adjacentes. Declare a ponderação usada (linear ou quadrática) |
| Categorias, avaliadores diferentes em cada caso | 3+ | Kappa de Fleiss | Generaliza o kappa para mais de dois classificadores |
| Medidas contínuas (pontuações, tempos, distâncias) | 2+ | ICC | Escolher a forma certa é metade do trabalho — ver abaixo |
| Categorias, dados em falta ou vários tipos de escala | 2+ | Alfa de Krippendorff | O mais flexível; menos disponível nos menus dos programas |

As faixas de interpretação, e de onde vêm
Não invente adjectivos. Use uma referência publicada e cite-a — o júri vai perguntar de onde veio a palavra «substancial».
Kappa — as faixas de Landis e Koch (1977)
| Valor de kappa | Interpretação |
|---|---|
| < 0,00 | Pobre (pior do que o acaso) |
| 0,01 – 0,20 | Ligeira |
| 0,21 – 0,40 | Razoável |
| 0,41 – 0,60 | Moderada |
| 0,61 – 0,80 | Substancial |
| 0,81 – 1,00 | Quase perfeita |
São as faixas mais citadas na literatura, e os próprios autores as apresentaram como convenções arbitrárias e não como critérios absolutos. Em investigação qualitativa é comum exigir-se, na prática, um patamar mais alto do que a mera «moderada» antes de dar a codificação por estabilizada.
ICC — as faixas de Koo e Li (2016)
| Valor de ICC | Fiabilidade |
|---|---|
| < 0,50 | Fraca |
| 0,50 – 0,75 | Moderada |
| 0,75 – 0,90 | Boa |
| > 0,90 | Excelente |
A referência é T. K. Koo e M. Y. Li, «A Guideline of Selecting and Reporting Intraclass Correlation Coefficients for Reliability Research», Journal of Chiropractic Medicine, 15 (2016), 155–163. É a fonte a citar quando escrever «boa fiabilidade» a propósito de um ICC — e o mesmo artigo é a referência habitual para justificar a forma de ICC escolhida.

ICC: escolher a forma certa é metade do trabalho
O ICC não é um coeficiente, é uma família. Programas como o SPSS pedem-lhe três decisões antes de calcular, e um relatório que não as declara é irreproduzível:
- Modelo. Efeitos aleatórios de duas vias quando os seus avaliadores são uma amostra de uma população maior de avaliadores possíveis e quer generalizar para essa população. Efeitos mistos de duas vias quando os avaliadores são precisamente estes e não pretende generalizar — o caso típico de uma tese com dois codificadores. Efeitos aleatórios de uma via quando cada caso foi avaliado por avaliadores diferentes.
- Tipo. Concordância absoluta se lhe interessa que os avaliadores atribuam o mesmo valor. Consistência se lhe basta que ordenem os casos da mesma maneira, ainda que um seja sistematicamente mais severo. Na maioria das teses o que interessa é a concordância absoluta.
- Unidade. Medidas individuais se na análise final vai usar a classificação de um único avaliador. Medidas médias se vai usar a média dos avaliadores. O ICC de medidas médias é sempre mais alto — usá-lo quando a análise depende de um só avaliador inflaciona artificialmente a fiabilidade reportada.
Reporte sempre as três escolhas, e reporte o intervalo de confiança a 95 % do ICC. Com amostras pequenas o intervalo é largo, e um ICC pontual de 0,82 com intervalo de 0,41 a 0,94 não sustenta a palavra «boa».
Onde calcular
- SPSS. O kappa de Cohen sai das tabelas cruzadas: coloque um avaliador nas linhas, o outro nas colunas e peça Kappa nas estatísticas. É indispensável que as duas variáveis tenham exactamente as mesmas categorias com os mesmos códigos — se um avaliador usou uma categoria que o outro nunca usou, o procedimento falha ou produz um resultado enganador. O ICC está no procedimento de análise de fiabilidade, onde escolhe modelo, tipo e unidade. O kappa ponderado não é oferecido nos menus.
- R. Os pacotes de concordância cobrem tudo o que o SPSS não faz: kappa ponderado com ponderação linear ou quadrática, kappa de Fleiss, alfa de Krippendorff e as várias formas de ICC com intervalos de confiança.
- Calculadoras online. Suficientes para um cálculo pontual a partir de uma tabela que já tem. Confirme sempre o tipo de kappa que a ferramenta devolve antes de copiar o número.
- Programas de análise qualitativa. As versões comerciais calculam concordância entre codificadores internamente; as alternativas gratuitas, em geral, não — nesse caso exporte as duas codificações para uma folha de cálculo e calcule à parte.
O procedimento, na prática
- Defina o livro de códigos antes. Categorias mutuamente exclusivas, com definição e exemplo. A maior parte dos kappas baixos não é problema de avaliadores — é problema de categorias mal definidas.
- Treine com material que não entra na análise. Dois ou três casos discutidos em conjunto poupam dezenas de desacordos depois.
- Codifiquem em cego e em paralelo. Sem consultas durante o processo. Um segundo codificador que vê as decisões do primeiro não produz uma medida independente.
- Escolha a subamostra. Em codificação qualitativa é prática corrente que o segundo codificador trate uma parte do corpus, não a totalidade. Declare que parte e como foi seleccionada — aleatoriamente, de preferência.
- Calcule antes de discutir. O kappa mede o acordo independente. Se discutirem primeiro e só depois calcularem, o número deixa de significar o que diz que significa.
- Resolva os desacordos por regra declarada — discussão até consenso, ou arbitragem por um terceiro. Diga qual usou.
- Se o kappa for baixo, reveja o livro de códigos e repita. Não é fraude: é o procedimento correcto, desde que declare que houve duas rondas e reporte o valor final.
Como escrever nos resultados
«Vinte e cinco por cento das entrevistas (n = 5), seleccionadas aleatoriamente, foram codificadas de forma independente por um segundo codificador. A concordância entre codificadores foi substancial (kappa de Cohen = 0,74; acordo bruto = 88,3 %), de acordo com as faixas de Landis e Koch (1977). Os desacordos foram resolvidos por discussão até consenso e o livro de códigos foi actualizado em conformidade.»
Para uma medida contínua:
«A fiabilidade entre avaliadores foi estimada por ICC (modelo de efeitos mistos de duas vias, concordância absoluta, medidas individuais). O ICC foi de 0,86 (IC 95 % [0,71; 0,93]), indicando boa fiabilidade segundo Koo e Li (2016).»
Note o que ambas as frases incluem: o número, a variante exacta da estatística, a fonte da faixa e — no segundo caso — o intervalo de confiança. É esta densidade que distingue um relato defensável de uma menção decorativa. As convenções gerais de reporte estatístico estão no guia de estatística descritiva e inferencial.
Perguntas frequentes
Preciso mesmo de um segundo codificador na minha tese?
Depende da abordagem. Em análise de conteúdo com pretensão de fiabilidade, é esperado e frequentemente exigido — o artigo sobre análise de conteúdo com categorias discute quando. Em abordagens interpretativas como a análise fenomenológica, a exigência não é a mesma, e o critério de qualidade passa por auditoria de decisões e reflexividade em vez de um coeficiente. Não force um kappa numa metodologia cujo referencial não o pede.
O meu kappa deu 0,45. É suficiente?
Está na faixa «moderada» de Landis e Koch, que é habitualmente considerada insuficiente para dar a codificação por concluída. O caminho é rever as categorias em que os desacordos se concentram — normalmente são duas ou três — clarificar as definições e recodificar. Reporte que houve duas rondas e o valor final.
Porque é que o kappa é baixo se o acordo bruto é alto?
É o chamado paradoxo do kappa e acontece quando a distribuição das categorias é muito desequilibrada: se 95 % dos casos pertencem a uma categoria, o acordo esperado ao acaso já é altíssimo e sobra pouca margem para o kappa. Nessas situações reporte ambos os valores e explique o desequilíbrio; existem índices alternativos concebidos precisamente para prevalências extremas.
Posso usar a correlação de Pearson para medir concordância?
Não. A correlação mede associação linear, não concordância. Dois avaliadores em que um pontua sistematicamente dois pontos acima do outro produzem uma correlação perfeita e uma concordância absoluta má. É exactamente esta a diferença entre o ICC de consistência e o ICC de concordância absoluta.
Que percentagem do corpus deve o segundo codificador codificar?
Não há regra universal. Uma fracção substancial e seleccionada aleatoriamente — frequentemente entre 10 % e 25 % do material — é a prática corrente em teses. O que não é aceitável é escolher a dedo os casos mais fáceis, nem deixar de declarar a fracção usada.
E se os dois avaliadores forem eu e o meu orientador?
É comum e aceitável, desde que a codificação seja independente e cega. Declare quem foram os codificadores e a sua formação — a experiência dos avaliadores é informação relevante para o leitor interpretar o valor obtido.
O kappa aplica-se à triagem de artigos numa revisão sistemática?
Sim, e é uma das utilizações mais frequentes: dois revisores decidem incluir ou excluir cada registo, e o kappa quantifica a concordância dessa decisão binária. Reporte-o na secção de selecção de estudos, com o procedimento de resolução de conflitos.
Qual escolho entre kappa ponderado linear e quadrático?
A ponderação quadrática penaliza os desacordos distantes muito mais do que a linear, pelo que tende a devolver valores mais altos quando os desacordos são sobretudo entre categorias adjacentes. A escolha deve ser feita antes de ver os resultados e justificada pela gravidade relativa dos erros no seu contexto. Declare sempre qual usou — «kappa ponderado» sem qualificação é ambíguo.
Preciso de calcular concordância se codifiquei tudo sozinho?
Não pode calcular concordância entre avaliadores com um único avaliador. O que pode fazer é concordância intra-avaliador: recodificar uma subamostra passadas algumas semanas, em cego relativamente às suas próprias decisões anteriores, e calcular o kappa entre as duas rondas. É uma evidência de fiabilidade mais fraca do que a inter-avaliadores, mas é muito melhor do que nenhuma.
Reporte a fiabilidade com a variante e a fonte certas
A maior parte dos problemas com estas estatísticas não está no cálculo — está no reporte: a variante não declarada, a faixa sem fonte, o ICC de medidas médias usado num desenho de medida única. O Tesify ajuda-o a redigir a secção de fiabilidade com todos os elementos que o júri procura. Comece gratuitamente.
Se o que precisa é da fiabilidade de uma escala e não de avaliadores, o problema é outro e a estatística também: veja como validar um questionário com o alfa de Cronbach.
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