Definição e Medição das Variáveis numa Tese de Finanças e Contabilidade: Tabela de Proxies (2026)
Numa dissertação de Finanças ou de Contabilidade, quase nenhum conceito se mede diretamente: “desempenho”, “estrutura de capital”, “liquidez” ou “risco” são ideias, e o que entra no modelo são proxies, isto é, medidas calculadas a partir das demonstrações financeiras ou do mercado. A secção de definição das variáveis é, por isso, uma das que o júri examina com mais atenção: se a fórmula de uma variável não estiver escrita, o resultado não é replicável. Este guia mostra como definir cada variável (conceito, proxy, fórmula, fonte, sinal esperado), apresenta uma tabela de proxies habituais com as respetivas fórmulas e explica os cuidados que evitam as perguntas mais incómodas na defesa.
Porque é que a definição das variáveis conta tanto em Finanças e Contabilidade
Duas teses podem dizer que estudam “o efeito da dimensão no endividamento” e chegar a resultados opostos, só porque medem o endividamento de formas diferentes: uma pelo passivo total sobre o ativo, a outra pelo passivo remunerado sobre o capital próprio. Em investigação empírica com demonstrações financeiras, essas escolhas têm de estar escritas e justificadas. A definição de uma variável tem sempre cinco partes:
- Conceito: o que o fenómeno é (por exemplo, estrutura de capital: a forma como a empresa se financia com dívida e com capital próprio).
- Proxy: a medida escolhida para o representar.
- Fórmula: as rubricas exatas e a unidade.
- Fonte: de onde vêm os dados (relatórios e contas, base de dados, entidade pública).
- Sinal esperado: o efeito previsto pela teoria ou pela hipótese, para confrontar com os resultados.
Um exemplo real de variáveis bem separadas
Silva e Lopes (2018), na revista Egitania Sciencia (vol. 1, n.º 22, pp. 75–93), estudaram a relação entre a internacionalização e a estrutura de capitais em 7001 empresas exportadoras do setor industrial transformador português, no período 2007–2013. Explicaram o nível de endividamento, distinguindo o endividamento geral, o de curto prazo e o de médio e longo prazo, a partir da intensidade exportadora, separando os mercados comunitários e extracomunitários. Repare nas escolhas de definição: o endividamento é três variáveis, não uma, e a intensidade exportadora é duas; cada uma responde a uma parte da hipótese. A teoria testada (Upstream-Downstream) prevê um sentido diferente conforme o destino das exportações, e é por isso que a tabela de variáveis tem de dar essa granularidade. Antes de copiar fórmulas, leia o artigo para confirmar como os autores definiram cada rácio.
Tabela de proxies habituais e respetivas fórmulas
As fórmulas seguintes são definições contabilísticas usadas com frequência em estudos de empresas. Não existe uma única forma “correta”: o que se exige é que escolha uma, a escreva e a use de forma consistente. Cite a fonte onde viu a definição.
| Conceito | Proxy habitual | Fórmula |
|---|---|---|
| Rendibilidade dos ativos | ROA | Resultado líquido / Ativo total |
| Rendibilidade do capital próprio | ROE | Resultado líquido / Capital próprio |
| Margem de lucro | Margem líquida | Resultado líquido / Vendas e serviços prestados |
| Endividamento total | Rácio de endividamento | Passivo total / Ativo total |
| Endividamento de curto prazo | Passivo corrente sobre ativo | Passivo corrente / Ativo total |
| Autonomia financeira | Rácio de autonomia | Capital próprio / Ativo total |
| Liquidez geral | Rácio de liquidez geral | Ativo corrente / Passivo corrente |
| Dimensão da empresa | Logaritmo do ativo ou das vendas | ln(Ativo total) ou ln(Vendas) |
| Crescimento | Taxa de crescimento das vendas | (Vendas no ano t − Vendas no ano t−1) / Vendas no ano t−1 |
| Intensidade de capital | Peso dos ativos fixos | Ativos fixos tangíveis / Ativo total |
| Eficiência na utilização dos ativos | Rotação do ativo | Vendas / Ativo total |
| Prazo de recebimentos | Prazo médio de recebimento | (Clientes / Vendas) × 365 |
| Cobertura dos encargos financeiros | Cobertura de juros | Resultado antes de juros e impostos / Gastos de financiamento |
| Idade da empresa | Anos de existência | Ano de observação − ano de constituição |
| Intensidade exportadora | Peso das exportações | Exportações / Vendas totais |
Para cada linha, acrescente na sua tabela as colunas “fonte” e “sinal esperado”. Se usa uma variável de mercado (por exemplo, o valor de mercado face ao valor contabilístico), indique a data e a base de cotações.

Definição conceptual e definição operacional em Finanças
A tabela acima é a parte operacional. A parte conceptual explica o fenómeno e a teoria. Por exemplo, em vez de escrever apenas “ROA = resultado líquido / ativo total”, escreva primeiro o que o conceito representa (a capacidade da empresa de gerar resultados com os recursos de que dispõe) e depois a proxy. Assim, quando o júri perguntar “porquê o resultado líquido e não o resultado operacional?”, a resposta já está no texto: a escolha depende do que o conceito pretende captar (o resultado depois de encargos financeiros e impostos ou apenas a atividade operacional) e deve ser justificada com a literatura.
Dados: de onde vêm as rubricas
As proxies calculam-se com rubricas das demonstrações financeiras: balanço, demonstração dos resultados e, quando necessário, anexo. No caso de empresas portuguesas, os dados podem vir dos relatórios e contas, de bases de dados de demonstrações financeiras a que a sua instituição tenha acesso ou de fontes públicas; o artigo sobre como obter contas e atos societários para a amostra da tese explica as vias disponíveis. Registe sempre a data de extração, o critério de seleção da amostra e as empresas excluídas (por exemplo, por falta de dados). Se tiver dúvidas sobre como organizar as variáveis num ficheiro de dados, o guia sobre o livro de códigos e o dicionário de variáveis propõe uma estrutura.
Exemplo completo de tabela de variáveis (ilustrativo)
Imagine uma tese que estuda os determinantes do endividamento de pequenas e médias empresas industriais, com dados anuais. A tabela seguinte é inventada para mostrar o formato completo, com as cinco partes da definição. Os sinais esperados são hipóteses que a sua tese teria de justificar com a literatura, não resultados.
| Variável | Papel | Proxy e fórmula | Fonte | Sinal esperado |
|---|---|---|---|---|
| Endividamento | Dependente | Passivo total / Ativo total | Balanço | — |
| Dimensão | Explicativa | ln(Ativo total) | Balanço | Positivo (a justificar) |
| Rendibilidade | Explicativa | Resultado líquido / Ativo total | Balanço e demonstração dos resultados | Negativo (a justificar) |
| Intensidade de capital | Explicativa | Ativos fixos tangíveis / Ativo total | Balanço | Positivo (a justificar) |
| Crescimento | Controlo | Variação percentual das vendas | Demonstração dos resultados | A definir |
| Idade | Controlo | Ano de observação menos ano de constituição | Registo comercial ou base de dados | A definir |
Observe duas coisas. A primeira é que cada linha pode ser repetida por outro investigador com as mesmas rubricas e obter o mesmo número. A segunda é que a coluna “sinal esperado” força o autor a ter uma hipótese antes de ver os resultados, o que torna a discussão mais honesta: se o sinal obtido for contrário, a tese tem de explicar porquê.
Variáveis de mercado e de governo das sociedades
Se a sua amostra inclui empresas cotadas, aparecem variáveis que não vêm das demonstrações financeiras: a cotação, a capitalização bolsista, o volume de transação ou a volatilidade. Para cada uma, indique a bolsa, a frequência (diária, mensal, anual), o dia de referência e a fonte. Misturar uma cotação de fecho do ano com valores contabilísticos de um balanço de uma data diferente cria um desfasamento que o júri pode apontar. As variáveis de governo das sociedades (dimensão do conselho de administração, independência de membros, dualidade de funções) vêm dos relatórios de governo societário; defina cada uma pela contagem ou pela proporção que efetivamente usou e cite a fonte.
Em teses de Contabilidade que estudam a qualidade da informação financeira, é comum usar medidas de gestão de resultados ou de acréscimos (accruals) estimadas por modelos. Nesses casos, a definição da variável inclui o modelo de estimação, os regressores e o período de estimação; descrever apenas “a gestão de resultados” sem o modelo equivale a não definir a variável.
Como escrever o parágrafo de definição (modelo)
O parágrafo seguinte é um modelo ilustrativo, para mostrar o tom e a ordem. Adapte-o às suas variáveis e fontes.
“A variável dependente é o endividamento total, definido como o rácio entre o passivo total e o ativo total no final de cada exercício, tal como no estudo de referência escolhido pelo autor, citado no texto. Esta medida capta o peso do financiamento por terceiros na estrutura de capital. A dimensão foi medida pelo logaritmo natural do ativo total, para reduzir a assimetria da distribuição. Os dados foram extraídos das demonstrações financeiras anuais individuais das empresas da amostra, na data de extração indicada, e todos os valores estão expressos em euros. As observações com capital próprio negativo foram mantidas e identificadas por uma variável auxiliar.”
No texto final, cite o estudo de referência real que seguiu; um parágrafo de definição sem fonte é o primeiro alvo de um júri.
Cuidados que o júri costuma testar
- Denominadores a zero ou negativos. Capital próprio negativo torna o ROE difícil de interpretar; decida como trata esses casos e escreva-o.
- Observações extremas. Rácios muito altos ou muito baixos podem dominar a regressão. Se usar um tratamento (por exemplo, limitar os valores extremos a certos percentis), descreva-o e mostre a robustez dos resultados.
- Valores desfasados. Se espera que uma variável afete outra com atraso, use o valor do ano anterior e justifique.
- Normas contabilísticas diferentes. Empresas que reportam segundo normas distintas não têm sempre as mesmas rubricas; confirme que a variável tem o mesmo significado em toda a amostra.
- Preços e unidades. Valores em euros de anos diferentes podem exigir deflação; indique a unidade.
- Variáveis demasiado correlacionadas. O ativo total e as vendas podem ser quase equivalentes como medida de dimensão; não as inclua ambas sem verificar a colinearidade.
- Variáveis categóricas. O setor, a forma jurídica ou a localização entram como variáveis dicotómicas; o guia sobre variáveis dummy e categoria de referência mostra como as definir.
Da tabela de variáveis ao modelo
Depois da tabela, escreva o modelo com as variáveis pelos nomes que usou, as hipóteses que ligam cada variável explicativa à dependente e o sinal esperado. Um exemplo ilustrativo, inventado: “H1: a dimensão da empresa (ln do ativo total) está positivamente associada ao endividamento total (passivo total sobre ativo total)”. Se os dados são de várias empresas ao longo de vários anos, o desenho é um painel, e o artigo sobre dados em painel: efeitos fixos ou aleatórios explica como escolher o estimador. Para decidir quantas variáveis explicativas cabem na sua amostra, veja quantos casos por variável na regressão.

Erros frequentes na definição de variáveis
- Chamar “endividamento” a rácios diferentes ao longo do texto.
- Fórmulas ausentes, com apenas o nome do rácio.
- Proxy que não mede o conceito (por exemplo, usar a dimensão como medida de risco sem justificar).
- Mistura de unidades, como valores em euros e em milhares de euros.
- Sinal esperado omitido, que impede confrontar os resultados com a teoria.
- Tratamento de casos extremos não declarado.
- Fonte dos dados sem data de extração.
Checklist antes de entregar
- Cada variável tem conceito, proxy, fórmula, fonte e sinal esperado.
- As fórmulas indicam as rubricas exatas das demonstrações financeiras e a unidade.
- O tratamento de casos extremos e de dados em falta está descrito.
- A amostra e os critérios de exclusão estão descritos, com a data de extração.
- A tabela de variáveis coincide com as variáveis do modelo e das regressões.
- Os nomes das variáveis são os mesmos em todo o texto.
Perguntas Frequentes
O que é uma proxy numa tese de Finanças?
É uma medida calculada que representa um conceito que não se observa diretamente. Por exemplo, a rendibilidade dos ativos (ROA) é uma proxy do desempenho da empresa. A escolha da proxy tem de ser justificada com a literatura.
Posso usar as fórmulas de outro estudo?
Pode, desde que cite o estudo e confirme que as rubricas existem nos seus dados. Se alterar a fórmula, diga-o e justifique.
Preciso de definir variáveis de controlo?
Sim, com o mesmo rigor das variáveis principais. As variáveis de controlo, como a dimensão e a idade da empresa, entram na tabela com conceito, fórmula e fonte.
Qual é a diferença entre ROA e ROE?
O ROA divide o resultado líquido pelo ativo total e mede a rendibilidade de todos os recursos; o ROE divide-o pelo capital próprio e mede a rendibilidade para os sócios. As duas dependem de como a empresa se financia, por isso podem dar leituras diferentes.
O que fazer com empresas com capital próprio negativo?
Decida antes de analisar: excluir, manter com uma nota ou tratar à parte. O importante é declarar o critério e mostrar que os resultados não dependem dele.
Preciso de uma tabela de variáveis mesmo numa tese qualitativa?
Em estudos qualitativos de Contabilidade, o equivalente é uma tabela de conceitos e categorias de análise. A lógica de explicitar a definição de cada elemento mantém-se.
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