Como Construir o Livro de Códigos da Tese: Dicionário de Variáveis Passo a Passo (2026)
O livro de códigos é o documento que explica o que cada coluna da sua base de dados significa: o nome da variável, a pergunta que lhe deu origem, os valores possíveis e o que cada valor representa. Sem ele, ninguém — incluindo o próprio autor três meses depois — consegue reproduzir a análise. Constrói-se enquanto se prepara os dados, não no fim.
É também a peça que separa uma base de dados utilizável de uma folha de Excel com colunas chamadas P1, P2 e P3a. Este guia leva-o pelos oito passos, na ordem em que se fazem, com as convenções que o SPSS impõe e os erros que custam mais tempo a corrigir depois.

sat3r.Passo 1 — Decida onde o livro de códigos vai viver
Tem duas opções, e a resposta certa é normalmente as duas ao mesmo tempo.
Dentro do ficheiro de dados. No SPSS, o separador Variable View é um livro de códigos: cada linha é uma variável e as colunas Name, Label, Values, Missing, Measure guardam exactamente a informação que precisa de registar. A vantagem é que viaja com os dados e o output sai já legível. Em R, o equivalente é atribuir atributos ou usar um ficheiro de rótulos separado; em Excel não existe equivalente, o que é a principal razão para não manter só o Excel.
Num documento à parte. Uma folha de cálculo com uma linha por variável, que pode imprimir, anexar à tese e entregar ao júri. É esta versão que vai para os anexos.
Comece pela segunda, porque é onde pensa, e transponha para a primeira à medida que constrói o ficheiro. As colunas mínimas do documento à parte são sete: nome da variável, etiqueta, pergunta original, tipo, nível de medida, valores e códigos de omissão.
Passo 2 — Fixe uma convenção de nomes antes da primeira variável
Os nomes das variáveis são a única coisa deste processo que é penosa mudar depois, porque aparecem na sintaxe, nos outputs guardados e nos gráficos já produzidos. Decida a convenção uma vez e não a altere.
Regras que funcionam bem e são compatíveis com SPSS, R e Stata:
- Minúsculas, sem acentos, sem espaços.
satisf_geral, nãoSatisfação Geral. Acentos em nomes de variáveis causam problemas de codificação ao exportar. - Comece por uma letra e use apenas letras, dígitos e underscore.
- Prefixo por escala. Todos os itens de uma escala partilham o prefixo e diferem no número:
servq01aservq22. Isto permite seleccioná-los todos de uma vez no SPSS. - Numere com dois dígitos se a escala tiver dez ou mais itens.
item01ordena correctamente;item1coloca oitem10antes doitem2. - Marque as variáveis derivadas com um sufixo consistente:
_rpara itens invertidos,_totpara somatórios,_zpara padronizadas,_recpara recodificadas.
Não codifique informação essencial só no nome. O nome é um identificador curto; o significado vive na etiqueta.
Passo 3 — Escreva a etiqueta de cada variável
A etiqueta (Label, no SPSS) é o texto que aparece nas tabelas de resultados em vez do nome críptico. É o que transforma um output ilegível numa tabela que pode quase colar na tese.
Uma etiqueta útil é uma frase curta que identifica o construto e, se necessário, a direcção: «Satisfação global com o serviço (1 = nada satisfeito)». Se a variável for um item de escala, inclua o texto do item — abreviado se for longo. O SPSS aceita etiquetas longas, mas as tabelas ficam mais legíveis abaixo de cerca de sessenta caracteres.
Guarde a pergunta original completa numa coluna separada do documento à parte. É essa que responde à pergunta do júri «o que é que perguntou exactamente?», e é essa que permite a alguém replicar o seu instrumento.

Passo 4 — Defina o tipo e o nível de medida
O SPSS pede duas coisas distintas que se confundem com frequência. O tipo (Type) é técnico: numérico, string, data. O nível de medida (Measure) é estatístico: nominal, ordinal ou escala.
Duas consequências práticas, e ambas causam erros reais:
- Guarde tudo o que puder como numérico. Uma variável de sexo guardada como texto («Feminino», «feminino», «F») cria três categorias em vez de uma. Codifique 1 e 2 e ponha os rótulos nos valores.
- O nível de medida controla o que o software lhe deixa fazer e o que sugere por defeito. Uma escala Likert somada é normalmente tratada como escala; um item Likert isolado é ordinal. Registe a decisão no livro de códigos, porque é uma escolha metodológica que pode ter de defender.
Defina também as casas decimais. Deixar duas casas numa variável que só tem inteiros enche as tabelas de zeros desnecessários.
Passo 5 — Rotule todos os valores das variáveis categóricas
Esta é a coluna Values do SPSS, e é o coração do livro de códigos. Para cada variável nominal ou ordinal, registe o que significa cada número.
Convenções que evitam problemas mais à frente:
- Comece em 1, não em 0, excepto em variáveis binárias que vão entrar numa regressão — aí
0 = nãoe1 = simtorna o coeficiente directamente interpretável. - Mantenha a ordem numérica alinhada com a ordem conceptual nas variáveis ordinais. Se 1 é «discordo totalmente», 5 tem de ser «concordo totalmente» — nunca o inverso em algumas variáveis e não noutras.
- Rotule sempre, mesmo quando parece óbvio. «1 = masculino» é óbvio hoje e não é óbvio daqui a seis meses, quando tiver quatro ficheiros com convenções diferentes.
- Nunca reutilize um código com significados diferentes entre variáveis do mesmo bloco.
Passo 6 — Declare os códigos de omissão (e não os deixe passar por dados)
É aqui que se perde mais tempo em teses quantitativas, e o erro é sempre o mesmo: um código de omissão que o software leu como um valor real.
Se codificar «não responde» como 99 e não declarar o 99 como valor omisso, a média da variável sobe drasticamente e nenhum aviso é emitido. O resultado é um capítulo de resultados inteiro construído sobre médias erradas.

O procedimento correcto tem três partes:
- Use códigos impossíveis para o intervalo da variável. Numa Likert de 1 a 5, o 9 serve; numa variável de idade, não — use 999.
- Distinga os tipos de omissão. Não é a mesma coisa não responder, não se aplicar, ou o participante ter abandonado o questionário. Códigos diferentes (por exemplo 97, 98, 99) preservam essa informação e permitem descrever o padrão de omissão no capítulo de método.
- Declare-os na coluna Missing de cada variável, uma a uma. É este passo que é esquecido — declarar no livro de códigos e não no ficheiro não protege de nada.
Depois de declarados, confirme o número de casos válidos de cada variável com uma tabela de frequências antes de qualquer análise. Sobre o que fazer com as omissões depois de as ter identificado correctamente, veja como lidar com dados em falta.
Passo 7 — Documente todas as variáveis derivadas
Qualquer variável que não venha directamente do instrumento precisa de uma linha própria no livro de códigos e de um registo de como foi criada. São quatro casos típicos:
- Itens invertidos. Registe a fórmula exacta — numa escala de 1 a 5, o item invertido é
6 − valor original— e guarde a variável nova em vez de sobrescrever a original. - Pontuações de escala. Indique que itens entram, se é soma ou média, e o que faz quando falta um item. «Média dos itens respondidos se pelo menos 80 % estiverem preenchidos» é uma regra explícita; «média» não é.
- Recodificações e agrupamentos. Se agrupou idades em escalões, registe os pontos de corte e se são inclusivos ou exclusivos.
- Variáveis dummy. Registe qual é a categoria de referência — a que fica de fora — porque é dela que depende a leitura de todos os coeficientes.
Guarde a sintaxe. No SPSS, cada transformação feita pelos menus tem um botão Paste que escreve o comando num ficheiro de sintaxe. Um ficheiro .sps com todas as transformações pela ordem em que foram feitas é o complemento natural do livro de códigos: junto, permite reconstruir a base de dados analítica a partir da base bruta. É também a resposta mais forte que existe à pergunta «como chegou a este número?».
Passo 8 — Feche, verifique e anexe
Antes de considerar o livro de códigos terminado, faça três verificações rápidas:
- Contagem. O número de linhas do livro de códigos é igual ao número de colunas da base de dados? Uma discrepância significa uma variável não documentada ou uma linha a mais.
- Amplitudes. Corra frequências de todas as variáveis categóricas e mínimos e máximos de todas as contínuas. Qualquer valor fora do intervalo declarado é um erro de introdução — e é mais barato encontrá-lo agora do que quando um valor atípico distorcer um modelo.
- Teste do estranho. Peça a alguém que não trabalhou nos dados para localizar três variáveis específicas usando só o livro de códigos. Se não conseguir, faltam etiquetas.
Anexe a versão em documento à tese. Muitos regulamentos não a exigem explicitamente, mas nenhum a proíbe, e é um anexo que sinaliza rigor sem custar páginas de argumentação. Se pretende depositar os dados num repositório, o livro de códigos é obrigatório na prática — o enquadramento está em gestão de dados de investigação, FAIR e repositórios.
Os erros que custam mais tempo
| Erro | O que acontece | Prevenção |
|---|---|---|
| Código de omissão não declarado | Médias e desvios errados, sem qualquer aviso | Declarar em Missing, variável a variável |
| Sobrescrever a variável original ao inverter itens | Impossível voltar atrás ou verificar | Criar sempre uma variável nova com sufixo _r |
| Categorias em texto livre | «Sim», «sim» e «SIM» contam como três categorias | Codificar em numérico e rotular os valores |
| Nomes com um só dígito | A ordenação alfabética baralha os itens | Numerar com dois dígitos |
| Transformações feitas só pelos menus | Não há registo de como a variável foi criada | Usar Paste e guardar a sintaxe |
| Livro de códigos escrito no fim | Metade das decisões já foi esquecida | Preencher à medida que se constrói o ficheiro |
Perguntas frequentes
O livro de códigos é obrigatório na tese?
Raramente é exigido por regulamento, mas é frequentemente pedido pelo orientador e é sempre um bom anexo. Onde se torna praticamente obrigatório é no depósito de dados num repositório e em qualquer submissão a revista que exija dados abertos.
Qual é a diferença entre livro de códigos e dicionário de variáveis?
Na prática nenhuma, e os dois termos usam-se como sinónimos. Alguns autores reservam «dicionário de variáveis» para a lista técnica de nomes, tipos e valores, e «livro de códigos» para o documento mais completo que inclui também a pergunta original e as regras de derivação. Use um termo e defina-o na primeira utilização.
Posso fazer o livro de códigos só no fim, quando os dados estiverem prontos?
Pode, e vai custar-lhe muito mais tempo. As decisões que precisa de registar — porque agrupou assim, porque excluiu aquele caso, que regra usou para as omissões parciais — são tomadas ao longo de semanas e esquecem-se depressa. Preencha à medida.
E se usar R em vez de SPSS?
A lógica é idêntica e o registo passa a viver no script. Mantenha na mesma o documento à parte para o anexo, porque um script não é um livro de códigos legível para o júri. Pacotes de rotulagem permitem guardar etiquetas de variável e de valor no próprio objecto de dados.
Como documento perguntas de resposta múltipla?
Cada opção passa a ser uma variável binária própria — motivo_a, motivo_b — com 0 e 1. Registe no livro de códigos que pertencem ao mesmo grupo e se o respondente podia escolher várias. Guardar todas as respostas numa só coluna separada por vírgulas torna a variável inanalisável.
Devo registar as datas de recolha?
Sim, se a recolha decorreu ao longo de semanas ou por vagas. Uma variável de data ou de vaga permite verificar se os primeiros e os últimos respondentes diferem, que é uma verificação relevante quando a taxa de resposta foi baixa.
O que faço se descobrir um erro de codificação já com a análise feita?
Corrija na base bruta, volte a correr a sintaxe completa e refaça a análise. É precisamente para este cenário que serve manter o ficheiro de sintaxe: sem ele, a correcção obriga a repetir manualmente todos os passos e a esperança de não falhar nenhum.
Preciso de um livro de códigos numa tese qualitativa?
Precisa de um equivalente, com outro nome e outra função: o sistema de códigos temáticos, com definição, critérios de inclusão e exemplo para cada código. A lógica é a mesma — tornar explícita uma decisão que de outro modo fica na cabeça do investigador.
Chegue à análise com os dados prontos
O tempo que uma tese quantitativa perde não está nos testes estatísticos — está em descobrir, a meio da análise, que uma variável está mal codificada e que ninguém registou porquê. O Tesify ajuda-o a estruturar o capítulo de método com a descrição das variáveis, a documentar as decisões de codificação e a transformar o livro de códigos num anexo apresentável. Comece agora, gratuitamente.
Com os dados documentados, o passo seguinte é a preparação no software: o percurso completo está em como preparar e analisar o dataset da tese no SPSS.
Escreve a tua tese ou TCC com IA
Editor inteligente, bibliografia automática (APA e ABNT) e verificação antiplágio num só sítio. Mais de 9.000 estudantes já escrevem em metade do tempo.
