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Modelo de Análise numa Tese de Ciências Sociais: Como Construí-lo (Quivy e Campenhoudt) (2026)

Modelo de Análise numa Tese de Ciências Sociais: Como Construí-lo (Quivy e Campenhoudt) (2026)

Em Sociologia, Serviço Social, Ciência Política, Educação e outras ciências sociais, muitas dissertações portuguesas seguem o percurso do Manual de Investigação em Ciências Sociais, de Raymond Quivy e Luc Van Campenhoudt, e é aí que aparece uma peça que os orientadores pedem muitas vezes e os estudantes raramente sabem escrever: o modelo de análise. É o ponto em que a perspetiva teórica se transforma em conceitos, dimensões, indicadores e hipóteses que podem ser observados. Este guia explica o que é, onde se coloca entre as sete etapas do percurso, como o construir passo a passo, como desenhá-lo num esquema e que erros evitar, com um exemplo original.

O percurso em sete etapas e o lugar do modelo de análise

O manual, publicado em Portugal pela Gradiva (1.ª edição em 1992, com várias edições posteriores; cite a edição que consultou), organiza a investigação em sete etapas: a pergunta de partida, a exploração, a problemática, a construção do modelo de análise, a observação, a análise das informações e as conclusões. O modelo de análise é a quarta etapa e está no centro do percurso: antes dele, trabalha-se a pergunta, as leituras e as entrevistas exploratórias e escolhe-se a perspetiva teórica; depois dele, observa-se e analisa-se.

A lógica geral assenta em três atos: a ruptura, a construção e a verificação. O facto social é conquistado contra as pré-noções (ruptura), construído pela razão (construção) e verificado nos factos (verificação). O modelo de análise pertence ao ato de construção: é onde o investigador deixa de ter apenas uma ideia e passa a ter uma estrutura que pode confrontar com os dados.

Problemática, quadro teórico e modelo de análise: três coisas diferentes

Peça O que é Pergunta a que responde
Problemática A abordagem ou perspetiva teórica adotada para tratar o problema formulado pela pergunta de partida De que ângulo teórico vamos olhar para este problema?
Quadro teórico Apresentação das teorias, dos conceitos e da evidência existentes O que já se sabe e com que conceitos?
Modelo de análise Articulação operacional dos conceitos e das hipóteses que vão guiar a observação e a análise O que vamos observar, com que conceitos e que relações esperamos encontrar?

Os manuais lembram que não se pode realizar uma boa observação sem ter elaborado previamente um bom modelo de análise. Na prática, isto quer dizer que o capítulo de metodologia não pode começar com “aplicámos um inquérito” sem que o leitor saiba que conceitos o inquérito mede e que hipóteses vai testar. Para decidir entre uma teoria clássica e uma emergente no seu enquadramento, o artigo sobre marco teórico clássico ou emergente ajuda a tomar a decisão.

O que contém um modelo de análise

O modelo de análise é composto por conceitos e por hipóteses ligados entre si. Cada hipótese apresenta-se como uma resposta provisória à pergunta de partida; por isso, antes de o construir, convém reformular a pergunta central, o que garante que as hipóteses ficam coerentes. Quanto aos conceitos, para poderem ser observados são decompostos em dimensões e estas em indicadores, que são as informações concretas que a observação vai recolher (respostas a perguntas, comportamentos, documentos).

O investigador pode, na construção, dar mais importância às hipóteses e tratar os conceitos como instrumentos, ou o contrário, partir dos conceitos e deixar as hipóteses mais abertas. Em estudos quantitativos costuma haver hipóteses explícitas e variáveis medidas; em estudos qualitativos, o modelo pode ser mais aberto, com pistas de leitura e conceitos que orientam as entrevistas, a ser refinados com os dados.

Seis passos para construir o modelo de análise

  1. Reescreva a pergunta de partida numa frase clara e verifique que a problemática a sustenta.
  2. Escolha os conceitos centrais. Só os que a pergunta exige, normalmente entre dois e quatro. Defina cada um com a fonte (veja como separar definição conceptual e operacional em como definir os conceitos da tese de Psicologia, que segue a mesma lógica noutra disciplina).
  3. Decomponha cada conceito em dimensões. As dimensões são os aspetos em que o conceito se desdobra e que a teoria justifica.
  4. Escolha indicadores para cada dimensão. Para cada um, indique como será observado: pergunta de inquérito, tópico de entrevista, documento, registo administrativo.
  5. Formule as hipóteses. Cada hipótese liga conceitos (ou dimensões) e responde provisoriamente à pergunta. Uma hipótese sem conceitos operacionalizados não é testável.
  6. Desenhe o esquema e escreva o texto. Uma figura com os conceitos, as dimensões e as setas das hipóteses, acompanhada de um texto que justifica cada relação.

O processo não é linear. Em alguns estudos, as hipóteses e as perguntas mudam durante o trabalho, e o trabalho empírico é reorientado à medida que o aprofundamento teórico avança, num diálogo entre teoria e dados. Por isso, o modelo de análise que entrega na tese deve ser a versão final, e o texto deve dizer, se for o caso, como a versão inicial foi alterada.

Grupo de estudantes a desenhar um esquema de conceitos e setas numa parede com notas autocolantes
O modelo de análise liga conceitos, dimensões e hipóteses: cada seta do esquema é uma afirmação que a observação vai verificar.

Exemplo original (ilustrativo): participação associativa dos jovens

O exemplo seguinte é inventado, para mostrar como se constrói o modelo. Não descreve nenhum estudo real nem resultados.

Pergunta de partida: em que medida a escolaridade e a rede de amigos influenciam a participação associativa dos jovens de um concelho?

Problemática: uma abordagem que liga a participação cívica aos recursos sociais dos indivíduos (educação e redes), citando as fontes primárias escolhidas.

Hipóteses:

  • H1: quanto maior o nível de escolaridade, maior a participação associativa.
  • H2: quanto maior a rede de amigos que participam em associações, maior a participação.
  • H3: o efeito da rede de amigos é mais forte entre os jovens com menor escolaridade.

Operacionalização: a tabela seguinte mostra a cadeia de conceito, dimensão, indicador e forma de observação:

Conceito → Dimensão → Indicador → Como se observa
Participação associativa → Pertença → É membro de pelo menos uma associação → Pergunta de inquérito sim/não
Participação associativa → Envolvimento → Frequência de atividades por mês → Pergunta de inquérito com categorias
Recursos educativos → Escolaridade → Nível de ensino concluído → Pergunta de inquérito com categorias
Rede social → Amigos participantes → Número de amigos próximos que participam em associações → Pergunta de inquérito numérica

Observe como cada hipótese tem um conceito que pode ser medido e como cada conceito tem pelo menos um indicador. É isto que permite passar à observação sem ambiguidades. A análise estatística que corresponderia a este desenho, comparação de grupos e associação entre variáveis ordinais, está descrita em que teste estatístico usar numa tese de Sociologia.

Como desenhar e escrever o modelo

O esquema final pode ser simples: caixas para os conceitos (com as dimensões dentro ou ao lado), setas para as hipóteses e uma legenda. O texto que o acompanha deve ter quatro partes: (1) a pergunta de partida e a problemática, com as fontes; (2) os conceitos e as suas dimensões, definidos; (3) as hipóteses, uma a uma, com a justificação teórica; (4) os indicadores e a forma de observação. Se a sua tese é qualitativa, o texto descreve os conceitos que orientam as entrevistas e os tópicos do guião, e admite que as categorias serão refinadas com a análise.

Para ver o mesmo exercício num estudo de comunicação, com conceitos e hipóteses de teorias de média, veja como formular hipóteses numa tese de Comunicação.

Da tabela ao instrumento: as perguntas que decorrem dos indicadores

Depois de montar a tabela de operacionalização, escreva uma pergunta de inquérito (ou um tópico de entrevista) para cada indicador. No exemplo anterior, os indicadores dariam origem a perguntas como: “É membro de alguma associação? (sim/não)”; “Em média, quantas vezes por mês participa em atividades da associação?”; “Qual é o nível de ensino mais elevado que concluiu?”; “Quantos dos seus amigos mais próximos participam em associações?”. Se não consegue escrever uma pergunta para um indicador, o indicador não está bem definido; se escreve perguntas que não correspondem a nenhum indicador, essas perguntas estão a mais e alongam o questionário sem servir o modelo.

Esta correspondência entre indicadores e perguntas é uma das verificações que o júri mais valoriza, porque mostra coerência entre o modelo, o instrumento e a análise. Uma tabela de três colunas (indicador, pergunta, hipótese a que responde) resolve o problema e pode ir em apêndice.

O modelo de análise numa tese qualitativa (exemplo ilustrativo)

Num estudo qualitativo, o modelo de análise existe, mas não funciona da mesma forma. Imagine, a título de exemplo inventado, uma tese sobre o acesso à habitação de jovens que deixaram a casa dos pais. A pergunta de partida seria: como é que os jovens vivem e explicam as dificuldades de acesso à habitação autónoma? O modelo teria conceitos orientadores, não hipóteses fechadas:

  • Acesso à habitação: dimensões como a procura, o custo percebido e as alternativas encontradas (partilha de casa, regresso à casa familiar). Tópicos de entrevista: como procurou casa, que critérios usou, que obstáculos encontrou.
  • Recursos e apoios: dimensões como o apoio familiar e as redes de contactos. Tópicos: quem ajudou, de que forma, em que momentos.
  • Experiência da transição: dimensões como as expectativas e as decisões adiadas. Tópicos: o que esperava e o que aconteceu.

As pistas de leitura (por exemplo, “o apoio familiar condiciona as alternativas ao arrendamento”) são hipóteses provisórias que orientam as entrevistas e que a análise confirma, refina ou rejeita. O que distingue este modelo de uma lista de tópicos é que cada conceito tem dimensões justificadas pela teoria e as pistas decorrem da problemática. Na defesa, a pergunta típica é “como decidiu o que perguntar?”; o modelo é a resposta.

Quando passar à análise do material qualitativo, guarde o modelo como grelha inicial e registe como as categorias emergentes o alteraram; o artigo sobre como apresentar os resultados de uma tese qualitativa mostra como organizar essa apresentação.

Erros frequentes no modelo de análise

  • Conceitos demais. Um modelo com dez conceitos não se consegue observar; escolha os centrais.
  • Conceitos sem dimensões nem indicadores, o que torna a observação impossível de justificar.
  • Hipóteses que não decorrem da problemática ou que respondem a outra pergunta.
  • Esquema diferente do texto. A figura mostra relações que o texto não justifica, ou o contrário.
  • Misturar o quadro teórico com o modelo. O quadro teórico apresenta o que existe; o modelo diz o que o seu estudo usa.
  • Indicadores que não medem o conceito (por exemplo, medir participação cívica só pelo voto).
  • Esquecer a ligação ao instrumento. Cada indicador deve ter uma pergunta de inquérito ou um tópico de entrevista correspondente.
Investigador a rever um guião de entrevista e um quadro de indicadores numa mesa de trabalho
Cada indicador do modelo deve ter correspondência numa pergunta do inquérito ou num tópico do guião de entrevista.

Checklist antes de entregar

  • A pergunta de partida e a problemática estão escritas e citam fontes.
  • Os conceitos centrais estão definidos e têm dimensões e indicadores.
  • As hipóteses decorrem da problemática e ligam conceitos observáveis.
  • O esquema coincide com o texto e tem legenda.
  • Cada indicador tem uma pergunta ou um tópico no instrumento.
  • As alterações ao modelo ao longo do trabalho estão declaradas.

Perguntas Frequentes

O que é o modelo de análise de Quivy e Campenhoudt?

É a quarta etapa do percurso de investigação proposto no Manual de Investigação em Ciências Sociais: a articulação operacional dos conceitos e das hipóteses que vão guiar a observação e a análise. Decompõe os conceitos em dimensões e indicadores e liga-os às hipóteses.

Qual é a diferença entre modelo de análise e quadro teórico?

O quadro teórico apresenta as teorias e os conceitos existentes sobre o tema. O modelo de análise é a escolha operacional que o seu estudo faz a partir deles: que conceitos, que dimensões, que indicadores e que hipóteses.

Todas as teses precisam de hipóteses?

Não necessariamente. Estudos exploratórios ou qualitativos podem trabalhar com perguntas e pistas de leitura em vez de hipóteses fechadas. O modelo de análise, nesses casos, descreve os conceitos que orientam a recolha e a forma como serão refinados.

Quantos conceitos deve ter o modelo?

Poucos. Um modelo com dois a quatro conceitos centrais costuma ser observável numa dissertação; mais do que isso torna difícil medir bem cada um. Justifique a escolha pela pergunta de partida.

O modelo de análise pode mudar durante a investigação?

Pode. O processo não é linear, e a observação pode revelar factos inesperados que levam a afinar as hipóteses. Descreva as alterações na tese e entregue o modelo final.

Posso usar o modelo de análise em Enfermagem ou Gestão?

Pode, é uma estrutura geral de investigação empírica. Em Enfermagem o termo equivalente costuma ser quadro conceptual, associado a uma teoria da disciplina; em Gestão, modelo conceptual com hipóteses. A lógica é a mesma: conceitos, relações e hipóteses ligados à pergunta.

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