Posso Publicar um Artigo com Dados da Tese Antes de a Defender? Guia 2026

Posso Publicar um Artigo com Dados da Tese Antes de a Defender? Guia 2026

Sim. Publicar um artigo científico com resultados da tese antes da defesa é permitido, comum e, em muitos programas de doutoramento, esperado. As restrições relevantes não vêm da instituição de ensino: vêm das políticas de autoria, das regras de cedência de direitos das revistas e da necessidade de evitar autoplágio no texto final da tese.

Resposta curta: Nenhuma regra geral proíbe publicar antes de defender, e o calendário torna-o quase inevitável no doutoramento — a revisão por pares demora frequentemente mais tempo do que resta até à defesa. As quatro questões a resolver antes de submeter são: (1) quem assina e por que ordem; (2) se o contrato da revista permite depositar a tese no repositório institucional ou impõe embargo; (3) como citar o próprio artigo dentro da tese para não incorrer em autoplágio; e (4) se o regulamento do curso admite o formato de tese por artigos, que muda tudo o resto.

Porque é permitido — e frequentemente esperado

A investigação existe para ser comunicada, e a tese é apenas um dos formatos possíveis dessa comunicação. Em muitos programas de doutoramento portugueses, a publicação de artigos durante o percurso é um indicador de progresso valorizado nos relatórios anuais de acompanhamento, e nalguns casos constitui requisito formal para admissão a provas.

Há também uma razão puramente prática: o calendário editorial não se compadece com o calendário académico. Entre a submissão de um artigo e a sua publicação decorrem frequentemente muitos meses, contando com uma ou duas rondas de revisão por pares. Quem espera pela defesa para submeter adia a primeira publicação para bem depois do fim do doutoramento — precisamente no momento em que ela mais conta para candidaturas a bolsas de pós-doutoramento e a concursos de emprego científico.

Um ponto que gera dúvida frequente: a esmagadora maioria das revistas não considera uma tese depositada num repositório institucional como publicação prévia. Ou seja, ter a tese em acesso aberto não impede, por si só, publicar um artigo derivado dela. Ainda assim, esta política varia entre editoras e deve ser verificada nas instruções aos autores antes de submeter.

Manuscrito científico com comentários de revisores anotados nas margens
Os revisores fazem, gratuitamente, parte do trabalho que o júri faria depois.

Quem assina o artigo

Esta é a conversa que mais vale a pena ter cedo, de preferência antes de escrever a primeira versão. Na prática corrente, um artigo derivado da tese é assinado pelo estudante como primeiro autor e pelo orientador como coautor — mas isto não é automático nem universal.

Os critérios internacionalmente aceites exigem, para ser autor, uma contribuição substancial em várias dimensões: conceção ou desenho do estudo, ou recolha, análise e interpretação dos dados; redação ou revisão crítica do conteúdo intelectual; aprovação da versão final; e responsabilidade por todos os aspetos do trabalho. Quem apenas facilitou o acesso ao terreno, financiou o projeto ou reviu a língua não cumpre estes critérios e deve figurar nos agradecimentos, não na lista de autores.

Duas situações merecem acordo explícito e prévio, idealmente por escrito: a ordem dos autores e quem será o autor de correspondência, que assume a comunicação com a revista e a responsabilidade de longo prazo pelo artigo. O guia sobre critérios de autoria científica e ordem dos autores detalha os referenciais usados para dirimir estas questões antes que se tornem conflitos.

Autoplágio: o risco real e como evitá-lo

Aqui está o risco concreto, e é subestimado. Se publicar um artigo em maio e entregar a tese em setembro com parágrafos idênticos, o software de deteção de semelhanças vai assinalar essa sobreposição — e, do ponto de vista formal, o texto publicado já não é inédito.

Isto não invalida a tese, mas exige tratamento explícito. As boas práticas são três:

  • Declarar na tese quais os capítulos ou secções que deram origem a publicações, com a referência bibliográfica completa. Faz-se habitualmente numa nota preliminar ou no início do capítulo correspondente.
  • Citar o próprio artigo como qualquer outra fonte quando reutilizar texto, dados ou figuras. A autocitação é legítima e transparente; a reutilização silenciosa não é.
  • Reescrever em vez de copiar sempre que possível. Um artigo e um capítulo de tese têm públicos, extensões e funções diferentes: o capítulo pode ser mais extenso no enquadramento teórico e na descrição metodológica, e o artigo mais condensado.

Atenção especial às figuras e tabelas: se cedeu os direitos à revista, reutilizá-las na tese pode exigir autorização formal da editora, ainda que seja o próprio autor. Muitas editoras concedem esse direito automaticamente aos autores para uso em teses, mas convém confirmar por escrito e guardar o comprovativo.

Direitos de autor, embargo e depósito no repositório

Quando um artigo é aceite, o autor assina um contrato com a revista. Esse contrato determina o que pode fazer com as diferentes versões do trabalho — e é isso que colide, ou não, com a obrigação de depositar a tese no repositório institucional.

Depósito de uma tese num repositório institucional de acesso aberto
Quando o contrato impõe embargo, a tese deposita-se com acesso restrito temporário.

Convém distinguir três versões, porque as políticas editoriais tratam-nas de forma diferente:

  • Preprint — a versão anterior à revisão por pares. Habitualmente a mais livre de depositar.
  • Postprint (manuscrito aceite) — a versão revista e aceite, mas sem a paginação e o desenho da revista. É a versão que a maioria das políticas de acesso aberto permite depositar, muitas vezes após um período de embargo.
  • Versão publicada (PDF do editor) — a versão final formatada. É a mais restrita, salvo em revistas de acesso aberto.

Quando o contrato impõe embargo, a solução habitual é depositar a tese no repositório com acesso restrito temporário, libertando-a no fim do período acordado. O processo e as suas implicações estão detalhados no guia sobre embargo e acesso restrito no depósito da tese. Antes de assinar qualquer cedência de direitos, vale a pena rever o que está em causa no guia sobre direitos de autor, autoarquivo e licenças.

Cenários e o que fazer em cada um

Situação Pode publicar antes da defesa? Cuidado principal
Tese clássica (monografia), doutoramento Sim, e é habitual Declarar as publicações na tese e citar-se a si próprio
Dissertação de mestrado Sim, embora menos comum Acordar autoria com o orientador antes de submeter
Tese por artigos Sim — é a própria estrutura exigida Cumprir o número mínimo de artigos e o estado de publicação exigido
Dados sob acordo de confidencialidade Só com autorização da entidade Verificar o acordo assinado antes de qualquer submissão
Investigação com potencial de patente Avaliar caso a caso Divulgar antes do pedido pode inviabilizar a proteção

O último caso merece destaque porque é o único em que publicar cedo pode causar dano irreversível: em matéria de patentes, a divulgação pública anterior ao pedido de proteção pode destruir o requisito de novidade. Se a investigação tem potencial de transferência de tecnologia, fale com o gabinete de valorização do conhecimento da instituição antes de submeter seja o que for, incluindo um preprint ou um resumo de congresso.

Se o curso admite tese por artigos

Neste formato, a questão inverte-se: publicar antes da defesa deixa de ser uma opção e passa a ser o requisito. A tese é constituída por um conjunto de artigos publicados, aceites ou submetidos, unidos por uma introdução geral e uma discussão integradora.

Os regulamentos variam bastante quanto ao número mínimo de artigos, ao estado exigido (publicado, aceite, ou submetido é suficiente), à exigência de primeira autoria e à indexação das revistas. Estas condições estão detalhadas no guia sobre tese por artigos e as regras das universidades portuguesas. Verificar estes requisitos antes de escolher onde submeter cada artigo evita a situação mais frustrante deste formato: ter três artigos publicados que não contam porque não cumprem um critério de indexação.

Quando submeter, na prática

A sequência que funciona melhor para a maioria dos doutorandos é esta: submeter o primeiro artigo quando o primeiro estudo empírico estiver concluído e analisado, sem esperar pela tese completa. Enquanto esse artigo está em revisão, avança-se no estudo seguinte. Quando chegam os comentários dos revisores, o trabalho de resposta enriquece diretamente o capítulo correspondente da tese — os revisores fazem, gratuitamente, parte do trabalho que o júri faria depois.

Este ciclo tem um efeito secundário valioso: obriga a fechar análises que, de outro modo, ficariam abertas até ao fim. Muitas teses atrasam porque nenhum capítulo é considerado terminado; a submissão de um artigo impõe um fecho real. Para gerir a resposta aos revisores, o guia sobre como responder aos revisores cobre o processo em detalhe.

FAQ

Publicar antes da defesa conta como autoplágio na tese?

Não, desde que a reutilização seja declarada. A prática correta é indicar na tese quais os capítulos que deram origem a publicações, com a referência completa, e citar o próprio artigo sempre que reutilizar texto, dados ou figuras. O que constitui má prática é reutilizar texto publicado sem qualquer indicação da sua origem.

O meu orientador tem de ser coautor do artigo?

Não automaticamente, mas quase sempre sim na prática, porque a orientação envolve normalmente contribuição substancial na conceção do estudo e na revisão crítica do texto — que são critérios de autoria reconhecidos. O que deve ser evitado é tanto excluir quem contribuiu substancialmente como incluir quem não contribuiu. Acorde a autoria e a ordem dos autores antes de escrever, não depois.

Ter a tese no repositório impede-me de publicar um artigo depois?

Na generalidade dos casos, não: a maioria das revistas não considera uma tese depositada num repositório institucional como publicação prévia. A política varia entre editoras, pelo que deve confirmar nas instruções aos autores antes de submeter. Quando existe restrição, a solução habitual passa por um período de embargo no depósito da tese.

Posso reutilizar as figuras do meu artigo publicado na tese?

Depende do contrato de cedência de direitos assinado com a revista. Muitas editoras concedem automaticamente aos autores o direito de reutilizar o seu próprio material em teses e dissertações, mas outras exigem pedido formal. Verifique as condições no contrato ou na política da editora e guarde por escrito a autorização obtida.

E se o artigo ainda estiver em revisão quando entregar a tese?

Não há problema. Indique na tese o estado do manuscrito — submetido, em revisão ou aceite — com a identificação da revista. Nas teses por artigos, os regulamentos costumam especificar que estado é aceitável para efeitos de contabilização, pelo que convém verificar esse ponto antes de contar com um artigo ainda não aceite.

Publicar um preprint prejudica a submissão à revista?

A maioria das revistas aceita manuscritos previamente disponibilizados como preprint, e algumas incentivam-no. Existem exceções, sobretudo em certas áreas, pelo que deve confirmar a política antes de depositar. Se a investigação tiver potencial de patente, a divulgação num preprint pode comprometer o requisito de novidade e deve ser avaliada previamente com o gabinete competente da instituição.

Quando chegar o momento de converter capítulos em artigos, ou de integrar artigos publicados numa tese coerente, o guia sobre transformar a dissertação em artigo científico cobre o trabalho de reescrita. Ferramentas de apoio como o Tesify ajudam a manter a consistência terminológica e bibliográfica entre os dois formatos, que é onde estes percursos paralelos mais facilmente se desalinham.

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