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Amostra e Critérios de Inclusão numa Tese de Serviço Social: Como Definir e Aceder à População (2026)

Amostra e Critérios de Inclusão numa Tese de Serviço Social: Como Definir e Aceder à População (2026)

Numa tese de Serviço Social, a amostra raramente é «quem responder ao inquérito». É, quase sempre, um grupo de pessoas em situação de vulnerabilidade — crianças acompanhadas por uma Comissão de Proteção, famílias beneficiárias de uma prestação social, idosos institucionalizados — a quem só se chega através de uma instituição que decide, ela própria, se autoriza o acesso. Este guia mostra como definir critérios de inclusão e exclusão que resistam ao escrutínio da banca, e como negociar esse acesso institucional antes de o desenho da tese depender dele.

O que torna a amostragem em Serviço Social diferente de outras áreas sociais

Numa tese de sociologia ou de gestão, o investigador recruta muitas vezes diretamente — divulga um questionário, aborda participantes num espaço público. Em Serviço Social, a população de interesse está, com frequência, já a ser acompanhada por uma instituição: uma Comissão de Proteção de Crianças e Jovens, uma Instituição Particular de Solidariedade Social (IPSS), os serviços da Segurança Social, um lar de idosos, uma equipa de Rendimento Social de Inserção (RSI). Isto significa que o acesso à amostra não depende só da vontade da pessoa em participar, mas também da autorização de um gatekeeper institucional — a direção técnica da instituição, que avalia se a investigação é compatível com o bem-estar dos utentes acompanhados e com o funcionamento do serviço.

Critérios de inclusão e exclusão: um exemplo completo

Para tornar a lógica concreta, veja como os critérios se constroem numa tese sobre a perceção de famílias beneficiárias do RSI acerca do acompanhamento técnico que recebem.

Critério Definição no exemplo Porque importa
Inclusão — tempo de acompanhamento Famílias acompanhadas há pelo menos seis meses pela mesma equipa técnica Garante que a família teve tempo suficiente de contacto para formar uma perceção informada sobre o acompanhamento
Inclusão — composição familiar Agregados com pelo menos um menor a cargo Alinha a amostra com a pergunta de investigação, se o foco for o impacto na parentalidade
Exclusão — situação de crise aguda Famílias em processo aberto de sinalização por risco iminente Protege participantes numa situação demasiado instável para participar sem risco de dano
Exclusão — capacidade de consentir Adultos sem capacidade de decisão documentada, sem representante legal disponível Garante que o consentimento obtido é válido

Note que os critérios de exclusão nesta área não servem apenas para controlar variáveis, como em muitos desenhos quantitativos de outras áreas — servem também para proteger participantes que estão, no momento da recolha, numa situação de particular fragilidade. Justificar cada critério de exclusão como proteção, e não apenas como controlo metodológico, é o que a banca de Serviço Social espera ver na secção de amostra.

Pessoa a escrever notas num caderno junto a um portátil, a planear os critérios de amostra de uma tese

Populações típicas e o que muda no acesso a cada uma

População Via de acesso habitual Cuidado específico
Crianças e jovens em risco Comissão de Proteção de Crianças e Jovens (CPCJ) ou instituição de acolhimento Consentimento dos pais ou tutores, mais assentimento da criança adaptado à idade
Idosos institucionalizados Direção técnica do lar ou centro de dia Avaliar capacidade de consentir; envolver representante legal quando necessário
Pessoas em situação de sem-abrigo Equipas de rua ou centros de acolhimento Consentimento verbal documentado quando a assinatura formal é uma barreira real
Famílias beneficiárias de RSI Núcleo Local de Inserção ou equipa técnica de Segurança Social Garantir que a recusa em participar não é percebida como podendo afetar a prestação social
Vítimas de violência doméstica Casa-abrigo ou serviço de apoio à vítima Recrutamento sempre mediado pela equipa técnica, nunca pelo investigador diretamente

O gatekeeper institucional: a autorização que decide o desenho

Antes de qualquer submissão a uma comissão de ética, uma tese de Serviço Social que recolha dados através de uma instituição precisa da autorização prévia da direção técnica dessa instituição — um documento distinto do consentimento de cada participante. Esta autorização institucional costuma condicionar aspetos do desenho que o investigador não controla sozinho: quantos utentes a instituição está disponível para disponibilizar num determinado período, se o contacto pode ser feito diretamente ou só através de um técnico de referência, e se a instituição exige ver o instrumento de recolha antes de autorizar a sua aplicação. Negociar esta autorização é, na prática, o primeiro passo do trabalho de campo — e deve começar semanas antes da submissão formal à comissão de ética da universidade, porque uma instituição que não responde a tempo pode obrigar a mudar de local de recolha já depois de o protocolo estar aprovado noutro sítio.

Amostragem por conveniência ou amostragem intencional?

A maioria das teses de Serviço Social usa amostragem não probabilística, porque a população de interesse não tem uma lista completa e acessível a partir da qual sortear participantes ao acaso. A distinção que mais interessa à banca não é se a amostra é probabilística, mas se é intencional ou apenas de conveniência: uma amostra intencional seleciona deliberadamente os casos mais informativos para a pergunta de investigação — por exemplo, famílias com diferentes durações de acompanhamento, para captar perceções em fases distintas do processo — enquanto uma amostra de conveniência aceita simplesmente quem a instituição disponibiliza primeiro. A lógica geral de justificação de amostras não probabilísticas, incluindo os argumentos que resistem melhor ao escrutínio da banca, está detalhada no guia sobre amostragem por conveniência na tese — mas numa tese de Serviço Social, declarar que a amostragem foi intencional dentro do universo disponibilizado pela instituição é normalmente uma descrição mais precisa, e mais defensável, do que «amostragem por conveniência» sem mais qualificação.

Quantos participantes são precisos: desenhos qualitativos e quantitativos

Em desenhos qualitativos — a maioria das teses de Serviço Social sobre perceções e experiências — o critério que justifica parar de recrutar não é um número fixado à partida, mas a saturação teórica: o ponto em que novas entrevistas deixam de acrescentar categorias novas à análise. Declarar na metodologia que a recolha terminou por saturação, e não porque «não havia mais ninguém disponível», é uma diferença que a banca nota. Em desenhos quantitativos com escalas validadas — por exemplo, um estudo sobre burnout em técnicos de Serviço Social —, o cálculo de tamanho de amostra segue a lógica comum a qualquer área que use testes estatísticos, e vale a pena consultar um guia de cálculo de tamanho de amostra generalista antes de fixar o número-alvo. Em qualquer dos dois casos, é a instituição parceira, não o investigador, quem normalmente define o teto máximo de participantes disponível — o que significa que o desenho deve ser pensado a partir desse teto, não do número ideal em abstrato.

Questionário de investigação impresso com destacador e caneta sobre uma secretária

Consentimento com participantes vulneráveis: a camada que se soma ao critério de amostra

Definir bem os critérios de inclusão não substitui a componente de consentimento — as duas camadas trabalham em conjunto. A lógica de consentimento com populações que não podem dar um consentimento simples e direto — crianças, pessoas sem capacidade de decisão documentada, pessoas numa situação de dependência institucional que pode gerar perceção de coação — segue uma estrutura semelhante à de outras áreas da saúde e das ciências sociais. O guia sobre consentimento informado e comissão de ética detalha essa estrutura para um contexto clínico, mas a lógica de fundo — quem consente quando a pessoa não pode, e como reduzir a perceção de coação — transfere-se diretamente para o contexto de Serviço Social.

Um exemplo qualitativo completo: perceções sobre o acompanhamento técnico do RSI

Para mostrar como estes elementos se encadeiam, veja o desenho de amostra de uma tese qualitativa sobre a perceção de famílias beneficiárias do Rendimento Social de Inserção acerca do acompanhamento técnico que recebem.

Acesso: autorização prévia do Núcleo Local de Inserção, que disponibiliza uma lista de famílias elegíveis segundo os critérios definidos, sem identificar diretamente quem aceitou ou recusou participar até ao consentimento formal.

Critérios de inclusão: agregados acompanhados há pelo menos seis meses pela mesma equipa técnica, com pelo menos um menor a cargo, sem processo aberto de sinalização por risco iminente.

Recrutamento: convite feito pelo técnico de referência, não diretamente pelo investigador — reduz a perceção de que a recusa possa afetar o acompanhamento ou a prestação social.

Paragem da recolha: a décima segunda entrevista deixou de trazer categorias de análise novas em relação às onze anteriores; a recolha parou nesse ponto, com uma entrevista adicional de confirmação, e não porque a lista de famílias disponibilizadas se tinha esgotado.

Limitação declarada: a amostra foi filtrada pelo Núcleo Local de Inserção antes de chegar ao investigador, o que pode ter excluído famílias com uma relação mais conflituosa com a equipa técnica — uma limitação que a tese assume explicitamente, em vez de apresentar a amostra como representativa de toda a população acompanhada.

O código deontológico da profissão como referência para decisões de amostra

As decisões de acesso e de proteção de participantes numa tese de Serviço Social não partem apenas do bom senso do investigador — ancoram-se no código deontológico da profissão, que estabelece princípios como o respeito pela autodeterminação da pessoa acompanhada e a proteção da sua privacidade mesmo quando isso significa aceitar uma amostra mais pequena do que o desejável. Citar explicitamente este enquadramento profissional na secção de metodologia — e não apenas os princípios genéricos de ética em investigação — é o que distingue uma tese de Serviço Social de uma tese de sociologia que estuda uma população semelhante: a primeira responde perante um código profissional próprio, além do código ético da investigação académica.

Erros comuns a evitar

  • Fixar o tamanho da amostra antes de negociar o acesso institucional. Um número decidido em abstrato que a instituição não consegue disponibilizar obriga a rever todo o desenho a meio do processo.
  • Confundir amostragem de conveniência com amostragem intencional. A segunda exige um critério explícito de seleção dentro do universo disponível; a primeira aceita simplesmente quem aparece primeiro.
  • Não distinguir consentimento do participante e autorização institucional. São dois documentos diferentes, obtidos em momentos diferentes, e a banca espera ver os dois referidos separadamente.
  • Ignorar o risco de coação percebida em populações dependentes de uma prestação social. Declarar explicitamente que a recusa não afeta o acesso a apoios é tão importante aqui como num contexto clínico.
  • Não justificar o momento de paragem da recolha em desenhos qualitativos. «Saturação teórica» é uma justificação; «acabou o tempo disponível» não é.

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Perguntas frequentes

Preciso de autorização da instituição além do consentimento dos participantes?

Sim. A autorização institucional e o consentimento individual de cada participante são documentos distintos, obtidos em momentos diferentes, e ambos são normalmente exigidos pela comissão de ética. O relatório de estágio, que partilha muitas destas exigências de sigilo, segue uma lógica de anonimização próxima — descrita no guia sobre o relatório de estágio em Serviço Social.

Quantas famílias ou casos preciso para uma tese qualitativa em Serviço Social?

Não existe um número fixo — o critério mais defendido é a saturação teórica, o ponto em que novas entrevistas deixam de trazer categorias de análise novas.

A instituição pode escolher quais participantes me apresenta?

Sim, e isso deve ser declarado como uma limitação do desenho, porque introduz um viés de seleção que o investigador não controla diretamente.

O que fazer se a instituição só disponibilizar metade da amostra planeada?

Rever o desenho para um estudo exploratório de menor escala é normalmente preferível a insistir num número que a instituição não consegue garantir, e deve ser discutido com o orientador antes de avançar.

Em resumo

A amostra de uma tese de Serviço Social depende tanto de critérios de inclusão e exclusão bem justificados como da negociação do acesso junto de um gatekeeper institucional — e as duas coisas devem ser pensadas em conjunto, desde o início do desenho, não uma depois da outra.

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