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Modelo Conceptual da Dissertação de Gestão: Construtos, Hipóteses e Como Desenhar a Figura (2026)

Modelo Conceptual da Dissertação de Gestão: Construtos, Hipóteses e Como Desenhar a Figura (2026)

Abra qualquer dissertação de Gestão ou de Marketing quantitativa e encontrará, no fim do enquadramento teórico, uma figura com caixas e setas rotuladas H1, H2, H3: o modelo conceptual. É a síntese visual da tese: mostra que construtos estuda, que relações espera encontrar e que hipóteses vai testar. Quando o modelo está bem desenhado, o questionário e a análise estatística quase se escrevem sozinhos; quando está mal, o júri descobre incoerências que atravessam o trabalho todo. Este guia explica como construir o modelo conceptual a partir da literatura, como escrever as hipóteses, como desenhar a figura (com um exemplo em tabela) e como o ligar ao questionário e à análise, com três exemplos.

O que é e o que não é um modelo conceptual

Peça Função Onde aparece
Enquadramento teórico Apresentar as teorias e a evidência sobre o tema Capítulo teórico
Modelo conceptual Representar as relações entre construtos que a sua tese vai testar e as hipóteses correspondentes Fim do enquadramento ou início da metodologia
Questionário e análise Medir os construtos e testar as hipóteses Metodologia e resultados

O modelo conceptual é, portanto, o que liga a teoria aos dados. Se vier de outra tradição, o equivalente no percurso de ciências sociais é o modelo de análise, descrito em modelo de análise numa tese de Ciências Sociais, e em Enfermagem é o quadro conceptual, descrito em quadro conceptual de uma tese de Enfermagem. Em Gestão a lógica é a mesma, com a diferença de que o modelo costuma ser quantitativo: construtos medidos por escalas e relações testadas por regressão ou por equações estruturais.

Como construir o modelo a partir da literatura

  1. Parta da pergunta de investigação. O modelo responde-lhe; cada construto tem de ter uma razão para estar lá.
  2. Escolha o modelo base. Em Gestão, muitas dissertações adaptam um modelo estabelecido (adoção de tecnologia, comportamento planeado, qualidade do serviço, comprometimento) em vez de inventar um.
  3. Identifique o papel de cada construto. Explicativo, dependente, mediador, moderador ou de controlo.
  4. Justifique cada seta com literatura. Para cada relação, cite pelo menos um estudo que a sustenta ou a contraria.
  5. Escreva a hipótese correspondente. Uma seta, uma hipótese, com o sentido previsto.
  6. Desenhe a figura e confira o questionário. Cada construto da figura tem uma escala; cada hipótese um teste.

Quatro formas de relação que o modelo pode ter

Forma O que representa Exemplo ilustrativo
Efeito direto A afeta B A utilidade percebida afeta a intenção de usar um serviço
Mediação A afeta B através de M A liderança afeta a intenção de saída através do compromisso
Moderação O efeito de A em B depende de Z O efeito da qualidade do serviço na satisfação depende da idade
Mediação moderada A afeta B através de M, e o efeito depende de Z O compromisso medeia o efeito da liderança, mas só em equipas pequenas

A diferença entre mediação e moderação é a fonte de erros mais frequente em teses de Gestão. O artigo sobre mediação ou moderação e o modelo PROCESS mostra como decidir e como testar.

Grupo de estudantes de gestão a desenhar um modelo com setas e caixas num quadro de vidro
O modelo conceptual mostra os construtos e as relações que a tese vai testar; cada seta corresponde a uma hipótese.

Exemplo 1: um modelo de adoção de tecnologia (com fonte real)

Muitas dissertações de Gestão e de Sistemas de Informação usam o Modelo de Aceitação da Tecnologia (TAM). A sua base é o artigo de Fred Davis (1989), publicado na MIS Quarterly (vol. 13, n.º 3, pp. 319–340), que desenvolveu e validou escalas para duas variáveis, a utilidade percebida e a facilidade de uso percebida, hipotetizadas como determinantes fundamentais da aceitação de tecnologia pelos utilizadores. Segundo o resumo, os testes em dois estudos com 152 utilizadores no total levaram a duas escalas de seis itens, com fiabilidades de 0,98 para a utilidade e 0,94 para a facilidade de uso; a utilidade percebida mostrou uma correlação com o uso mais forte do que a facilidade de uso.

Modelo ilustrativo para uma tese: adoção de uma aplicação de pagamentos móveis por clientes de uma empresa. Os construtos são utilidade percebida, facilidade de uso percebida e intenção de uso. As hipóteses seguem o modelo base: H1, a facilidade de uso percebida influencia positivamente a utilidade percebida; H2, a utilidade percebida influencia positivamente a intenção de uso; H3, a facilidade de uso percebida influencia positivamente a intenção de uso. O esquema em tabela, abaixo, mostra a correspondência com o questionário. Para escolher entre o TAM e outros modelos de adoção, leia TAM ou UTAUT: que modelo usar na tese.

Construto (caixa) → Construto (caixa) Hipótese Medida no questionário
Facilidade de uso percebida → (+) Utilidade percebida H1 Escalas de itens de cada construto (por exemplo, as de seis itens de Davis, se a licença o permitir)
Utilidade percebida → (+) Intenção de uso H2 Escala de intenção, a escolher
Facilidade de uso percebida → (+) Intenção de uso H3 As mesmas escalas

Antes de usar as escalas de Davis ou qualquer outra, confirme as condições de utilização e se existe versão adaptada ao português europeu (veja o guia sobre usar a escala de outro autor).

Exemplo 2: um modelo de intenção (Teoria do Comportamento Planeado)

A Teoria do Comportamento Planeado, de Icek Ajzen (1991, Organizational Behavior and Human Decision Processes, vol. 50, n.º 2, pp. 179–211), é outra base frequente em teses de Gestão e Marketing, nomeadamente sobre intenção de compra, empreendedorismo e comportamento do consumidor. Se a escolher, o modelo conceptual deve reproduzir os conceitos da teoria que usa e ligá-los a variáveis do seu contexto; o guia sobre a teoria do comportamento planeado de Ajzen na tese explica quando a usar e como não a estragar. O erro típico é pôr as caixas da teoria e acrescentar três ou quatro variáveis sem justificação; cada construto novo precisa da sua hipótese e da sua fonte.

Exemplo 3 (ilustrativo): um modelo com mediação

Suponha uma dissertação sobre retenção de colaboradores. O modelo teria: liderança (explicativa), compromisso organizacional (mediador) e intenção de saída (dependente). A literatura de revisão sobre liderança transformacional e a saída de enfermeiros, por exemplo, refere associações com menor intenção de saída frequentemente mediadas pelo compromisso organizacional e pela satisfação profissional. As hipóteses ilustrativas seriam: H1, a liderança influencia positivamente o compromisso; H2, o compromisso influencia negativamente a intenção de saída; H3, o compromisso medeia a relação entre a liderança e a intenção de saída. Para escalas e hipóteses sobre este tema, veja o guia sobre tese sobre liderança.

Como escrever as hipóteses

  • Uma relação por hipótese. “A e B influenciam C” são duas hipóteses.
  • Sentido explícito. Diga se a relação é positiva ou negativa, quando a teoria o justifica.
  • Numeração coerente com a figura. H1 a Hn pela ordem do esquema; use H3a e H3b para relações paralelas.
  • Linguagem de associação, não de causa, a menos que o desenho o permita.
  • Cada hipótese com fonte. A justificação da hipótese vem da literatura, não da intuição.

Para ver hipóteses por construto em outra área, o guia sobre hipóteses de uma dissertação de Marketing por construto reúne exemplos.

Como desenhar a figura

  1. Caixas para os construtos. Um nome claro, o mesmo do questionário.
  2. Setas com sentido e sinal. Cada seta com o rótulo da hipótese (H1) e, se quiser, o sinal previsto.
  3. Variáveis de controlo à parte. Em caixas separadas, ligadas à variável dependente.
  4. Legenda e fonte. Indique se o modelo é seu, adaptado ou da literatura.
  5. Legibilidade. Poucas cruzes de setas; se o modelo for muito complexo, divida em dois esquemas.

Se o programa de desenho não ajudar, uma tabela com as colunas “construto”, “seta”, “construto” e “hipótese”, como a acima, é uma alternativa clara.

Ligação ao questionário, à amostra e à análise

O modelo determina o resto. Cada construto precisa de uma escala; cada hipótese, de um teste (regressão, mediação, equações estruturais); e a amostra tem de ser suficiente para o número de relações. O artigo sobre quantos casos por variável na regressão dá um critério para decidir quantas variáveis explicativas a sua amostra suporta. Se o modelo tem muitos construtos e a amostra é pequena, simplifique o modelo antes de recolher dados.

Estudante de gestão a conferir o questionário com o modelo conceptual impresso
Cada construto do modelo tem de ter uma escala no questionário; cada hipótese, um teste definido de antemão.

Tabela de rastreio: da hipótese ao teste

Uma tabela como a seguinte, em apêndice ou no fim da metodologia, mostra ao júri que o modelo, o questionário e a análise estão alinhados. O exemplo usa o modelo ilustrativo de mediação sobre retenção; as escalas e os testes são decisões da tese, não resultados.

Hipótese Relação Escala de cada construto Teste previsto
H1 Liderança → compromisso (+) Escala de liderança e escala de compromisso Regressão simples ou múltipla com controlos
H2 Compromisso → intenção de saída (−) Escala de compromisso e escala de intenção de saída Regressão simples ou múltipla com controlos
H3 Liderança → compromisso → intenção de saída As três escalas Análise de mediação com intervalo de confiança do efeito indireto

Moderadores e variáveis de controlo: como decidir

Um moderador entra no modelo quando a teoria ou a literatura sugerem que o efeito de uma variável depende de outra (por exemplo, a idade, a antiguidade ou o tipo de contrato). Não acrescente moderadores só porque tem esses dados no questionário: cada moderador é uma hipótese a mais e exige amostra para o testar. Uma variável de controlo, ao contrário, não é uma hipótese: é uma variável que a literatura associa à dependente e que convém neutralizar para o efeito de interesse não ser confundido (por exemplo, a dimensão da empresa ou o setor, em estudos organizacionais). Para cada controlo, escreva uma frase de justificação e cite a fonte.

Um critério prático: se retirar uma variável do modelo e a pergunta de investigação continuar a ter resposta, essa variável é de controlo ou dispensável; se sem ela a pergunta deixa de fazer sentido, é central e merece hipótese.

Como redigir o texto que acompanha a figura (modelo ilustrativo)

O parágrafo seguinte é um modelo inventado para o exemplo de retenção; adapte-o ao seu modelo.

“A Figura 1 apresenta o modelo conceptual da investigação. O modelo propõe que a liderança influencia positivamente o compromisso organizacional (H1), que o compromisso influencia negativamente a intenção de saída (H2) e que o compromisso medeia a relação entre a liderança e a intenção de saída (H3). As relações propostas assentam na literatura sobre liderança e retenção de colaboradores revista no capítulo anterior. A dimensão da empresa e a antiguidade do colaborador foram incluídas como variáveis de controlo, por estarem associadas à intenção de saída na literatura citada.”

Repare que o parágrafo faz quatro coisas: remete para a figura, enuncia as hipóteses pela ordem, indica a base teórica e justifica os controlos. É a estrutura mínima de qualquer texto de modelo conceptual.

Erros frequentes no modelo conceptual de Gestão

  • Modelo com demasiados construtos para a amostra disponível.
  • Setas sem hipótese ou hipóteses sem seta.
  • Hipóteses sem fundamento teórico, apenas “parece lógico”.
  • Confundir mediação com moderação no desenho e na análise.
  • Construtos sem escala ou escalas que não medem o construto.
  • Figura copiada de outro estudo sem indicar a fonte nem adaptar ao contexto.
  • Alterar o modelo depois de ver os dados sem o declarar.

Checklist antes de entregar

  • O modelo responde à pergunta de investigação.
  • Cada construto tem definição, papel no modelo e escala.
  • Cada seta tem hipótese numerada e justificação com literatura.
  • O sentido das relações está declarado.
  • A figura tem legenda, fonte e coincide com o texto.
  • Questionário, amostra e análise estão coerentes com o modelo.

Perguntas Frequentes

Qual é a diferença entre modelo conceptual e enquadramento teórico?

O enquadramento teórico apresenta as teorias e a evidência. O modelo conceptual é a representação das relações que a sua tese vai testar, com as hipóteses correspondentes.

Quantas hipóteses deve ter a dissertação?

Não há um número fixo. O número de hipóteses decorre do modelo e deve ser compatível com a amostra e com a análise. Um modelo mais simples e bem fundamentado é preferível a um muito ambicioso.

Posso usar um modelo já publicado?

Pode, citando a fonte e explicando as adaptações ao seu contexto. Usar o modelo tal e qual, sem justificar a escolha, é uma fraqueza.

Preciso de equações estruturais?

Não necessariamente. Modelos simples podem ser testados com regressão e com análise de mediação. As equações estruturais justificam-se quando há vários construtos latentes e uma amostra adequada.

As variáveis de controlo vão no modelo?

Devem ser indicadas, em caixas separadas ou numa nota da figura, com a justificação da sua inclusão.

Posso mudar o modelo depois da recolha de dados?

Pode, se declarar a mudança e a razão. Alterar o modelo para obter resultados significativos sem o dizer é uma prática que o júri e a literatura criticam.

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