TAM ou UTAUT: Que Modelo Usar na Tese sobre Adoção de Tecnologia (2026)
É uma das perguntas mais frequentes em teses de gestão, sistemas de informação, marketing digital, educação e saúde digital: o estudo é sobre a adoção de uma tecnologia — uma app, uma plataforma de e-learning, a telemedicina, a banca digital — e há dois enquadramentos que dominam a literatura. O TAM (Technology Acceptance Model) e o UTAUT (Unified Theory of Acceptance and Use of Technology). Qual escolher?
A resposta séria não é «o mais citado» nem «o que o último artigo que li usou». É uma decisão com critérios — o contexto do uso, as variáveis que consegue medir, a dimensão da amostra e aquilo que a sua pergunta realmente quer explicar.
De onde vem cada modelo
O TAM nasce do artigo de Fred Davis publicado em 1989 na MIS Quarterly — «Perceived Usefulness, Perceived Ease of Use, and User Acceptance of Information Technology». A tese central: perante uma tecnologia, a intenção de a usar explica-se sobretudo por duas perceções — é útil para o que preciso? e é fácil de usar?. Essa parcimónia explica a longevidade: o TAM é replicável com questionários curtos e resultados comparáveis entre estudos, e gerou extensões sucessivas que acrescentam antecedentes às duas perceções centrais.
O UTAUT aparece em 2003, também na MIS Quarterly, pela mão de Venkatesh, Morris, Davis e Davis — «User Acceptance of Information Technology: Toward a Unified View». Como o título diz, é uma unificação: os autores compararam empiricamente os modelos concorrentes da altura (incluindo o TAM) e destilaram-nos em quatro determinantes da intenção e do uso — expectativa de desempenho, expectativa de esforço, influência social e condições facilitadoras — moderados por características como idade, género e experiência. Da agenda posterior dos mesmos autores saiu ainda o UTAUT2 (2012), orientado ao contexto de consumo, que acrescenta determinantes como motivação hedónica, valor do preço e hábito.
Uma nota de posicionamento: ambos são modelos operacionais de médio alcance, não «grandes teorias» sociais — no mapa de enquadramentos que descrevemos em marco teórico clássico vs emergente, vivem no lado aplicado e disciplinar. Para uma tese empírica de adoção de tecnologia, isso é uma vantagem, não um defeito.
A comparação lado a lado

| Critério | TAM | UTAUT |
|---|---|---|
| Constructos centrais | 2 perceções + intenção | 4 determinantes + moderadores |
| Dimensão do questionário | Curto — amigo de amostras difíceis | Mais longo — mais itens, mais fadiga |
| Contexto social/organizacional | Ausente do núcleo | Explícito (influência social, condições facilitadoras) |
| Moderadores (idade, experiência…) | Não previstos no núcleo | Parte do modelo — exigem amostra para os testar |
| Comparabilidade com literatura | Décadas de replicações | Vasta, mais recente; UTAUT2 domina consumo |
| Exigência analítica | Regressões/SEM simples | SEM com moderações — modelo pesado |
Cinco critérios para decidir
- O uso é voluntário ou obrigatório? Numa organização onde a tecnologia é imposta, a «intenção de usar» perde significado e as condições facilitadoras e a influência social ganham — terreno UTAUT. Numa escolha livre de consumo, o TAM (ou o UTAUT2, se quiser hábito e motivação hedónica) encaixa melhor.
- Que amostra consegue realisticamente ter? Testar moderadores do UTAUT exige subgrupos com dimensão. Com 120 respostas, um TAM bem executado vale mais do que um UTAUT truncado onde as moderações «não deram». Faça as contas antes, não depois — a lógica está em como calcular o tamanho da amostra.
- O que quer explicar: perceções ou adoção situada? Se a pergunta é sobre como as perceções da tecnologia formam intenção, o TAM é limpo. Se é sobre porque é que este grupo, neste contexto, adota ou resiste, os determinantes contextuais do UTAUT dão-lhe vocabulário.
- Com que literatura vai dialogar? Veja o que os estudos do seu domínio específico usam. Uma tese que quer comparar resultados com dez estudos TAM em e-learning ganha em usar TAM; uma tese sobre apps de consumo em 2026 dialoga sobretudo com UTAUT2.
- A tecnologia já é usada ou está a ser introduzida? Os dois modelos foram pensados para explicar adoção — a decisão de começar a usar. Se a população do seu estudo já usa a tecnologia há anos, medir «intenção de usar» produz tetos de resposta e pouca variância; nesse cenário, o hábito e o uso continuado do UTAUT2, ou uma reformulação da pergunta (intensidade de uso, uso de funcionalidades específicas), servem melhor do que um TAM aplicado fora do momento para que foi desenhado.
Seja qual for a escolha, o júri vai querer ver o critério escrito preto no branco na fundamentação: uma frase do tipo «optou-se pelo TAM porque o uso é voluntário, a amostra é limitada e o objetivo é comparar com os estudos X e Y» vale mais do que três páginas de história dos modelos. A justificação é o entregável desta decisão — não a resenha.
Da escolha ao questionário
Escolhido o modelo, o trabalho passa a ser de medição — e aqui a regra de ouro: use os itens originais dos autores, numa versão validada em português quando exista, e não uma tradução improvisada. As implicações de traduzir ou adaptar itens (e o que isso faz às propriedades psicométricas) estão em usar uma escala de outro autor na tese; a mecânica de construção e pré-teste do questionário, em como fazer um questionário para a tese.
Na análise, estes modelos testam-se tipicamente com modelação de equações estruturais — medição primeiro (as perceções medem o que dizem medir?), relações estruturais depois. O percurso técnico completo, incluindo a escolha entre CB-SEM e PLS-SEM e os índices de ajuste a reportar, está no nosso guia de SEM com AMOS e lavaan — que, aliás, usa precisamente TAM e UTAUT2 como casos por área. Este artigo e esse são complementares: aqui decide-se que modelo; lá, como o testar.
Erros que comprometem a tese
- Modelo híbrido acidental: itens do TAM, dois constructos do UTAUT e uma variável «inovadora» sem antecedente teórico. Se estende um modelo, diga que o está a estender e justifique cada acrescento com literatura.
- Medir intenção e concluir uso: intenção de usar não é uso. Se só mediu intenção, as conclusões são sobre intenção — a distância entre uma e outro é, ela própria, discussão honesta.
- Ignorar os moderadores que o modelo prevê (no UTAUT) sem o declarar: pode não os testar por limitação de amostra, mas tem de o dizer.
- Citar em segunda mão: os dois artigos fundadores — Davis (1989) e Venkatesh et al. (2003), ambos na MIS Quarterly — têm DOI e devem ser lidos e citados diretamente.
- Esquecer que perceções não são propriedades da tecnologia: «utilidade percebida» é do respondente; generalizar para «a plataforma é útil» troca o sujeito da afirmação.
Da escolha do modelo à tese escrita
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Perguntas frequentes
Qual é a diferença essencial entre TAM e UTAUT?
O TAM explica a aceitação com duas perceções centrais — utilidade percebida e facilidade de utilização percebida —, enquanto o UTAUT unifica modelos anteriores em quatro determinantes (expectativa de desempenho, expectativa de esforço, influência social e condições facilitadoras) com moderadores como idade e experiência. O TAM privilegia parcimónia e comparabilidade; o UTAUT, abrangência contextual.
Quando devo preferir o UTAUT2?
Quando o contexto é de consumo — apps, serviços digitais escolhidos livremente pelo utilizador — e constructos como hábito, motivação hedónica e valor do preço fazem sentido para a sua pergunta. O UTAUT original foi desenvolvido sobretudo em contextos organizacionais; o UTAUT2 (2012) é a extensão orientada ao consumidor.
Posso juntar constructos do TAM e do UTAUT no mesmo modelo?
Pode, mas só como extensão declarada e justificada: identifique o modelo-base, fundamente cada constructo acrescentado com literatura e reconheça o custo (mais itens, mais amostra, menos comparabilidade). O que compromete a tese é o híbrido acidental — itens misturados sem arquitetura teórica.
Que artigos devo citar como fontes primárias?
Para o TAM, Davis (1989), «Perceived Usefulness, Perceived Ease of Use, and User Acceptance of Information Technology», MIS Quarterly. Para o UTAUT, Venkatesh, Morris, Davis e Davis (2003), «User Acceptance of Information Technology: Toward a Unified View», MIS Quarterly. Para o UTAUT2, o artigo de Venkatesh, Thong e Xu (2012). Todos têm DOI — cite-os diretamente, não através de manuais.
Preciso de SEM para testar estes modelos?
Não obrigatoriamente — um TAM simples testa-se com regressões —, mas a modelação de equações estruturais é a prática dominante porque valida a medição e as relações estruturais em conjunto. Se optar por SEM, planeie a amostra para a complexidade do modelo e siga um guião de reporte consistente.
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