Exemplo de Tese de Enfermagem 2026: Modelo Anotado, Secção a Secção
Não é a falta de dados que trava quem escreve uma tese de Enfermagem — é não saber como as peças encaixam. O que é que o problema de investigação tem de ter para não ser reprovado logo na primeira reunião de orientação? Como é que se passa de “quero estudar as úlceras de pressão” para uma pergunta de investigação que um comité de ética aprova? Este artigo constrói, secção a secção, um modelo anotado de tese de Enfermagem — ilustrativo, não uma tese real copiada — com o comentário do porquê de cada decisão, para que possa aplicar a lógica ao seu próprio tema. Para o passo a passo de cada capítulo em detalhe, veja o guia completo de metodologia da tese de Enfermagem, que este modelo complementa.
Como usar este modelo (e o que não fazer com ele)
Este modelo foi construído de propósito com dados fictícios e etiquetados como tal — não é uma tese real, não pode ser submetida como sua, e comparar frases inteiras com ela não substitui a leitura de teses reais do seu próprio domínio. O objetivo é outro: mostrar a arquitetura lógica que liga cada secção à seguinte, para que reconheça o padrão quando estiver a escrever a sua. Em cada bloco, o comentário explica a decisão editorial — porque é que o problema está formulado assim, porque é que a amostra tem aquele tamanho, porque é que a teoria escolhida é a Orem e não a Watson.

Para teses reais publicadas em Enfermagem, veja a secção final deste artigo sobre onde as consultar em repositórios académicos portugueses. E se ainda estiver a decidir entre um estudo com dados próprios e uma revisão da literatura, o artigo sobre revisão sistemática com PRISMA e questão PICO mostra o caminho alternativo a este modelo, que segue a via do estudo empírico com recolha de dados.
1. Título e problema de investigação
Título ilustrativo: “Adesão ao regime terapêutico em pessoas idosas com insuficiência cardíaca crónica: um estudo transversal numa unidade de cuidados de saúde primários.”
Comentário: um bom título de Enfermagem nomeia três coisas — a variável central (adesão ao regime terapêutico), a população (pessoas idosas com insuficiência cardíaca crónica) e o desenho ou contexto (estudo transversal, cuidados de saúde primários). Títulos vagos como “A importância da adesão terapêutica” não sobrevivem à primeira reunião de orientação porque não permitem prever nem a amostra nem os instrumentos.
Problema de investigação (excerto ilustrativo): “A não adesão ao regime terapêutico é descrita na literatura como um dos fatores associados ao reinternamento de pessoas com insuficiência cardíaca crónica [referência]. Apesar de os enfermeiros de cuidados de saúde primários terem um papel central na monitorização, não é claro que fatores explicam os níveis de adesão observados nesta população em Portugal [referência].”
Comentário: o problema segue a estrutura clássica em funil: começa numa afirmação geral e sustentada (cada [referência] tem de ser substituída por uma fonte credível que tenha efetivamente lido), estreita para o contexto específico, e termina na lacuna concreta que a tese vai preencher. Note que a frase final não promete resolver o problema — promete explicar um fenómeno numa população delimitada, que é o que uma tese de mestrado consegue realisticamente fazer. Se sentir que o problema ainda está demasiado amplo, o teste mais rápido é tentar escrever os objetivos específicos a partir dele — se não conseguir, o problema ainda não está suficientemente delimitado.
2. Objetivos e perguntas de investigação
Objetivo geral: Analisar os fatores associados à adesão ao regime terapêutico em pessoas idosas com insuficiência cardíaca crónica seguidas numa unidade de cuidados de saúde primários.
- Objetivo específico 1: Caracterizar o nível de adesão ao regime terapêutico na amostra, através de um instrumento validado.
- Objetivo específico 2: Identificar a associação entre variáveis sociodemográficas e clínicas e o nível de adesão observado.
- Objetivo específico 3: Explorar a relação entre literacia em saúde e adesão ao regime terapêutico.
Comentário: cada objetivo específico corresponde a uma análise estatística concreta que vai aparecer no capítulo de resultados — o primeiro é uma estatística descritiva, o segundo uma associação (qui-quadrado ou correlação, consoante o tipo de variável), o terceiro outra associação. Um objetivo que não corresponde a nenhuma análise planeada é normalmente um sinal de que foi escrito antes da metodologia estar pensada, e é exatamente isso que o júri questiona na defesa. Repare também que nenhum objetivo usa verbos vagos como “compreender” ou “refletir sobre” — cada um começa com um verbo que descreve uma operação de investigação concreta (caracterizar, identificar, explorar).
3. Enquadramento teórico
Uma tese de Enfermagem ganha coerência quando ancora o fenómeno estudado numa teoria de Enfermagem reconhecida, em vez de tratar o enquadramento como uma lista solta de conceitos. Neste exemplo, a escolha lógica é a Teoria do Défice de Autocuidado, de Dorothea Orem: a adesão ao regime terapêutico é, na prática, um comportamento de autocuidado, e a teoria de Orem distingue exatamente entre a capacidade da pessoa para o autocuidado (agência de autocuidado) e o défice que surge quando essa capacidade não chega às exigências terapêuticas — o ponto onde a intervenção de Enfermagem se justifica.
Comentário: a escolha da teoria não é arbitrária nem estética. Pergunte sempre: “esta teoria explica o mecanismo que estou a estudar, ou estou só a citá-la porque é conhecida?” Se o fenómeno fosse antes a transição para uma doença crónica recém-diagnosticada, a teoria das transições de Afaf Meleis seria a escolha mais coerente; se fosse promoção de comportamentos preventivos, o modelo de promoção da saúde de Nola Pender. Para comparar as quatro teorias mais usadas em dissertações portuguesas de Enfermagem lado a lado, veja o guia de decisão Orem, Meleis, Pender ou Watson.
4. Metodologia
Desenho: estudo quantitativo, observacional, transversal e correlacional.
População e amostra (ilustrativas): pessoas com 65 ou mais anos, com diagnóstico de insuficiência cardíaca crónica há pelo menos seis meses, inscritas numa unidade de cuidados de saúde primários. Amostragem não probabilística por conveniência. Para detetar uma correlação moderada (r ≈ 0,30) com poder estatístico de 80% e α = 0,05 (bilateral), o n mínimo é de cerca de 85 participantes; o n ilustrativo de 120 acrescenta margem para perdas e questionários incompletos.
Instrumentos: um questionário sociodemográfico e clínico construído para o estudo, e a versão portuguesa validada da Medida de Adesão aos Tratamentos (MAT), instrumento de autorrelato amplamente usado em investigação de Enfermagem e Saúde em Portugal para medir adesão terapêutica.

Procedimentos éticos: parecer favorável da comissão de ética da instituição de acolhimento, consentimento informado por escrito, anonimização dos dados clínicos antes da análise. O que muda especificamente numa tese de Enfermagem face a outras áreas — o tratamento de dados clínicos sensíveis, a relação de proximidade entre quem investiga e quem cuida — está detalhado no artigo sobre consentimento informado e comissão de ética na tese de Enfermagem.
Comentário: repare que o instrumento não foi escolhido ao acaso — é validado para português e para o construto exato que os objetivos pedem (adesão). Usar um instrumento genérico “porque estava disponível” é um erro que os júris costumam apontar na secção de limitações. Para outros instrumentos clínicos validados e como escolher entre eles consoante a variável em estudo, veja o artigo sobre escalas clínicas, desenhos pré-pós e o teste estatístico correto por variável.
5. Resultados (excerto ilustrativo)
Os dados abaixo são fictícios, construídos apenas para mostrar como se apresenta um resultado de Enfermagem — nunca use números inventados na sua própria tese.
| Variável | Categoria de adesão | n (%) |
|---|---|---|
| Literacia em saúde adequada | Alta adesão | 41 (68,3%) |
| Literacia em saúde limitada | Alta adesão | 22 (36,7%) |
Comentário: um resultado bem apresentado não se limita a reportar percentagens — associa-as ao teste estatístico usado (aqui, um qui-quadrado de independência) e ao valor de p, e faz-se sempre acompanhar de uma frase interpretativa no texto corrido, não apenas da tabela. Repare que a tabela isolada não conta a história toda: é a frase que a acompanha no corpo do texto — “participantes com literacia em saúde adequada apresentaram uma proporção significativamente maior de alta adesão” — que o júri procura, porque mostra que quem escreveu compreendeu o que o número significa.
6. Discussão e conclusão
A discussão de uma tese de Enfermagem tem três movimentos: (1) reafirmar o que foi encontrado sem repetir os números, (2) comparar com estudos publicados em populações semelhantes, discutindo concordâncias e discrepâncias, e (3) traduzir o achado em implicação prática para a intervenção de Enfermagem — por exemplo, sugerir que a literacia em saúde deve ser rastreada na consulta de enfermagem antes de se desenhar um plano educacional sobre adesão. A conclusão fecha com as limitações do estudo (aqui, a amostragem por conveniência e o desenho transversal, que impede inferências causais) e recomendações concretas para investigação futura.
7. Os erros que mais custam pontos na defesa
Os erros que mais se repetem em teses de Enfermagem não estão nos dados — estão na coerência entre secções. Três dos mais comuns: (1) o enquadramento teórico cita uma teoria de Enfermagem na introdução mas nunca mais volta a ela na discussão, como se fosse um capítulo isolado em vez de uma lente que atravessa o trabalho todo; (2) os objetivos específicos multiplicam-se para além do que a amostra e o tempo disponível permitem analisar com rigor, o que obriga a cortar análises já perto da entrega; (3) a secção de limitações é escrita como uma lista genérica (“amostra pequena”, “tempo limitado”) em vez de explicar concretamente o que cada limitação impede de concluir — a diferença entre dizer “a amostra foi pequena” e dizer “a amostra por conveniência de 120 pessoas de uma única unidade não permite generalizar os resultados a outras regiões do país” é o que separa uma tese defendida com segurança de uma que hesita perante a primeira pergunta do júri.
Onde encontrar teses reais de Enfermagem para comparar
Para ver como estas secções aparecem em teses reais e aprovadas, o RCAAP — Repositório Científico de Acesso Aberto de Portugal agrega os repositórios institucionais das universidades portuguesas e permite filtrar por área científica e por tipo de documento (dissertação de mestrado). Leia sobretudo os capítulos de metodologia e de discussão de duas ou três teses da sua área — é onde a lógica que este artigo descreveu fica mais visível na prática.
Perguntas Frequentes
Posso copiar a estrutura deste modelo para a minha tese?
Pode e deve inspirar-se na lógica de organização — título → problema → objetivos → enquadramento → metodologia → resultados → discussão — mas o conteúdo tem de ser inteiramente seu, adaptado ao seu tema, à sua população e ao regulamento da sua instituição. Copiar frases ou secções inteiras constitui plágio, mesmo quando a fonte é um exemplo genérico como este.
Todas as teses de Enfermagem precisam de uma teoria de Enfermagem no enquadramento?
Não é obrigatório em todas as instituições, mas é fortemente recomendado, porque ancorar o fenómeno numa teoria de Enfermagem reconhecida (Orem, Meleis, Pender, Watson, entre outras) dá coerência disciplinar ao trabalho e distingue uma tese de Enfermagem de um estudo genérico em Ciências da Saúde. Confirme sempre a exigência no regulamento do seu curso.
O que faz o júri reprovar logo na secção do problema de investigação?
Os motivos mais comuns são: um problema demasiado vago para gerar objetivos mensuráveis, a ausência de uma fonte credível a sustentar a relevância do fenómeno, e uma promessa desproporcional face ao que o desenho de estudo consegue realmente demonstrar — por exemplo, prometer “provar” uma relação causal com um desenho transversal.
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