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Como Escrever os Números e os Resultados Estatísticos na Tese (2026)

Como Escrever os Números e os Resultados Estatísticos na Tese (2026)

Em português académico: vírgula decimal, sempre; números de zero a dez por extenso no texto corrido, algarismos a partir de 11 e em qualquer valor com unidade; duas casas decimais para estatísticas descritivas e de teste, três para o valor-p; símbolos estatísticos em itálico (p, t, M, DP, n); e nunca um número a abrir frase.

São convenções pequenas, aplicadas centenas de vezes num único capítulo. Nenhuma delas reprova uma tese sozinha, mas em conjunto produzem a diferença entre um capítulo de resultados que parece profissional e um que parece colado do output do software. E a segunda impressão é fácil de dar: basta importar «0.043» de um programa configurado em inglês.

Ecrã com output estatístico ao lado de uma tabela de resultados impressa

Vírgula ou ponto decimal?

Em português, europeu e do Brasil, o separador decimal é a vírgula e o separador de milhares é o ponto ou um espaço fino: 1.250,75 ou 1 250,75. A norma anglófona faz o inverso, e é dela que vem o output do SPSS, do R, do Excel em inglês e de praticamente qualquer software estatístico com a configuração regional por defeito.

Isto gera o erro mais comum de todos: uma tese escrita em português com tabelas em notação inglesa. Repare no efeito quando as duas notações coexistem — «a média foi de 3,42 (DP = 1.07)» é ilegível, porque o leitor não sabe se 1.07 é um ou é mil e sete.

A solução não é corrigir à mão: é mudar a configuração regional antes de exportar. No SPSS, altere a localização nas opções e volte a correr a análise; no Excel, defina os separadores nas opções avançadas; em R, exporte com o separador decimal explicitamente definido. Corrigir cinquenta números à mão numa tabela é onde os erros de transcrição aparecem.

Por extenso ou em algarismos?

A convenção seguida pela generalidade das faculdades portuguesas, alinhada com a APA 7:

Escreve-se por extenso Escreve-se em algarismos
Números de zero a dez em texto corrido Números iguais ou superiores a 11
Qualquer número que inicie uma frase Qualquer número seguido de unidade de medida
Fracções comuns («dois terços da amostra») Idades, percentagens, valores monetários, datas
Expressões consagradas («os Doze Trabalhos») Números em tabelas e figuras, sem exceção
Números que representam posições numa escala («respondeu 4 numa escala de 1 a 7»)

Duas notas práticas. Primeira: nunca comece uma frase com algarismo. Em vez de «212 participantes responderam», escreva «Responderam 212 participantes» ou «Duzentos e doze participantes responderam» — a primeira solução é quase sempre melhor. Segunda: quando dois números aparecem juntos, escreva um por extenso para evitar ambiguidade: «doze escalas de 7 pontos», não «12 escalas de 7 pontos».

Quantas casas decimais?

A regra é a precisão que a medida suporta, não a que o software imprime. Um SPSS que devolve 3,4216783 não está a dizer-lhe que a média é precisa até à sétima casa.

  • Médias, desvios-padrão e estatísticas descritivas: duas casas decimais.
  • Estatísticas de teste (t, F, χ², U): duas casas decimais.
  • Correlações, coeficientes padronizados e proporções: duas casas, sem zero à esquerda (ver secção seguinte).
  • Valor-p: três casas decimais, exceto abaixo de 0,001, que se escreve p < 0,001.
  • Percentagens: uma casa decimal, ou nenhuma se a amostra for pequena — com n = 47, «34,04 %» é uma precisão que os dados não têm.
  • Graus de liberdade: inteiros, salvo correções como a de Greenhouse-Geisser, que produzem valores fraccionários e se reportam com duas casas.

Mantenha o mesmo número de casas dentro da mesma coluna de uma tabela. Uma coluna com 3,4 numa linha e 3,42 na seguinte lê-se como descuido, mesmo quando os valores estão certos.

O zero à esquerda: a regra que quase toda a gente falha

Escreve-se zero à esquerda em valores que podem ultrapassar um: 0,85 segundos, 0,42 pontos numa escala de 1 a 7.

Não se escreve zero à esquerda em valores que nunca podem ultrapassar um: correlações, proporções, valores-p, alfa de Cronbach, coeficientes padronizados. Escreve-se r = ,42 e p = ,003, não r = 0,42.

É a convenção APA e é largamente seguida em Portugal, mas há variação real entre faculdades e áreas — em Economia e Engenharia é comum manter o zero. Verifique o guia de estilo do seu departamento e, sobretudo, seja consistente. O conjunto das convenções de apresentação numérica adotadas pela norma mais usada em Portugal está em o guia completo das normas APA com exemplos.

O que vai em itálico

Os símbolos estatísticos que representam quantidades escrevem-se em itálico; os que são abreviaturas de palavras, não.

Em itálico Em redondo
M, DP, n, N, p, t, F, r, d, R² χ², η², α, β (letras gregas)
Mdn (mediana), SE (erro-padrão) IC 95 %, gl, DP quando escrito por extenso

Repare em n minúsculo contra N maiúsculo: N é a amostra total, n é um subgrupo. «N = 212; do sexo feminino, n = 148» é a forma correta, e trocá-los confunde o leitor sobre o denominador de cada percentagem.

A anatomia de um resultado bem escrito

Uma frase de resultado completa tem cinco componentes, sempre na mesma ordem: o que foi comparado, as estatísticas descritivas, a estatística de teste com graus de liberdade, o valor-p e o tamanho do efeito com intervalo de confiança.

«O grupo com intervenção obteve uma média superior (M = 4,18; DP = 0,72) à do grupo de controlo (M = 3,46; DP = 0,81), t(118) = 5,14; p < ,001; d = 0,94; IC 95 % [0,56; 1,32].»

Repare no que está presente e no que está ausente: não há adjetivos, não há interpretação e não há a palavra «prova». A medida de efeito a reportar em cada teste está em que tamanho do efeito reportar em cada teste, e a leitura correta do valor-p — incluindo o que ele não diz — está em como interpretar o valor-p na tese.

Os resultados estão calculados. Falta escrevê-los.

O Tesify escreve consigo o capítulo de resultados a partir do seu output — com a notação portuguesa correta, casas decimais consistentes e a forma de reporte que o júri espera.

Escrever os meus resultados com o Tesify

Percentagens: os três erros que aparecem sempre

Precisão excessiva em amostras pequenas. Com 47 respostas, cada participante vale 2,1 pontos percentuais. Escrever «34,04 %» sugere uma precisão de duas casas que a amostra não permite. Abaixo de cem casos, arredonde ao inteiro e acrescente a frequência absoluta: «16 participantes (34 %)».

Percentagens que não somam. Devido ao arredondamento, uma tabela pode somar 99,9 % ou 100,1 %. Não force os números: acrescente nota de rodapé a explicar que a diferença resulta de arredondamento.

Percentagem sobre denominadores diferentes sem o dizer. Se 30 dos 212 participantes não responderam a uma questão, as percentagens dessa questão calculam-se sobre 182, e a tabela tem de indicar o n da coluna. Como declarar e tratar essas ausências está em como lidar com dados em falta na tese.

Unidades, intervalos e espaçamento

  • Espaço antes da unidade e do símbolo de percentagem: 25 kg, 3,5 cm, 42 %. Em português é o espaço que separa, não a colagem — «42%» é uso anglófono.
  • Intervalos: use travessão sem espaços em números («entre 18–25 anos» ou, preferencialmente em texto corrido, «entre 18 e 25 anos»). Em tabelas, o travessão é mais compacto.
  • Valores monetários: em português europeu o símbolo vem depois — 1.250,00 €.
  • Milhares em tabelas: escolha ponto ou espaço fino e mantenha em todas as tabelas.
  • Sinais de comparação: espaço dos dois lados — p < ,001, não p<,001.

Como verificar tudo isto antes de entregar

  1. Procure o ponto decimal. Pesquise por «0.» no documento inteiro. Cada ocorrência fora de um URL ou de uma versão de software é um erro de importação.
  2. Procure «%» colado ao número. Uma substituição global resolve, mas verifique tabelas, que muitas vezes escapam.
  3. Leia a primeira coluna de cada tabela. Confirme que todas as células têm o mesmo número de casas decimais.
  4. Procure «p =» e «p<». Verifique itálico, três casas e a regra do p < ,001.
  5. Leia a primeira palavra de cada parágrafo do capítulo de resultados. Se alguma for um algarismo, reescreva a frase.

Vale ainda registar estas decisões — separador, casas decimais por tipo de variável, zero à esquerda — no mesmo documento onde regista a codificação das variáveis, para não as reinventar a meio da escrita. A forma de o organizar está em como construir o livro de códigos da tese.

Perguntas frequentes

Escreve-se vírgula ou ponto decimal numa tese em português?

Vírgula, tanto em português europeu como em português do Brasil. O ponto decimal é convenção anglófona e chega às teses através do output do software com configuração regional inglesa. Altere a localização no programa antes de exportar, em vez de corrigir os números à mão.

Quantas casas decimais devo usar no valor-p?

Três casas decimais, com o valor exato sempre que possível — p = ,032 é mais informativo do que p < ,05. Abaixo de 0,001, escreva p < ,001, porque o valor exato deixa de ter significado prático. Nunca escreva p = ,000, que é o arredondamento que o SPSS mostra e não um valor real.

Escreve-se 0,42 ou ,42 numa correlação?

Pela convenção APA, ,42 sem zero à esquerda, porque uma correlação nunca pode exceder um em valor absoluto. A mesma regra vale para valores-p, proporções, alfa de Cronbach e coeficientes padronizados. Há variação entre áreas e faculdades: confirme no guia do departamento e mantenha a escolha em toda a tese.

Posso começar uma frase com um número?

Não em algarismos. Ou escreve o número por extenso — «Duzentos e doze participantes responderam» — ou, melhor, reescreve a frase para que o número não fique em primeiro lugar: «Responderam 212 participantes». A segunda solução evita números por extenso longos e desajeitados.

Que símbolos estatísticos vão em itálico?

Os que representam quantidades escritas em alfabeto latino: M, DP, n, N, p, t, F, r, d, R². As letras gregas não levam itálico — qui-quadrado, eta quadrado, alfa e beta escrevem-se em redondo. Abreviaturas como IC 95 % e gl também ficam em redondo.

Devo repetir no texto os números que já estão na tabela?

Não todos. O texto deve apontar o que interessa e remeter para a tabela: destaque dois ou três valores que sustentam o argumento e deixe o resto na tabela. Repetir em prosa todos os números de um quadro duplica o volume do capítulo sem acrescentar informação.

Como escrevo percentagens numa amostra pequena?

Arredonde ao número inteiro e apresente sempre a frequência absoluta ao lado: «16 participantes (34 %)». Abaixo de vinte casos, muitos orientadores preferem que apresente apenas frequências, porque a percentagem sugere uma estabilidade que a amostra não tem.

As regras mudam se a tese seguir a ABNT?

A vírgula decimal e o espaço antes do símbolo de percentagem mantêm-se. Mudam sobretudo as convenções de apresentação tabular e a estrutura das referências. O zero à esquerda é mais frequentemente mantido em trabalhos brasileiros do que em trabalhos que seguem APA. Confirme a norma adotada pela sua instituição antes de fixar o formato.

Em resumo

Vírgula decimal, algarismos a partir de onze e sempre com unidade, duas casas para descritivas e três para o valor-p, itálico nos símbolos latinos, espaço antes do símbolo de percentagem e nenhum número a abrir frase. Configure o software antes de exportar em vez de corrigir à mão, e reserve uma hora final só para percorrer as tabelas coluna a coluna. É a hora com melhor retorno de toda a revisão.

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