Como Fazer o Plano de Gestão de Dados (DMP) da Tese 2026
O orientador pediu-te um Plano de Gestão de Dados — ou a candidatura a bolsa exige um DMP — e não sabes por onde começar. Este guia explica, passo a passo, o que é um DMP, quais as secções obrigatórias, como aplicar os princípios FAIR e quais as ferramentas gratuitas disponíveis em 2026 para estudantes de mestrado e doutoramento em Portugal e no Brasil.
O que é um DMP e para que serve
Um Plano de Gestão de Dados (DMP) é um documento vivo que acompanha toda a investigação. Não é um relatório final — é um plano que define, antes de recolheres o primeiro dado, como vais gerir a informação ao longo da tese e após a sua conclusão.
O DMP responde a perguntas práticas que muitos estudantes ignoram até ser tarde: onde ficam guardados os ficheiros de entrevistas? Com que software analisas os inquéritos? Quem tem acesso aos dados em bruto? Os dados ficam disponíveis para outros investigadores depois da defesa?
Na prática, um bom DMP evita três problemas comuns: perda de dados por falha de disco sem cópia de segurança, inconsistências entre versões de ficheiros, e impossibilidade de reutilização dos dados por outros investigadores por falta de documentação.
Quando o DMP é obrigatório na tese
O DMP passou de boa prática a requisito formal em vários contextos:
| Contexto | Obrigatoriedade | Prazo |
|---|---|---|
| Horizon Europe (projetos europeus) | Obrigatório | Mês 6 do projeto; atualizado no meio e no fim |
| Bolsas FCT (Portugal) | Obrigatório para bolsas de doutoramento FCT | Entregue com o relatório intercalar |
| Teses de doutoramento (universidades PT) | Crescentemente exigido institucionalmente | Varia por universidade |
| Dissertações de mestrado | Recomendado, raramente obrigatório | À discrição do orientador |
| Pesquisa com dados pessoais (PT/BR) | Necessário para cumprir RGPD/LGPD | Antes da recolha de dados |
A FCT adotou formalmente a plataforma ARGOS — desenvolvida em parceria com a OpenAIRE — como ferramenta nacional de gestão de DMPs para a comunidade científica portuguesa. Desde novembro de 2025, o projeto POLEN Blueprint, em parceria com a Universidade do Minho e a FCCN, está a implementar uma plataforma nacional de DMPs em Portugal. Se a tua bolsa envolve as exigências de acesso aberto da FCT, um DMP é parte integrante da tua submissão.
Se o teu estudo recolhe dados pessoais de participantes humanos — questionários, entrevistas, gravações — o DMP é também o documento onde demonstras conformidade com o RGPD (em Portugal) ou com as normas relativas a dados pessoais e LGPD (no Brasil). Está igualmente ligado ao processo de aprovação ética dos dados pelo comité de ética da instituição.
Os princípios FAIR explicados para a tese
FAIR é o acrónimo que orienta a gestão de dados científicos modernos. Foi publicado originalmente em 2016 na revista Scientific Data e tornou-se a referência global para financiadores como a Comissão Europeia e a FCT. Eis o que cada letra significa na prática da tua tese:
F — Findable (Encontrável)
Os dados e os metadados têm de ser acessíveis por motores de busca e indexadores científicos. Na prática: deposita os dados num repositório que atribua um identificador persistente (DOI, Handle), usa palavras-chave descritivas nos metadados e preenche os campos de título, autor, resumo e data com rigor. Podes depositar em repositórios FAIR como Zenodo, Dryad ou B2SHARE — todos gratuitos para investigadores académicos.
A — Accessible (Acessível)
Os dados devem ser recuperáveis através de protocolos abertos e padronizados. “Acessível” não significa necessariamente “público”: podes ter dados com acesso restrito, desde que os metadados sejam públicos e os protocolos de acesso estejam documentados. O DMP deve especificar se os dados serão de acesso aberto, acesso restrito ou embargo temporário, e porquê.
I — Interoperable (Interoperável)
Os dados devem usar formatos e vocabulários padronizados para poderem ser combinados com outros conjuntos de dados. Na prática: prefere formatos abertos como CSV, JSON, XML ou TXT em vez de formatos proprietários como XLSX ou SPSS (.sav). Usa vocabulários controlados ou ontologias reconhecidas na tua área.
R — Reusable (Reutilizável)
Os dados precisam de documentação suficiente para outros investigadores poderem compreendê-los e reutilizá-los sem contactar o autor. Inclui um ficheiro README, um codebook que descreve cada variável, e uma licença clara (por exemplo Creative Commons CC BY 4.0 para dados abertos). Também deves referir a repositórios de dados lusófonos adequados ao teu campo disciplinar.
Passo a passo: como criar o teu DMP
Seguindo a estrutura recomendada pela Science Europe — adotada pela FCT para o template ARGOS — um DMP para tese deve contemplar as seguintes secções:
Passo 1 — Descreve os dados que vais gerar
Identifica os tipos de dados (quantitativos, qualitativos, imagens, gravações de áudio, código informático), a sua origem (recolha primária, dados secundários de terceiros, simulações), o volume estimado (em GB ou número de registos) e os formatos de ficheiro. Sê concreto: em vez de “dados de entrevistas”, escreve “24 gravações de áudio MP3 de 45-90 minutos cada, totalizando aproximadamente 4 GB”.
Passo 2 — Define os padrões e metadados
Indica qual o esquema de metadados que vais usar (Dublin Core, DataCite, DDI para dados de ciências sociais) e como vais documentar os dados durante a investigação. Esta secção é o coração do princípio Interoperável. Se usas questionários com escala de Likert, por exemplo, documenta as opções de resposta no codebook.
Passo 3 — Define as políticas de acesso e partilha
Declara quando e como os dados serão partilhados, em que repositório serão depositados, qual a licença de utilização e se há restrições (dados pessoais, confidencialidade empresarial, dados sensíveis). Para investigação financiada pelo Horizon Europe, o princípio padrão é “tão aberto quanto possível, tão fechado quanto necessário”.
Segundo as orientações da OpenAIRE sobre como cumprir o mandato Horizon Europe para RDM, o DMP deve ser um entregável ativo, não um documento estático produzido apenas para satisfazer a candidatura.
Passo 4 — Aborda a preservação a longo prazo
Define durante quanto tempo os dados serão preservados após o fim da investigação (a maioria dos financiadores exige um mínimo de 10 anos), onde serão guardados (repositório institucional, Zenodo, etc.) e quem será responsável pela preservação após a tua saída da universidade.
Passo 5 — Indica os recursos e responsabilidades
Especifica quem é responsável pela gestão dos dados (normalmente o investigador principal, com supervisão do orientador), se há custos associados ao armazenamento ou repositório, e como esses custos são cobertos. Para dissertações sem financiamento externo, esta secção pode ser breve.
Passo 6 — Trata das questões éticas e legais
Identifica se a investigação envolve dados pessoais, dados de menores, dados de saúde ou outros dados sensíveis, e como vais garantir a conformidade legal. Remete para o parecer do comité de ética e para os formulários de consentimento informado dos participantes.
O blogue de metodologia científica Ciência Prática oferece orientações práticas sobre o que escrever na secção de metodologia — muitas dessas orientações aplicam-se diretamente ao DMP, dado que os dois documentos partilham a mesma lógica de transparência e reprodutibilidade.
Ferramentas gratuitas para fazer o DMP
Não precisas de criar o DMP num processador de texto a partir do zero. Existem plataformas especializadas que guiam o processo com templates validados:
| Ferramenta | Instituição | Template FCT/HE | Acesso |
|---|---|---|---|
| ARGOS | OpenAIRE + FCT | Sim (template FCT disponível) | Gratuito |
| DMP Online | Digital Curation Centre (DCC) | Sim (template Horizon Europe) | Gratuito |
| Data Stewardship Wizard | ELIXIR / vários consórcios europeus | Sim | Gratuito |
| EasyDMP | SIGMA2 (Noruega) | Parcial | Gratuito |
O ARGOS é a opção mais recomendada para investigadores portugueses, dado que integra o template oficial da FCT e está alinhado com o projeto POLEN Blueprint que Portugal está a implementar. Podes criar conta com as credenciais institucionais da tua universidade.
Para estudantes de doutoramento que trabalham no contexto de projetos Horizon Europe, o guia detalhado de requisitos do DMP para projetos Horizon Europe (Enspire Science) explica as secções obrigatórias e os critérios de avaliação dos revisores.
O blogue Ferramentas para Doutoranda dedica atenção a recursos concretos para investigadores em formação; o artigo sobre cinco ferramentas para não te sentires perdido depois da tese inclui referências à gestão de dados pós-defesa que complementam o que aqui tratamos.
Para a dimensão de partilha e publicação dos dados, o Scielo disponibiliza orientações sobre boas práticas em ciência aberta que ajudam a perceber como os dados devem ser preparados para publicação em acesso aberto em revistas indexadas.
Perguntas frequentes sobre o DMP da tese
O DMP é obrigatório para todas as teses de mestrado em Portugal?
Não. Para dissertações de mestrado sem financiamento externo, o DMP é uma boa prática mas raramente é obrigatório. Torna-se obrigatório quando a investigação está associada a um projeto FCT ou Horizon Europe, quando envolve dados pessoais sujeitos ao RGPD, ou quando a instituição o exige nos seus regulamentos internos. Consulta o teu orientador e o regulamento de mestrado da tua faculdade.
Quanto tempo demora a fazer um DMP?
Um DMP inicial para uma tese de mestrado pode ser feito em 2 a 4 horas usando uma ferramenta como o ARGOS ou DMP Online, que guiam o processo com perguntas estruturadas. Para projetos de doutoramento mais complexos, ou quando existem dados sensíveis, o processo pode levar um ou dois dias de trabalho. O DMP é depois revisto e atualizado ao longo da investigação.
O que são os princípios FAIR e por que são importantes para a tese?
FAIR significa Findable (Encontrável), Accessible (Acessível), Interoperable (Interoperável) e Reusable (Reutilizável). São os critérios internacionais que definem como os dados de investigação devem ser geridos para que possam ser encontrados, compreendidos e reutilizados por outros investigadores. A FCT e a Comissão Europeia exigem que os projetos financiados apliquem estes princípios. Para a tese, seguir o FAIR aumenta o impacto científico da investigação e demonstra rigor metodológico.
Posso partilhar dados de entrevistas com participantes identificáveis?
Não diretamente. Dados de entrevistas com participantes identificáveis são dados pessoais sujeitos ao RGPD (Portugal) ou LGPD (Brasil). Tens de anonimizar ou pseudonimizar os dados antes de os partilhar, ou depositar com acesso restrito e protocolo de acesso controlado. O DMP deve documentar explicitamente as medidas de proteção de dados que aplicaste. Verifica também as condições do consentimento informado que obtiveste dos participantes.
Quais os repositórios recomendados para depositar os dados da tese?
Para dados gerais: Zenodo (CERN, gratuito, aceita qualquer disciplina), Dryad (ciências da vida e ambiental) e B2SHARE (infraestrutura europeia EUDAT). Para dados de ciências sociais: GESIS, UKDA ou o repositório institucional da tua universidade. Portugal tem repositórios institucionais nas principais universidades. O critério de escolha deve ser: o repositório atribui DOI, é indexado por motores académicos e tem política de preservação a longo prazo.
O DMP pode ser entregue em português?
Depende do financiador. Para candidaturas FCT em português, o DMP pode ser entregue em português. Para projetos Horizon Europe, o DMP deve ser em inglês, pois é avaliado por revisores europeus. O template ARGOS está disponível em ambos os idiomas. Se a tese é escrita em português mas o projeto é europeu, o DMP deve estar em inglês — confirma sempre nos documentos de candidatura.
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Gerir o DMP, os consentimentos informados, as referências bibliográficas e os rascunhos da tese em separado é uma fonte constante de confusão. A Tesify centraliza a documentação da investigação e ajuda-te a manter o registo das versões dos teus dados ao longo de todo o processo.
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