Onde Depositar os Dados da Tua Tese em 2026: Zenodo, Dryad, B2SHARE e Mais

Onde Depositar os Dados da Tua Tese em 2026: Zenodo, Dryad, B2SHARE e Mais

Terminaste a análise de dados, escreveste a tese — e agora o que fazes com os ficheiros Excel, as transcrições de entrevistas, o código Python ou os modelos estatísticos que geraste ao longo de meses de investigação? Em 2026, a resposta já não é “ficam guardados no teu portátil”. A Política de Acesso Aberto da FCT, o Plano S, os editores das principais revistas científicas e as boas práticas de ciência aberta convergem numa direção clara: os dados de investigação devem ser depositados em repositórios FAIR — Findable, Accessible, Interoperable, Reusable.

Mas escolher o repositório certo não é trivial. O Zenodo, o Dryad, o B2SHARE, o Figshare e os repositórios institucionais RCAAP têm características, custos, públicos-alvo e graus de curadoria muito diferentes. Neste artigo comparamos cada opção, explicamos como integrar o Zenodo com o GitHub, e damos orientação prática sobre que repositório escolher em função da área científica, do tipo de dados e dos requisitos do teu financiador.

Resposta rápida: Para a maioria dos investigadores portugueses em 2026, o Zenodo é a melhor escolha: gratuito até 50 GB, DOI automático, integração com GitHub e ORCID, e aceite pela FCT, Horizonte Europa e praticamente todos os editores científicos. O Dryad é preferível para dados de ciências da vida com requisitos de curadoria especializada. O B2SHARE é a opção europeia preferencial para projetos Horizonte Europa. Repositórios institucionais RCAAP são adequados quando a tua universidade disponibiliza um.

O Que São Dados FAIR e Por Que Importam em 2026

Os princípios FAIR foram publicados em 2016 na revista Scientific Data (Wilkinson et al.) e tornaram-se o padrão de referência para gestão de dados de investigação em todo o mundo. FAIR significa:

  • F — Findable (Encontrável): Os dados têm metadados ricos, identificadores persistentes (DOI, Handle) e são indexados em motores de busca científicos.
  • A — Accessible (Acessível): Os dados são acessíveis por protocolos abertos e padronizados (HTTPS, OAI-PMH). Mesmo dados restritos têm metadados acessíveis.
  • I — Interoperable (Interoperável): Os dados usam vocabulários e formatos reconhecidos (CSV, JSON, NetCDF, Dublin Core, Schema.org) que permitem combinação com outros datasets.
  • R — Reusable (Reutilizável): Os dados têm licença clara (idealmente CC0 ou CC-BY), descrição detalhada do contexto de recolha e documentação que permite a outros investigadores reutilizá-los de forma autónoma.

Em 2026, os principais motivos pelos quais os dados FAIR deixaram de ser uma opção e se tornaram uma expectativa:

  1. A FCT recomenda (e em projetos Horizonte Europa cofinancia) a elaboração de Planos de Gestão de Dados (DMP) e o depósito em repositórios FAIR.
  2. Revistas como Nature, Science, PLOS ONE, BMJ e centenas de outras exigem disponibilização dos dados na submissão.
  3. O Plano S e as políticas de ciência aberta da Comissão Europeia preveem obrigatoriedade progressiva de dados abertos para projetos financiados com fundos públicos europeus.
  4. A ConfOA 2026 (Faro, outubro) dedicará sessões específicas a dados FAIR e IA na gestão de dados científicos — sinal de que o tema está no topo da agenda em Portugal.

Quando Tens de Depositar Dados de Investigação

A obrigação de depositar dados varia em função do financiador e do editor:

Situação Obrigação Prazo
Projeto FCT (pós-7/2/2025) DMP recomendado; depósito dados recomendado (não obrigatório em geral) Relatório final do projeto
Horizonte Europa (UE) DMP obrigatório; dados abertos por defeito (com exceções) Dentro de 6 meses após geração
Submissão a revista (ex.: Nature, PLOS) Obrigatório conforme política editorial Na submissão ou aceitação
Tese de doutoramento FCT Recomendado (dados subjacentes à tese) Antes ou após depósito da tese no RCAAP
Bolsa pessoal FCT/CAPES/CNPq Recomendado (boas práticas ciência aberta) Sem prazo obrigatório definido em 2026

Zenodo (CERN): O Repositório Universal

O Zenodo foi criado pelo CERN e pelo projeto OpenAIRE em 2013 e tornou-se rapidamente o repositório de referência para ciência aberta a nível global. Em 2026, os números impressionam: mais de 3 milhões de depósitos, aceite por todas as grandes agências de financiamento europeias e pela esmagadora maioria das revistas científicas.

Características Principais

  • Gratuito até 50 GB por registo (ficheiros individuais até 50 GB; para maiores volumes contactar suporte)
  • DOI automático em todos os depósitos — o DOI é ativado instantaneamente após publicação
  • Todos os tipos de ficheiros: datasets, código, imagens, apresentações, vídeos, artigos preprint
  • Versionamento: podes criar novas versões de um dataset mantendo DOIs separados para cada versão e um DOI de conceito que aponta sempre para a versão mais recente
  • Preservação de longo prazo: garantida pelo CERN por pelo menos 20 anos
  • Integração GitHub: cada release de um repositório GitHub gera automaticamente um registo Zenodo com DOI
  • ORCID: login e associação automática dos depósitos ao teu perfil ORCID
  • Licenças flexíveis: CC0, CC-BY, CC-BY-SA, MIT, GPL, Apache e outras

Quando Usar o Zenodo

O Zenodo é a escolha ideal quando: queres depositar código, datasets heterogéneos ou qualquer combinação de ficheiros sem custo; precisas de DOI de forma imediata; trabalhares em qualquer área científica; o teu projeto é financiado pela FCT ou Horizonte Europa. Consulta o nosso artigo sobre o Plano de Acesso Aberto FCT 2026 para perceber como o Zenodo se integra na política de ciência aberta portuguesa.

Dryad: Curadoria para Ciências da Vida

O Dryad é gerido pela California Digital Library (CDL) e foi especificamente desenhado para dados de ciências da vida, medicina, ciências ambientais e ciências naturais. A sua principal distinção é a curadoria especializada: todos os datasets submetidos são revistos por curadores antes da publicação, o que garante qualidade e conformidade com as políticas editoriais das revistas parceiras.

Características Principais

  • Curadoria profissional: 1-2 semanas de revisão por curador especializado
  • Licença CC0 obrigatória para todos os datasets — máxima reutilização
  • DOI automático
  • Aceite por revistas de topo: Nature, Science, Ecology, Evolution, Molecular Ecology, PLOS Biology e +4.000 outras
  • Integração com submissão editorial: muitas revistas permitem submeter os dados diretamente no Dryad durante o processo de peer review

Custos

O Dryad cobra uma Data Publishing Charge (DPC):

  • USD 150 para o primeiro dataset de um artigo (base)
  • Fees adicionais por GB acima do limite base
  • Para investigadores em instituições membro Dryad: custo coberto pela instituição

B2SHARE (EUDAT): A Opção Europeia

O B2SHARE é desenvolvido e operado pela infraestrutura de dados de investigação europeia EUDAT, cofinanciada pela Comissão Europeia. É especialmente relevante para projetos financiados pelo Horizonte Europa ou pelo Horizonte 2020, e para comunidades científicas que querem um repositório europeu com governação clara e soberania de dados na UE.

Características Principais

  • Gratuito para comunidades científicas registadas na plataforma EUDAT
  • DOI via integração com a infraestrutura europeia de identificadores
  • Comunidades temáticas: podes criar uma comunidade específica para o teu grupo de investigação ou projeto
  • Soberania de dados europeia: servidores na UE, governação por consórcio europeu
  • Metadados Dublin Core e DataCite

Figshare: Polivalência e Visibilidade

O Figshare é um repositório de dados e publicações suplementares comercial (Digital Science) com uma vertente gratuita generosa. Tem uma forte componente de rede social académica, com perfis de investigadores e visualizações interativas de dados.

Características Principais

  • Plano gratuito: 20 GB de armazenamento privado; publicações públicas ilimitadas
  • DOI automático para todos os itens públicos
  • Suporte a mais de 100 formatos de ficheiro com visualização no browser
  • Integração com Mendeley Data (Elsevier)

Repositórios Institucionais RCAAP

Algumas universidades portuguesas têm repositórios de dados próprios integrados no ecossistema RCAAP. O exemplo mais desenvolvido é o DUnAs da Universidade de Aveiro — Repositório de Dados de Investigação da UA. Verifica se a tua universidade tem solução equivalente junto dos Serviços de Documentação.

A vantagem dos repositórios institucionais é a integração automática com o perfil RCAAP da instituição e com o sistema de gestão académica, facilitando a associação ao processo de depósito da tese. A desvantagem é a visibilidade mais limitada do que o Zenodo ou Dryad, que têm motores de busca com alcance global.

Tabela Comparativa: Qual Repositório de Dados Escolher

Critério Zenodo Dryad B2SHARE Figshare
Custo Gratuito USD 150+ por dataset Gratuito Gratuito (20 GB)
DOI automático Sim Sim Sim Sim
Curadoria Não Sim (especializada) Não Não
GitHub integration Nativa Não Não Parcial
Licenças aceites Todas (CC, MIT, GPL…) CC0 obrigatório Múltiplas CC, MIT, etc.
Preservação garantida 20+ anos (CERN) Longo prazo (CDL) Longo prazo (UE) Longo prazo (Digital Science)
Melhor para Qualquer área, código, uso geral Ciências vida, medicina Projetos Horizonte Europa Artigos Elsevier, visibilidade social

Como Ligar o GitHub ao Zenodo: Guia Passo a Passo

Se a tua tese inclui código, scripts ou pipelines de análise de dados depositados num repositório GitHub, a integração Zenodo-GitHub permite que cada versão lançada (release) receba automaticamente um DOI citável. O processo é simples:

  1. Cria conta no Zenodo em zenodo.org. Podes fazer login diretamente com a tua conta GitHub ou ORCID.
  2. Acede a Settings → GitHub no teu perfil Zenodo.
  3. Autoriza o acesso ao GitHub e seleciona o repositório que contém o código da tua tese.
  4. Ativa o toggle ao lado do repositório — o Zenodo está agora a monitorizar novas releases.
  5. No GitHub, cria uma Release (com tag de versão, ex.: v1.0.0). O Zenodo arquiva automaticamente o estado do repositório e atribui um DOI.
  6. Opcionalmente, adiciona um ficheiro CITATION.cff ou .zenodo.json na raiz do repositório com metadados completos — o Zenodo usa estes ficheiros para preencher os metadados do registo automaticamente.
Dica Pro: Cria um DOI de conceito (concept DOI) no Zenodo que aponta sempre para a versão mais recente, e DOIs individuais para cada versão. Na tese, cita o DOI da versão específica usada na análise — garantindo reprodutibilidade exata.

ORCID e DOI: Identificadores Persistentes

Os dados depositados no Zenodo, Dryad ou B2SHARE têm muito mais valor quando estão corretamente associados ao teu ORCID iD. Em Portugal, a integração é facilitada pelo PTCRISync, que sincroniza automaticamente os depósitos no ORCID com o teu perfil CIÊNCIAVITAE.

Para garantir que os teus dados aparecem no teu ORCID:

  1. No Zenodo, certifica-te de que o teu ORCID está associado à conta (Settings → Connected Accounts).
  2. Ao depositar, preenche o campo ORCID iD em todos os autores e co-autores.
  3. Após publicação, os registos com ORCID são automaticamente sincronizados via API ORCID.
  4. No CIÊNCIAVITAE, verifica em “Produção Científica” se os datasets aparecem (pode demorar 24-48h).

Como Citar os Teus Dados na Tese

Quando depositares os dados antes ou durante a escrita da tese, podes citá-los como uma referência bibliográfica normal. Exemplo em APA 7:

Silva, A. R. (2026). Dataset: Análise de satisfação estudantil nas universidades portuguesas 2024-2026 (Versão 1.0) [Dataset]. Zenodo. https://doi.org/10.5281/zenodo.xxxxxxx

Em NP 405:

SILVA, Ana Rita – Dataset: Análise de satisfação estudantil nas universidades portuguesas 2024-2026. Versão 1.0. Zenodo, 2026. DOI: 10.5281/zenodo.xxxxxxx. Disponível em: https://doi.org/10.5281/zenodo.xxxxxxx. Acesso em: 15 jun. 2026.

Dados FAIR e a Política FCT 2026

A Política de Acesso Aberto FCT de fevereiro de 2025 recomenda o depósito de dados em repositórios FAIR. Para projetos cofinanciados pelo Horizonte Europa, o Plano de Gestão de Dados (DMP) é obrigatório e deve especificar o repositório de dados escolhido, a licença aplicada e os metadados disponibilizados.

A FCT disponibiliza o sítio acessoaberto.fct.pt com recursos de apoio à elaboração de DMPs. Para saber mais sobre como o depósito de dados se enquadra na política de acesso aberto global, consulta também o nosso artigo sobre a ConfOA 2026 em Faro e como submeter o teu trabalho sobre gestão de dados.

Perguntas Frequentes sobre Repositórios de Dados FAIR

Posso depositar dados de inquéritos com dados pessoais no Zenodo?

Sim, mas com cuidados obrigatórios. Dados pessoais (nomes, emails, IPs, dados de saúde) só podem ser depositados após anonimização ou pseudonimização rigorosa, em conformidade com o RGPD (Portugal) e a LGPD (Brasil). Prática recomendada: deposita apenas os dados anonimizados ou agregados; guarda os dados identificados localmente com proteção adequada. O Zenodo permite depósitos com acesso restrito (apenas disponíveis mediante pedido justificado), o que é uma solução para dados parcialmente sensíveis.

Tenho de depositar os dados antes ou depois de publicar o artigo?

Depende da política da revista. Muitas revistas de ciências da vida (Nature, PLOS) pedem que os dados estejam depositados antes ou no momento da submissão do artigo, com o DOI do dataset incluído no manuscrito. O Zenodo oferece a funcionalidade de “reserved DOI” — podes reservar um DOI antes de tornar o depósito público, incluir esse DOI no artigo durante o peer review, e depois publicar os dados quando o artigo for aceite.

O Zenodo aceita datasets em português com metadados em português?

Sim. O Zenodo aceita metadados em qualquer língua, incluindo português. Podes preencher o título, descrição e palavras-chave em português (e opcionalmente também em inglês para maior visibilidade). A interface da plataforma está disponível em inglês mas os conteúdos podem ser em qualquer língua. Para maximizar a descoberta internacional, é boa prática incluir pelo menos o resumo em inglês.

Posso alterar ou retirar dados do Zenodo depois de publicados?

O Zenodo não permite eliminar registos publicados — o DOI fica permanente. Podes, no entanto, criar novas versões (com o DOI a apontar para a versão corrigida) e, em casos excecionais de erro grave ou violação de privacidade, solicitar ao suporte Zenodo a retração do acesso ao ficheiro mantendo os metadados e DOI (com nota de retratação). É por isso que se recomenda verificar cuidadosamente os dados antes de publicar.

O depósito de dados no Zenodo conta para a minha avaliação académica?

Progressivamente sim. Com a adoção do movimento DORA e das políticas de ciência aberta, a FCT, a CAPES e o CNPq começam a reconhecer datasets como produção científica legítima. Na FCT, os Planos de Investigação de candidatos CEEC Individual devem já demonstrar práticas de ciência aberta, incluindo depósito de dados. Em 2026, a visibilidade positiva de ter dados citáveis supera largamente qualquer custo de tempo na preparação do depósito.

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