,

Como Fazer uma Tese sobre ESG em Contabilidade e Finanças: Problema, Objetivos e Método (2026)

Como Fazer uma Tese sobre ESG em Contabilidade e Finanças: Problema, Objetivos e Método (2026)

“Quero fazer a minha tese sobre ESG” é o ponto de partida de muitos estudantes de Contabilidade e Finanças — mas ESG (ambiental, social e governança) não é, por si só, um problema de investigação. É um domínio temático demasiado amplo para uma dissertação de mestrado sem ser recortado num problema concreto, com objetivos mensuráveis e um método que produza resultados analisáveis dentro do prazo. Este artigo mostra como transformar “quero estudar ESG” num plano de tese completo, com um exemplo desenvolvido do início ao fim.

Resposta rápida: Uma tese sobre ESG em Contabilidade e Finanças precisa de escolher entre três desenhos principais: (1) análise de conteúdo do relato de sustentabilidade de empresas (o que reportam, segundo que referencial — GRI, ESRS), (2) um estudo relacional entre pontuação ESG e uma variável financeira (desempenho, custo de capital, valor de mercado), ou (3) um estudo de caso sobre a implementação da CSRD numa empresa ou setor. Cada desenho tem uma pergunta, uma fonte de dados e um método estatístico ou qualitativo diferente — a tese tem de escolher um, não os três ao mesmo tempo.

1. O enquadramento regulatório que toda a tese de ESG precisa de conhecer

Uma tese sobre ESG em Contabilidade e Finanças tem de situar o tema no enquadramento regulatório em vigor, que mudou substancialmente nos últimos anos. A CSRD (Corporate Sustainability Reporting Directive, Diretiva (UE) 2022/2464) alargou a obrigatoriedade de relato de sustentabilidade a um número muito maior de empresas europeias do que a diretiva anterior, com aplicação faseada: as primeiras empresas abrangidas reportaram sobre o exercício de 2024, com relatórios publicados em 2025. Desde então, o calendário mudou: a diretiva “stop-the-clock” (2025) adiou a entrada em aplicação para as empresas das segunda e terceira vagas, que deviam reportar pela primeira vez sobre os exercícios de 2025 ou 2026, e o pacote de simplificação Omnibus (acordo político em dezembro de 2025) restringe o âmbito da CSRD às maiores empresas, com mais de 1000 trabalhadores. O conteúdo desse relato é definido pelas ESRS (European Sustainability Reporting Standards), adotadas pela Comissão Europeia em 2023 e entretanto objeto de revisão e simplificação — confirme sempre que versão se aplica ao exercício que está a analisar. Paralelamente, muitas empresas continuam a usar, de forma voluntária ou complementar, os referenciais mais antigos da GRI (Global Reporting Initiative), historicamente o referencial de relato de sustentabilidade mais usado a nível mundial antes da harmonização europeia.

Comentário: uma tese que trate “relato ESG” como um bloco homogéneo, sem distinguir se está a analisar relatórios preparados sob GRI, sob ESRS, ou sob os dois em transição, comete um erro de enquadramento que compromete a comparabilidade dos dados recolhidos — os indicadores exigidos, a estrutura e até a terminologia diferem entre referenciais.

Relatório de sustentabilidade corporativa com ícones representando os pilares ambiental, social e de governação
O enquadramento regulatório do relato de sustentabilidade mudou substancialmente com a CSRD e as ESRS.

2. Os três desenhos de tese mais usados

Desenho Pergunta típica Método
Análise de conteúdo do relato O que as empresas do setor X reportam sobre o pilar ambiental, e com que nível de detalhe? Análise de conteúdo (grelha por indicador GRI/ESRS)
Estudo relacional A pontuação ESG está associada ao custo de capital ou ao desempenho financeiro? Regressão (linear ou logística, consoante a variável dependente)
Estudo de caso Como uma empresa concreta implementou o processo de dupla materialidade exigido pela CSRD? Estudo de caso qualitativo, entrevistas a responsáveis de sustentabilidade/contabilidade

Comentário: a escolha entre os três não é uma questão de preferência estética — depende dos recursos disponíveis. O primeiro desenho exige acesso a relatórios públicos (fácil) mas tempo de codificação manual (moroso); o segundo exige uma base de dados de pontuações ESG, muitas vezes de acesso pago ou limitado para estudantes; o terceiro exige acesso institucional a uma empresa disposta a conceder entrevistas.

3. Como definir o problema de investigação

Problema mal definido (demasiado amplo): “Estudar o impacto do ESG nas empresas portuguesas.”

Problema bem definido (ilustrativo): “Não é claro, na literatura portuguesa, se a qualidade do relato de sustentabilidade sob a CSRD está associada ao custo de capital das empresas cotadas no PSI, uma vez que os estudos existentes se concentram sobretudo em mercados anglo-saxónicos com estruturas de financiamento diferentes das do mercado português.”

Comentário: o segundo problema nomeia três coisas que o primeiro não tem — a variável concreta (custo de capital), a população delimitada (empresas cotadas no PSI) e a lacuna específica na literatura (falta de estudos em mercados como o português). É esta especificidade que torna o problema testável dentro do prazo de uma tese de mestrado.

Gráfico de custo de capital ligado a um índice de qualidade de relato de sustentabilidade
Um problema de investigação bem definido nomeia a variável, a população e a lacuna na literatura.

4. Objetivos e hipóteses (exemplo desenvolvido)

Continuando o exemplo ilustrativo do estudo relacional entre relato ESG e custo de capital:

Objetivo geral: Analisar a relação entre a qualidade do relato de sustentabilidade e o custo de capital próprio das empresas cotadas no PSI.

  • Objetivo específico 1: Construir um índice de qualidade do relato ESG com base nos indicadores exigidos pelas ESRS.
  • Objetivo específico 2: Estimar o custo de capital próprio de cada empresa da amostra através de um modelo de avaliação estabelecido (por exemplo, o modelo de Gordon ou um modelo de precificação de ativos).
  • Objetivo específico 3: Testar a associação entre o índice de qualidade do relato e o custo de capital, controlando para variáveis financeiras de controlo (dimensão, alavancagem, rendibilidade).

Hipótese ilustrativa: “Empresas com um índice de qualidade do relato ESG mais elevado apresentam um custo de capital próprio mais baixo, controlando para dimensão, alavancagem e rendibilidade.” — uma hipótese direcional, decorrente da teoria da assimetria de informação (relato de melhor qualidade reduz a incerteza percebida pelos investidores).

5. Método: de onde vêm os dados e como se analisam

Fontes de dados (para o exemplo ilustrativo): os relatórios de sustentabilidade e de gestão publicados pelas próprias empresas (disponíveis nos seus sites de relações com investidores e, para empresas cotadas, também através da CMVM); os dados financeiros de balanço e demonstração de resultados, disponíveis através das mesmas fontes ou de bases de dados académicas como a Refinitiv/Datastream ou a Orbis, quando a instituição de acolhimento tiver licença de acesso.

Análise: construção do índice de qualidade do relato por análise de conteúdo (uma grelha binária ou ponderada por indicador ESRS reportado), seguida de uma regressão linear múltipla com o custo de capital estimado como variável dependente e o índice ESG como preditor principal, controlando para as variáveis financeiras habituais neste tipo de estudo.

Comentário: declare sempre, no capítulo de metodologia, a data de recolha dos relatórios e dos dados financeiros, e o ano de referência exato de cada um — relatórios de sustentabilidade e demonstrações financeiras nem sempre têm o mesmo ano de exercício disponível para todas as empresas da amostra, e essa assincronia tem de ser tratada explicitamente, não ignorada.

6. O que fazer quando não há acesso a bases de dados financeiras pagas

Um obstáculo prático muito comum: bases de dados financeiras como a Refinitiv/Datastream, a Bloomberg ou a Orbis, frequentemente citadas em artigos internacionais sobre ESG e desempenho financeiro, têm licenças institucionais caras, às quais nem todas as universidades portuguesas dão acesso a estudantes de mestrado. Quando esse acesso não existe, as alternativas realistas são: (1) construir a amostra manualmente a partir dos relatórios e contas publicados pelas próprias empresas (viável para amostras pequenas, de 15 a 30 empresas, mas moroso); (2) usar bases de dados de acesso mais amplo mas cobertura menor, como os dados divulgados pela Euronext Lisbon para empresas cotadas; ou (3) reduzir o âmbito da tese a um único setor ou a um número menor de empresas, tornando a recolha manual exequível dentro do prazo.

Comentário: uma tese que assuma a priori o acesso a uma base de dados paga sem confirmar essa disponibilidade junto da biblioteca da instituição arrisca-se a ter de redesenhar o método a meio do processo. Confirme o acesso antes de finalizar o projeto de investigação, não depois.

7. O conceito de dupla materialidade e porque interessa à tese

Um conceito central nas ESRS que qualquer tese sobre ESG em Contabilidade e Finanças deve dominar é a dupla materialidade: a empresa reporta não só o impacto que os fatores ambientais, sociais e de governação têm sobre o seu próprio desempenho financeiro (materialidade financeira), mas também o impacto que a própria empresa tem sobre o ambiente e a sociedade (materialidade de impacto). Uma tese que analise a qualidade do relato de sustentabilidade sem distinguir estas duas dimensões corre o risco de tratar como equivalentes informações que respondem a perguntas diferentes — o investidor interessado em risco financeiro lê a primeira dimensão; o regulador ou a sociedade civil interessados em responsabilidade corporativa leem a segunda.

Comentário: ao construir um índice de qualidade do relato, declare explicitamente se está a codificar apenas a materialidade financeira, apenas a materialidade de impacto, ou ambas separadamente — combiná-las num único número sem essa distinção é uma simplificação que um júri atento irá questionar.

8. Erros que comprometem uma tese sobre ESG

Três erros recorrentes: (1) tratar “ESG” como um problema de investigação em si mesmo, sem o recortar num dos três desenhos apresentados; (2) misturar indicadores de referenciais diferentes (GRI e ESRS) no mesmo índice de qualidade sem justificar a equivalência entre eles; (3) interpretar uma associação estatística entre relato ESG e desempenho financeiro como uma relação causal, quando o desenho é observacional e não experimental — a direção da causalidade (relato de melhor qualidade reduz o custo de capital, ou empresas com melhor desempenho financeiro têm mais recursos para investir num relato de melhor qualidade) não pode ser resolvida apenas com uma regressão transversal. Para o desenho do modelo estatístico que trata este tipo de variável, veja o guia de regressão logística na tese de Gestão se a variável dependente for binária, o guia sobre quantos casos precisa por variável na regressão para dimensionar a amostra de empresas, e o recurso sobre estrutura e modelos econométricos numa dissertação de Economia em Portugal para o tratamento de variáveis contínuas.

Perguntas Frequentes

A CSRD já é obrigatória para todas as empresas portuguesas?

Não para todas — a CSRD tem uma aplicação faseada por dimensão e tipo de empresa, começando pelas grandes empresas de interesse público já anteriormente sujeitas à diretiva de relato não financeiro, que reportaram sobre o exercício de 2024. A diretiva stop-the-clock adiou as vagas seguintes e o pacote Omnibus restringe o âmbito às maiores empresas. Uma tese que analise obrigatoriedade de relato deve verificar em que regime se encontra cada empresa da sua amostra antes de assumir que todas reportam sob o mesmo regime.

Posso usar dados de GRI e de ESRS na mesma amostra?

Só com uma justificação metodológica explícita da equivalência entre indicadores dos dois referenciais, porque a estrutura, a terminologia e o nível de detalhe exigido diferem. Sem essa justificação, misturar os dois referenciais no mesmo índice compromete a comparabilidade dos resultados.

Uma tese sobre ESG tem de ser sempre quantitativa?

Não. O estudo de caso qualitativo sobre a implementação de processos de sustentabilidade numa empresa concreta é um desenho igualmente válido e, nalguns casos, mais adequado quando o objetivo é compreender processos organizacionais em vez de testar uma relação entre variáveis.

Em resumo

Uma tese sobre ESG em Contabilidade e Finanças só se torna exequível quando “ESG” deixa de ser o tema e passa a ser o pano de fundo de um problema de investigação concreto — análise de conteúdo do relato, estudo relacional com uma variável financeira, ou estudo de caso institucional. Declare sempre o referencial de relato em uso (GRI, ESRS, ou ambos com justificação), a fase de aplicação regulatória de cada empresa da amostra, e a data de recolha de cada fonte.

Estruture a sua tese sobre ESG com o Tesify

O Tesify ajuda a definir o problema de investigação, os objetivos e o método da sua tese sobre ESG em Contabilidade e Finanças, com citações automáticas em APA 7.

Começar gratuitamente →

Escreve a tua tese ou TCC com IA

Editor inteligente, bibliografia automática (APA e ABNT) e verificação antiplágio num só sítio. Mais de 9.000 estudantes já escrevem em metade do tempo.