Qualis CAPES, Fator de Impacto e Revisão por Pares: Guia para Publicar seu Primeiro Artigo em 2026

Qualis CAPES, Fator de Impacto e Revisão por Pares: Guia para Publicar seu Primeiro Artigo em 2026

Para muitos estudantes de pós-graduação e pesquisadores iniciantes, o sistema de avaliação de periódicos científicos brasileiros parece um labirinto: Qualis A1, CiteScore, Fator de Impacto, JCR, Scopus, revisão por pares duplo-cego… Cada conceito parece depender de outro para ser entendido. O resultado é que muitos pesquisadores publicam nas revistas erradas por falta de informação — ou ficam paralisados diante da escolha e não publicam.

Este guia desmonta o sistema de forma clara e sequencial. Você vai entender como o Qualis CAPES funciona no novo quadriênio 2025-2028, o que é o fator de impacto e por que ele existe, como a revisão por pares protege a qualidade científica, e como escolher a revista mais adequada para seu artigo.

Resposta rápida: O Qualis CAPES (A1 a C) classifica periódicos pelo impacto das publicações, usando CiteScore (Scopus) e Fator de Impacto (JCR/Web of Science). A revisão por pares é o processo de avaliação anônima do manuscrito por especialistas antes da publicação. Para o primeiro artigo, revistas B1–B3 ou SciELO Brasil são o ponto de entrada mais realista.

O que é o Qualis CAPES e como funciona

O Qualis é o sistema de estratificação de periódicos científicos utilizado pela CAPES (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior) para avaliar a produção bibliográfica dos programas de pós-graduação brasileiros a cada quadriênio. A CAPES usa o Qualis para calcular parte da nota que determina se um programa continua funcionando, se recebe bolsas e com qual número de vagas.

A estratificação tradicional vai de A1 (mais alto) a C (mais baixo), com os estratos: A1, A2, A3, A4, B1, B2, B3, B4, C. Na prática, artigos publicados em revistas A1 valem muito mais para a avaliação de um programa do que artigos em B3 ou C.

Você pode consultar o Qualis de qualquer revista na Plataforma Sucupira (sucupira.capes.gov.br → Consultas → Qualis Periódicos). A busca é por ISSN ou nome da revista.

Novo Qualis 2025–2028: o que mudou

O Conselho Técnico-Científico da Educação Superior (CTC-ES) da CAPES aprovou em outubro de 2024 uma reformulação do sistema Qualis que entrou em vigor para o quadriênio 2025-2028. A mudança mais significativa:

Antes: A classificação era dada à revista — todos os artigos publicados nela recebiam o mesmo Qualis automaticamente.

A partir de 2025: A classificação pode ser dada ao artigo individual — três artigos publicados na mesma revista podem receber classificações Qualis diferentes dependendo do impacto específico de cada um (número de citações, FWCI, altmetrics).

Isso tem três implicações práticas para quem está começando a publicar:

  1. Um artigo excepcional em uma revista de médio impacto pode receber Qualis mais alto do que artigos menos citados na mesma revista
  2. A qualidade científica do conteúdo passa a importar mais do que apenas o prestígio do veículo
  3. O sistema favorece artigos em acesso aberto, pois têm maior visibilidade e mais citações potenciais

Os três procedimentos de classificação do novo Qualis são:

Procedimento Base de dados Métricas usadas
P1 — Tradicional Scopus (CiteScore) ou Web of Science (JCR) Percentis da revista
P2 — Híbrido (mais inovador) Scopus + WoS + fontes adicionais CiteScore + FWCI do artigo + downloads + altmetrics
P3 — Qualitativo CrossRef + altmetrics + avaliação por área FWCI + Altmetric Score + indexação em SciELO

Fator de impacto e CiteScore: como ler esses números

O Fator de Impacto (FI) — calculado pelo Journal Citation Reports (JCR) da Clarivate — mede a média de citações que os artigos de uma revista receberam nos dois anos anteriores. Uma revista com FI = 5,2 significa que cada artigo publicado nela foi citado em média 5,2 vezes nos últimos dois anos.

O CiteScore — calculado pela Scopus/Elsevier — usa janela de quatro anos e inclui mais tipos de documento (não apenas artigos, mas também reviews e letters). É considerado mais democrático por incluir revistas que não estão no JCR.

Como interpretar esses números por área do conhecimento:

Área FI baixo FI médio FI alto
Ciências Biomédicas < 2 2–10 > 10
Engenharia < 1 1–5 > 5
Ciências Humanas e Sociais < 0,5 0,5–3 > 3
Educação < 0,5 0,5–2 > 2

Importante: um artigo publicado em Ciências Humanas com FI 1,5 pode ser excelente; o mesmo FI em Biomedicina seria considerado baixo. Compare sempre dentro da mesma área.

Revisão por pares: como funciona na prática

A revisão por pares (peer review) é o processo pelo qual um manuscrito submetido a uma revista é avaliado por outros especialistas da área antes de ser aceito para publicação. É o principal mecanismo de controle de qualidade da ciência.

As modalidades mais comuns:

  • Duplo-cego (double-blind): Nem o autor conhece os revisores, nem os revisores conhecem o autor. É o padrão na maioria das revistas de Humanidades e Ciências Sociais brasileiras.
  • Simples-cego (single-blind): Os revisores conhecem o autor, mas o autor não conhece os revisores. Comum em revistas de Ciências Naturais e Biomédicas.
  • Aberta (open peer review): Identidades de autor e revisores são reveladas após publicação. Adotada por revistas como PLOS ONE e F1000Research.

O fluxo típico de revisão por pares:

  1. Submissão: Você envia o manuscrito pelo sistema da revista (ScholarOne, Open Journal Systems, Editorial Manager)
  2. Triagem editorial: O editor chefe decide se o manuscrito está dentro do escopo da revista (1–14 dias). Desk rejection (rejeição sem envio para revisores) é comum
  3. Convite aos revisores: O editor convida 2 a 3 especialistas (3–6 semanas para aceitar)
  4. Revisão: Os revisores leem e emitem pareceres (4–12 semanas)
  5. Decisão editorial: Aceito, aceito com revisões menores, aceito com revisões maiores, ou rejeitado
  6. Revisão dos autores: Se solicitadas revisões, você responde ponto a ponto com carta de resposta (2–4 semanas)
  7. Segunda rodada (se necessário) e decisão final
  8. Prova e publicação

O processo completo costuma levar de 3 a 12 meses. Revistas top (Nature, Science) podem demorar mais de um ano entre submissão e publicação.

Como escolher a revista certa para seu artigo

Escolher a revista antes de escrever — ou pelo menos antes de formatar — economiza muito tempo. Critérios para a escolha:

  1. Escopo e foco: A revista publica artigos sobre o tema do seu trabalho? Leia os “Aims and Scope” no site da revista.
  2. Qualis do seu programa: Verifique quais estratos Qualis seu programa de pós-graduação reconhece. Para TCC de graduação, qualquer Qualis é válido.
  3. Indexação: A revista está indexada no SciELO, Scopus ou Web of Science? Isso aumenta a visibilidade e a contagem futura de citações.
  4. Acesso aberto: Revistas de acesso aberto têm mais visibilidade e mais citações em média. Muitas são gratuitas para autores (verificar APCs — Article Processing Charges).
  5. Prazo de resposta: Algumas revistas informam o tempo médio de revisão no site. Para artigos urgentes (candidatura ao mestrado), prefira revistas com processo mais rápido.
  6. Língua: Para primeiro artigo, revistas brasileiras que aceitam submissão em português reduzem a barreira de entrada. Revistas da SciELO e CAPES Periódicos são boa referência.

Ferramentas para encontrar revistas adequadas: Elsevier Journal Finder, Springer Journal Suggester, e a busca por área na Plataforma Sucupira.

Passo a passo para submeter um artigo

  1. Leia as instruções aos autores: Cada revista tem seu template, limite de palavras, estilo de citação (ABNT, APA, Vancouver, Chicago) e formato de figuras. Seguir à risca evita desk rejection por razões formais.
  2. Prepare o manuscrito anonimizado: Para revisão duplo-cego, remova nomes, afiliações e autorreferências do corpo do texto e das propriedades do arquivo.
  3. Escreva o abstract em inglês (se exigido): Mesmo revistas brasileiras geralmente exigem abstract em inglês. Cuide da gramática — é o primeiro contato do revisor com o trabalho.
  4. Selecione palavras-chave relevantes: Use 4–6 palavras-chave da área (consulte os Descritores em Ciências da Saúde — DeCS, ou o tesauro da área).
  5. Crie conta no sistema da revista e siga o fluxo de submissão passo a passo.
  6. Escreva a carta de apresentação (cover letter): Explique em 3 parágrafos: o que o artigo investiga, qual sua contribuição original para a área e por que essa revista é adequada.
  7. Acompanhe o status: Use o sistema de submissão para monitorar a decisão. Se não houver resposta em 3 meses, envie uma consulta educada ao editor.

Revistas predatórias: como identificar e evitar

Revistas predatórias cobram APCs elevadas, publicam sem revisão por pares real e não estão indexadas em bases de qualidade. Publicar em uma delas pode prejudicar sua carreira — a CAPES não reconhece e alguns programas penalizam.

Sinais de alerta:

  • E-mail não solicitado convidando para publicar (“We read your recent work and invite you to submit…”)
  • Promessa de publicação em 2 a 7 dias após submissão
  • Taxa APC muito alta para uma revista desconhecida (> USD 500 sem indexação em Scopus)
  • Site com erros de grafia, endereço de editora inexistente ou ISSN inválido
  • Não aparece na Plataforma Sucupira, Scopus, Web of Science ou SciELO

Para verificar: consulte a Lista de Beall (repositório de editoras potencialmente predatórias) e o DOAJ — Directory of Open Access Journals (revistas de acesso aberto verificadas).

Perguntas frequentes sobre Qualis, fator de impacto e revisão por pares

Como consulto o Qualis de uma revista?

Acesse a Plataforma Sucupira em sucupira.capes.gov.br, clique em “Consultas” → “Qualis Periódicos” e pesquise pelo ISSN ou nome da revista. O Qualis é dividido por área de avaliação — a mesma revista pode ter Qualis A2 em Educação e B3 em Ciências Sociais. Verifique o Qualis na área de avaliação do seu programa de pós-graduação.

Qual Qualis devo mirar no primeiro artigo?

Para um primeiro artigo (derivado de TCC ou iniciação científica), revistas com Qualis B1 a B3 da sua área são o alvo mais realista. Revistas SciELO Brasil sem Qualis específico também são reconhecidas. Publicar em qualquer revista com revisão por pares já diferencia seu currículo Lattes no processo seletivo para mestrado.

O que é desk rejection e como evitar?

Desk rejection é a rejeição do artigo pelo editor sem enviá-lo para revisores, geralmente por estar fora do escopo da revista, ter problemas formais graves (formatação incorreta, estrutura inadequada) ou qualidade manifestamente insuficiente. Para evitar: leia os “Aims and Scope” da revista com atenção, siga rigorosamente as instruções aos autores e certifique-se que o abstract em inglês está bem escrito.

Quanto tempo demora a revisão por pares?

O tempo médio varia muito por revista e área. Em Ciências Biomédicas, 3 a 6 meses é comum. Em Humanidades e Ciências Sociais, pode demorar de 4 a 12 meses. Revistas do SciELO Brasil tendem a ser mais rápidas (2 a 4 meses). Algumas revistas publicam o tempo médio de revisão no site — vale verificar antes de submeter.

Posso submeter o mesmo artigo para mais de uma revista ao mesmo tempo?

Não. A submissão simultânea a múltiplas revistas é considerada má conduta científica (duplicate submission) e viola as políticas de praticamente todas as revistas. Você deve aguardar a resposta definitiva de uma revista antes de submeter para outra. Em caso de rejeição, você pode resubmeter o artigo (possivelmente revisado) a outra revista imediatamente.

O que é fator de impacto e como ele afeta minha pesquisa?

O Fator de Impacto (FI) é a média de citações recebidas por artigos de uma revista em dois anos. Para sua pesquisa, ele importa porque: (1) artigos em revistas de alto FI são mais lidos e citados, aumentando sua visibilidade científica; (2) a CAPES usa métricas relacionadas ao FI (via CiteScore/Scopus e JCR/WoS) na nova metodologia Qualis 2025-2028; (3) agências de fomento consideram o FI das revistas em avaliações de bolsas e projetos.

Acesso aberto (open access) prejudica o prestígio do artigo?

Não. Artigos em acesso aberto tendem a receber mais citações do que artigos por trás de paywall, justamente porque mais pesquisadores têm acesso a eles. Revistas como PLOS ONE e PeerJ têm alto prestígio sendo 100% acesso aberto. O SciELO Brasil é acesso aberto e suas revistas têm Qualis reconhecido. O que prejudica o prestígio é publicar em revistas predatórias, não o acesso aberto em si.

Da tese ao artigo publicado

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Leia também: Como Publicar Artigo Científico: Guia Completo para Investigadores 2026, Como Fazer Artigo Científico: do IMRaD à Submissão e Produção Científica para Estudantes: Como Começar a Publicar.

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