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Como Fazer Artigo Científico: Guia Completo do IMRaD à Submissão em Periódicos 2026

Como Fazer Artigo Científico: Guia Completo do IMRaD à Submissão em Periódicos 2026

Escrever um artigo científico é uma competência que todo estudante de pós-graduação e investigador precisa dominar — mas que raramente é ensinada de forma sistemática. Saber como fazer artigo científico não é apenas seguir a estrutura IMRaD: é escolher o periódico certo antes de escrever, formatar segundo as normas da publicação-alvo, redigir um abstract que passe pelo crivo de editores em segundos, e navegar o processo de revisão por pares sem perder o manuscrito na fila de rejeição. Este guia cobre todo o processo, do zero à publicação aceite.

Em Portugal e no Brasil, a pressão por publicação científica é crescente. As universidades portuguesas integram as publicações em periódicos indexados nos critérios de avaliação para obtenção de grau (especialmente doutoramento) e para progressão na carreira académica. No Brasil, o sistema Qualis CAPES classifica os periódicos e define peso nas avaliações de cursos de pós-graduação. Conhecer esses sistemas é tão importante quanto saber escrever bem.

Resposta Rápida: Um artigo científico segue a estrutura IMRaD: Introdução (problema, objetivo, justificativa), Metodologia (como foi feito), Resultados (o que foi encontrado) e Discussão (o que significa). Os elementos pré-textuais são título, autoria, resumo (150–250 palavras, NBR 6028) e palavras-chave. Os pós-textuais são referências (NBR 6023 para ABNT, APA 7 para publicações internacionais), e opcionalmente apêndices. A extensão típica é 10–20 páginas ou 4.000–8.000 palavras.

1. Tipos de Artigo Científico e Qual Escolher

Antes de começar a escrever, defina o tipo de artigo. Cada tipo tem estrutura e expectativas diferentes:

Tipo Descrição Extensão típica
Artigo original / empírico Reporta resultados de investigação inédita 5.000–8.000 palavras
Artigo de revisão Sintetiza e analisa a literatura existente 6.000–10.000 palavras
Artigo teórico Desenvolve ou critica um quadro conceptual 5.000–7.000 palavras
Estudo de caso Análise aprofundada de um caso específico 4.000–6.000 palavras
Comunicação breve / nota Resultados preliminares ou achados pontuais 1.500–3.000 palavras
Relato de experiência Descrição de prática profissional ou inovação 3.000–5.000 palavras

2. Antes de Escrever: Escolha o Periódico Primeiro

O erro mais comum de investigadores iniciantes é escrever o artigo e depois procurar onde publicar. A ordem certa é inversa: escolha o periódico alvo antes de escrever, e adapte o artigo às suas diretrizes. Isso poupa semanas de reformatação e aumenta dramaticamente as hipóteses de aceitação.

Como escolher o periódico certo

  1. Defina o escopo — verifique se a revista publica artigos na sua área e sub-área específica.
  2. Avalie o impacto — no Brasil, use o Qualis CAPES; internacionalmente, verifique o factor de impacto no Journal Citation Reports (JCR) ou o CiteScore (Scopus).
  3. Verifique open access vs. paywall — periódicos open access têm maior visibilidade, mas alguns cobram APC (Article Processing Charge) de 500€ a 3.000€.
  4. Leia os últimos 3 números — o estilo, a extensão e o tipo de metodologia dos artigos publicados revelam o que o editor valoriza.
  5. Confirme o prazo de revisão — alguns periódicos têm tempos de resposta de 2–3 semanas; outros levam 6–9 meses.

Periódicos de referência em Portugal e Brasil (exemplos por área)

  • Psicologia: Análise Psicológica (Portugal), Psicologia: Reflexão e Crítica (Brasil, SciELO)
  • Educação: Revista Portuguesa de Educação, Cadernos de Pesquisa (Brasil)
  • Saúde: Acta Médica Portuguesa, Revista de Saúde Pública (Brasil, Qualis A1)
  • Administração: RAE-FGV, Portuguese Journal of Management Studies
  • Engenharia: Engenharia e Construção, RBRH (Recursos Hídricos)

Para um guia detalhado sobre publicação académica em Portugal, consulte o nosso artigo sobre como publicar artigo científico: guia completo 2026.

3. A Estrutura IMRaD Explicada em Detalhe

IMRaD é o acrónimo de Introdução, Metodologia, Resultados and Discussão (em inglês). É o formato padrão internacional para artigos científicos originais desde a sua adopção pela maioria dos periódicos biomédicos na década de 1970 e posterior generalização a quase todas as ciências.

Proporção recomendada de cada secção

Secção % do total Função principal
Título + Abstract + Palavras-chave 5% Captação e indexação
Introdução 10–15% Contextualização e justificação
Metodologia 20–25% Reprodutibilidade
Resultados 25–30% Apresentação dos dados
Discussão 25–30% Interpretação e implicações
Conclusão + Referências 10–15% Síntese e creditação

4. Título e Abstract: A Primeira (e Muitas Vezes Última) Impressão

O editor associado decide se envia o manuscrito para revisão por pares em menos de 5 minutos — com base quase exclusivamente no título, abstract e correspondência com o escopo da revista. Investir 20% do seu tempo a refinar estas duas secções é a decisão editorial mais inteligente que pode tomar.

Estrutura de um abstract eficaz (modelo APA 7 / NBR 6028)

  1. Contexto/Problema (1–2 frases): “O burnout entre professores do ensino superior tem aumentado significativamente em Portugal, com prevalência estimada de 32% em 2024 (DGEEC, 2025).”
  2. Objetivo (1 frase): “Este estudo teve como objetivo analisar os preditores organizacionais do burnout em docentes universitários portugueses.”
  3. Método (2–3 frases): “Realizou-se um estudo transversal com 418 docentes de oito universidades públicas (NUTS II). Utilizou-se o Maslach Burnout Inventory – Educators Survey (MBI-ES) e um questionário de condições de trabalho.”
  4. Resultados principais (1–2 frases): “A sobrecarga burocrática foi o preditor mais robusto de exaustão emocional (β = 0,42, p < 0,001). A percepção de suporte institucional moderou significativamente a relação (p = 0,012).”
  5. Conclusão/Implicação (1 frase): “As intervenções devem focar-se na redução de carga administrativa antes de estratégias de coping individual.”

Boas práticas para o título

  • Entre 10 e 15 palavras — suficientemente específico para indexação, suficientemente conciso para lembrar.
  • Inclua as variáveis centrais e o contexto geográfico/temporal se relevante.
  • Evite abreviaturas e jargão não-universal.
  • Considere um título em formato pergunta (aumenta CTR em bases de dados).

5. Metodologia: A Secção que os Revisores Mais Analisam

A metodologia é o coração do artigo empírico — é onde se estabelece a credibilidade científica. Uma metodologia mal descrita resulta quase invariavelmente em revisão major ou rejeição. A regra de ouro é: descreva com detalhe suficiente para que outro investigador possa replicar exatamente o estudo.

Checklist da metodologia completa

  • Desenho do estudo (transversal, longitudinal, experimental, quasi-experimental, qualitativo)
  • Participantes/amostra — critérios de inclusão/exclusão, processo de amostragem, N, características demográficas
  • Instrumentos — nome do instrumento, autores, adaptação cultural se aplicável, alfa de Cronbach
  • Procedimentos de recolha de dados — contexto, período temporal, consentimento informado
  • Análise estatística/qualitativa — software utilizado (SPSS, R, NVivo), testes específicos e justificação
  • Considerações éticas — aprovação de comissão de ética, número do parecer

Para dissertações e teses, o guia de metodologia de investigação e revisão de literatura aprofunda estes tópicos no contexto académico português.

6. Resultados e Discussão: Como Apresentar Dados com Rigor

Secção de Resultados

Apresente os dados de forma organizada — tabelas e figuras devem ser autoexplicativas com legenda completa. Cada tabela ou figura é introduzida no texto antes de aparecer (“Como se observa na Tabela 1…” ou “A Figura 2 ilustra…”). Não interprete nesta secção — apenas descreva os achados.

Secção de Discussão

A discussão é onde demonstra o seu valor intelectual. Estruture-a em quatro movimentos:

  1. Retome o objetivo — reafirme brevemente o que estudou e o principal resultado.
  2. Confronte com a literatura — compare com estudos anteriores: o que confirma? O que contradiz? Por quê?
  3. Explique os mecanismos — não basta mostrar que X está relacionado com Y; explique por que esta relação existe teoricamente.
  4. Limitações e pesquisa futura — seja honesto sobre as limitações metodológicas e aponte direcções para investigação futura.

7. Referências: ABNT vs APA vs Vancouver

O sistema de referências depende do periódico alvo. Verifique sempre nas “Instruções para Autores” qual norma está em vigor:

Sistema Usado em Citação no texto
ABNT (NBR 6023) Periódicos brasileiros, TCC/dissertações PT+BR (SOBRENOME, ano, p. X)
APA 7ª edição Psicologia, Educação, Ciências Sociais (global) (Sobrenome, ano, p. X)
Vancouver Medicina, Saúde, Ciências Biomédicas Número sobrescrito [1]
Chicago História, Humanidades, algumas revistas de Direito Notas de rodapé ou autor-data

Consulte o guia completo de normas APA para citações e referências em dissertações para dominar o sistema mais utilizado internacionalmente.

8. O Processo de Submissão e Revisão por Pares

O processo típico de revisão por pares (peer review) em periódicos científicos segue estas etapas:

  1. Submissão — upload do manuscrito (anonimizado para double-blind review) no sistema OJS ou sistema proprietário do periódico, com carta de apresentação (cover letter).
  2. Triagem editorial (1–3 semanas) — o editor-chefe ou editor associado verifica enquadramento no escopo e qualidade mínima. Taxa de rejeição nesta fase: 30–60% nos melhores periódicos.
  3. Revisão por pares (4–12 semanas) — 2 a 3 revisores externos avaliam o manuscrito e enviam pareceres.
  4. Decisão editorial: Aceite, Revisão Menor, Revisão Maior, ou Rejeição.
  5. Revisão e resposta — se pedida revisão, prepare um documento de resposta (response letter) ponto-a-ponto para cada comentário dos revisores.
  6. Aceitação e produção — copy-editing, provas, publicação online first, volume.

Como escrever uma cover letter eficaz

A carta de apresentação deve ter: (1) título do manuscrito, (2) tipo de artigo, (3) principal contribuição em 2–3 frases, (4) declaração de não-publicação simultânea, (5) declaração de conflito de interesses. Máximo de 300 palavras. Não inclua informações sobre os autores em manuscritos para double-blind review.

9. Qualis CAPES, SciELO e Scopus: O Que São e Como Usar

Para investigadores em Portugal e Brasil, três sistemas de avaliação de periódicos são essenciais:

Qualis CAPES (Brasil)

O Qualis classifica periódicos de A1 (máximo impacto) a C (mínimo) em cada área do conhecimento. A classificação é atualizada a cada quadriénio. Para escolher um periódico, acesse a Plataforma Sucupira (sucupira.capes.gov.br), seleccione o periódico e veja a classificação na sua área. Publicar em A1 ou A2 tem peso máximo nas avaliações de programas de pós-graduação.

SciELO

A Scientific Electronic Library Online indexa periódicos científicos de alta qualidade ibero-americanos e do Sul Global. Está disponível gratuitamente. Periódicos SciELO são geralmente classificados entre A2 e B1 no Qualis, e têm boa visibilidade em Portugal e Brasil.

Scopus e Web of Science

Scopus (Elsevier) e Web of Science (Clarivate) são as maiores bases de indexação internacional. Um periódico indexado no Scopus ou WoS tem impacto global. Para acesso, a maioria das universidades portuguesas e brasileiras tem subscrição via b-on (Portugal) ou Portal CAPES (Brasil). Veja como aceder a estas bases no nosso guia sobre melhores universidades portuguesas 2026.

10. Erros que Levam à Rejeição Imediata

  1. Não seguir as instruções para autores — formato errado, extensão além do limite, estilo de citação incorreto. Rejeição automática em editoras rigorosas.
  2. Abstract sem estrutura IMRaD — um abstract que só descreve o tema sem método nem resultados é sinal de imaturidade científica.
  3. Sobreposição com publicação anterior — submeter o mesmo estudo em mais de uma revista simultaneamente (dual submission) é violação ética grave.
  4. Metodologia não-replicável — faltar informação sobre o N, o instrumento, ou o processo de análise impede que os revisores avaliem a validade.
  5. Resultados sem significância estatística adequada — apenas reportar p-values sem effect sizes (Cohen’s d, η², ω²) é insuficiente nos padrões APA 2026.
  6. Discussão circular — limitar a discussão a “os resultados confirmam o objetivo” sem confrontar com literatura existente.
  7. Conflito de interesses não declarado — falha ética que pode resultar em retratação mesmo após publicação.
  8. Auto-citação excessiva — mais de 20–25% das referências do próprio autor é um sinal de alarme para editores.
  9. Figuras e tabelas sem legenda completa — cada elemento visual deve ser autoexplicativo sem necessidade de ler o texto.
  10. Ignorar comentários de revisões anteriores — se o manuscrito foi resubmetido noutro periódico após rejeição, considere as críticas anteriores antes de nova submissão.

Para o referencial teórico que sustenta o artigo, consulte o nosso guia de revisão de literatura como escrever passo a passo.

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FAQ — Perguntas Frequentes sobre Artigo Científico

Qual é a diferença entre artigo científico e monografia?

A monografia (ou TCC) é um trabalho de conclusão de curso entregue à instituição académica, com extensão tipicamente de 40–80 páginas, seguindo a NBR 14724. O artigo científico é um trabalho submetido a publicação em periódico revisado por pares, com extensão de 10–20 páginas, estrutura IMRaD e formato definido pelo periódico. A monografia pode ser convertida em artigo, mas exige condensação significativa e reformatação segundo as normas do periódico alvo.

Quanto tempo demora o processo de revisão por pares?

O tempo médio de revisão por pares varia muito: em periódicos de alta velocidade (fast-track), pode ser 2–4 semanas; em periódicos de grande prestígio na área biomédica ou social, pode levar 3–9 meses. O processo completo, desde submissão até publicação online, raramente é inferior a 4–6 meses. Periódicos como os do grupo Elsevier e Springer têm sistemas que mostram em tempo real o estado do manuscrito (Under Review, With Editor, Decision in Process).

É possível publicar um artigo científico sem ser doutor?

Sim. Estudantes de mestrado e mesmo de licenciatura publicam regularmente em periódicos científicos, especialmente com coautoria do orientador. O que conta é a qualidade do manuscrito, não o grau académico dos autores. Muitas revistas têm secções específicas para estudantes ou investigadores em formação. A coautoria com o orientador é comum e eticamente adequada quando ele contribuiu substantivamente para o estudo.

O que são periódicos predatórios e como evitá-los?

Periódicos predatórios cobram APC (taxa de publicação) sem garantir revisão por pares real. Publicar neles não tem valor académico e pode prejudicar a carreira. Para verificar se um periódico é legítimo: (1) verifique se está indexado no Scopus, WoS ou SciELO; (2) consulte a Lista Think.Check.Submit (thinkchecksubmit.org); (3) pesquise o nome do periódico + “predatory” no Google; (4) verifique se o conselho editorial tem investigadores verificáveis com afiliação institucional real.

Como converter uma dissertação de mestrado em artigo científico?

A conversão exige cinco passos: (1) seleccione um ou dois resultados principais da dissertação — não tente publicar tudo num só artigo; (2) reduza a revisão de literatura para o essencial (5–10 referências chave); (3) comprima a metodologia para uma descrição replicável concisa; (4) reorganize a narrativa segundo a estrutura IMRaD; (5) adapte o formato às instruções do periódico alvo. A maioria das dissertações pode originar 2–3 artigos de qualidade. Consulte o orientador para definir a estratégia de publicação antes de começar.