Como Escrever o Projeto de Investigação (Proposta) de uma Tese de Gestão 2026
Antes de escrever a tese de Gestão propriamente dita, quase todas as faculdades exigem um projeto de investigação (também chamado proposta ou pré-projeto) que o orientador tem de aprovar. É o documento que decide se o seu tema avança ou se volta à prancheta — e é surpreendentemente diferente de um resumo do que planeia fazer. Este guia mostra a estrutura completa, com um exemplo de problema empresarial trabalhado do início ao fim.
Porque é que a maioria dos projetos chumba à primeira
O motivo mais comum não é falta de qualidade de escrita — é um problema de gestão formulado ao nível da gestão de topo mundial (“como melhorar a competitividade das empresas portuguesas”) em vez de ao nível de uma organização, mercado ou decisão concreta que possa ser efetivamente estudada com os recursos de um estudante de mestrado. Um projeto de investigação aprovado à primeira responde sempre à pergunta implícita “consegue mesmo fazer isto no tempo e com o acesso que tem?” — não apenas “isto é importante?”.

A estrutura completa
- Título provisório — pode e deve mudar depois, mas já deve nomear a variável central, o contexto e o tipo de organização/setor.
- Problema de gestão — a situação empresarial concreta e o hiato entre o que se sabe e o que ainda não se sabe sobre ela.
- Revisão preliminar da literatura — não a revisão completa, mas o suficiente para mostrar que já mapeou os principais autores e que existe uma lacuna real.
- Objetivos e questões de investigação — um objetivo geral e dois a quatro específicos, cada um associado a uma questão de investigação concreta.
- Metodologia proposta — desenho (qualitativo, quantitativo, misto), população-alvo ou caso de estudo, e método de recolha de dados previsto.
- Cronograma — as fases principais distribuídas pelo tempo disponível até à entrega.
Como escrever um problema de gestão que se distingue
Um problema de gestão bem escrito tem sempre três camadas: primeiro, um facto ou tendência verificável (uma estatística de setor, um indicador de desempenho, uma mudança regulatória recente); segundo, a implicação prática desse facto para as organizações do setor em causa; terceiro, o hiato de conhecimento concreto — o que ainda não se sabe sobre como gerir essa implicação. Escrever apenas a primeira camada (“as taxas de rotatividade estão a subir”) sem a terceira é a razão mais comum pela qual um problema parece “só descritivo” e não investigável. Ligue sempre a última frase do problema diretamente ao objetivo geral que vai apresentar a seguir, para que o leitor veja a continuidade lógica sem ter de a reconstruir. Se o seu projeto vai desembocar num modelo quantitativo com hipóteses formais, a lógica de construção é a mesma usada em como formular hipóteses de dissertação — escrita para Marketing, mas diretamente transponível para modelos de Gestão com construtos mensuráveis.
Exemplo trabalhado: rotatividade de vendedores numa PME
O exemplo abaixo é ilustrativo, construído para mostrar a lógica de construção do projeto — não para copiar diretamente. Os valores entre parênteses retos marcam o lugar onde entra um dado real do setor, com a respetiva fonte.

Título provisório: “Fatores associados à rotatividade voluntária de vendedores em PME do setor do retalho: um estudo de caso.”
Problema de gestão: “As PME do setor do retalho enfrentam uma rotatividade voluntária de vendedores elevada [taxa anual do setor, com fonte], com custos diretos e indiretos de substituição relevantes [estimativa de custo por saída, com fonte]. Apesar disso, faltam estudos que examinem os fatores organizacionais concretos — não apenas salariais — associados à decisão voluntária de saída neste tipo de empresa em Portugal.”
Objetivo geral: Analisar os fatores organizacionais associados à intenção de saída voluntária de vendedores numa PME do setor do retalho.
- Objetivo específico 1 / questão de investigação: Que fatores organizacionais os vendedores atuais identificam como mais relevantes para a sua permanência? (questionário à força de vendas atual)
- Objetivo específico 2 / questão de investigação: Que motivos são reportados por quem saiu voluntariamente nos últimos 12 meses? (entrevistas a ex-colaboradores)
- Objetivo específico 3 / questão de investigação: Existe convergência ou divergência entre os fatores de retenção percecionados pelos atuais e os motivos de saída reportados pelos antigos?
Metodologia proposta: estudo de caso único, abordagem mista — questionário aplicado à força de vendas atual (fatores de retenção percebidos) e entrevistas semiestruturadas a colaboradores que saíram nos últimos 12 meses (motivos de saída).
Exemplo de cronograma

| Fase | Período | Entregável |
|---|---|---|
| Revisão da literatura completa | Meses 1-2 | Capítulo de enquadramento teórico |
| Construção e validação dos instrumentos | Mês 3 | Questionário e guião de entrevista piloto |
| Recolha de dados (com margem para atrasos) | Meses 4-5 | Base de dados completa |
| Análise e redação dos resultados | Mês 6 | Capítulo de resultados e discussão |
| Revisão final e entrega | Mês 7 | Tese completa |
Note a fase 3 com margem explícita para atrasos — a recolha de dados junto de uma organização real é quase sempre a fase mais imprevisível de uma tese de Gestão, e um cronograma que não a reconhece parece pouco realista aos olhos de quem avalia.
A revisão preliminar não é a revisão final
Um erro comum é tentar entregar, na fase de projeto, uma revisão da literatura já exaustiva — o que atrasa desnecessariamente a submissão e frequentemente cobre teorias que acabam por não ser usadas na versão final. A revisão preliminar deve identificar as duas ou três correntes teóricas principais relevantes para o problema (por exemplo, no caso da rotatividade, a teoria do contrato psicológico e os modelos de intenção de saída como o de Mobley), citar um punhado de estudos-chave recentes, e nomear explicitamente a lacuna que o seu estudo vai preencher — sem esgotar o tema. Essa revisão preliminar amadurece depois no capítulo completo de enquadramento teórico da tese final.
O teste de viabilidade que o orientador aplica
Antes de aprovar, a maioria dos orientadores testa mentalmente três perguntas sobre o seu projeto: tem acesso garantido à população ou organização que quer estudar (não apenas intenção de conseguir)? A metodologia proposta é exequível no tempo até à entrega (uma amostra de 300 questionários e 20 entrevistas em quatro meses raramente é realista)? E existe, de facto, uma lacuna na literatura, ou o estudo replica algo já amplamente feito? Antecipe estas três perguntas no próprio texto do projeto — nomeie explicitamente como vai garantir o acesso, apresente um cronograma realista, e diga em uma frase o que a sua revisão preliminar já não encontrou. Se o seu estudo é sobre a sua própria empresa, o artigo sobre tese de Gestão sobre a própria empresa detalha como negociar o acesso a dados internos e proteger a confidencialidade — uma questão que o orientador vai levantar de imediato nesse caso.
Se o seu mestrado exige defesa oral do projeto
Algumas faculdades exigem uma breve apresentação oral do projeto perante o orientador ou uma comissão reduzida antes da aprovação formal. Nesse caso, prepare-se para três tipos de pergunta: pedidos de clarificação do problema (porque é este e não outro fenómeno relacionado), questões sobre acesso e viabilidade (como vai garantir a colaboração da organização ou população em estudo), e questões sobre a escolha metodológica (porque este desenho e não outro). Leve sempre uma versão simplificada do cronograma numa única página — é frequentemente o primeiro documento que os avaliadores pedem para ver quando querem avaliar rapidamente se o prazo é realista.
Erros que atrasam a aprovação
Além do problema demasiado amplo já referido, três erros recorrentes: título e problema desalinhados (o título promete uma coisa, o problema descreve outra); objetivos que não correspondem à metodologia proposta (por exemplo, um objetivo que pede uma análise causal mas uma metodologia exclusivamente qualitativa exploratória); e um cronograma genérico (“mês 1: revisão da literatura; mês 2: recolha de dados”) sem margem para imprevistos como atraso na obtenção de autorizações da empresa ou baixa taxa de resposta ao questionário — margem que qualquer orientador com experiência sabe que vai ser necessária. Depois de o projeto ser aprovado e a recolha de dados terminar, o capítulo de discussão de resultados segue uma lógica diferente, bem descrita no artigo sobre como escrever a discussão de resultados numa dissertação em Gestão.
Perguntas Frequentes
Quantas páginas deve ter o projeto de investigação de uma tese de Gestão?
Não há uma regra nacional: a extensão (em páginas ou caracteres) é fixada pelo regulamento ou pelo modelo de cada mestrado, e o projeto é sempre muito mais curto do que a tese final. O objetivo não é desenvolver exaustivamente cada secção, mas demonstrar que o tema é claro, relevante e exequível.
Posso mudar de tema depois de o projeto ser aprovado?
Ajustes ao tema — refinar o problema, mudar a organização de estudo de caso, ajustar a metodologia — são normais e esperados à medida que a revisão da literatura avança. Uma mudança total de área temática já exige normalmente nova aprovação formal do orientador, e em alguns casos da comissão científica, por isso confirme sempre o regulamento do seu mestrado antes de assumir que pode mudar livremente.
O projeto de investigação e o pré-projeto são a mesma coisa?
Na maioria das faculdades portuguesas, sim — são termos usados de forma intercambiável para o documento que precede a tese e que o orientador ou a comissão científica aprova antes do início formal da investigação. Confirme sempre a designação exata e os requisitos específicos no regulamento do seu mestrado, porque alguns exigem uma defesa oral do projeto e outros apenas a aprovação escrita.
O projeto conta para a nota final da tese?
Depende do regulamento de cada mestrado — em algumas faculdades o projeto é apenas um requisito de aprovação (pass/fail) sem peso na nota final; noutras, a qualidade do projeto inicial contribui com uma percentagem para a avaliação global. Confirme sempre esta regra no início do processo, porque muda quanto tempo vale a pena investir em cada secção do projeto face à tese final.
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