Como formular a pergunta de investigação: guia em 7 passos
Uma tese sem pergunta é apenas um tema; uma tese com pergunta é um projeto. Saber como formular a pergunta de investigação é o que separa um enquadramento teórico que se arrasta durante meses de uma investigação com rumo, prazos e critérios claros de sucesso. A pergunta decide que literatura vai ler, que dados vai recolher, que método vai usar e, no fim, aquilo que vai poder concluir.
A maioria dos estudantes começa com algo como «quero estudar a ansiedade nos universitários» ou «interessa-me o turismo no Algarve». São bons pontos de partida, mas não são perguntas. Falta-lhes população definida, foco, contexto e, sobretudo, algo que possa ser respondido com os recursos e o tempo de um mestrado ou doutoramento.
Os sete passos abaixo transformam um interesse vago numa pergunta precisa. Cada passo funciona por si: se já tem o tema delimitado, salte diretamente para a estruturação com PICO ou PICo e para o teste de viabilidade com os critérios FINER.
Resposta rápida: para formular a pergunta de investigação, parta do tema, delimite a população e o contexto, identifique a variável ou o fenómeno central e decida o que quer saber (descrever, comparar, explicar ou compreender). Estruture a pergunta com PICO (estudos quantitativos) ou PICo (estudos qualitativos) e teste-a com os critérios FINER: viável, interessante, nova, ética e relevante.
O que é uma boa pergunta de investigação
A pergunta de investigação é a formulação, em forma interrogativa, daquilo que o seu estudo pretende descobrir. Não é o título da tese nem o objetivo geral: é a dúvida concreta que o trabalho vai responder. Na literatura metodológica da área da saúde, esta etapa é tratada como fundadora. Um estudo de referência de Santos, Pimenta e Nobre, publicado na Revista Latino-Americana de Enfermagem (SciELO), afirma que «a formulação da pergunta de pesquisa é considerada o ponto de partida para a utilização da prática baseada em evidências».
Esta lógica estende-se a qualquer área. Uma boa pergunta tem quatro características práticas:
- É clara: qualquer pessoa da área percebe o que está a ser perguntado sem explicações adicionais.
- É delimitada: indica quem, onde e, quando relevante, em que período.
- É respondível: existe um método e dados acessíveis que permitem chegar a uma resposta.
- É pertinente: a resposta acrescenta algo ao conhecimento ou à prática profissional.
Nas ciências sociais, Quivy e Campenhoudt chamam-lhe «pergunta de partida» e exigem-lhe clareza, exequibilidade e pertinência. Se a sua tese segue esta tradição, vale a pena ler como a pergunta alimenta o modelo de análise de Quivy e Campenhoudt numa tese de ciências sociais, porque é dela que derivam os conceitos, as dimensões e os indicadores.
Dica prática: escrever várias versões da mesma pergunta e compará-las lado a lado é o exercício mais útil desta fase. O Editor IA do Tesify ajuda a reescrever a pergunta em registo académico, aponta termos ambíguos e dá feedback em tempo real sobre a coerência entre pergunta, objetivos e método, diretamente no browser.

Como formular a pergunta de investigação em 7 passos
Os passos seguem a ordem natural do raciocínio, mas cada um pode ser revisitado. É normal voltar ao passo 2 depois de testar a pergunta no passo 7.
- Escreva o tema numa frase e liste o que já sabe. Coloque no papel o assunto que o motiva, sem filtros. Depois, escreva o que já leu, o que observou na prática ou no estágio e o que lhe parece pouco estudado. Esta lista é a matéria-prima das versões seguintes da pergunta.
- Delimite a população, o contexto e o período. Troque «os jovens» por «estudantes do 1.º ciclo do ensino superior», «as empresas» por «PME do setor agroalimentar», «o turismo» por «alojamento local num município concreto». Quanto mais preciso for o recorte, mais fácil será recolher dados e mais robusta será a resposta.
- Identifique o núcleo do estudo. Pergunte-se: o que está no centro? Uma variável que quer medir, uma intervenção que quer avaliar, uma relação entre fatores ou um fenómeno que quer compreender (uma experiência, um processo, uma perceção)? Escolha um núcleo principal; os restantes podem tornar-se perguntas secundárias.
- Escolha o tipo de pergunta. Decida se quer descrever («Como se caracteriza…?»), comparar («Existe diferença entre… e…?»), relacionar ou explicar («Que relação existe entre…?», «Qual o efeito de…?») ou compreender («Como vivenciam…?», «Que significados atribuem…?»). O tipo de pergunta antecipa o desenho do estudo: as perguntas de efeito pedem desenhos comparativos ou experimentais; as de compreensão pedem abordagens qualitativas.
- Estruture a pergunta com PICO ou PICo. Preencha os componentes da estrutura adequada (explicada na secção seguinte). Se algum componente ficar vazio ou vago, é sinal de que a pergunta ainda não está madura.
- Redija uma única pergunta principal, em forma interrogativa. Junte os componentes numa frase fluida, que termine com ponto de interrogação. Evite perguntas de sim/não sem conteúdo («A motivação é importante?») e termos que não consegue definir ou medir. Se trabalha com constructos psicológicos ou sociais, confirme que consegue apresentar uma definição conceptual e operacional de cada constructo presente na pergunta.
- Teste a pergunta e valide-a com o orientador. Passe a pergunta pelos critérios FINER, procure na literatura se já foi respondida exatamente da mesma forma e apresente-a ao orientador com uma frase de justificação. Se o estudo envolver pessoas, antecipe as exigências éticas; saber como responder a um parecer da comissão de ética com pendências poupa semanas, mas uma pergunta bem desenhada desde o início evita muitas dessas pendências.
PICO ou PICo: que estrutura usar
As estruturas mnemónicas obrigam a explicitar cada elemento da pergunta. Segundo Santos, Pimenta e Nobre, na publicação disponível na SciELO, o acrónimo PICO é uma mnemónica para estruturar perguntas focadas e orientadas para a busca eficiente de evidência. Os quatro componentes são Paciente/População/Problema (P), Intervenção ou Exposição (I), Comparação ou Controlo (C) e Desfecho ou Resultado, do inglês outcome (O).
Quando não há intervenção nem desfecho mensurável, como acontece em estudos qualitativos, usa-se a variante PICo: População (P), Interesse ou fenómeno de interesse (I) e Contexto (Co).
| Componente | PICO (quantitativo) | PICo (qualitativo) |
|---|---|---|
| P | Paciente, população ou problema | População |
| I | Intervenção ou exposição | Fenómeno de interesse |
| C / Co | Comparação ou controlo | Contexto |
| O | Desfecho ou resultado | Não se aplica |
| Quando usar | Avaliar efeitos, comparar intervenções, medir associações | Compreender experiências, perceções, significados e processos |
Exemplo PICO
P: adultos com lombalgia crónica; I: programa de exercício supervisionado; C: cuidados habituais; O: intensidade da dor. Pergunta: «Em adultos com lombalgia crónica, um programa de exercício supervisionado reduz mais a intensidade da dor do que os cuidados habituais?» A partir daqui, o desenho metodológico quase se escreve sozinho, como se vê no guia sobre como escrever a metodologia de uma tese de fisioterapia.
Exemplo PICo
P: enfermeiros recém-licenciados; I: experiência de integração profissional; Co: serviços de urgência hospitalar. Pergunta: «Como vivenciam os enfermeiros recém-licenciados a integração profissional em serviços de urgência hospitalar?»
E fora da saúde?
O PICO nasceu na prática clínica, mas a lógica é transferível. Em gestão, educação ou turismo, «intervenção» pode ser uma política, uma prática pedagógica ou uma certificação, e «desfecho» pode ser desempenho financeiro, aprendizagem ou satisfação. O essencial é que cada componente esteja explícito.

Testar a pergunta com os critérios FINER
Ter uma pergunta bem estruturada não garante que seja boa. Material de apoio metodológico associado à Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa recomenda que, uma vez rascunhada a pergunta (por exemplo, com PICO), esta seja submetida a uma análise crítica de viabilidade e mérito através dos critérios FINER. Use a tabela como lista de verificação.
| Critério | Pergunta de verificação | Sinal de alerta |
|---|---|---|
| F – Viável (feasible) | Tenho acesso aos participantes ou dados, ao tempo e às competências necessárias? | Depende de autorizações improváveis ou de uma amostra que não consegue recrutar |
| I – Interessante | A resposta interessa-me a mim, ao orientador e à comunidade da área? | Só consegue justificar a pergunta com «porque ninguém estudou» |
| N – Nova (novel) | Confirma, refuta ou alarga resultados anteriores, ou aplica-os a um contexto novo? | Encontra estudos que responderam exatamente à mesma pergunta, no mesmo contexto |
| E – Ética | Pode ser respondida sem riscos desproporcionados para os participantes? | Implica expor pessoas vulneráveis ou recolher dados sensíveis sem necessidade |
| R – Relevante | A resposta pode influenciar teoria, prática profissional ou políticas? | Não consegue explicar a quem serve o resultado |
Regra de bolso: se a pergunta falhar em viabilidade, reduza o âmbito (população, região, período) antes de mudar de tema. Na maioria dos casos, uma pergunta demasiado ambiciosa resolve-se com um recorte mais estreito, não com um tema diferente.
Exemplos: de pergunta fraca a pergunta forte
A melhor forma de perceber como formular a pergunta de investigação é ver a mesma ideia a evoluir. A tabela mostra versões iniciais típicas e a respetiva reformulação.
| Área | Versão fraca | Versão forte |
|---|---|---|
| Psicologia | A ansiedade afeta os estudantes? | Que relação existe entre ansiedade de avaliação e rendimento académico em estudantes do 1.º ano de licenciatura de uma universidade pública? |
| Turismo | Como está o turismo sustentável em Portugal? | Que práticas de sustentabilidade ambiental adotam os alojamentos locais de um município costeiro e que fatores condicionam essa adoção? |
| Educação | A tecnologia ajuda os alunos? | De que forma os professores do ensino básico integram ferramentas de inteligência artificial na planificação das aulas? |
| Enfermagem | Os doentes cumprem a medicação? | Em idosos com hipertensão seguidos nos cuidados de saúde primários, uma intervenção telefónica de enfermagem melhora a adesão terapêutica face ao acompanhamento habitual? |
| Contabilidade | O ESG é importante para as empresas? | Que relação existe entre a qualidade da divulgação ESG e o custo de capital das empresas cotadas num determinado mercado? |
Repare no padrão: a versão forte nomeia a população, explicita o núcleo (variável, intervenção ou fenómeno) e deixa adivinhar o método. Se a sua área é o turismo, encontra mais exemplos trabalhados no artigo sobre turismo sustentável como tema de dissertação: perguntas, dados e método.
Erros frequentes e como corrigi-los
- Pergunta demasiado ampla. «Quais os efeitos da pandemia na educação?» não cabe numa tese. Correção: escolha um efeito, um nível de ensino e um contexto.
- Pergunta já respondida. Se a literatura dá uma resposta clara, a sua pergunta perde novidade. Correção: mude o contexto, a população ou a perspetiva, ou procure as lacunas assinaladas nas secções de limitações dos estudos existentes.
- Pergunta de opinião ou valorativa. «Deveria o Estado financiar…?» não se responde com dados. Correção: transforme-a numa pergunta empírica, por exemplo sobre perceções de determinados atores ou efeitos observados de uma medida.
- Várias perguntas numa só. «Como e porquê os gestores adotam e avaliam…?» mistura objetivos. Correção: mantenha uma pergunta principal e passe as restantes para perguntas secundárias.
- Termos vagos. «Qualidade», «sucesso» ou «bem-estar» sem definição tornam a pergunta irrespondível. Correção: defina cada termo e indique como será observado ou medido.
- Pergunta desalinhada do método. Perguntar por um «efeito» e depois fazer apenas entrevistas exploratórias gera incoerência. Correção: ajuste o verbo da pergunta ao desenho que consegue efetivamente executar.
Da pergunta à pesquisa bibliográfica e aos objetivos
Uma pergunta bem estruturada é também uma estratégia de pesquisa pronta a usar. Segundo Santos, Pimenta e Nobre, os termos do PICO transformam-se nas palavras-chave e nos descritores controlados (DeCS e MeSH) da revisão de literatura, alinhando o problema com os objetivos e os métodos do projeto. Na prática, faça assim:
- Liste os termos de cada componente. Para cada letra do PICO ou PICo, escreva o termo principal e os sinónimos, em português e em inglês.
- Converta-os em descritores. Procure o descritor oficial correspondente no DeCS ou no MeSH (na saúde) ou nos tesauros da sua área.
- Combine com operadores booleanos. Use OR entre sinónimos do mesmo componente e AND entre componentes diferentes.
- Registe e organize os resultados. Guarde as referências desde o primeiro dia. A bibliografia automática do Tesify pesquisa artigos no Google Scholar, PubMed e RCAAP e gera as citações em APA, MLA ou Chicago com um clique, o que evita perder fontes entre versões da pergunta.
A pergunta também gera os objetivos. O objetivo geral é, muitas vezes, a pergunta principal reescrita com um verbo no infinitivo («Analisar a relação entre…»), e os objetivos específicos correspondem às perguntas secundárias ou aos passos necessários para responder à principal. Em áreas com tradições próprias, como o Direito, esta tradução tem particularidades que vale a pena conhecer no guia sobre como escrever a justificação e os objetivos de uma tese de Direito.
Antes de avançar: coloque a pergunta, o objetivo geral e os objetivos específicos na mesma página do documento. No Editor IA do Tesify, pode pedir à assistência que verifique se cada objetivo responde efetivamente à pergunta e se a linguagem é consistente ao longo do projeto.
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Perguntas frequentes
Qual é a diferença entre tema, problema e pergunta de investigação?
O tema é a área geral de interesse, por exemplo a adesão terapêutica. O problema é a situação concreta que justifica o estudo, como a baixa adesão de um grupo específico. A pergunta de investigação é a formulação interrogativa e delimitada daquilo que o estudo vai responder sobre esse problema.
Posso ter mais do que uma pergunta de investigação?
Pode, mas deve existir uma pergunta principal que orienta toda a tese. As perguntas secundárias detalham aspetos dessa pergunta e costumam corresponder aos objetivos específicos. Perguntas independentes entre si sugerem que a tese está a tentar fazer dois estudos ao mesmo tempo.
O PICO serve para teses fora da área da saúde?
Sim, como ferramenta de estruturação. Em gestão, educação ou turismo, a intervenção pode ser uma política, uma prática ou uma certificação e o desfecho um indicador de desempenho, aprendizagem ou satisfação. Em estudos qualitativos, a variante PICo, com população, fenómeno de interesse e contexto, costuma encaixar melhor.
A pergunta de investigação pode mudar durante a tese?
Pode ser afinada, sobretudo durante a revisão de literatura e após o teste de viabilidade. Depois de iniciar a recolha de dados, alterações profundas são arriscadas, porque obrigam a rever objetivos, método e, por vezes, o parecer ético. Qualquer mudança deve ser discutida com o orientador.
Devo formular hipóteses além da pergunta de investigação?
Depende do desenho. Em estudos quantitativos que testam relações ou efeitos, as hipóteses são a resposta provisória à pergunta e devem ser formuladas. Em estudos descritivos ou qualitativos exploratórios, é comum trabalhar apenas com perguntas, sem hipóteses formais.
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