Voz Ativa e Passiva na Redação Académica: Quando Usar Cada Uma (2026)
Uma das questões mais debatidas entre orientadores e estudantes de pós-graduação é esta: devo escrever a minha tese na voz ativa ou passiva? A resposta honesta é que depende — e este guia explica exactamente de quê. A escolha entre voz ativa e passiva na redação académica não é aleatória nem uma questão de estilo pessoal: é uma decisão técnica com implicações para a clareza, a objectividade e até a conformidade com as normas da sua instituição.
Este artigo explica as diferenças entre as duas construções, as recomendações das principais normas académicas (ABNT e APA), os contextos em que cada uma é preferível em teses e dissertações, e apresenta exemplos práticos organizados por secção do trabalho.
Voz Ativa vs. Voz Passiva: As Diferenças
Na voz activa, o sujeito da frase executa a acção expressa pelo verbo. Na voz passiva, o sujeito sofre a acção — é o receptor, não o agente.
| Aspecto | Voz activa | Voz passiva |
|---|---|---|
| Estrutura | Sujeito + verbo + objecto | Sujeito (paciente) + verbo auxiliar + particípio |
| Exemplo | “Esta investigação analisou 200 questionários.” | “200 questionários foram analisados.” |
| Ênfase | No agente (quem fez) | No processo ou no resultado |
| Clareza | Geralmente mais directa | Pode ser ambígua sem agente explícito |
| Extensão | Mais curta | Geralmente mais longa |
Na língua portuguesa, existe ainda a voz passiva sintética, formada com o pronome “se”: “Analisaram-se os dados” equivale a “Os dados foram analisados”. Esta construção é muito frequente na redação académica portuguesa precisamente por manter a impessoalidade sem recorrer ao auxiliar “ser”.
O Que Dizem a ABNT e a APA
A posição da ABNT
A ABNT, nas normas NBR 14724 e NBR 6022, determina que os trabalhos académicos devem ser redigidos de forma impessoal — sem uso de pronomes pessoais da primeira pessoa como sujeito das acções de pesquisa. Isso não proíbe explicitamente a voz activa, mas a impessoalidade obriga o autor a construções como “este trabalho investiga”, “a presente pesquisa demonstrou” ou “observou-se que” — todas impessoais, mas que podem ser tanto activas como passivas.
A posição da APA (7.ª edição)
A APA (American Psychological Association), amplamente adoptada em programas de pós-graduação brasileiros e portugueses nas áreas de psicologia, educação e ciências sociais, recomenda explicitamente a voz activa na secção 4.13 do manual. Segundo a APA, a voz activa produz frases mais curtas, mais directas e mais fáceis de ler. O manual afirma: prefira a voz activa; use a voz passiva apenas quando o processo é mais importante do que o agente, ou quando o agente é desconhecido.
O que fazer na prática
A regra prática é: consulte o guia de normalização da sua instituição ou o regulamento do seu programa. Se o programa exige ABNT, priorize a impessoalidade (que na maioria dos contextos resulta em mais voz passiva). Se adopta APA, use a voz activa salvo nas situações em que o processo é claramente mais importante do que o agente. Se não há norma específica, a tendência moderna — mesmo em contextos tradicionais — é permitir a voz activa, especialmente na discussão e na conclusão.
Guia por Secção do Trabalho
A escolha entre voz activa e passiva não é uniforme ao longo de toda a tese. Cada secção tem contextos em que uma é mais adequada do que a outra.
Introdução
A introdução pode usar tanto a voz activa como a passiva. Para declarar o objectivo, a voz activa com sujeito impessoal é clara e directa:
- Activa: “Esta investigação examina a relação entre uso de IA e produtividade académica.”
- Passiva: “A relação entre uso de IA e produtividade académica é examinada nesta investigação.”
A versão activa é mais concisa. Use-a sempre que possível na introdução.
Revisão de literatura
Na revisão de literatura, a voz passiva é frequente quando se descreve o que outros autores fizeram, mas a voz activa é preferível para comentários analíticos:
- Passiva descritiva: “A teoria da motivação foi desenvolvida por Deci e Ryan (1985).”
- Activa analítica: “Esta perspectiva ignora os factores contextuais que modulam a motivação intrínseca.”
Metodologia
A metodologia é a secção onde a voz passiva é mais aceite e até preferível, porque o foco está no procedimento, não no investigador. “Os dados foram recolhidos” diz o mesmo que “eu recolhi os dados” mas sem o “eu”, mantendo a impessoalidade exigida. Use a voz passiva para os procedimentos e a voz activa (com sujeito “a pesquisa” ou “o estudo”) para as justificativas das opções metodológicas:
- Passiva (procedimento): “As entrevistas foram gravadas e transcritas verbatim.”
- Activa (justificativa): “O estudo adopta a abordagem qualitativa porque o fenômeno requer compreensão em profundidade.”
Resultados
Nos resultados, use a voz passiva para descrever o que foi encontrado (o foco está nos dados, não no investigador). A voz activa com sujeito impessoal (“os resultados revelam”, “os dados indicam”) é igualmente adequada e muito comum.
Discussão
A discussão é onde a voz activa brilha. Aqui o investigador interpreta, argumenta, compara com a literatura e tira conclusões. A APA encoraja explicitamente a voz activa nesta secção. Use “este estudo demonstra”, “estes resultados sugerem”, “a presente investigação contribui” — sempre com sujeito impessoal, se a norma da sua instituição o exige.
Conclusão
A conclusão é declarativa e sintética. A voz activa com sujeito impessoal é preferível: “Esta tese demonstrou que…”, “A investigação confirmou a hipótese de que…”. Evite a passividade excessiva na conclusão — ela esvazia a força do argumento.
Voz Passiva Sintética: O Recurso Português
A voz passiva sintética (ou pronominal) é formada com o pronome “se” junto a um verbo transitivo: “recolheram-se os dados”, “analisaram-se as respostas”, “verificou-se que…”. É uma solução elegante para manter a impessoalidade exigida pela ABNT sem recorrer ao auxiliar “ser”, tornando a frase mais fluida.
- “Realizou-se uma pesquisa de campo com 150 estudantes universitários.”
- “Procedeu-se à análise temática do corpus de entrevistas.”
- “Identificaram-se três categorias principais de resposta.”
- “Verificou-se a consistência interna dos instrumentos pelo alpha de Cronbach.”
Note que em Portugal esta construção é amplamente aceite em contextos académicos. No Brasil, a tendência contemporânea em muitas universidades é permitir a primeira pessoa do plural (“analisámos” / “analisamos”) como alternativa à construção sintética, embora isso varie muito por instituição e orientador.
Quando Evitar a Voz Passiva
A voz passiva torna-se problemática quando é usada em excesso ou nos contextos errados. Estes são os sinais de alerta:
- Passiva sem agente quando o agente é relevante: “Os dados foram distorcidos” — por quem? Neste caso, a voz activa é mais precisa.
- Passiva para esconder responsabilidade: “Erros foram cometidos” é o clássico exemplo político de passiva evasiva. Na ciência, atribuir claramente a acção ao sujeito correcto é requisito de rigor.
- Passiva em sequência longa: três ou quatro frases passivas seguidas tornam a leitura pesada. Varie com construções activas impessoais.
- Passiva com auxiliar desnecessário: “É sabido que” é uma construção passiva empobrecida. Substitua por “A literatura demonstra que” ou cite directamente o autor.
Como Transformar Voz Passiva em Activa
Se quer tornar o seu texto mais directo, aprenda a transformar construções passivas em activas. O processo é simples: o objecto da frase passiva torna-se o sujeito da frase activa.
| Voz passiva | Voz activa (impessoal) |
|---|---|
| “O modelo foi testado nesta investigação.” | “Esta investigação testou o modelo.” |
| “Os resultados foram interpretados à luz da teoria.” | “A análise interpretou os resultados à luz da teoria.” |
| “As limitações foram identificadas pelos autores.” | “Os autores identificaram as limitações.” |
| “A hipótese foi confirmada pelos dados.” | “Os dados confirmaram a hipótese.” |
Perguntas Frequentes
A ABNT proíbe a voz activa na tese?
Não. A ABNT determina impessoalidade, não voz passiva. É possível escrever de forma impessoal usando a voz activa com sujeito impessoal: “este trabalho demonstrou”, “a investigação concluiu”, “o estudo revelou”. O que a ABNT evita é o uso do “eu” como sujeito das acções de pesquisa. Consulte sempre as directrizes específicas do seu programa — muitas universidades têm regulamentos que vão além da ABNT genérica.
Em que secção da tese devo usar mais voz activa?
A voz activa é mais recomendada na discussão e na conclusão, onde o investigador precisa de assumir os seus argumentos e interpretações com clareza. Na metodologia, a voz passiva é mais aceite porque o foco está no procedimento e não no agente. Na introdução e na revisão de literatura, ambas as vozes podem ser usadas com eficácia, dependendo do que se quer enfatizar em cada frase.
O que é voz passiva sintética e quando usá-la?
A voz passiva sintética (ou pronominal) usa o pronome “se” para transformar um verbo transitivo numa construção impessoal: “recolheram-se os dados”, “verificou-se que”, “identificaram-se três padrões”. É uma forma elegante de manter a impessoalidade académica sem recorrer ao auxiliar “ser” + particípio. Use-a sobretudo na metodologia e nos resultados. No português de Portugal é especialmente frequente e bem aceite; no português do Brasil, varia por região e instituição.
Posso usar “nós” na tese em vez de voz passiva?
O uso de “nós” é aceite em algumas instituições, especialmente em trabalhos com múltiplos autores (artigos científicos com dois ou mais investigadores). Em teses e dissertações individuais, o “nós” de modéstia (usado no singular como forma de impessoalidade) é aceite em certas tradições académicas europeias, mas evitado em muitas instituições brasileiras. Consulte o seu orientador e o guia de normalização do seu programa antes de adoptar esta convenção.
Como saber se usei demasiada voz passiva na minha tese?
Um indicador simples: se ao reler um parágrafo encontra mais de três construções com “foi/foram + particípio” seguidas, há excesso de voz passiva. Outro sinal é sentir que o texto parece burocrático ou distante — efeito típico da passiva em excesso. Ferramentas como o editor da Tesify identificam automaticamente concentrações de voz passiva e sugerem alternativas mais directas para as secções onde a voz activa seria mais adequada.
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