Revistas Predatórias e Retratações em Números: Dados PT/BR 2026
Em fevereiro de 2026, a Cabells Predatory Reports ultrapassou a marca de 20.274 revistas predatórias indexadas na sua base de dados — um número que triplicou desde o lançamento da ferramenta em 2017 com 7.000 entradas. Paralelamente, o Retraction Watch Database acumulou mais de 65.000 registos de retratações globais, com 2023 a registar mais de 14.000 avisos de retratação num único ano. Para investigadores lusófonos em fase de publicação, estes dados têm implicações concretas: escolher a revista errada pode comprometer décadas de trabalho e a credibilidade de toda uma dissertação ou tese.
Portugal e Brasil não ficam de fora desta tendência. Um estudo publicado no Journal of Korean Medical Science (2025) que analisou 50 anos de retratações médicas identificou que, entre os países lusófonos, Portugal apresenta 60,1% das retratações motivadas por má conduta, enquanto o Brasil regista 55,9% — acima da média global de 60% para má conduta em geral. No Brasil, a pressão do sistema “publicar ou perecer” amplificada pelo Qualis-CAPES criou incentivos que, segundo investigadores da FAPESP, levaram ao triplo de publicações em revistas suspeitas entre 2010 e 2015.
Cabells Ultrapassa 20.000: A Escala Global das Revistas Predatórias
A Cabells International mantém duas bases de dados complementares: a Scholarly Analytics (revistas legítimas) e a Predatory Reports (revistas deceptivas). A segunda atingiu 20.274 entradas em janeiro de 2026, avaliadas segundo mais de 70 critérios que incluem ausência de revisão por pares real, taxas de processamento não divulgadas, dados ISSN falsificados e prazos de aceitação suspeitos.
| Ano | Revistas Indexadas | Variação |
|---|---|---|
| 2017 (lançamento) | ~7.000 | — |
| 2018 | ~10.000 | +43% |
| 2021 | ~15.000 | +50% |
| 2026 (janeiro) | 20.274 | +35% |
A Cabells alerta que a IA generativa está a acelerar o problema: modelos de linguagem permitem a produtores desonestos fabricar artigos com aparência credível a baixo custo, aumentando o volume de submissões a revistas que cobram taxas sem oferecer revisão substantiva. O “sequestro de revistas” (journal hijacking) — criação de sítios-clone que imitam publicações legítimas — cresce a um ritmo de 70–80 novos casos por ano registados no Retraction Watch Hijacked Journal Checker.
Para doutorandos que integram artigos na sua tese, este contexto é diretamente relevante: muitas universidades portuguesas e brasileiras exigem hoje que os artigos incluídos tenham sido publicados em revistas indexadas no Web of Science ou Scopus. Uma publicação numa revista predatória não conta — e, em casos extremos, pode motivar investigação disciplinar.
Retraction Watch em 2026: Mais de 65.000 Registos
O Retraction Watch Database, mantido pelo Center for Scientific Integrity, superou 65.000 registos de retratações e expressões de preocupação em 2026. O banco de dados cresceu de 55.000 entradas em finais de 2024 para este valor atual, com o ano de 2023 a ter sido o mais activo de sempre, com mais de 14.000 avisos de retratação emitidos por revistas científicas. Os dados de 2025 apontam para mais de 5.000 novas retratações apenas nos primeiros oito meses do ano.

A distribuição geográfica das retratações é assimétrica: a China concentra mais de metade dos artigos retratados globalmente, impulsionada por fábricas de artigos (paper mills) industriais. Contudo, o crescimento em países de rendimento médio — incluindo Brasil e Portugal — é uma tendência monitorizada de perto pela comunidade científica internacional. A análise publicada no Journal of Medical Internet Research (2025) sobre disparidades geográficas na má conduta revelou que os motivos divergem: em países lusófonos, o plágio é a causa mais citada nas retratações de ciências da saúde, enquanto a fabricação de dados domina nos sistemas com maior pressão de produção quantitativa.
Quem Retrata Mais — e Menos
Uma análise de maio de 2026 publicada no próprio Retraction Watch revelou que a Elsevier retrata menos artigos em proporção do total publicado e reintegra mais artigos previamente retratados do que qualquer outra grande editora — o que suscita debate sobre as diferentes culturas editoriais na gestão da integridade. Em contraste, revistas predatórias raramente retratam: um estudo de 2024 na Accountability in Research analisou 1.511 revistas predatórias independentes e verificou que apenas 46 retrataram um total de 645 publicações — uma taxa de correção negligenciável face ao volume publicado.
Brasil em Números: Qualis, CAPES e 66 Revistas Sinalizadas
O Brasil apresenta uma particularidade estrutural que amplifica o risco de publicação predatória: o sistema Qualis-CAPES, que classifica revistas por estrato (A1 a C) para efeitos de avaliação de programas de pós-graduação. Durante anos, este sistema criou incentivos para publicar em qualquer revista indexada, independentemente da qualidade editorial — e algumas revistas predatórias chegaram a obter classificação A2, o segundo estrato mais elevado, no ciclo 2017–2020.
Desde 2025, a CAPES reviu o modelo: o novo Qualis passa a classificar artigos individualmente com base em indicadores bibliométricos e análises qualitativas, em substituição progressiva da classificação por revista. Esta mudança, que entrará em plena vigência no ciclo 2025–2028, representa o maior ajuste ao sistema de avaliação em duas décadas.
| Critério de Identificação | % de Artigos em Revistas Suspeitas |
|---|---|
| Lista de Beall (sozinha) | 0,49% |
| Lista de Beall + ausência no DOAJ | 0,44% |
| Combinação dos três critérios | 0,26% |
Fonte: Revista Pesquisa FAPESP; base: 2,3 milhões de publicações de 102.969 doutores brasileiros. Os dados cobrem 2000–2015; tendência de crescimento posterior não foi reavaliada com esta metodologia.
O dado mais recente e operacionalmente concreto vem do IBICT: em agosto de 2023, investigadores do Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia lançaram um mapeamento participativo, convidando a comunidade científica a denunciar revistas suspeitas. Resultado: 66 revistas brasileiras mencionadas em 478 denúncias formais por práticas editoriais questionáveis, com destaque para aceitação sem revisão real, cobranças indevidas e ISSN duplicados.
Um caso exemplar documentado pela Science Arena (2025): uma revista brasileira publicou 7.138 artigos entre janeiro de 2024 e novembro de 2025 — uma média de 300 manuscritos por mês — com PhDs como autores em 35% dos casos. Contrariamente ao estereótipo do investigador júnior ingénuo, os dados da FAPESP confirmam que investigadores mais experientes têm maior probabilidade de publicar em revistas suspeitas, provavelmente por razões de conveniência e pressão de produtividade.
Para estudantes de pós-graduação no Brasil, a verificação prévia da revista é o passo mais decisivo: publicar num veículo predatório — especialmente a partir de 2025, com o novo Qualis baseado em artigos — poderá não apenas não contar para a pontuação do programa como sinalizar negativamente o percurso do investigador. O nosso guia prático sobre como identificar e evitar revistas predatórias (checklist Beall, DOAJ e Think-Check-Submit) reúne os sinais de alerta a verificar antes de submeter.
Portugal: Retratações e o Papel do RCAAP
Em Portugal, o debate sobre revistas predatórias tem sido menos mediatizado do que no Brasil, mas os dados de retratações contam uma história relevante. A análise publicada pela Scientometrics (Springer Nature, 2024) sobre retratações biomédicas por má conduta na Europa nas últimas duas décadas identificou Portugal como país com 60,1% das suas retratações motivadas por má conduta, com o plágio como causa principal — um padrão consistente com o perfil identificado em trabalhos académicos (ver o nosso guia sobre como verificar plágio e autoplágio antes de entregar a tese).
O RCAAP (Repositório Científico de Acesso Aberto de Portugal) funciona como agregador dos repositórios institucionais das universidades e politécnicos portugueses. Embora não seja uma ferramenta de verificação de predatoriedade, o RCAAP indexa apenas publicações depositadas pelas próprias instituições — o que significa que artigos em revistas predatórias raramente aparecem neste sistema, tornando-o um proxy indireto de qualidade para trabalhos de origem nacional. Veja onde depositar os seus dados e publicações no nosso guia de repositórios de dados de investigação lusófonos.
No contexto de teses por compilação de artigos — uma modalidade crescente em Portugal e no Brasil — a verificação da qualidade das revistas é crítica. A maioria dos regulamentos de doutoramento portugueses exige que os artigos incluídos estejam publicados ou aceites em revistas indexadas no Web of Science ou Scopus, excluindo explicitamente publicações não indexadas ou suspeitas. Quem segue este modelo deve antecipar o tempo extra que a verificação e o redirecionamento de submissões exigem — um factor subestimado nos prazos reais de conclusão.
Como Verificar uma Revista Antes de Submeter: Ferramentas e Critérios
A verificação antes da submissão é o momento de intervenção mais eficaz. As principais ferramentas disponíveis em 2026:
| Ferramenta | O Que Verifica | Acesso |
|---|---|---|
| Cabells Predatory Reports | 20.274 revistas deceptivas; 70+ critérios | Pago (acesso institucional) |
| DOAJ | 21.000+ revistas OA verificadas e legítimas | Gratuito |
| Retraction Watch Hijacked Journal Checker | Revistas clonadas/sequestradas | Gratuito |
| Web of Science / Scopus Master List | Indexação verificada pelas principais bases | Acesso via instituição |
| Think. Check. Submit. | Checklist guiada para investigadores | Gratuito (thinkchecksubmit.org) |
A verificação cruzada é o método mais robusto: uma revista legítima terá ISSN validável no Portal ISSN, aparecerá indexada no DOAJ ou em pelo menos uma das grandes bases bibliográficas, terá membros identificáveis no conselho editorial com perfis ORCID verificáveis, e publicará os seus factores de impacto de forma transparente. A ausência de qualquer destes elementos não é, isoladamente, prova de predatoriedade — mas a combinação de múltiplos sinais de alerta é.
A comunicação científica de qualidade começa pela escolha do veículo. O blog Sobrevivendo na Ciência, de Marco Armello, dedica uma série inteiramente a boas práticas de escrita académica — um recurso útil para investigadores que querem preparar manuscritos competitivos para revistas legítimas.
Impacto na Tese e Dissertação: O Que Dizem as Universidades
Para mestrandos e doutorandos que pretendem integrar artigos publicados na sua dissertação ou tese — modelo crescente tanto em Portugal como no Brasil — a questão das revistas predatórias é existencial.
As universidades portuguesas têm endurecido os regulamentos: a maioria exige agora que os artigos incluídos sejam provenientes de revistas com fator de impacto registado no Journal Citation Reports (JCR) ou indexadas no Scopus. Artigos publicados em revistas não indexadas nestas bases são, regra geral, tratados como trabalho não publicado para efeitos de avaliação académica — o que pode obrigar o candidato a reescrever ou adicionar capítulos tradicionais.
No Brasil, o impacto é mediado pelo sistema Qualis. Até ao ciclo 2021–2024, um artigo em revista C (estrato mais baixo) ainda contava pontualmente; a partir do ciclo 2025–2028, a avaliação baseada em artigos individuais eliminará esta ambiguidade — e dificultará a integração de publicações em veículos de baixa qualidade nas métricas dos programas.
A pressão académica que leva investigadores a submeter a revistas predatórias está intimamente ligada ao stress dos prazos de conclusão. A mesma pressão de produção que gera atalhos — sejam eles plágios, autocitações excessivas ou submissões a revistas que aceitam tudo — pode ser mitigada com verificação preventiva, descrita no nosso guia sobre como verificar plágio e autoplágio antes de entregar a tese.
Sobre o movimento de preservação e organização do património bibliográfico lusófono neste contexto de proliferação de publicações de qualidade duvidosa, a Sociedade Bibliográfica Brasileira publicou recentemente um repertório bibliográfico sistematizado da produção científica sobre COVID-19 (2020–2023), um exemplo de curadoria rigorosa que contrasta com a lógica das publicações predatórias.
O Que Fazer se Já Publicou Numa Revista Suspeita
Se um artigo já foi submetido e aceite numa revista entretanto identificada como predatória, as opções são limitadas mas existem:
- Verificar se a retratação é possível: contactar a revista por escrito a solicitar a retratação do artigo. Revistas predatórias raramente cooperam — mas a tentativa documentada demonstra boa-fé perante a instituição.
- Não incluir o artigo na tese: optar por não referenciar a publicação suspeita como parte do corpo principal da tese e, em vez disso, incluir uma versão do trabalho como capítulo autónomo.
- Comunicar ao orientador imediatamente: o silêncio é o pior caminho. A maioria dos conselhos científicos prefere descobrir o problema durante o processo de preparação da tese e não durante a defesa.
- Depositar uma versão do manuscrito em repositório institucional: o auto-arquivo em repositório aberto — como o RCAAP em Portugal ou o BDTD no Brasil — pode demonstrar a existência e a qualidade do trabalho independentemente da revista de publicação.
A Tesify integra orientação sobre publicação responsável no seu fluxo de apoio à tese — ajudando doutorandos a estruturar capítulos de artigos com referências verificadas e normas de integridade incorporadas.
Perguntas Frequentes
Quantas revistas predatórias existem em 2026?
A Cabells Predatory Reports indexa 20.274 revistas deceptivas a partir de janeiro de 2026, mais do que o triplo do valor no lançamento em 2017. Este número não inclui revistas suspeitas não identificadas ou fora do âmbito de cobertura da Cabells.
Quantas retratações científicas existem globalmente?
O Retraction Watch Database ultrapassou os 65.000 registos de retratações e expressões de preocupação em 2026. O ano de 2023 foi o mais ativo de sempre, com mais de 14.000 avisos de retratação emitidos por revistas científicas. Cerca de 60% das retratações globais têm origem em má conduta e não em erros não intencionais.
Quantas revistas brasileiras foram sinalizadas como predatórias?
O levantamento participativo do IBICT (iniciado em agosto de 2023) identificou 66 revistas brasileiras mencionadas em 478 denúncias formais por práticas editoriais suspeitas — incluindo aceitação sem revisão real, ISSN duplicados e cobranças abusivas após aceitação.
Uma publicação em revista predatória invalida a minha tese?
Não automaticamente, mas pode comprometer seriamente a avaliação. Em teses por compilação de artigos, as universidades portuguesas e brasileiras exigem que as publicações estejam indexadas no Web of Science ou Scopus. Um artigo em revista predatória não satisfaz este requisito e, na prática, equivale a trabalho não publicado para efeitos académicos. A comunicação imediata ao orientador é sempre o passo correto.
O novo Qualis-CAPES (pós-2025) resolve o problema das revistas predatórias?
Parcialmente. A transição para a avaliação por artigo individual (em vez de por revista) elimina o incentivo de publicar em qualquer revista com classificação Qualis elevada. No entanto, o novo modelo ainda está em implementação para o ciclo 2025–2028, e os critérios definitivos de classificação por artigo ainda não estão completamente especificados. O risco de revistas predatórias obterem pontuação indevida subsiste durante o período de transição.
Como verificar gratuitamente se uma revista é predatória?
As melhores ferramentas gratuitas em 2026 são: (1) DOAJ — presença na lista indica revista de acesso aberto verificada; (2) Think. Check. Submit. — checklist interativa em thinkchecksubmit.org; (3) Retraction Watch Hijacked Journal Checker — para verificar se a revista foi clonada. Para verificação mais profunda, o acesso à Cabells Predatory Reports está disponível via bibliotecas universitárias.
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