Scoping Review (PRISMA-ScR) na Tese 2026: Quando e Como Usar
A scoping review é o tipo de revisão de literatura que mais cresce em teses de mestrado e doutoramento em Portugal e no Brasil desde 2020 — e, simultaneamente, o mais confundido com a revisão sistemática. A distinção importa metodologicamente: escolher o tipo errado de revisão compromete a coerência entre questão de investigação, objetivo e método, podendo gerar recomendações de reformulação da banca no dia da defesa. Este guia explica o que é uma scoping review segundo o JBI 2020, quando a escolher em vez de uma revisão sistemática, como usar a checklist PRISMA-ScR e como reportar cada etapa na tua tese de 2026.
A distinção em relação à revisão sistemática publicada anteriormente neste blog (PRISMA 2020) é intencional: se a tua questão é “qual é o tamanho do efeito de X em Y?”, escolhes a revisão sistemática com meta-análise. Se a tua questão é “o que se sabe sobre o campo X, que tipos de intervenções existem, que lacunas persistem?”, a scoping review é metodologicamente mais adequada. Confundir os dois é um dos erros mais frequentes nas teses de ciências da saúde e educação.
O que é uma scoping review: definição e origem
O conceito de scoping review (ou mapeamento do campo) foi sistematizado por Hilary Arksey e Lisa O’Malley em 2005 no artigo “Scoping studies: towards a rigorous methodology” (Int J Soc Res Methodol). As autoras identificaram 4 propósitos principais:
- Examinar a extensão, gama e natureza da atividade de investigação;
- Determinar o valor de realizar uma revisão sistemática completa;
- Resumir e disseminar descobertas de investigação;
- Identificar lacunas na literatura existente.
Em 2020, o JBI (Joanna Briggs Institute) atualizou e formalizou a metodologia no seu Manual for Evidence Synthesis (Peters et al., JBI Evidence Synthesis, 2020). Esta atualização é a referência metodológica obrigatória em 2026 para qualquer scoping review em saúde, educação ou ciências sociais. O manual está disponível gratuitamente em synthesismanual.jbi.global.
Quando escolher scoping review vs revisão sistemática
A decisão entre scoping review e revisão sistemática começa pela questão de investigação. A tabela abaixo sintetiza os critérios de decisão:
| Critério | Scoping Review | Revisão Sistemática |
|---|---|---|
| Questão de investigação | Ampla, exploratória (“o que se sabe sobre…?”, “que tipos de intervenções existem?”) | Focalizada, específica (“qual é o efeito de X em Y na população Z?”) |
| Objetivo principal | Mapear campo; identificar lacunas; categorizar evidência | Responder a uma pergunta clínica/causal com estimativa quantitativa |
| Tipos de estudos | Todos (RCTs, qualitativos, revisões, guidelines, grey literature) | Geralmente RCTs ou estudos de coorte para eficácia clínica |
| Avaliação de qualidade (appraisal) | Opcional (pode ser incluída para caracterização) | Obrigatória (RoB 2, GRADE, etc.) |
| Síntese | Narrativa (tabela de charting, mapa de evidência) | Quantitativa (meta-análise) ou qualitativa (meta-síntese) |
| Registo | OSF Registries (recomendado JBI) | PROSPERO (International Prospective Register) |
| Checklist de reporte | PRISMA-ScR (22 itens, Tricco et al. 2018) | PRISMA 2020 (27 itens, Page et al.) |
Tabela comparativa dos tipos de revisão 2026
Além da scoping review e da revisão sistemática, existem outros tipos que o orientador pode sugerir ou que a banca pode questionar:
| Tipo | Objetivo | Appraisal | Síntese | Tempo médio | Registo |
|---|---|---|---|---|---|
| Scoping Review | Mapear campo | Opcional | Narrativa | 3–6 meses | OSF |
| Revisão Sistemática | Responder pergunta clínica | Obrigatório | Meta-análise/síntese | 12–24 meses | PROSPERO |
| Rapid Review | Evidência urgente (política/clínica) | Simplificado | Narrativa/quantitativa | 1–3 meses | OSF/PROSPERO |
| Integrative Review | Síntese diversificada (quant+qual) | Opcional | Narrativa integrativa | 4–8 meses | OSF |
| Umbrella Review | Revisão de revisões sistemáticas | Obrigatório (AMSTAR) | Meta-analítica | 6–12 meses | PROSPERO |
| Revisão Narrativa | Contextualização/introdução | Não formal | Descritiva | 1–2 meses | — |
Protocolo JBI 2020: 6 etapas detalhadas
O JBI Manual for Evidence Synthesis (2020) estabelece 6 etapas para a condução de uma scoping review. Cada uma deve ser descrita na secção de “Metodologia” da tua tese, com detalhe suficiente para permitir replicação.
Etapa 1 — Definir a questão de investigação
Usa o framework PCC (Population, Concept, Context) em vez do PICO (que é reservado para revisões sistemáticas de eficácia):
- P — Population: a população ou grupo estudado (ex.: estudantes do ensino superior português);
- C — Concept: o fenómeno de interesse (ex.: impacto do uso de IA generativa na escrita académica);
- C — Context: o setting ou contexto (ex.: contexto de ensino presencial e EaD, 2020-2026).
Etapa 2 — Desenvolver e alinhar o protocolo com o JBI
Antes de começar a pesquisa, regista o protocolo no OSF (ver secção abaixo) e inclui: questão PCC, critérios de elegibilidade, bases de dados, string de pesquisa, processo de rastreio (screening), charting e síntese planeada.
Etapa 3 — Pesquisa da literatura (search strategy)
A scoping review tipicamente usa uma pesquisa mais abrangente do que a revisão sistemática:
- Bases principais: Scopus, Web of Science, PubMed/MEDLINE, ERIC (educação), SciELO, LILACS (Lat-Am saúde);
- Grey literature: teses (RCAAP, BDTD), guidelines institucionais, relatórios de agências;
- Snowballing: referências de artigos incluídos + artigos que citam os incluídos;
- Regista o número de resultados por base antes e após deduplicação (software: Zotero + Dedupeer, ou Covidence).
Etapa 4 — Seleção dos estudos (screening)
O screening faz-se em 2 fases: (1) título + abstract; (2) texto completo. Idealmente, pelo menos dois revisores independentes com cálculo de concordância (Cohen’s Kappa ≥0.70 é considerado bom). Documenta os motivos de exclusão na fase 2 — esta informação vai para o fluxo PRISMA-ScR.
Etapa 5 — Extração dos dados (charting)
Na scoping review faz-se data charting, não data extraction. A diferença: charting visa categorizar e descrever as características dos estudos incluídos (autores, ano, país, tipo de estudo, populações, conceitos-chave, principais achados), não extrair dados para meta-análise. A tabela de charting é um dos outputs centrais da tua tese.
| Autor(es), Ano | País | Tipo de estudo | População (P) | Conceito (C) | Contexto (C) | Principais achados |
|---|---|---|---|---|---|---|
| Santos et al., 2024 | BR | Survey quantitativo | Estudantes PG (n=312) | Uso ChatGPT em TCC | IES públicas SP | 68% usaram para paráfrase; 23% para síntese de literatura |
Etapa 6 — Síntese e reporte
A síntese da scoping review é narrativa e descritiva: categoriza os estudos por tema, tipo, lacuna identificada ou tipologia de intervenção. Inclui análise de distribuição temporal, geográfica e por área disciplinar. Usa o PRISMA-ScR para reportar e inclui o fluxo como figura obrigatória no capítulo de metodologia.
Checklist PRISMA-ScR: 22 itens explicados
A checklist PRISMA Extension for Scoping Reviews (PRISMA-ScR) foi publicada por Tricco et al. em 2018 nos Annals of Internal Medicine e tem 20 itens essenciais + 2 opcionais. O diagrama de fluxo PRISMA-ScR é ligeiramente diferente do PRISMA 2020: inclui uma coluna adicional para grey literature e usa terminologia “identificados” → “rastreados” → “elegíveis” → “incluídos”.
Itens obrigatórios PRISMA-ScR (seleção dos mais críticos para teses)
| Secção | Item | Descrição | Onde na tese |
|---|---|---|---|
| Título | #1 | Identificar como scoping review no título ou abstract | Título da tese ou subtítulo |
| Resumo | #2 | Abstract estruturado com objetivo, elegibilidade, fontes, charting, síntese | Abstract |
| Métodos | #6 | Protocolo e registo (OSF ID) | Cap. Metodologia §1 |
| Métodos | #7 | Critérios de elegibilidade (PCC explícito) | Cap. Metodologia §2 |
| Métodos | #8 | Fontes de informação (bases + datas) | Cap. Metodologia §3 |
| Métodos | #9 | Estratégia de pesquisa completa para ≥1 base (anexo) | Anexo A |
| Resultados | #17 | Fluxo PRISMA-ScR (figura) | Cap. Resultados, Figura 1 |
| Resultados | #18 | Tabela de charting com características dos estudos incluídos | Cap. Resultados, Tabela 1 |
| Discussão | #20 | Síntese dos resultados e implicações para investigação/prática | Cap. Discussão |
| Discussão | #21 | Limitações do processo de scoping review | Cap. Discussão §limitações |
Registo no OSF: passo a passo
O registo do protocolo de scoping review no Open Science Framework (OSF) é fortemente recomendado pelo JBI 2020 e, em 2026, esperado pela maioria das bancas de saúde, educação e ciências sociais. O PROSPERO recusa registos de scoping reviews desde 2022.
- Acede a osf.io e cria uma conta (gratuito, ORCID login disponível);
- Cria um novo projeto com o título da scoping review;
- Usa o template “OSF Registries” > “JBI Scoping Review Protocol”;
- Preenche: questão PCC, critérios de elegibilidade, bases a pesquisar, estratégia preliminar, processo de screening;
- Submete o registo — recebes um DOI permanente tipo
osf.io/xxxxxxx; - Inclui esse DOI na secção de Métodos da tua tese e no item #6 do PRISMA-ScR.
Software para conduzir uma scoping review em 2026
Rayyan
Rayyan (rayyan.ai) é a ferramenta mais usada mundialmente para screening de títulos e abstracts. Permite importar referências de múltiplas bases (RIS, BibTeX, CSV), atribuir revisores e calcular acordo inter-revisores. Tem versão gratuita (1 revisão) e plano académico (múltiplas revisões). Recomendado pelo JBI como ferramenta de suporte.
Covidence
Covidence é mais completo do que Rayyan (screening + extração + appraisal) mas tem custo elevado (cerca de USD 500/revisão para instituições). Muitas IES têm licença institucional — confirma com a tua biblioteca. Ideal para revisões sistemáticas completas; para scoping reviews, Rayyan é geralmente suficiente.
Nested Knowledge
Nested Knowledge (2026, Stanford spin-off) permite screening semi-automatizado com IA (classificação preliminar por LLM) + revisão humana. Nascente mas promissor para scoping reviews com corpus grande (>5000 artigos). Verificar status de desenvolvimento e custo em 2026.
Zotero + Dedupeer
Para deduplicação antes do screening: exporta todas as referências para Zotero 7, instala o plugin Dedupeer e faz merge de duplicados. Alternativa: o plugin Linter for Zotero inclui funções de deduplicação básica.
Exemplos práticos na tese
Exemplo 1 — Ciências da Educação (PT-PT)
Questão PCC: “Quais as estratégias de literacia digital implementadas em escolas básicas portuguesas (2015-2026) para estudantes do 1.º ciclo?”
- P: Estudantes do 1.º ciclo do ensino básico (6-9 anos), Portugal
- C: Estratégias de literacia digital (programas, intervenções, recursos)
- C: Escolas básicas públicas e privadas em Portugal continental e insular, 2015-2026
Bases: RCAAP, ERIC, Scopus, Web of Science, Repositório DGEEC
Output esperado: mapa de intervenções por tipo, região e nível de ensino; identificação de lacunas (ex.: ausência de estudos longitudinais pós-COVID)
Exemplo 2 — Enfermagem (PT-BR)
Questão PCC: “Quais os instrumentos de avaliação de risco de queda usados em unidades de internamento de adultos no Brasil (2010-2026)?”
- P: Adultos (≥18 anos) internados em unidades hospitalares gerais, Brasil
- C: Instrumentos/escalas de avaliação de risco de queda (Morse, Hendrich, STRATIFY, etc.)
- C: Unidades de internamento de hospitais públicos e privados, Brasil, 2010-2026
Bases: BVS/LILACS, PubMed, SciELO, BDTD (teses), COREN (literature cinzenta)
Output esperado: tabela de charting com instrumentos identificados, populações, contextos, gaps (ex.: populações pediátricas sub-representadas)
5 erros que as bancas mais identificam em scoping reviews de teses
- Usar o PRISMA 2020 em vez do PRISMA-ScR: os dois fluxos são diferentes (o PRISMA-ScR inclui grey literature separado). A banca reconhece o erro imediatamente.
- Registar no PROSPERO: o PROSPERO rejeita scoping reviews desde 2022. Registar lá é um erro metodológico.
- Fazer appraisal obrigatório: ao incluir appraisal de qualidade como obrigatório, estás a transformar a scoping review numa revisão sistemática — conflito metodológico.
- Questão PCC mal construída: usar PICO em vez de PCC, ou incluir hipóteses causais, transforma a questão em revisão sistemática inadvertida.
- Charting não replicável: omitir os campos da tabela de charting ou não definir a priori os campos a extrair invalida a metodologia. O protocolo OSF deve incluir o formulário de charting.
Para aprender como integrar a scoping review na estrutura geral da tua tese, consulta o artigo sobre revisão sistemática com PRISMA 2020 e o guia de bibliometria para a tese 2026.
Perguntas frequentes (FAQ)
Uma scoping review é suficiente para uma tese de mestrado em 2026?
Sim, em muitas áreas. A scoping review é metodologicamente válida como capítulo central ou como metodologia principal de uma dissertação de mestrado em saúde, educação, ciências sociais e gestão. A condição é que a questão de investigação seja genuinamente exploratória e que o protocolo JBI 2020 + PRISMA-ScR sejam seguidos rigorosamente. Confirma com o teu orientador se o regulamento do programa aceita revisões de literatura como metodologia principal.
Preciso de dois revisores para uma scoping review na tese?
O JBI 2020 recomenda fortemente dois revisores independentes para o screening, mas reconhece que teses individuais têm limitações práticas. Uma solução comum: o mestrando faz o screening completo e o orientador faz uma verificação em 10-20% da amostra para calcular o Kappa. Reportar Kappa ≥0.70 é considerado bom acordo. Documenta o processo mesmo que imperfeito — a transparência metodológica é mais valorizada do que a perfeição irrealista.
Qual a diferença entre scoping review e revisão integrativa da literatura?
A revisão integrativa (Whittemore & Knafl, 2005) é mais usada na tradição de enfermagem brasileira e combina estudos empíricos e teóricos com síntese narrativa. A scoping review é mais rigorosa no mapeamento sistemático do campo e tem protocolo JBI formal. Na prática, em teses de enfermagem PT-BR, os dois termos são às vezes usados de forma intercambiável — mas em 2026, a maioria dos programas de pós-graduação reconhece a distinção metodológica e a scoping review com JBI/PRISMA-ScR é considerada metodologicamente mais robusta.
Posso incluir teses e dissertações na scoping review?
Sim. A scoping review é explicitamente mais abrangente do que a revisão sistemática na inclusão de grey literature, o que inclui teses, dissertações, relatórios de agências e guidelines. Em Portugal, pesquisa o RCAAP; no Brasil, a BDTD (Biblioteca Digital Brasileira de Teses e Dissertações do IBICT). Documenta estas fontes no fluxo PRISMA-ScR na coluna “Registos identificados em bases de dados e outras fontes”.
Como cito o protocolo JBI 2020 na tese?
Peters M, Godfrey C, McInerney P, Munn Z, Tricco A, Khalil H. Chapter 11: Scoping Reviews. In: Aromataris E, Lockwood C, Porritt K, Pilla B, Jordan Z, eds. JBI Manual for Evidence Synthesis. JBI; 2020. doi:10.46658/JBIMES-20-12. Em APA 7, cita como capítulo de livro com DOI.
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