Mudar de universidade a meio do mestrado: transferência, creditação e o que se perde
Sim, é possível mudar de universidade a meio de um mestrado em Portugal, mas não existe um mecanismo único e automático como o concurso nacional de acesso do 1.º ciclo. A mudança faz-se por transferência, decidida caso a caso pela instituição de destino, que analisa o percurso feito e decide o que aproveita através de um processo de creditação de ECTS. Nem tudo se transporta: unidades curriculares específicas do plano de estudos anterior, o vínculo com o orientador e, em muitos casos, o tempo já investido no projeto de dissertação ficam total ou parcialmente para trás.

O que diz a lei portuguesa sobre transferência de mestrado
O regime jurídico dos graus académicos, definido pelo Decreto-Lei n.º 65/2018, de 16 de agosto, estabelece os princípios gerais da organização dos ciclos de estudo, mas não regula em detalhe a transferência entre instituições no 2.º ciclo. Ao contrário da licenciatura — onde o regime de mudança de curso, transferência e reingresso é tratado de forma mais uniforme por regulamentação da tutela — a transferência de mestrado é, na prática, matéria de regulamento interno de cada universidade ou instituto politécnico.
Isto significa que os critérios de admissão, os prazos de candidatura e, sobretudo, as regras de creditação variam de instituição para instituição. O sistema europeu de créditos (ECTS), alinhado com o Processo de Bolonha, garante que os créditos obtidos são comparáveis entre instituições — mas comparável não é sinónimo de automaticamente aceite. A decisão final sobre o que é creditado cabe sempre ao Conselho Científico ou Pedagógico da instituição de destino.
Transferência, mudança de curso e reingresso: o que se aplica ao 2.º ciclo
É comum confundir três figuras distintas do vocabulário académico português:
- Transferência — mudança do mesmo curso (ou de um curso com estrutura equivalente) de uma instituição para outra, mantendo o estatuto de estudante regularmente matriculado.
- Mudança de curso — mudança para um curso diferente na mesma ou noutra instituição, o que no mestrado implica normalmente candidatura como novo aluno, com creditação parcial das unidades curriculares que se sobrepõem.
- Reingresso — regresso ao ensino superior depois de uma interrupção da matrícula, sem transição direta entre instituições.
No mestrado, a figura mais relevante é a transferência para o mesmo ciclo de estudos ou ciclo de estudos afim. Existe habitualmente numa janela limitada por ano letivo — muitas instituições só aceitam pedidos de transferência antes do início do 2.º semestre ou no período de matrículas de setembro. Fora dessas janelas, a única via costuma ser candidatar-se de novo ao concurso especial de acesso da instituição de destino.
Como funciona a creditação de ECTS na instituição de destino
A creditação segue, tipicamente, esta lógica:
- Correspondência direta — se a unidade curricular concluída tem conteúdo e carga horária (ECTS) equivalentes a uma unidade curricular do novo plano de estudos, a nota é normalmente transportada e convertida para a escala de 0 a 20, quando necessário.
- Correspondência parcial — quando o conteúdo se sobrepõe apenas em parte, a instituição pode exigir um exame de equivalência ou creditar apenas uma fração dos ECTS.
- Sem correspondência — unidades curriculares muito específicas do plano de origem (frequentemente seminários de metodologia ligados a um orientador ou linha de investigação particular) não têm equivalente e têm de ser repetidas na nova instituição.
Um ponto que surpreende muitos candidatos: o trabalho de dissertação em curso raramente é creditável como unidade curricular. A dissertação está associada ao regulamento e ao júri da instituição onde foi iniciada, pelo que mudar de universidade a meio da fase de tese implica, na esmagadora maioria dos casos, recomeçar o processo de proposta e aprovação do tema na nova instituição — mesmo que o tema em si se mantenha.
Passo a passo: como pedir a transferência
- Confirmar vaga na instituição de destino — a transferência só é possível se existir vaga disponível no mestrado pretendido; muitos mestrados com número limitado de vagas não abrem transferências em todos os anos letivos.
- Reunir o processo académico — certidão de registo académico com unidades curriculares e ECTS, programas das unidades curriculares (para análise de conteúdo) e comprovativo de estatuto de aluno regular na instituição de origem.
- Submeter o requerimento de transferência — habitualmente via plataforma de serviços académicos (SIGARRA, Fénix, CLIP ou equivalente) dentro do prazo definido no regulamento do curso.
- Aguardar a análise de creditação — a comissão científica do curso avalia unidade curricular a unidade curricular; o prazo de resposta varia entre 2 e 8 semanas consoante a instituição.
- Confirmar o plano de estudos final — só depois de aceite a creditação é possível saber exatamente quantas unidades curriculares faltam e qual o novo prazo previsto de conclusão.
O que se perde ao mudar de universidade a meio do mestrado
| Elemento | Transfere-se? | Observação |
|---|---|---|
| Unidades curriculares com conteúdo equivalente | ✅ Habitualmente | Sujeito a análise de programa e ECTS pela comissão científica |
| Nota final das unidades curriculares creditadas | ⚠️ Depende | Algumas instituições convertem a nota; outras registam apenas “creditado”, sem nota |
| Tema de dissertação já aprovado | ❌ Raramente | Tem de ser submetido a novo à comissão científica da instituição de destino |
| Orientador | ❌ Não | O orientador tem de pertencer ao corpo docente da nova instituição, salvo acordos de coorientação externa |
| Bolsa ou financiamento associado ao curso | ❌ Não | Bolsas atribuídas pela instituição de origem não acompanham a transferência |
| Prazo regulamentar para concluir o mestrado | ⚠️ Depende | Alguns regulamentos contam o prazo desde a primeira matrícula no ciclo de estudos, mesmo noutra instituição |
O ponto mais frequentemente subestimado é o último: mesmo que o novo plano de estudos aceite quase todas as unidades curriculares, o relógio do prazo máximo para concluir o mestrado (tipicamente definido em regulamento como um múltiplo da duração normal do ciclo) pode continuar a contar desde a matrícula original, reduzindo o tempo disponível na nova instituição.
Ao recomeçar a fase de investigação numa nova instituição, é normal ter de reorganizar bibliografia, normas de citação e estrutura do documento de acordo com o regulamento local — um processo que consome tempo. Para acelerar esta reorganização, algumas plataformas de apoio à escrita académica, como o Tesify, ajudam a reestruturar capítulos já escritos e a ajustar a formatação e as referências ao novo regulamento sem reescrever tudo de raiz.
Casos especiais: mestrados integrados, dupla titulação e profissionalizantes
Mestrados integrados (que juntam licenciatura e mestrado num único ciclo, comuns em Medicina, Arquitetura e algumas Engenharias) colocam um problema adicional: a transferência a meio pode implicar a decisão sobre em que ano do ciclo integrado o aluno é reposicionado, já que os planos de estudo raramente coincidem unidade a unidade entre instituições. Para perceber as diferenças estruturais entre este modelo e o mestrado de Bolonha em dois ciclos separados, vale a pena consultar o artigo sobre mestrado integrado vs mestrado Bolonha antes de avançar com o pedido.
Em programas de dupla titulação entre duas instituições portuguesas ou uma portuguesa e uma estrangeira, a transferência para fora do acordo bilateral não segue as regras normais de creditação — é o protocolo entre as duas instituições que define o que acontece a um aluno que sai do programa a meio, e a decisão exige normalmente aprovação de ambas as partes.
Nos mestrados profissionalizantes associados a estágio curricular obrigatório (Educação, algumas áreas de Saúde), a transferência de instituição a meio do estágio é particularmente sensível: o protocolo de estágio está associado à instituição de origem e normalmente não se transfere, obrigando a renegociar um novo local de estágio.
Há ainda um fator financeiro a considerar, muitas vezes esquecido no meio da decisão académica: as propinas já pagas na instituição de origem para o ano letivo em curso não são, em regra, reembolsadas nem creditadas na nova instituição, e a matrícula na universidade de destino implica normalmente o pagamento integral da propina desse ano letivo, independentemente do calendário em que a transferência ocorre. Antes de avançar, vale a pena confirmar junto dos serviços académicos de ambas as instituições qual o efeito exato da transferência sobre pagamentos já feitos e sobre bolsas de ação social escolar em curso, que dependem de matrícula ativa numa instituição específica.
Se o motivo da mudança for insatisfação com a qualidade do acompanhamento ou com prazos de resposta do atual orientador — e não propriamente com a instituição em si — vale a pena avaliar primeiro alternativas dentro da própria universidade. Trocar de orientador mantendo a matrícula é, na generalidade dos regulamentos, um processo mais rápido, sem perda de ECTS e sem o risco de reinício da fase de investigação da tese.
Se a mudança de universidade surge por conflito com o atual orientador, vale a pena verificar primeiro se o problema se resolve dentro da própria instituição: o artigo posso mudar de orientador a meio da tese? explica o procedimento de troca de orientador sem necessidade de mudar de instituição, normalmente mais rápido e com menor perda de créditos.
Para quem pondera esta mudança precisamente na fase de candidatura a um novo ciclo de mestrado — e não já a meio de um em curso — o guia como candidatar-se a um mestrado em Portugal 2026 detalha requisitos, documentos e prazos do processo de candidatura regular.
Perguntas frequentes
Posso transferir o meu mestrado para outra universidade portuguesa a meio do curso?
Sim, mediante pedido de transferência à instituição de destino, sujeito a vaga disponível e à análise de creditação das unidades curriculares já concluídas pela comissão científica do curso. Não existe reconhecimento automático de todo o percurso.
A dissertação já iniciada transfere-se para a nova universidade?
Raramente. O projeto de dissertação está ligado ao regulamento e ao orientador da instituição de origem, pelo que na nova instituição é necessário submeter uma nova proposta de tema à comissão científica, mesmo que o assunto de investigação se mantenha semelhante.
O que acontece ao prazo máximo do mestrado quando mudo de universidade?
Depende do regulamento de cada instituição. Alguns regulamentos contam o prazo máximo desde a data da primeira matrícula no ciclo de estudos, independentemente da instituição, o que pode reduzir o tempo disponível para concluir na nova universidade. Confirme esta regra antes de formalizar a transferência.
Preciso de me candidatar de novo ao concurso de acesso para mudar de mestrado?
Só se não existir janela de transferência aberta na instituição de destino ou se a vaga não estiver disponível fora do concurso regular. Nesse caso, a via normal é candidatar-se ao concurso especial de acesso da instituição de destino como qualquer outro candidato externo.
