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Mulheres na ciência em Portugal 2026: doutoramentos, bolsas e cargos de topo em números

Mulheres na ciência em Portugal 2026: doutoramentos, bolsas e cargos de topo em números

Portugal é um dos países da União Europeia com maior proporção de mulheres entre cientistas e engenheiros — 51% em 2021, segundo o Eurostat, um valor superado apenas pela Lituânia (52%). Entre os investigadores em sentido estrito, a fasquia desce para 43%, ainda assim acima da média europeia (32,8%), segundo o She Figures 2021 da Comissão Europeia. Mas a proporção cai de forma acentuada à medida que se sobe na hierarquia académica: apenas 27,2% dos lugares de topo (grau A) são ocupados por mulheres.

Resposta direta: 51% dos cientistas e engenheiros em Portugal são mulheres (Eurostat, 2021), acima da média da UE. Entre investigadores, a proporção é de 43% (She Figures 2021). Mas nos lugares de topo da carreira académica (grau A), as mulheres ocupam apenas 27,2% — um “efeito tesoura” que se repete nas bolsas de doutoramento da FCT, onde as mulheres são maioria entre candidatos (54-58%) mas continuam sub-representadas na liderança das instituições.

Panorama geral: mulheres na ciência portuguesa em números

Em 2021, 51% dos cientistas e engenheiros em Portugal eram mulheres, segundo dados do Eurostat (indicador hrst_st_nsecsex2), colocando o país entre os valores mais altos da União Europeia, ao lado da Bulgária e da Letónia (ambos 51%) e atrás apenas da Lituânia (52%). Esta categoria ampla do Eurostat inclui profissionais qualificados em ciência e engenharia em todos os setores de atividade, não apenas investigação académica.

Quando o foco se estreita para investigadores — pessoal dedicado especificamente a atividades de investigação e desenvolvimento — a proporção de mulheres em Portugal desce para 43%, segundo o relatório She Figures 2021 da Comissão Europeia. Ainda assim, este valor está claramente acima da média da União Europeia, fixada em 32,8% no mesmo relatório.

Tabela: mulheres por grau da carreira académica (She Figures)

Mulheres em Portugal por grau da carreira académica — She Figures 2021, Comissão Europeia
Grau da carreira % mulheres Equivalência aproximada
Grau C 49,4% Início de carreira (equiparado a professor auxiliar/assistente)
Grau B 41,4% Carreira intermédia (equiparado a professor associado)
Grau A 27,2% Lugares de topo (equiparado a professor catedrático/direção de unidade)

Fonte: She Figures 2021, Comissão Europeia — dados citados e sistematizados pela ECO.

A leitura da tabela é direta: quase metade dos lugares de entrada de carreira (grau C) são ocupados por mulheres, mas essa proporção cai progressivamente até restar pouco mais de um quarto nos lugares de topo (grau A) — cátedras, direções de unidades de investigação e cargos de decisão científica.

Cientista portuguesa a trabalhar num laboratório de investigação

Bolsas de doutoramento da FCT por sexo

Ao nível de entrada na carreira de investigação, o quadro é distinto. Na edição 2023 do concurso de Bolsas de Investigação para Doutoramento da Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT), foram atribuídas 1.488 bolsas, das quais 56% a mulheres e 44% a homens. Na edição 2025, dos 1.550 bolseiros financiados, as mulheres representaram 58% entre os candidatos que atingiram o limiar de mérito suficiente para financiamento — “à semelhança do verificado na edição anterior”, segundo a FCT — e 54,3% do total de candidaturas submetidas eram de mulheres. Para quem está a preparar uma candidatura a este concurso, o guia bolsa FCT de doutoramento 2026: candidatura, prazos e valores detalha requisitos e datas do processo.

Bolsas de Investigação para Doutoramento FCT por sexo
Concurso Bolsas atribuídas % mulheres
2023 1.488 56%
2025 1.550 58% (entre financiados no limiar de mérito)

Fonte: SAPO Tek, concurso 2023 e HR Portugal, resultados provisórios do concurso 2025, com dados da FCT.

Este padrão — mulheres em maioria entre os candidatos a bolsa de doutoramento, mas em minoria acentuada nos lugares de topo da carreira — é o que investigadores da área designam como “efeito tesoura” (scissor effect). Vale a pena notar que o concurso de 2025 distingue duas linhas de financiamento: uma linha geral, orientada para investigação em contexto académico, e uma linha para investigação em ambiente não académico (empresas, autarquias, organizações sem fins lucrativos), esta última em crescimento face ao ano anterior segundo a FCT — um sinal de que o financiamento à investigação doutoral está a diversificar-se para além da tradicional carreira universitária.

O “efeito tesoura”: porque a proporção cai a subir na carreira

O padrão observado em Portugal reproduz uma tendência identificada em toda a União Europeia: a proporção de mulheres é elevada nas fases iniciais da formação científica — licenciatura, mestrado, candidaturas a bolsa de doutoramento — mas diminui a cada patamar sucessivo da carreira, até restar uma minoria nos cargos de decisão e liderança institucional. Quando representada num gráfico ao longo do tempo, esta trajetória em queda desenha o formato de uma tesoura aberta, o que deu origem à expressão.

Entre os fatores mais discutidos na literatura sobre o tema estão a distribuição desigual de tarefas de cuidado familiar, que penaliza sobretudo os anos críticos de produção científica intensiva para progressão na carreira, e vieses — nem sempre conscientes — nos processos de avaliação e nomeação para cargos de topo, incluindo júris de concursos e comissões de direção.

O caso português tem uma particularidade que vale a pena sublinhar: ao contrário de muitos países da União Europeia onde a proporção de mulheres em ciência é historicamente baixa em todas as fases, Portugal parte de uma base de entrada já elevada — mais de metade dos cientistas e engenheiros são mulheres. Isto significa que o problema português não é tanto de atração de mulheres para a ciência, mas sim de retenção e progressão ao longo da carreira. A distância entre 49,4% no grau C e 27,2% no grau A — uma queda de mais de 22 pontos percentuais — é, por isso, mais reveladora da dimensão do problema do que olhar isoladamente para qualquer um dos números.

Instituições de ensino superior e agências de financiamento como a FCT têm vindo a introduzir planos de igualdade de género e métricas de acompanhamento da progressão de carreira por sexo, alinhados com os requisitos que a própria Comissão Europeia impõe a candidaturas a financiamento no âmbito do Horizonte Europa, onde a existência de um plano de igualdade de género é, desde 2022, condição de elegibilidade para instituições candidatas. Universidades e institutos politécnicos portugueses passaram, por isso, a publicar planos de igualdade próprios, com metas de representação por sexo em júris de recrutamento, comissões científicas e órgãos de gestão — uma resposta direta ao problema de progressão identificado nos dados de grau A, B e C.

Para quem está a candidatar-se a bolsas de doutoramento FCT ou a preparar a fase de escrita da tese, é possível encontrar o levantamento completo de linhas de financiamento disponíveis no diretório de bolsas e financiamento académico 2026. Este artigo complementa o retrato do sistema científico português traçado em o gap de género na autoria científica em números, focado especificamente na assinatura de artigos e não na estrutura de carreira aqui analisada, e em ORCID, Ciência ID e perfis de investigador, essencial para qualquer candidatura a bolsa ou financiamento científico.

Seja qual for a fase da carreira, manter um perfil de investigador atualizado e uma tese ou dissertação bem estruturada continua a ser um fator relevante nas candidaturas a financiamento; ferramentas de apoio à escrita académica como o Tesify ajudam a preparar esse trabalho com as normas de citação corretas antes da submissão.

Nota metodológica: as diferentes formas de medir “mulheres na ciência”

Um dos pontos que mais gera confusão ao comparar estatísticas sobre mulheres na ciência é a variedade de categorias estatísticas usadas por diferentes organismos, que não são diretamente sobreponíveis:

  • Cientistas e engenheiros (HRST) — categoria ampla do Eurostat que inclui qualquer profissional com qualificação e ocupação em ciência e tecnologia, em qualquer setor de atividade, não apenas investigação. É nesta categoria que Portugal regista 51% de mulheres (2021).
  • Investigadores — categoria mais restrita do She Figures, referente especificamente a pessoal envolvido em atividades de investigação e desenvolvimento (I&D), em instituições de ensino superior, empresas, Estado ou organizações sem fins lucrativos. É aqui que a proporção desce para 43%.
  • Graus A, B e C — classificação específica do She Figures para a hierarquia da carreira académica e científica dentro do setor do ensino superior, usada para medir precisamente a progressão (ou falta dela) das mulheres ao longo da carreira.

Ao ler qualquer estatística sobre “mulheres na ciência”, vale sempre a pena confirmar a que categoria e a que ano específico o número se refere — comparar a percentagem de mulheres “cientistas e engenheiras” (51%) com a percentagem em “cargos de topo” (27,2%) sem esta distinção pode dar a impressão errada de que os dois valores medem exatamente a mesma coisa, quando na realidade descrevem etapas diferentes do sistema científico.

Outra fonte de confusão frequente é confundir dados sobre candidaturas e bolsas atribuídas (como os números da FCT aqui apresentados) com dados sobre doutoramentos efetivamente concluídos por sexo, que são recolhidos por via distinta pela DGEEC através do Registo de Alunos Inscritos e Diplomados do Ensino Superior (RAIDES) e nem sempre publicados com a mesma frequência ou desagregação que os concursos da FCT. Quando uma fonte não distingue claramente entre “candidatos”, “bolseiros financiados” e “doutorados diplomados”, vale a pena verificar a nota metodológica do relatório antes de citar o número.

Perguntas frequentes

Qual a percentagem de mulheres na ciência em Portugal?

51% dos cientistas e engenheiros em Portugal são mulheres (Eurostat, 2021), um dos valores mais altos da União Europeia. Entre investigadores especificamente, a proporção é de 43% (She Figures 2021, Comissão Europeia), também acima da média da UE (32,8%).

Quantas mulheres ocupam cargos de topo na ciência portuguesa?

Apenas 27,2% dos lugares de grau A (o nível mais elevado da carreira científica, equiparado a cátedra ou direção de unidade de investigação) são ocupados por mulheres em Portugal, segundo o She Figures 2021 da Comissão Europeia — uma queda acentuada face aos 49,4% do grau C, o nível de entrada.

As mulheres recebem mais ou menos bolsas de doutoramento da FCT do que os homens?

Mais. No concurso de 2023, 56% das 1.488 bolsas de investigação para doutoramento foram atribuídas a mulheres. No concurso de 2025, as mulheres representaram 58% dos candidatos financiados que atingiram o limiar de mérito, segundo a FCT.

O que é o “efeito tesoura” na carreira científica?

É o padrão pelo qual a proporção de mulheres é elevada nas fases iniciais da carreira científica (licenciatura, mestrado, bolsas de doutoramento) mas diminui progressivamente a cada patamar seguinte, até restar uma minoria nos cargos de topo e liderança institucional — um fenómeno documentado em toda a União Europeia pelo relatório She Figures.