Pré-Registo e Preprints 2026: Ciência Aberta, OSF e Reprodutibilidade na Investigação

Pré-Registo e Preprints 2026: Ciência Aberta, OSF e Reprodutibilidade na Investigação

A crise de reprodutibilidade que abalou a psicologia, a biologia e as ciências sociais na última década colocou uma questão urgente na mesa: como garantir que os resultados publicados são fiáveis? A resposta da comunidade científica passou pelo desenvolvimento de práticas de pré-registo preprint ciência aberta 2026 que promovem transparência desde o início do processo investigativo — antes da recolha de qualquer dado. Para estudantes de doutoramento e investigadores que pretendem publicar com integridade e impacto, compreender estas ferramentas deixou de ser opcional.

Este guia explica o que é o pré-registo, como funciona o Open Science Framework (OSF), qual a diferença entre um preprint e um artigo publicado em peer review, e de que forma as práticas de ciência aberta estão a redesenhar os padrões de reprodutibilidade na investigação académica contemporânea.

Resposta rápida: O pré-registo consiste em registar publicamente as hipóteses, o design e o plano de análise de um estudo antes da recolha de dados, eliminando assim o HARKing (Hypothesizing After Results are Known) e o p-hacking. Os preprints são versões do manuscrito partilhadas antes da revisão por pares em repositórios como arXiv, SSRN ou SciELO Preprints. Ambas as práticas são pilares da ciência aberta e podem ser geridas gratuitamente através do OSF (osf.io).

A Crise de Reprodutibilidade e o que a Originou

Em 2015, o projeto Reproducibility Project: Psychology tentou replicar 100 estudos publicados em revistas de psicologia de topo. Os resultados foram alarmantes: apenas cerca de 39 estudos mostraram efeitos comparáveis aos originais. Embora os números exactos variem conforme o critério de replicação utilizado, o padrão geral foi claro — uma proporção significativa dos resultados publicados não se confirmava quando testada de forma independente. Este padrão, documentado em múltiplas disciplinas, ficou conhecido como a crise de reprodutibilidade.

As causas identificadas pelos metodólogos são várias: o publication bias (viés de publicação) que favorece resultados positivos; o p-hacking, isto é, a manipulação implícita da análise até obter p < 0,05; o HARKing (apresentar hipóteses post hoc como se fossem a priori); e o uso de amostras de dimensão insuficiente. Nenhuma destas práticas é necessariamente fraudulenta — muitas ocorrem sem consciência do investigador — mas todas inflariam artificialmente a taxa de falsos positivos na literatura.

A resposta estrutural da comunidade científica passou por um conjunto de reformas metodológicas agrupadas sob a designação de ciência aberta: pré-registo, partilha de dados e materiais, publicação de preprints e adopção de formatos editoriais como os Registered Reports. Estas reformas visam tornar o processo científico auditável desde o primeiro dia.

O que é o Pré-Registo e Como Funciona

O pré-registo (ou preregistration) é o acto de depositar publicamente, num repositório com data e hora certificadas, o plano de investigação antes de qualquer recolha ou análise de dados. Esse plano inclui tipicamente:

  • As hipóteses a testar e a sua direcção esperada
  • O design do estudo: tipo de estudo, participantes, critérios de inclusão e exclusão
  • As medidas e instrumentos a utilizar
  • O plano de análise estatística: testes, correcções para comparações múltiplas, critérios de exclusão de dados
  • O tamanho da amostra e o racional do poder estatístico (power analysis)

Uma vez submetido, o registo recebe um timestamp imutável. Quando o artigo for publicado, os leitores e revisores podem comparar o plano original com o que foi efectivamente realizado, identificando quaisquer desvios — que devem ser declarados e justificados. Isto não impede a análise exploratória; apenas exige que esta seja claramente distinguida da análise confirmatória pré-registada.

O pré-registo é especialmente relevante para estudos experimentais e quasi-experimentais, mas tem vindo a ser adoptado também em investigação qualitativa (sob a forma de pré-registo do protocolo) e em revisões sistemáticas — onde o protocolo PROSPERO cumpre uma função equivalente.

Nota metodológica: O pré-registo não elimina a investigação exploratória — separa-a claramente da confirmatória. Um estudo pode incluir ambas, desde que a distinção seja explícita no artigo final.

OSF: A Plataforma Central da Ciência Aberta

O Open Science Framework (OSF), desenvolvido pelo Center for Open Science (COS) e acessível em osf.io, é a plataforma gratuita mais utilizada a nível mundial para gerir e partilhar projectos de investigação aberta. Em 2026, conta com mais de 800 000 utilizadores registados e cobre todas as fases do ciclo investigativo.

As principais funcionalidades do OSF incluem:

Funcionalidade Descrição
Pré-registo Registo com timestamp do protocolo de investigação antes da recolha de dados; inclui templates AsPredicted e OSF Preregistration
Gestão de projecto Organização de ficheiros, colaboração com equipa, versionamento de documentos
Partilha de dados e materiais Repositório de dados com DOI atribuído, ficheiros de análise (R, SPSS, STATA) e materiais do estudo
OSF Preprints Publicação de preprints com DOI, indexados no Google Scholar
Registrations Versão pública e imutável do pré-registo, com opção de embargo até 4 anos

O OSF integra-se com outros serviços como GitHub, Dropbox, Google Drive e Zotero, tornando-o um hub central para fluxos de trabalho investigativos modernos. Todos os projectos recebem um identificador único (URL persistente), o que facilita a citação e a auditoria.

Para investigadores portugueses e brasileiros, o OSF é particularmente útil porque aceita submissões em português e os registos são gratuitos e ilimitados. A integração com o ORCID permite ainda que os pré-registos apareçam no perfil académico do investigador.

Diagrama dos seis pilares da ciência aberta: dados abertos, acesso aberto, código aberto, recursos educativos abertos, revisão por pares aberta e ciência aberta
Os seis pilares da ciência aberta — enquadramento em que se inserem o pré-registo e os preprints. Fonte: Geyslein / Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)

Registered Reports: Peer Review Antes dos Dados

Os Registered Reports são um formato editorial que leva o princípio do pré-registo ao seu limite lógico: a revisão por pares ocorre antes da recolha de dados, com base apenas no protocolo de investigação. O processo funciona em duas etapas:

  1. Etapa 1 — Protocolo: O investigador submete a introdução, justificação da questão de investigação, design do estudo e plano de análise. Os revisores avaliam a relevância da questão e o rigor metodológico.
  2. Etapa 2 — Resultados: Se o protocolo receber aceitação provisória (in-principle acceptance), o investigador realiza o estudo e submete o artigo completo. A publicação está garantida desde que o protocolo tenha sido seguido — independentemente dos resultados encontrados.

Este formato elimina dois dos principais motores do publication bias: a tendência dos editores para rejeitar resultados nulos e a tentação dos autores para ajustar as análises em função dos resultados. Em 2026, mais de 300 revistas científicas em diversas áreas oferecem este formato, incluindo periódicos de psicologia, neurociência, economia comportamental e ciências da saúde.

Para estudantes de doutoramento, submeter um Registered Report pode ser uma estratégia eficaz: a aceitação provisória do protocolo constitui já uma publicação parcial que pode constar do CV e, se o estudo empírico for bem executado, a publicação final está praticamente assegurada.

Preprints e Repositórios: arXiv, SSRN e SciELO Preprints

Um preprint é um manuscrito científico completo — com introdução, metodologia, resultados e discussão — partilhado publicamente antes de ter passado pelo processo formal de revisão por pares. Não é um rascunho: é a versão que o autor considera pronta para submissão, tornado público simultaneamente ou antes da submissão à revista.

Para a sua tese ou artigo derivado da dissertação, os repositórios de preprints mais relevantes são:

arXiv

O mais antigo e influente repositório de preprints, criado em 1991 para física e matemática, expandido hoje para computação, estatística, biologia quantitativa, economia e ciências cognitivas. Os preprints no arXiv são indexados pelo Google Scholar e recebem um identificador único (ex.: arXiv:2506.12345). A submissão requer moderação inicial e, em algumas áreas, endosso por um utilizador estabelecido.

SSRN

O Social Science Research Network (SSRN) é o repositório de referência para ciências sociais, direito, gestão, economia e áreas afins. Pertence à Elsevier e oferece partilha gratuita; os preprints são amplamente citados em discussões de política pública e recebem estatísticas de download detalhadas, úteis para demonstrar impacto antes da publicação formal.

SciELO Preprints

Lançado em 2020, o SciELO Preprints é especialmente relevante para investigadores lusófonos e latinoamericanos. Aceita manuscritos em português, espanhol e inglês, cobre todas as áreas científicas e atribui DOI gratuito. Os preprints são indexados no Google Scholar e na BVS (Biblioteca Virtual em Saúde), tornando-o a opção mais visível para a comunidade académica em Portugal e no Brasil.

bioRxiv e medRxiv

Para ciências biomédicas e da saúde, estes dois repositórios (mantidos pelo Cold Spring Harbor Laboratory) são os mais utilizados. A visibilidade é elevada e muitos jornais aceitam submissão directa a partir de um preprint já depositado.

Independentemente do repositório escolhido, publicar um preprint não impede a posterior publicação numa revista com peer review — a grande maioria das revistas aceita artigos com preprints associados, embora seja sempre recomendável verificar a política específica da revista visada antes de proceder. O guia completo de publicação científica disponível no Tesify detalha como navegar este processo de submissão, desde a escolha da revista até à resposta aos revisores.

Vantagens e Limitações do Pré-Registo e dos Preprints

Vantagens

  • Transparência e credibilidade: O pré-registo sinaliza ao leitor e ao revisor que as hipóteses eram genuinamente a priori, aumentando a confiança nos resultados.
  • Disseminação rápida: Um preprint pode ser partilhado imediatamente após a conclusão do estudo, meses ou anos antes da publicação formal — crucial em áreas de rápida evolução.
  • Feedback antecipado: Os preprints permitem receber comentários da comunidade antes da submissão formal, melhorando a qualidade do manuscrito.
  • Combate ao publication bias: Os Registered Reports garantem a publicação de resultados nulos, enriquecendo o registo científico com evidências negativas igualmente válidas.
  • Acesso aberto imediato: Os preprints são sempre gratuitos e acessíveis, eliminando barreiras de acesso para investigadores e público em geral.
  • DOI e citabilidade: A maioria dos repositórios atribui DOI imediato, permitindo que o preprint seja citado antes da publicação formal.

Limitações e Riscos

  • Ausência de revisão por pares: Um preprint não é equivalente a um artigo publicado numa revista indexada. A ausência de peer review significa que erros metodológicos podem passar despercebidos — e o conteúdo pode ser amplificado pelos média sem a devida cautela.
  • Risco de “scooping”: Partilhar resultados antes da publicação formal expõe a ideia à possibilidade de ser antecipada por outros investigadores, embora o timestamp do preprint constitua prova de prioridade.
  • Rigidez do pré-registo: Estudos em contextos imprevisíveis (ex.: fenómenos emergentes, acesso restrito a amostras) podem exigir desvios ao protocolo original, que devem ser declarados e podem gerar críticas.
  • Adopção desigual por área: Em humanidades e artes, o pré-registo ainda tem penetração limitada; nas ciências sociais e biomédicas, está a tornar-se norma em muitas revistas de topo.

Para aprofundar a estrutura metodológica do seu estudo antes de proceder ao pré-registo, consulte o guia sobre como estruturar um artigo científico com o modelo IMRaD — a arquitectura do manuscrito deve estar consolidada antes do registo público do protocolo.

Ciência Aberta em Portugal e no Brasil

Em Portugal, a Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT) adoptou em 2022 a Política de Acesso Aberto, que obriga todos os projectos financiados a depositar as publicações resultantes em repositórios de acesso aberto, como o RCAAP (Repositório Científico de Acesso Aberto de Portugal). O pré-registo não é ainda obrigatório, mas é fortemente encorajado nas ciências da saúde e em investigação com financiamento europeu (Horizonte Europa).

No Brasil, a CAPES e o CNPq têm vindo a alinhar os seus critérios de avaliação com os princípios da ciência aberta. O SciELO Preprints é o ponto de entrada recomendado para investigadores brasileiros que pretendam adoptar práticas de partilha antecipada, mantendo visibilidade na comunidade lusófona. A plataforma também serve de repositório oficial para preprints de estudos com financiamento do Ministério da Saúde.

Para investigadores em início de carreira que pretendam publicar o seu primeiro artigo derivado da tese ou dissertação, o blog Sobrevivendo na Ciência oferece uma perspectiva prática e acessível sobre o que é um preprint e quando vale a pena usá-lo, escrito por um investigador brasileiro com experiência em ciência aberta. Da mesma forma, a Biblioteca da ECA-USP documenta os principais repositórios de acesso aberto disponíveis para a comunidade académica lusófona, incluindo o OasisBr e o SciELO.

A adopção de práticas de ciência aberta é crescente também em Portugal e no Brasil, impulsionada tanto por mandatos institucionais como pela pressão de pares dentro das comunidades disciplinares. Compreender como navegar estas ferramentas — OSF, preprints, Registered Reports — é hoje uma competência metodológica essencial para qualquer investigador que pretenda publicar nos melhores periódicos da sua área.

Se está a dar os primeiros passos neste processo, o artigo sobre como publicar artigo científico para iniciantes disponível no Tesify oferece um ponto de partida prático, cobrindo desde a escolha da revista até à resposta aos revisores, incluindo notas sobre acesso aberto e repositórios institucionais.

Perguntas Frequentes

O pré-registo é obrigatório para publicar numa revista científica?

Não é universalmente obrigatório, mas algumas revistas de topo em psicologia, neurociência e medicina exigem ou incentivam fortemente o pré-registo para estudos experimentais. Em 2026, muitas revistas identificam nos artigos se existe ou não um pré-registo associado. Mesmo quando não obrigatório, o pré-registo aumenta a credibilidade do estudo e pode facilitar a aceitação em revisão.

Posso pré-registar um estudo qualitativo?

Sim. Embora o pré-registo seja mais prevalente em investigação quantitativa e experimental, é perfeitamente aplicável à investigação qualitativa sob a forma de pré-registo do protocolo — descrevendo as questões de investigação, a amostragem intencional prevista, as técnicas de recolha de dados (entrevistas, observação, análise documental) e o método de análise (ex.: análise temática de Braun e Clarke, análise de conteúdo de Bardin). O OSF disponibiliza templates adaptados para este tipo de investigação.

Um preprint prejudica as hipóteses de publicação numa revista?

Na grande maioria dos casos, não. A política da maioria das revistas de referência — incluindo as da Elsevier, Springer, Wiley e revistas de acesso aberto como PLOS ONE — permite a submissão de artigos com preprints associados. Antes de submeter, verifique a política específica da revista no SHERPA/RoMEO (sherpa.ac.uk/romeo), que agrega as políticas de milhares de revistas quanto à auto-arquivo e preprints.

O que acontece se os resultados do estudo divergirem do pré-registo?

Desvios ao pré-registo são admissíveis desde que declarados explicitamente no artigo. O investigador deve indicar o que foi pré-registado, o que foi efectivamente realizado e a justificação para as diferenças. Análises não previstas no pré-registo devem ser apresentadas como exploratórias, não como confirmatórias. Esta transparência é valorizada pelos revisores e não constitui motivo de rejeição — pelo contrário, demonstra integridade metodológica.

Qual é a diferença entre OSF Registrations e AsPredicted?

Ambos são plataformas de pré-registo gratuitas, mas diferem na abordagem. O OSF Registrations permite protocolos detalhados com múltiplos templates (incluindo o template OSF Preregistration e o template APA), suporta colaboração em equipa e integra-se com o restante projecto no OSF. O AsPredicted (aspredicted.org) usa um formulário mais curto e estruturado com oito perguntas específicas, sendo mais rápido para estudos simples. Muitos investigadores preferem o AsPredicted para estudos de escopo limitado e o OSF para projectos mais complexos ou de equipa.

Como citar um preprint em normas APA 7?

Em APA 7, um preprint cita-se de forma semelhante a um artigo, mas indicando o repositório e o DOI: Apelido, I. (ano). Título do preprint. Nome do Repositório. https://doi.org/xxxxx — por exemplo: Silva, A. B. (2025). Pré-registo em investigação qualitativa: desafios e soluções. OSF Preprints. https://doi.org/10.17605/OSF.IO/XXXXX. Deve adicionar a nota “[Preprint]” após o título se a norma da revista assim o exigir.

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