Como Redigir a Pergunta de Investigação e Objetivos 2026
A pergunta de investigação é o núcleo de toda a tese. É ela que delimita o problema, orienta a revisão de literatura, justifica a metodologia e determina o que os resultados devem responder. Quando mal formulada — demasiado vaga, demasiado ampla ou empiricamente inacessível — contamina todas as fases subsequentes do trabalho. Quando bem construída, funciona como GPS metodológico: cada decisão sobre amostra, instrumento e análise de dados pode ser avaliada contra a pergunta, o que simplifica enormemente a tomada de decisões ao longo da investigação.
Neste guia, percorremos os critérios formais de uma boa pergunta de investigação, a distinção entre pergunta, objetivo geral e objetivos específicos, a formulação de hipóteses, e os erros mais frequentes nas dissertações de mestrado e teses de doutoramento em Portugal e no Brasil em 2026.
Uma boa pergunta de investigação é específica (incide sobre um fenómeno delimitado), empírica (pode ser respondida com dados), relevante (tem implicações teóricas ou práticas) e respondível no âmbito da tese (tempo, recursos, acesso ao corpus). Os objetivos gerais e específicos devem ser formulados com verbos no infinitivo que indiquem ação e devem ser testáveis ou avaliáveis no final do estudo.
O Que É uma Pergunta de Investigação
A pergunta de investigação não é o título da tese, não é o tema geral e não é a justificação do estudo. É uma formulação interrogativa que identifica precisamente o fenómeno que será investigado, as variáveis ou dimensões em estudo e, idealmente, o contexto ou população alvo. Kerlinger (1980) definiu a pergunta de investigação como “uma frase interrogativa que pergunta o que relação existe entre duas ou mais variáveis.” Embora esta definição seja mais operatória para estudos quantitativos, o princípio da especificidade e da orientação para relações (ou processos, em estudos qualitativos) é universalmente aplicável.
Em investigação qualitativa, Creswell (2014) recomenda que as perguntas de investigação comecem com “como” ou “o que” — em vez de “por que”, que implica causalidade linear — e que façam referência explícita ao fenómeno central e ao contexto. Em investigação quantitativa, a pergunta tende a explicitar as variáveis e a natureza da relação investigada (associação, diferença, predição).
Para aprofundar como a pergunta de investigação ancora a introdução e os objetivos da tese, consulte o nosso guia sobre como escrever a introdução da tese passo a passo 2026.
Critérios de uma Boa Pergunta de Investigação
A literatura metodológica identifica de forma consistente cinco critérios para avaliar a qualidade de uma pergunta de investigação:
| Critério | Descrição | Teste Prático |
|---|---|---|
| Especificidade | Incide sobre um fenómeno delimitado | Posso citar uma população, um contexto e um fenómeno específicos? |
| Empiricidade | Pode ser respondida com dados observáveis | Que dados precisarei recolher para responder a esta pergunta? |
| Relevância | Tem implicações teóricas ou práticas | Que lacuna na literatura ou problema prático este estudo aborda? |
| Respondibilidade | Pode ser respondida no âmbito da tese | Tenho acesso aos dados, tempo e recursos necessários? |
| Novidade | Não foi já respondida de forma definitiva na literatura | A revisão de literatura confirma que existe lacuna legítima? |
Tipos de Perguntas por Paradigma e Metodologia
A natureza da pergunta de investigação deve ser coerente com o paradigma epistemológico e a metodologia do estudo.
Perguntas Descritivas
Perguntam “O quê?” ou “Como se caracteriza?”. Adequadas para estudos exploratórios e descritivos. Exemplo: “Como se caracterizam as práticas de autogestão da aprendizagem dos estudantes de mestrado em Portugal em contexto de e-learning?”
Perguntas de Associação
Perguntam se existe relação entre variáveis, sem implicar causalidade. Adequadas para estudos correlacionais. Exemplo: “Qual a relação entre o estilo de liderança do orientador e a satisfação do mestrando com o processo de orientação?”
Perguntas Causais / de Diferença
Perguntam se uma variável independente produz efeito numa variável dependente; requerem desenhos experimentais ou quasi-experimentais. Exemplo: “Em que medida a utilização de técnicas de escrita estruturada melhora a qualidade dos capítulos de revisão de literatura em dissertações de mestrado?”
Perguntas de Processo / Significado
Adequadas para investigação qualitativa; perguntam como os participantes constroem sentido ou vivenciam um fenómeno. Exemplo: “Como é que os doutorandos em fase de escrita gerem o isolamento social percebido durante o último ano da tese?” Para escolher o desenho qualitativo mais adequado a este tipo de pergunta, consulte o nosso guia sobre metodologia qualitativa na tese: métodos e exemplos 2026.
Objetivo Geral vs. Objetivos Específicos
O objetivo geral formula de forma abrangente o propósito central do estudo — é uma versão declarativa (não interrogativa) da pergunta de investigação. Deve haver um único objetivo geral, que abrange o escopo do estudo.
Os objetivos específicos subdividem o objetivo geral em componentes operacionais: as ações concretas que o investigador vai executar para atingir o objetivo geral. Deve haver entre 3 e 6 objetivos específicos, formulados com verbos de ação no infinitivo e progressivamente operacionais.
Verbos Adequados para Objetivos Específicos
| Nível de Complexidade | Verbos Adequados |
|---|---|
| Conhecimento / Identificação | identificar, listar, descrever, caracterizar, enumerar |
| Compreensão / Análise | analisar, comparar, distinguir, classificar, relacionar |
| Aplicação / Síntese | desenvolver, construir, propor, elaborar, implementar |
| Avaliação / Contributo | avaliar, validar, testar, verificar, examinar criticamente |
Exemplo alinhado (área: Ciências da Educação):
Pergunta: Como percebem os docentes do ensino superior as políticas de avaliação por competências nas licenciaturas em Portugal em 2026?
Objetivo geral: Compreender as perceções dos docentes do ensino superior português sobre as políticas de avaliação por competências implementadas nas licenciaturas.
Objetivos específicos:
1. Identificar as políticas de avaliação por competências implementadas em licenciaturas de três universidades portuguesas;
2. Descrever as perceções dos docentes sobre os pontos fortes e as limitações destas políticas;
3. Analisar as relações entre as perceções dos docentes e as suas características profissionais (área disciplinar, experiência docente, formação pedagógica);
4. Propor recomendações para a implementação de políticas de avaliação por competências baseadas nas perspetivas identificadas.
Quando Formular Hipóteses
As hipóteses são afirmações testáveis sobre a relação esperada entre variáveis. Devem ser formuladas quando:
- O estudo é quantitativo, correlacional ou experimental.
- Existe base teórica ou empírica prévia suficiente para fazer previsões sobre a direção ou magnitude das relações.
- O design de investigação prevê testes estatísticos de hipóteses (t-test, ANOVA, regressão, chi-quadrado, etc.).
Nos estudos qualitativos, as hipóteses são substituídas por questões orientadoras — formulações abertas que guiam a análise sem determinar os resultados esperados. A formulação de hipóteses substantivas em estudos puramente qualitativos é um erro epistemológico frequente nas dissertações.
A hipótese nula (H₀) afirma a ausência de relação ou diferença; a hipótese alternativa (H₁ ou Hₐ) afirma a existência de relação ou diferença. A lógica do teste estatístico é a rejeição (ou não) da hipótese nula com base nos dados. Antes de chegar à hipótese, porém, é necessário transformar os conceitos abstractos da pergunta em variáveis mensuráveis — um passo detalhado no nosso guia sobre operacionalização de variáveis e formulação de hipóteses na tese 2026. Para a operacionalização estatística destas hipóteses na análise de dados, ver o artigo sobre estatística descritiva vs. inferencial na tese: quando usar 2026.
Erros Mais Frequentes nas Dissertações
A análise de perguntas de investigação em dissertações de mestrado revelam os seguintes erros recorrentes:
1. Perguntas Demasiado Vagas
Exemplo problemático: “Qual o impacto das redes sociais nos jovens?” — não especifica que redes, que jovens, que contexto, que dimensão do impacto. Versão melhorada: “Em que medida o uso de Instagram está associado à satisfação com a aparência física em estudantes universitárias portuguesas entre os 18 e 25 anos?”
2. Perguntas que Já Têm Resposta Conhecida
Perguntas cuja resposta é estabelecida na literatura sem lacuna legítima não constituem investigação original. A revisão de literatura é a ferramenta para identificar o que já foi respondido e o que permanece em aberto.
3. Objetivos Formulados com Verbos Não Operacionais
Verbos como “aprofundar”, “refletir sobre”, “discutir” ou “abordar” não são operacionais — não permitem avaliar se o objetivo foi atingido. Substitua por verbos concretos: “analisar”, “comparar”, “identificar”, “desenvolver”.
4. Pergunta e Objetivos Desalinhados
Os objetivos específicos devem derivar diretamente da pergunta de investigação. Se a pergunta pergunta “como” e os objetivos constroem e testam um instrumento sem exploração do processo, existe desalinhamento metodológico.
Exemplos por Área Científica
| Área | Exemplo de Pergunta de Investigação | Tipo |
|---|---|---|
| Saúde / Enfermagem | Qual a eficácia de intervenções de mindfulness na redução do burnout em enfermeiros portugueses em serviços de urgência? | Causal / Diferença |
| Psicologia | Como é que adultos com diagnóstico tardio de ADHD reconstroem a narrativa identitária após o diagnóstico? | Qualitativa / Processo |
| Gestão / Economia | Em que medida as práticas de responsabilidade social empresarial influenciam a intenção de retenção dos colaboradores em PMEs portuguesas? | Associação |
| Direito | De que forma o quadro legal português sobre proteção de dados pessoais tem sido interpretado pelos tribunais na regulação de plataformas digitais entre 2021 e 2026? | Descritiva / Documental |
| Educação | Quais os fatores que explicam a diferença de desempenho académico entre estudantes de licenciatura em Portugal em contexto presencial e híbrido? | Explanatória / Diferença |
Para aprofundar a relação entre a pergunta de investigação e a revisão de literatura que a sustenta, ver o artigo sobre revisão de literatura no nosso guia sobre revisão de literatura e metodologia PRISMA.
Perguntas Frequentes
Posso ter mais do que uma pergunta de investigação?
Sim, embora seja mais frequente ter uma pergunta central e subperguntas derivadas. Múltiplas perguntas centrais de igual peso só são adequadas em estudos com componentes claramente distintas (por exemplo, métodos mistos com perguntas qualitativas e quantitativas separadas). Em dissertações de mestrado, um excesso de perguntas de investigação é frequentemente sinal de que o âmbito do estudo não foi adequadamente delimitado.
A pergunta de investigação pode mudar durante a tese?
Em investigação qualitativa de natureza indutiva (como grounded theory), a pergunta pode ser refinada à medida que a recolha e análise de dados avançam — trata-se de um processo iterativo. Em investigação quantitativa e em investigação qualitativa dedutiva, a pergunta deve estar consolidada antes do início da recolha de dados. Qualquer alteração significativa à pergunta de investigação após o início da recolha de dados deve ser comunicada ao orientador e justificada na metodologia.
Qual a diferença entre pergunta de investigação e problema de investigação?
O problema de investigação é a situação problemática mais ampla que justifica o estudo — uma lacuna no conhecimento, uma contradição na literatura, um problema prático relevante. A pergunta de investigação operacionaliza o problema em termos interrogativos específicos e respondíveis. O problema é declarativo; a pergunta é interrogativa. Na introdução da tese, o problema é apresentado primeiro e a pergunta de investigação deriva dele.
Os objetivos específicos devem ter o mesmo grau de complexidade?
Não necessariamente. Os objetivos específicos devem ser sequenciais e cumulativos: os primeiros tendem a ser mais descritivos e analíticos; os últimos tendem a ser mais sintéticos e propositivos. Esta progressão espelha a lógica do trabalho: primeiro descreve-se, depois analisa-se, depois conclui-se ou propõe-se. Todos devem, no entanto, ser operacionais — avaliáveis no final do estudo.
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Fontes: Creswell, J. W. (2014). Research design: Qualitative, quantitative, and mixed methods approaches (4.ª ed.). Sage. Kerlinger, F. N. (1980). Foundations of Behavioral Research (3.ª ed.). Holt, Rinehart and Winston. Correia & Mesquita (via DESIGNLAB): Estrutura de uma proposta de projeto de investigação. Marco Mello (Sobrevivendo na Ciência): Como elaborar um projeto de pesquisa.
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