Impacto e Disseminação da Investigação 2026: Altmetrics, Lay Summary e Plano de Comunicação Científica

Impacto e Disseminação da Investigação 2026: Altmetrics, Lay Summary e Plano de Comunicação Científica

Publicar um artigo científico já não é o ponto final da investigação — é o ponto de partida da sua disseminação. Em 2026, medir o impacto da investigação vai muito além do fator de impacto da revista ou do número de citações: exige compreender os altmetrics, redigir um lay summary acessível ao público geral, e construir um plano de comunicação científica estruturado. Este guia explica como fazer isso de forma rigorosa e alinhada com os princípios das métricas responsáveis, incluindo a Declaração DORA e a CoARA.

A pressão para demonstrar impacto real — económico, social, político — é crescente tanto em Portugal (via FCT e RCAAP) como no Brasil (via CAPES e CNPq). Investigadores que dominam estas ferramentas chegam às candidaturas a bolsas e às comissões de avaliação com uma vantagem tangível. Quem as ignora corre o risco de ver trabalho de qualidade passar despercebido. Para aprofundar como transformar a tese num artigo pronto a submeter, consulte o nosso guia sobre como transformar a tese num artigo científico para publicar.

Resposta rápida: Os altmetrics medem a atenção que a investigação recebe fora das citações académicas tradicionais — nas redes sociais, blogues, notícias e documentos de política. Complementam (não substituem) as citações. Para maximizar o impacto, combine altmetrics com um lay summary bem escrito e um plano de comunicação que identifique públicos-alvo, canais e cronograma de disseminação.

Altmetrics vs. Citações: o que mede cada um

As citações académicas medem a influência de um trabalho entre pares: quantos investigadores o leram e o incorporaram no seu próprio raciocínio científico. São o indicador mais consolidado de impacto académico, mas têm limitações sérias: demoram anos a acumular-se, excluem públicos não académicos e favorecem disciplinas com maior volume de publicação. Para uma visão completa do ecossistema de métricas — índice-h, JCR, SJR, CiteScore e Altmetric — consulte o nosso diretório de indicadores bibliométricos.

Os altmetrics (métricas alternativas) surgem para colmatar essas lacunas. Rastreiam como a investigação é partilhada, discutida e utilizada fora dos circuitos académicos: menções em notícias, partilhas no Twitter/X ou LinkedIn, referências em blogues científicos, inclusão em documentos de política pública ou diretrizes clínicas, marcações no Mendeley ou Zotero, e descarregamentos em repositórios de acesso aberto.

Comparação: citações tradicionais vs. altmetrics
Dimensão Citações Altmetrics
Velocidade de acumulação Anos Dias/semanas
Público captado Académico Académico + público geral + decisores
Tipo de impacto Influência científica Atenção e alcance social
Manipulabilidade Baixa (autocitações excetuadas) Mais vulnerável a campanhas coordenadas
Cobertura disciplinar Desigual (STEM favorecido) Desigual (saúde e ciências sociais mais ativas online)
Indicador de qualidade? Proxy aceite, com ressalvas Proxy de atenção, não de qualidade

A revisão sistemática publicada na Frontiers in Research Metrics and Analytics (2025), baseada em 864 estudos, concluiu que a correlação entre altmetric scores e citações tradicionais é baixa a moderada — o que confirma que medem dimensões distintas e são, por isso, complementares. Usar apenas um dos dois lados dá uma imagem incompleta do impacto real da investigação.

Principais plataformas de altmetrics

Existem três plataformas dominantes, cada uma com lógicas de agregação diferentes. Conhecer as suas diferenças evita confusões na interpretação dos dados.

Altmetric.com

A plataforma mais reconhecida. Gera o Attention Score — uma pontuação colorida visível em muitas revistas — que agrega menções em notícias, Twitter/X, Facebook, blogues, Wikipedia, documentos de política, Mendeley e Dimensions. O score é ponderado por tipo de fonte: uma menção num documento de política pública vale muito mais do que uma partilha num blogue pessoal. Em fevereiro de 2026, a Altmetric.com tinha rastreado mais de 857.000 publicações só da editora MDPI, com mais de 5 milhões de menções registadas.

O donut do Altmetric — o que significam as cores

Cor Fonte de atenção Peso relativo
Vermelho Notícias / media generalista Alto
Roxo Documentos de política pública Muito alto
Azul claro Twitter/X Médio
Amarelo Blogues científicos Médio
Azul escuro Facebook / LinkedIn Baixo-médio
Verde Mendeley / CiteULike (capturas) Baixo

Fonte: Altmetric.com — The donut and Altmetric Attention Score

PlumX Metrics (Elsevier)

Organiza as métricas em cinco categorias: Citations, Usage, Captures (Mendeley, CiteULike), Mentions (Wikipedia, blogues, comentários) e Social Media. Integrado na Scopus, é especialmente útil para investigadores que já usam o ecossistema Elsevier. Não gera uma pontuação única, apresentando antes um perfil multidimensional.

Dimensions

Plataforma da Digital Science que combina métricas de citações, altmetrics, dados de financiamento e referências em políticas públicas numa única interface. É de acesso parcialmente gratuito e particularmente forte na ligação entre investigação e policy documents, o que a torna valiosa para demonstrar impacto em candidaturas FCT ou Horizon Europe.

Nota prática: Para obter altmetrics de um artigo, basta aceder ao DOI na plataforma escolhida. Sem DOI, o rastreio torna-se errático. Certifique-se de que os seus artigos têm sempre um identificador persistente atribuído antes de iniciar qualquer campanha de disseminação.

Como escrever um lay summary eficaz

O lay summary (ou resumo em linguagem acessível) é um texto curto — geralmente entre 150 e 300 palavras — que explica o que foi investigado, porque é que importa e o que foi descoberto, numa linguagem compreensível por alguém sem formação na área. Cada vez mais revistas, financiadores (incluindo a FCT e o Horizon Europe) e repositórios exigem ou recomendam a sua inclusão.

Escrever um bom lay summary exige um esforço cognitivo diferente do da escrita académica: é preciso abandonar o jargão, identificar a relevância prática, e contar uma história sem sacrificar a precisão. Segundo a Academia HealthWords, um lay summary bem-sucedido deve definir o público-alvo em primeiro lugar, porque “escrever para legisladores é muito diferente de escrever para doentes”.

Estrutura recomendada em quatro partes

  1. O problema: Qual é a lacuna de conhecimento ou o problema prático que a investigação aborda? (1-2 frases, sem jargão)
  2. O que fizemos: Como foi conduzido o estudo — de forma muito simplificada. Evite termos técnicos de metodologia; use analogias se necessário.
  3. O que encontrámos: Os principais resultados em linguagem concreta. Se os dados permitirem, use uma comparação numérica familiar (“equivalente a…” ou “tão frequente como…”).
  4. Porque importa: Impacto prático, clínico, político ou social. Esta é a parte que mais ressoa com financiadores e jornalistas.

Erros comuns a evitar

  • Copiar o abstract e apenas remover termos técnicos — o resultado fica mecânico e perde a narrativa.
  • Usar a voz passiva em excesso: “foi observado que” em vez de “descobrimos que”.
  • Incluir siglas sem explicação, mesmo que pareçam óbvias.
  • Exagerar os resultados para parecerem mais impactantes — isto destrói a credibilidade científica e é considerado má prática de comunicação.

Depois de redigido, peça a alguém fora da sua área que leia o texto e assinale as frases que não compreendeu. Esse teste de leitura com um par externo é o método mais fiável para verificar a acessibilidade real do lay summary.

Construir um plano de comunicação científica

Um plano de comunicação científica é um documento estratégico que define quem quer atingir, com que mensagem, através de que canais e quando. Não é uma lista de coisas a fazer depois de publicar — é uma estrutura que orienta decisões durante todo o ciclo de vida da investigação.

Cinco componentes de um plano eficaz

1. Mapeamento de audiências

Identifique os grupos que mais beneficiam dos resultados: outros investigadores da área, investigadores de áreas adjacentes, profissionais de saúde ou engenharia, decisores políticos, jornalistas científicos, público geral, ou comunidades diretamente afetadas pelo problema. Cada grupo requer uma mensagem e um canal distintos.

2. Mensagens-chave por audiência

Para cada audiência prioritária, defina uma mensagem principal (uma frase) e dois ou três pontos de suporte. A mensagem para um responsável de política pública será diferente da mensagem para um colega investigador, ainda que ambas derivem dos mesmos resultados.

3. Seleção de canais

  • Repositórios de acesso aberto (Zenodo, RCAAP, Repositório Científico de Acesso Aberto de Portugal): maximizam descoberta e rastreio por altmetrics.
  • Preprints (bioRxiv, SocArXiv, OSF Preprints): aceleram a visibilidade antes da publicação formal.
  • Redes sociais académicas (ResearchGate, Academia.edu): úteis para descoberta entre pares.
  • Redes sociais generalistas (Twitter/X, LinkedIn, Bluesky): para audiências mais amplas e impacto altmétrico imediato.
  • Blogues e newsletters: permitem comunicação aprofundada, narrativa e formatos multimédia.
  • Media generalista: para investigação com impacto público claro; requer press release bem redigido.

4. Cronograma

Distribua as ações ao longo do tempo: antes da submissão (preprint, registo no ORCID, actualização do Ciência Vitae), na aceitação (press release interno, notificação à instituição), na publicação (partilha nos canais definidos, envio aos co-autores para amplificação), e nos 6-12 meses após (monitorização altmétrica, respostas a comentários, ligação a política pública se relevante). Para criar e manter o seu perfil ORCID e Ciência ID de forma eficaz, consulte o nosso guia definitivo sobre ORCID e perfis de investigador.

5. Monitorização e avaliação

Defina indicadores de sucesso para cada canal: número de descarregamentos no repositório, alcance nas redes sociais, citações em documentos de política, solicitações de entrevistas, ou uptake em disciplinas adjacentes. Reveja o plano seis meses após a publicação e ajuste a estratégia de acordo.

Redes sociais para investigadores: boas práticas em 2026

As redes sociais são hoje um dos vetores mais rápidos de disseminação científica — e um dos que mais contribui para o altmetric score. Em 2026, o ecossistema mudou: o Twitter/X perdeu relevância académica em vários campos, com o Bluesky, o Mastodon e o LinkedIn a captarem diferentes segmentos da comunidade científica.

O que funciona por plataforma

  • LinkedIn: Ideal para impacto em política pública, indústria e empregabilidade. Publicações sobre aplicações práticas e implicações para o setor funcionam melhor do que conteúdo técnico puro.
  • Twitter/X e Bluesky: O thread que desdobra um artigo complexo em 5-8 passos numerados continua a ser o formato com mais engagement. Inclua sempre o DOI e uma imagem do paper ou uma figura-chave.
  • Instagram e TikTok: Eficazes para comunicação de ciência ao público geral, especialmente em saúde, ambiente e ciências naturais. Exigem guião visual cuidado — o blogue “Sobrevivendo na Ciência” de Marco Armello tem explorado estes formatos na sua série “Pílulas de comunicação científica”, com conselhos práticos sobre como adaptar a linguagem científica a diferentes formatos de comunicação.
  • ResearchGate: Útil para descoberta entre pares e para monitorizar quem descarregou o artigo. Não contribui diretamente para altmetrics de plataformas comerciais.

Uma regra prática: publique primeiro no repositório ou na revista (com DOI), e só então inicie a disseminação nas redes sociais. Desta forma, todos os rastreadores altmétricos ligam as menções ao identificador persistente correto.

A Sociedade Bibliográfica Brasileira documenta na sua plataforma como a promoção ativa da ciência e da cultura — incluindo a disponibilização de repertórios bibliográficos em acesso aberto — é, em si mesma, uma forma de comunicação científica responsável com impacto mensurável.

Métricas responsáveis: DORA e CoARA

O entusiasmo pelos altmetrics não pode fazer esquecer os princípios das métricas responsáveis. A Declaração de São Francisco sobre Avaliação da Investigação (DORA, 2012) — agora subscrita por centenas de instituições em todo o mundo, incluindo a FCT — recomenda que a avaliação de investigadores e instituições se baseie no mérito intrínseco dos trabalhos, e não em métricas de nível de revista como o fator de impacto. Saiba mais no nosso artigo dedicado sobre DORA e a avaliação da investigação em Portugal e Brasil.

Em 2022, a Coligação para o Avanço da Avaliação da Investigação (CoARA) alargou estes princípios ao nível europeu, estabelecendo compromissos concretos para signatários: reconhecer a diversidade de contribuições, usar avaliação qualitativa como elemento central, e reduzir o uso indevido de indicadores quantitativos. Portugal aderiu através da FCT; o Brasil avança a passo próprio com ajustamentos no sistema Qualis. Para entender como estas métricas se articulam na prática da tese e da carreira académica, veja também o nosso guia sobre bibliometria na tese: FWCI, JCR, Scimago e métricas DORA-friendly.

Cinco princípios das métricas responsáveis (Leiden Manifesto)

  1. Seja específico: use métricas adequadas ao tipo de investigação e à fase de carreira.
  2. Seja contextual: interprete as métricas no contexto disciplinar correto.
  3. Seja transparente: explique como e porquê cada indicador foi selecionado.
  4. Seja justo: reconheça que nem todos os sistemas de métricas têm a mesma cobertura geográfica e linguística.
  5. Seja claro: distinga entre métricas de atenção (altmetrics), métricas de uso (downloads) e métricas de influência académica (citações).

Para o investigador em início de carreira, a mensagem prática é: ao apresentar o seu perfil em candidaturas, combine indicadores complementares — índice-h, citações, altmetric score, presenças em documentos de política, downloads no repositório institucional — e explique o que cada um representa. Uma narrativa coerente de impacto convence muito mais do que um único número isolado.

Checklist: preparar o perfil de impacto para uma candidatura FCT

  • ORCID atualizado e sincronizado com o Ciência Vitae
  • DOIs confirmados para todos os artigos publicados
  • Altmetric score registado para os 3-5 artigos mais recentes
  • Número de citações via Scopus ou Web of Science (não Google Scholar sozinho)
  • Referências em documentos de política pública, se aplicável
  • Lay summaries disponíveis nos repositórios institucionais
  • Plano de disseminação incluído (exigido pelo Horizon Europe e recomendado pela FCT)

Perguntas frequentes

Os altmetrics podem substituir as citações na avaliação académica?

Não. Os altmetrics medem atenção e alcance social, não influência científica entre pares. Uma revisão de 864 estudos (Frontiers in Research Metrics, 2025) encontrou correlações baixas a moderadas entre altmetric scores e citações. As duas métricas captam dimensões diferentes do impacto e devem ser usadas de forma complementar, nunca como substitutos diretos.

Quantas palavras deve ter um lay summary?

A maioria das diretrizes institui entre 150 e 300 palavras, embora alguns financiadores (como o Wellcome Trust) permitam até 500. O critério de qualidade não é o comprimento, mas a capacidade de o texto ser compreendido por alguém sem formação na área — teste com um leitor externo antes de submeter.

O altmetric score é influenciável de forma legítima?

Sim, de forma legítima: depositar o artigo em acesso aberto, partilhá-lo com DOI nas redes sociais, enviar um press release à assessoria de comunicação da instituição, e notificar redes de profissionais relevantes são todas ações que aumentam o altmetric score sem comprometer a integridade. O que não é ético é criar contas falsas, usar bots ou pagar por partilhas.

O que é a DORA e porque importa para a minha tese?

A Declaração de São Francisco sobre Avaliação da Investigação (DORA) recomenda que investigadores e instituições avaliem o trabalho científico pelo seu mérito real, não pelo fator de impacto da revista onde foi publicado. Para quem está a terminar a tese, isto significa que publicar num artigo metodologicamente robusto numa revista Q2 pode valer mais do que um artigo superficial numa revista Q1. A FCT e várias universidades portuguesas são signatárias.

Preciso de um plano de disseminação se o meu financiador não o exige?

Mesmo que o financiador não o exija formalmente, ter um plano de disseminação melhora a visibilidade da investigação, aumenta os altmetrics de forma orgânica, facilita candidaturas futuras e reforça a narrativa de impacto. Em candidaturas ao Horizon Europe, o plano de disseminação e exploração é obrigatório; na FCT, é crescentemente valorizado nas avaliações de projetos.

Que plataforma de altmetrics devo usar em Portugal?

Para investigadores em Portugal, a combinação mais prática é Altmetric.com (via o bookmarklet gratuito ou via Scopus) para o Attention Score, e Dimensions para ligar a investigação a documentos de política pública. Se a sua instituição tiver acesso à Scopus, o PlumX está integrado e não requer subscrição adicional.

Torne a sua investigação visível com o Tesify

O Tesify ajuda investigadores e mestrandos a estruturar, formatar e disseminar os seus trabalhos com rigor académico. Desde a formatação automática de referências até à preparação de documentos para submissão, a plataforma cobre todo o ciclo de escrita científica.

Experimentar o Tesify gratuitamente