DORA Aplica-se à Minha Tese? Avaliação Académica 2026

DORA Aplica-se à Minha Tese? Avaliação Académica Portugal e Brasil 2026

Publicou dois artigos na sua área durante o doutoramento. Um foi aceite numa revista Q1 JCR com Fator de Impacto 8,2; o outro é de acesso aberto, com revisão por pares rigorosa, mas sem indexação JCR. Para a avaliação CAPES, o segundo quase não conta. Para a FCT, que aderiu ao CoARA, ambos têm peso crescente. A declaração DORA — agora com mais de 25.000 signatários globais — está a mudar as regras, mas a um ritmo diferente em Portugal e no Brasil. Este artigo explica o que muda, para quem, e o que isso significa concretamente para a sua tese e carreira académica em 2026.

A tensão é real: em dezembro de 2025, a Fiocruz — um dos centros de investigação mais respeitados do Brasil — assinou a DORA, juntando-se a um crescente movimento de instituições brasileiras que contestam o Qualis. Simultaneamente, o CNPq reformou as bolsas de produtividade (Chamada 23/2025) criando um sistema que exige explicitamente Fator de Impacto como critério de avaliação. É uma contradição de fundo que todo doutorando brasileiro precisa de navegar.

Resposta rápida: A DORA e o CoARA não se aplicam diretamente à avaliação da sua tese pelo júri — esse processo é regulado pelos regulamentos internos de cada IES. O impacto é indireto: na avaliação da sua carreira pós-defesa por FCT, CAPES e CNPq. Em Portugal (FCT/CoARA), a tendência é reduzir o peso do Fator de Impacto. No Brasil (CAPES/CNPq), a mudança é mais lenta e contraditória — o Qualis continua relevante em 2026.

1. O que é a DORA e o CoARA?

A San Francisco Declaration on Research Assessment (DORA), assinada pela primeira vez em 2012 durante o congresso anual da American Society for Cell Biology, estabelece um conjunto de recomendações para melhorar a forma como a produção científica é avaliada. O princípio central é simples mas radical no mundo académico: não usar o Fator de Impacto de revistas como substituto da qualidade de artigos individuais ou do mérito de investigadores.

O problema que a DORA tenta resolver

O Fator de Impacto (FI) de uma revista é a média de citações recebidas pelos artigos publicados nos dois anos anteriores. É uma métrica da revista, não do artigo individual. Um artigo publicado numa revista Q1 JCR com FI 12 pode ter zero citações; um artigo num preprint servidor pode ter revolucionado o campo. Avaliar investigadores pelo FI das revistas onde publicam confunde a qualidade do recipiente com a qualidade do conteúdo.

As consequências práticas desta confusão incluem:

  • Pressão para publicar em revistas de prestígio mesmo quando revistas mais especializadas seriam mais adequadas;
  • Desincentivo à publicação em acesso aberto (muitas revistas OA têm FI inferior);
  • Discriminação contra áreas de conhecimento onde não existem revistas Q1 JCR relevantes (muitas Humanidades, Ciências Sociais);
  • Favorecimento de resultados positivos em detrimento de estudos de replicação (que têm menos citações).

CoARA: a DORA com compromissos concretos

O CoARA (Coalition for Advancing Research Assessment), lançado em dezembro de 2022 pela Comissão Europeia e pela Science Europe, vai além da declaração de princípios. Quem assina o CoARA compromete-se a:

  1. Reconhecer a diversidade de contribuições (artigos, dados, software, ensino, transferência de conhecimento);
  2. Basear a avaliação em critérios qualitativos e no conteúdo da investigação;
  3. Abandonar progressivamente o uso inadequado do Fator de Impacto;
  4. Apresentar planos de ação concretos com prazos;
  5. Reportar progresso anualmente.

Em 2026, o CoARA conta com mais de 800 organizações signatárias, incluindo a FCT, a Comissão Europeia, a EUA (European University Association), e dezenas de universidades e agências de financiamento europeias.

2. Signatários em 2026: quem assinou em Portugal e Brasil

Instituição País DORA CoARA Data/notas
FCT Portugal Alinhada Sim (co-presidente PT) CV narrativo introduzido 2023/24; capítulo nacional PT ativo
Universidade de Coimbra Portugal Sim Sim UC marcou 10 anos da DORA com evento Open Science 2023
UAlg / FCCN Portugal Parcialmente Em processo ConfOA 2026 em UAlg (Out 6-9) — plataforma de debate
Fiocruz Brasil Sim (Dez 2025) Em análise Primeira grande IES pública brasileira a assinar DORA
USP Brasil Em discussão Não (ainda) Debate interno em curso; posição formal esperada 2026
CAPES Brasil Não Não Qualis mantido como critério central na Quadrienal 2021-2024
CNPq Brasil Não Não Reforma PQ 2026 reforça FI como critério — tensão com DORA
Comissão Europeia UE Sim Fundadora Horizonte Europa já integra DORA/CoARA nos critérios de avaliação

3. FCT e CoARA: o que mudou nas candidaturas portuguesas

A FCT é um caso de estudo europeu de implementação CoARA. As mudanças concretas já visíveis em 2026:

CV Narrativo na avaliação CEEC

A FCT introduziu o formato de CV narrativo nas candidaturas CEEC (Concurso de Estímulo ao Emprego Científico) a partir do ciclo 2023/24. Em vez de listar publicações com FI, os candidatos descrevem em texto as suas cinco contribuições mais significativas, o impacto da sua investigação, e as suas competências de liderança científica. Portugal foi um dos primeiros países europeus a implementar este formato em larga escala.

Avaliação de Unidades de I&D 2025-2029

A 7.ª avaliação das Unidades de I&D (2023/24, com financiamento 2025-2029) já incorporou critérios CoARA: o painel avaliador foi instruído a não usar automaticamente o FI das publicações como proxy de qualidade, valorizando o impacto social, a abertura dos dados e o engagement com parceiros não-académicos. As 313 unidades financiadas (num total de 336 candidaturas) e os ~21.832 investigadores cobertos representam uma mudança de paradigma gradual mas real.

Open Research Europe (ORE)

A FCT integra o Open Research Europe (plataforma de publicação aberta da Comissão Europeia) desde 2025. Os artigos publicados na ORE são avaliados pelos revisores com base no mérito científico, não no FI do “recipiente” — uma prática totalmente DORA-alinhada. Para os planos de Acesso Aberto da FCT, consulte: Plano Acesso Aberto FCT 2026: O Que Tese e Artigo Devem Cumprir.

Para doutorandos em cotutela com universidades italianas, o CoARA tem igualmente progressos relevantes no contexto das IES italianas em 2026 — o guia sobre a revisão por pares aberta e os compromissos CoARA nas universidades italianas em 2026 documenta como os ateneus italianos estão a implementar os princípios de avaliação responsável, útil como referência comparativa para candidatos a programas de cotutela PT-IT.

4. CAPES, CNPq e Qualis: a contradição brasileira

O Brasil vive em 2026 uma contradição de fundo no sistema de avaliação científica que afeta diretamente todos os doutorandos e investigadores:

CAPES Quadrienal e Qualis

O sistema Qualis Periódicos da CAPES classifica os periódicos em estratos (A1, A2, A3, A4, B1, B2, B3, B4, C) com base essencialmente no Fator de Impacto JCR e no índice H. Os artigos publicados em cada estrato têm pesos diferentes na avaliação dos Programas de Pós-Graduação (PPG) na Avaliação Quadrienal.

A nova Avaliação Quadrienal 2021-2024 (resultados em 2025) manteve o Qualis como fator central na avaliação de PPGs. Publicar em A1 ainda é estrategicamente distinto de publicar em B1 para os programas brasileiros.

CNPq Chamada 23/2025: o paradoxo

A reforma CNPq de bolsas de Produtividade (PQ) e Desenvolvimento Tecnológico (DT), implementada na Chamada 23/2025, introduz três novos critérios de avaliação para progressão nos níveis PQ-A, PQ-B e PQ-C:

  1. Índice-H (Scopus ou Web of Science);
  2. Média de citações por artigo;
  3. Média do Fator de Impacto dos periódicos onde publicou.

Esta reforma expande formalmente o uso do Fator de Impacto como critério de avaliação individual — exatamente o que a DORA critica. A Fiocruz, que assinou a DORA em dezembro de 2025, já manifestou formalmente a sua preocupação com esta contradição. Para dados detalhados da reforma CNPq: CNPq Reforma PQ 2026: De 5 para 3 Níveis, Dados da Transição.

5. A Fiocruz assina DORA: sinal de mudança no Brasil

A adesão da Fiocruz à DORA em dezembro de 2025 é um evento de destaque. A Fundação Oswaldo Cruz é o maior e mais influente instituto de investigação em saúde pública da América Latina, responsável por vacinas, diagnósticos e políticas de saúde com impacto global.

Ao assinar a DORA, a Fiocruz comprometeu-se a:

  • Não usar o FI de revistas como critério principal de avaliação dos seus investigadores;
  • Valorizar diversas formas de output (vacinas, protocolos clínicos, políticas de saúde, software, conjuntos de dados) com o mesmo peso que artigos em revistas de alto FI;
  • Promover uma cultura de avaliação qualitativa no ecossistema de investigação brasileiro.

A Fiocruz também tem parceria activa com a FCT e o CNPq através de editais de cooperação PT-BR (o mais recente, lançado em fevereiro de 2025, promove projetos conjuntos Brasil-Portugal). Para doutorandos que trabalham nas interfaces saúde pública, epidemiologia, bioquímica e ciências biomédicas, esta adesão é um sinal de que o critério de avaliação está a mudar — ainda que lentamente.

6. DORA + Open Science: a sinergia com o Plano FCT 2026

A DORA e o movimento de Open Science convergem num ponto central: a qualidade da investigação não pode ser medida apenas pelo prestígio do “recipiente” (a revista), mas pelo impacto real, acessibilidade e reprodutibilidade.

Como se traduz na prática para teses e artigos derivados?

  • O Plano FCT de Acesso Aberto (Fev 2025) exige depósito de artigos e teses em RCAAP/repositório institucional — favorece visibilidade mesmo de publicações em revistas de FI inferior;
  • O depósito de dados FAIR (Zenodo, B2SHARE) tem peso crescente na avaliação FCT/CEEC, independentemente do FI da publicação associada;
  • O ORCID, com ~80% dos investigadores PT cobertos via Ciência Vitae, permite rastrear impacto real (citações, downloads, altmetrics) para além do FI;
  • A ConfOA 2026 (17.ª Conferência Lusófona de Ciência Aberta, UAlg, 6-9 outubro 2026) terá tracks dedicados a avaliação responsável e DORA — um momento de balanço do progresso em PT e BR.

Para a relação entre ORCID, Ciência Vitae e avaliação FCT: Portugal Líder Mundial em ORCID 2026: Os Dados que Provam.

7. Impacto prático na sua tese em 2026

Para quem está a escrever a tese agora, o impacto de DORA/CoARA é mais estratégico do que operacional:

Para doutorandos em Portugal (avaliação FCT pós-defesa)

Se planeia candidatar-se a bolsa CEEC, a FCT já valoriza:

  • A diversidade de outputs (código publicado, dataset, capítulos de livro, políticas informadas pela investigação);
  • O CV narrativo com descrição do impacto das suas contribuições;
  • Artigos em revistas de acesso aberto com DOI e depósito RCAAP.

Continua a ser importante publicar em revistas de qualidade reconhecida — mas já não é necessário sacrificar tudo pela revista “mais cara” do JCR.

Para doutorandos no Brasil (avaliação CAPES/CNPq)

O sistema ainda favorece fortemente Qualis A1/A2 para a avaliação Quadrienal. A estratégia pragmática em 2026 é:

  • Priorizar publicação em revistas com Qualis A1/A2 para os artigos centrais da tese;
  • Usar revistas de acesso aberto DORA-alinhadas para conteúdos secundários ou de difusão;
  • Depositar dados FAIR no Zenodo ou CAPES Repositório (cria footprint para avaliações futuras mais alinhadas com DORA).

Para saber como publicar em periódicos Q1: Como Publicar Artigo Q1 JCR a Partir da Tese em 2026. Para a relação com a bibliometria avançada (FWCI, h-index, SJR): Bibliometria para Tese 2026: FWCI, JCR e Scimago Explicados.

8. Onde publicar: matriz de decisão

Objetivo pós-tese Estratégia de publicação recomendada em 2026
Candidatura CEEC FCT (Portugal) Qualidade + diversidade de outputs; acesso aberto valorizado; CV narrativo central
Avaliação CAPES Quadrienal (Brasil) Priorizar Qualis A1/A2 para artigos principais do PPG
Bolsa PQ/DT CNPq (Brasil) Priorizar alto Fator de Impacto + h-index Scopus/WoS (exigência explícita Chamada 23/2025)
Projetos Horizon Europe (UE) Acesso aberto obrigatório; qualidade DORA-alinhada; dados FAIR
Carreira em instituições signatárias DORA/CoARA Diversidade e impacto real; não se limite ao FI JCR
Candidatura a spin-off / transferência de tecnologia Patentes, código, dados — contam mais do que artigos em qualquer revista
Mobilidade Erasmus+ ou cotutela em universidades italianas O sistema VQR/ANVUR italiano tem critérios próprios de avaliação da produção científica — consulte o guia sobre o que muda para os ateneus italianos com a VQR ANVUR 2025-2028 para alinhar a estratégia de publicação com os requisitos das IES italianas parceiras

Perguntas Frequentes

O que é a DORA e como se relaciona com a minha tese?

A DORA (San Francisco Declaration on Research Assessment) é uma declaração global que recomenda abandonar o Fator de Impacto como métrica central de avaliação de investigadores e publicações. Para a sua tese, isso significa que instituições signatárias de DORA/CoARA valorizam o impacto real e a diversidade de outputs — não apenas publicações em Q1 JCR.

A FCT assinou a DORA?

A FCT aderiu ao CoARA e co-preside ao capítulo nacional CoARA de Portugal. Introduziu o formato de CV narrativo nas candidaturas CEEC 2023/24 e é um dos mais avançados exemplos europeus de implementação dos princípios DORA na avaliação de investigadores e unidades de I&D.

A CAPES e o CNPq adotaram os princípios DORA?

O quadro é contraditório. A CAPES mantém o Qualis Periódicos com base no Fator de Impacto. O CNPq, na reforma de 2026, passou a exigir explicitamente FI como critério de bolsas PQ/DT — em tensão direta com DORA. A Fiocruz assinou a DORA em dezembro de 2025 e é a grande voz brasileira pela mudança, mas a adoção institucional formal é ainda limitada.

Devo publicar em Q1 JCR para ter uma boa tese?

Depende da instituição avaliadora. Para FCT/CEEC em Portugal (CoARA): conteúdo e impacto real pesam mais; CV narrativo valorizado. Para CAPES Quadrienal no Brasil: Qualis A1/A2 continua a ser fator determinante. Para CNPq PQ 2026: FI dos periódicos é critério explícito. Publicar em revistas de qualidade continua sendo importante, mas a estratégia depende da sua trajetória geográfica e institucional.

O que é o CoARA e como se diferencia da DORA?

A DORA é uma declaração de princípios. O CoARA (Coalition for Advancing Research Assessment) é uma coalizão com mais de 800 organizações com planos de ação concretos e prestação de contas anual. FCT, Comissão Europeia e Science Europe são membros fundadores. A relação é complementar: DORA define os princípios, CoARA operacionaliza a mudança.

A DORA aplica-se diretamente à avaliação da minha dissertação pelo júri?

Não diretamente. A DORA e o CoARA focam na avaliação de investigadores e unidades de investigação — não na avaliação académica de dissertações e teses por júris. O impacto é indireto: no valor atribuído às publicações que derivam da tese para a carreira pós-defesa.

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