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Escala Likert: Análise Estatística Adequada na Tese

Um questionário com itens de 1 a 5 não indica, por si só, que teste deve correr no SPSS, no JASP ou no R. Quem decide é a unidade de análise. Escolher para a sua escala Likert análise estatística adequada depende de uma pergunta que muitos mestrandos saltam: está a analisar um item isolado ou um escore composto por vários itens que medem o mesmo constructo?

A resposta altera tudo o que vem a seguir. Muda a medida de tendência central, a família de testes de hipóteses e a matriz de correlações a usar numa análise fatorial. Muda também a forma de justificar as opções no capítulo de metodologia. É uma das questões que um júri atento levanta quando encontra médias como “3,4” reportadas item a item numa tabela de resultados.

O que se segue é um percurso de decisão em cinco etapas: natureza da medida, estatística descritiva, testes de hipóteses, escalas compostas e análise fatorial. No fim há uma tabela-síntese e indicações para redigir a secção de análise de dados. Os exemplos vêm de teses de enfermagem, psicologia e educação.

Resposta direta: um item Likert isolado é uma variável ordinal. Descreve-se com frequências, mediana e moda, e compara-se com testes não paramétricos como Mann-Whitney, Kruskal-Wallis ou a correlação de Spearman. Quando vários itens são somados ou convertidos em média para medir um constructo, o escore resultante comporta-se de forma quase intervalar. Nesse caso, o teste t, a ANOVA e a correlação de Pearson são aceitáveis, desde que os pressupostos se verifiquem.

Item isolado ou escala composta: a distinção que decide tudo

Um item como “Sinto que o meu trabalho tem significado”, com as opções 1 = Discordo totalmente, 2 = Discordo, 3 = Neutro, 4 = Concordo e 5 = Concordo totalmente, produz dados ordinais. Sabemos que 5 está acima de 4 e que 4 está acima de 3. Não sabemos se a distância psicológica entre “Discordo” e “Neutro” é igual à distância entre “Concordo” e “Concordo totalmente”. A literatura metodológica publicada na Revista Contribuciones sublinha precisamente este ponto: a ordem é conhecida, a distância exata entre categorias não é.

A situação muda quando vários itens medem o mesmo constructo latente. Pense numa subescala de exaustão emocional com cinco itens, somados ou convertidos em média. O escore final tem muitos valores possíveis, aproxima-se de uma variável contínua e passa a comportar-se como uma medida quase intervalar. Esta posição é amplamente aceite na literatura. É ela que legitima o uso de estatística paramétrica sobre escalas compostas, mas não sobre itens isolados.

Antes de abrir o software, faça por isso um inventário simples. Para cada hipótese, registe se a variável dependente é um item ou um escore dimensional. Esta decisão deve estar alinhada com o modelo teórico: um constructo só pode ser somado se a teoria e a validação do instrumento o tratarem como unidimensional. O guia sobre o enquadramento teórico de uma tese de psicologia ajuda a fazer esta ponte entre teoria e operacionalização.

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Folhas de resposta de questionário com caixas de resposta preenchidas a lápis
Cada item Likert gera dados ordinais: descreva-o com frequências, mediana e moda.

Estatística descritiva para itens Likert

Para um item isolado, a recomendação é reportar a distribuição de respostas: frequências absolutas e percentagens por categoria, mediana e moda. O SurveyMonkey, na sua orientação sobre análise de questões únicas, desaconselha a média e o desvio-padrão neste caso. Não faz sentido afirmar que a concordância média é “3,4” quando as categorias são discretas.

Na prática, uma tabela descritiva sólida para itens Likert inclui:

  • Percentagem por categoria, idealmente com as categorias de discordância agrupadas à esquerda e as de concordância à direita;
  • Mediana, que indica a posição central sem assumir distâncias iguais;
  • Moda, útil quando há concentração forte numa categoria;
  • Amplitude interquartil, como medida de dispersão coerente com a mediana;
  • Gráfico de barras empilhadas divergentes, que mostra de imediato o equilíbrio entre concordância e discordância.

Um erro frequente é agrupar categorias, por exemplo juntar “Concordo” e “Concordo totalmente”, sem o declarar. O agrupamento é legítimo para leitura interpretativa, mas deve ser explícito e não pode substituir a tabela completa num anexo.

Escala Likert: análise estatística adequada para comparar grupos e correlacionar

Quando a hipótese incide sobre um item isolado, ou quando os dados ordinais violam os pressupostos de normalidade, a escolha recai sobre testes não paramétricos. A síntese de Fernanda Peres sobre análise de dados ordinais resume as opções principais:

  • Dois grupos independentes: teste de Mann-Whitney (por exemplo, enfermeiros do turno diurno contra os do turno noturno num item de satisfação);
  • Três ou mais grupos: teste de Kruskal-Wallis, seguido de comparações múltiplas com correção do erro tipo I quando o resultado global é significativo;
  • Associação entre duas variáveis ordinais: correlação de Spearman ou tau de Kendall. O tau de Kendall é muitas vezes preferido quando há muitos empates, o que é habitual com poucas categorias.

Para medidas repetidas no mesmo grupo, como um pré-teste e um pós-teste de um item, o equivalente não paramétrico habitual é o teste de Wilcoxon para amostras emparelhadas. Em todos estes casos, reporte a estatística do teste, o valor de p e uma medida de tamanho de efeito adequada a testes de ordens. O valor de p, sozinho, não informa sobre a magnitude da diferença.

Quem trabalha com instrumentos clínicos encontra frequentemente esta situação na análise item a item. É o caso de quem usa a escala de burnout MBI numa tese de enfermagem: os itens descrevem-se como ordinais e as dimensões tratam-se como escores compostos.

Berlindes agrupados e ligados por fios que representam fatores latentes
Na análise fatorial com itens Likert, as correlações policóricas evitam subestimar as cargas fatoriais.

Escalas compostas e testes paramétricos

Se a variável em análise é um escore dimensional, isto é, a soma ou a média de vários itens do mesmo constructo, o uso de estatística paramétrica é amplamente aceite, desde que os pressupostos se verifiquem. Com amostras moderadas a grandes, o teste t de Student e a ANOVA mostram-se robustos a pequenos desvios de normalidade. Essa robustez apoia-se no Teorema do Limite Central.

A robustez não dispensa verificações. Antes de somar itens e aplicar testes paramétricos, confirme quatro pontos:

  1. Inversão dos itens formulados no sentido negativo, para que valores altos signifiquem sempre o mesmo pólo do constructo;
  2. Consistência interna da dimensão na sua amostra, através do alfa de Cronbach ou, de preferência, do ómega de McDonald;
  3. Homogeneidade de variâncias entre grupos, com recurso à correção de Welch quando não se verifica;
  4. Inspeção da distribuição com histogramas e gráficos Q-Q, e não apenas com o teste de Shapiro-Wilk, que se torna hipersensível em amostras grandes.

Se a amostra é pequena e o escore composto apresenta forte assimetria, a opção mais defensável é voltar aos testes não paramétricos ou usar métodos robustos, como o bootstrap. Esta situação é comum em estudos realizados dentro de organizações, com equipas reduzidas. O artigo sobre fazer a tese dentro de uma empresa em psicologia organizacional discute os constrangimentos de acesso que costumam limitar a dimensão da amostra.

Quando o instrumento ainda não está validado para a população em estudo, convém escolher escalas com evidência psicométrica prévia. O banco de instrumentos validados para medir autoeficácia na amamentação ilustra como comparar opções antes de decidir.

Análise fatorial com itens Likert: correlações policóricas

Numa análise fatorial exploratória (AFE) ou confirmatória (AFC), a unidade de análise volta a ser o item isolado. Aqui reside uma das falhas mais comuns em teses: correr a análise fatorial sobre a matriz de correlações de Pearson, como faz por defeito boa parte do software. A literatura psicométrica indexada na SciELO indica que, por serem discretos e frequentemente muito assimétricos, os itens Likert levam a correlação de Pearson a subestimar as cargas fatoriais e as relações entre variáveis. A recomendação contemporânea é usar estimadores baseados em matrizes de correlação policóricas, ou tetracóricas no caso de itens dicotómicos.

Em termos operacionais, isto traduz-se em:

  • AFE: pedir explicitamente a matriz policórica (disponível, por exemplo, no programa FACTOR, no JASP e em pacotes de R como o psych);
  • AFC: declarar os itens como ordinais e usar um estimador para dados categóricos, como os estimadores de mínimos quadrados ponderados ajustados à média e à variância, disponíveis no lavaan e no Mplus;
  • Fiabilidade: preferir versões ordinais dos coeficientes de consistência interna quando a estrutura fatorial foi estimada sobre a matriz policórica.

Esta escolha precisa de ser justificada no texto. Uma frase como “a análise foi conduzida sobre a matriz de correlações policóricas, dada a natureza ordinal e a assimetria dos itens”, acompanhada da referência metodológica, antecipa uma das perguntas mais previsíveis da arguição.

Tabela de decisão rápida

Situação Natureza da variável Descritivas Testes recomendados
Item isolado, dois grupos Ordinal Frequências, mediana, moda Mann-Whitney
Item isolado, três ou mais grupos Ordinal Frequências, mediana, moda Kruskal-Wallis com comparações múltiplas
Dois itens isolados, associação Ordinal Tabela cruzada Spearman ou Kendall
Escore composto, dois grupos, pressupostos cumpridos Quase intervalar Média, desvio-padrão Teste t (ou Welch)
Escore composto, três ou mais grupos Quase intervalar Média, desvio-padrão ANOVA
Escore composto, amostra pequena e assimétrica Quase intervalar com violações Mediana e média Alternativa não paramétrica ou bootstrap
Validação da estrutura do instrumento Itens ordinais Distribuição por item AFE/AFC com matriz policórica

Como justificar e reportar as opções na tese

A secção de análise de dados deve permitir que outro investigador reproduza o seu raciocínio. Para cada família de análises, inclua três elementos: o nível de medida assumido, o teste escolhido e a razão dessa escolha, apoiada numa referência metodológica. Um exemplo de redação: “Os itens foram tratados como variáveis ordinais e descritos através de frequências relativas e medianas. As dimensões, obtidas pela média dos respetivos itens, foram tratadas como variáveis quase intervalares. Verificados os pressupostos, recorreu-se ao teste t para amostras independentes.”

Evite estes erros, que surgem com frequência em dissertações:

  • Reportar médias e desvios-padrão item a item sem qualquer justificação;
  • Somar itens de dimensões diferentes num escore global que o instrumento não prevê;
  • Usar Pearson numa análise fatorial com itens muito assimétricos;
  • Declarar “os dados seguem distribuição normal” sem mostrar como isso foi avaliado;
  • Omitir os tamanhos de efeito.

As referências metodológicas que sustentam estas opções devem estar formatadas com rigor. Com a Bibliografia Automática do Tesify, pode pesquisar artigos no Google Scholar, na PubMed e no RCAAP e gerar a citação em APA com um clique. A referência fica organizada no capítulo certo. Se vai defender um trabalho com componente empírica forte, vale a pena antecipar o tipo de pergunta técnica que o júri faz, como se vê no guia sobre perguntas do júri numa defesa de tese.

Em síntese, definir para cada escala Likert a análise estatística adequada não é uma questão de preferência. É uma decisão sobre o nível de medida que tem de ser coerente do início ao fim: o item descreve-se e compara-se como ordinal, o escore composto pode receber estatística paramétrica e a estrutura fatorial estima-se sobre correlações policóricas.

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Perguntas frequentes

Posso calcular a média de um item Likert isolado?

Formalmente, um item isolado é uma variável ordinal, pelo que a média e o desvio-padrão não são matematicamente rigorosos. Recomenda-se reportar frequências, percentagens, mediana e moda. Se, por convenção da área, apresentar também a média, assuma essa opção como complementar e justifique-a.

Quando é aceitável usar o teste t ou a ANOVA com dados Likert?

Quando a variável dependente é um escore composto, ou seja, a soma ou a média de vários itens que medem o mesmo constructo, e os pressupostos se verificam. Com amostras moderadas a grandes, estes testes são robustos a pequenos desvios de normalidade, graças ao Teorema do Limite Central.

Que teste uso para comparar dois grupos num único item Likert?

O teste de Mann-Whitney, para dois grupos independentes. Para três ou mais grupos, use o teste de Kruskal-Wallis. Para avaliar associações entre itens ordinais, use a correlação de Spearman ou o tau de Kendall.

Porque devo usar correlações policóricas na análise fatorial?

Porque os itens Likert são discretos e muitas vezes assimétricos, o que leva a correlação de Pearson a subestimar as cargas fatoriais. As matrizes policóricas tratam adequadamente a natureza ordinal dos itens e são a recomendação contemporânea para a AFE e a AFC.

Posso somar todos os itens do questionário num único escore?

Só se o instrumento e a sua validação o previrem, isto é, se os itens medirem um constructo unidimensional. Somar itens de dimensões diferentes produz um escore sem significado teórico. Verifique também a consistência interna na sua amostra e inverta os itens formulados no sentido negativo.

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