Onde Estão os Dados de Saúde Portugueses para a Tese: O Portal da Transparência do SNS (2026)

Onde Estão os Dados de Saúde Portugueses para a Tese: O Portal da Transparência do SNS (2026)

Está a preparar uma dissertação em Enfermagem, Medicina, Gestão da Saúde ou Saúde Pública e precisa de dados portugueses reais. Já percebeu que pedir acesso a dados clínicos de um hospital envolve autorização institucional, parecer de comissão de ética e um calendário incompatível com o prazo do mestrado. Antes de reduzir a ambição do trabalho, vale a pena conhecer uma alternativa: existe um catálogo público, atualizado diariamente, com dados do Serviço Nacional de Saúde que pode usar sem pedir autorização a ninguém.

O Portal da Transparência, gerido pelos Serviços Partilhados do Ministério da Saúde, publica conjuntos de dados produzidos por várias entidades do sistema de saúde. Este artigo mostra o que lá está, como escolher o conjunto adequado à sua pergunta de investigação e — a parte que quase ninguém verifica — o que deve confirmar antes de assentar uma tese nestes dados.

Resposta rápida: O portal disponibiliza 144 conjuntos de dados, organizados em quatro temas — Acesso (64), Saúde dos Portugueses (42), Eficiência (27) e Qualidade (11) — produzidos por treze entidades diferentes, entre as quais a ACSS, a Direção Executiva do SNS, o INFARMED, o INEM, a DGS e o INSA. Os dados são agregados (não são registos clínicos individuais) e podem ser consultados no catálogo, visualizados em mapas e gráficos ou obtidos através de uma API pública.

O que é e o que não é este portal

A distinção mais importante, e a que evita meses perdidos: estes são dados agregados, não microdados clínicos. Encontra o número de contactos de enfermagem nos cuidados de saúde primários por região e por mês; não encontra o registo de um doente concreto. Não há dados pessoais, não há identificadores, não há variáveis clínicas ao nível do indivíduo.

Isto delimita com precisão o tipo de pergunta que a fonte suporta. Perguntas sobre sistemas — acesso, produção, despesa, tempos de resposta, cobertura, evolução temporal, comparação entre regiões — são perfeitamente respondíveis. Perguntas sobre doentes — associação entre características individuais e desfechos clínicos — não são, e nenhuma manipulação dos dados agregados as tornará respondíveis sem incorrer em falácia ecológica, ou seja, inferir sobre indivíduos a partir de grupos.

Reconhecer isto cedo é o que separa uma dissertação exequível de uma que encalha à entrada. Se a sua pergunta é sobre indivíduos, este portal não substitui o pedido formal de acesso a dados; se é sobre o funcionamento do sistema, é provavelmente a melhor fonte gratuita disponível em Portugal.

Os quatro temas e o que cabe em cada um

O catálogo está organizado em quatro temas. A distribuição, verificada em agosto de 2026, é a seguinte:

Temas do catálogo e exemplos reais de conjuntos de dados
Tema Conjuntos Exemplos
Acesso 64 Contactos de Enfermagem nos Cuidados de Saúde Primários; Unidades Funcionais; Utentes a Aguardar Vaga de Cuidados Continuados; Chamadas de Emergência Transferidas para o SNS24
Saúde dos Portugueses 42 Antibióticos e Antibióticos — Carbapenemes; Dadores de Sangue; Doação e Colheita Trimestral de Órgãos; Gestão Integrada da Doença — Insuficiência Renal Crónica; Frequência de Casos Confirmados de Gripe
Eficiência 27 Despesa com Medicamentos nos Hospitais do SNS e no Ambulatório; Trabalhadores por Grupo Profissional; Ausência ao Trabalho por Tipologia; Exames Convencionados por Área MCDT
Qualidade 11 Fraturas da Anca (cirurgias nas primeiras 48 horas); Mortalidade por AVC Isquémico e Hemorrágico; Cirurgias em Ambulatório; Ensaios Clínicos por Fase, Tipo e Indicação; Programa Nacional de Diagnóstico Precoce

Repare no desequilíbrio: o tema Qualidade tem apenas onze conjuntos, contra sessenta e quatro em Acesso. Não é um detalhe administrativo — significa que o portal mede muito melhor a atividade e o acesso do que os resultados em saúde. Uma dissertação sobre qualidade assistencial trabalhará com um leque de indicadores bastante mais estreito, e essa restrição deve ser assumida na secção de limitações em vez de descoberta pelo júri.

Treze entidades produtoras — e porque isso lhe interessa

Representação de várias instituições de saúde que contribuem com conjuntos de dados para um catálogo comum
O catálogo é um agregador: cada conjunto de dados é produzido por uma entidade diferente, com metodologias e periodicidades próprias.

O portal não produz dados: agrega o que várias entidades do sistema de saúde publicam. Os conjuntos distribuem-se, entre outras, pelas seguintes entidades:

  • ACSS — Administração Central do Sistema de Saúde (35 conjuntos)
  • Direção Executiva do SNS (33)
  • INFARMED — Autoridade Nacional do Medicamento e Produtos de Saúde (16)
  • INEM — Instituto Nacional de Emergência Médica (13)
  • SPMS — Serviços Partilhados do Ministério da Saúde (13)
  • DGS — Direção-Geral da Saúde (10)
  • INSA — Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge (10)
  • IPST — Instituto Português do Sangue e da Transplantação (6)
  • ICAD (4), IGAS, IMPIC e SNS 24 (1 cada)

Esta informação é operacionalmente útil por uma razão concreta: a entidade produtora é a referência que deve citar, não o portal. Numa referência bibliográfica, o autor institucional de um conjunto sobre consumo de antibióticos é o INFARMED ou o INSA, consoante o caso, com o portal a funcionar como local de acesso. Atribuir todos os dados ao «Portal da Transparência» é um erro de atribuição que um arguente da área deteta imediatamente.

Tem também uma segunda implicação, mais subtil: conjuntos produzidos por entidades diferentes têm metodologias, periodicidades e universos diferentes. Cruzar um conjunto da ACSS com outro do INEM exige verificar se ambos usam a mesma unidade geográfica e o mesmo período de referência. Frequentemente não usam.

Como escolher o conjunto certo para a sua pergunta

Um procedimento que funciona, por ordem:

  1. Formule a pergunta ao nível do sistema. «Como evoluiu o tempo de espera para cuidados continuados na região X entre A e B» é respondível; «que doentes esperam mais» não é.
  2. Identifique a unidade de análise que a pergunta exige: região, unidade funcional, hospital, mês, trimestre. Depois confirme se o conjunto de dados a disponibiliza — é aqui que a maioria dos projetos falha, ao descobrir tarde que os dados só existem a nível nacional quando a pergunta era regional.
  3. Verifique a série temporal disponível. Uma análise de tendência precisa de vários anos comparáveis; uma alteração metodológica a meio da série interrompe a comparabilidade.
  4. Confirme a periodicidade. Existem conjuntos mensais, trimestrais e diários — o Índice ÍCARO, por exemplo, tem evolução diária, enquanto a doação de órgãos é trimestral.
  5. Só então escreva a pergunta definitiva, ajustada ao que os dados efetivamente suportam.

Esta ordem — dados primeiro, pergunta afinada depois — contraria o instinto de quem aprendeu que a pergunta vem sempre antes do método. Em investigação com dados secundários, porém, insistir numa pergunta que os dados não conseguem responder é a causa mais comum de dissertações que travam no capítulo dos resultados. O mesmo raciocínio se aplica a outras bases administrativas portuguesas, como explicámos a propósito do Portal BASE dos contratos públicos.

Como extrair os dados

O portal disponibiliza quatro vias de acesso, indicadas na própria navegação: Catálogo (a lista de conjuntos), API (acesso programático), Mapas (visualização geográfica) e Gráficos.

Para uma tese, a via da API é a mais robusta, mesmo para quem não programa: devolve os dados no estado em que estão no momento da consulta e permite guardar o pedido exato que fez. Isso torna a extração reproduzível, que é a propriedade que a metodologia precisa de conseguir afirmar. Quem preferir trabalhar em folha de cálculo pode simplesmente exportar do catálogo — mas deve, em qualquer caso, guardar o ficheiro original tal como o obteve, sem edições, e datar a extração.

A recomendação prática é manter dois ficheiros distintos: o ficheiro bruto, intocado, e o ficheiro de trabalho onde faz limpeza e transformações. Sem essa separação, torna-se impossível, três meses depois, reconstituir o que era dado e o que foi decisão sua — e a pergunta «isso veio assim da fonte?» é uma das mais prováveis numa arguição.

O que verificar antes de usar (incluindo a licença)

  • Nenhum dos 144 conjuntos declara uma licença de reutilização nos seus metadados. Verificámo-lo em agosto de 2026 e o campo está por preencher em todos. Na prática, a ausência de licença explícita não é uma proibição — são dados publicados por entidades públicas para efeitos de transparência — mas convém não escrever na tese que os dados estão sob uma licença aberta específica, porque isso não é o que os metadados dizem. Cite a entidade produtora, indique a data de consulta e, se o regulamento da sua instituição for exigente neste ponto, consulte as Notas Legais do portal.
  • Confirme a unidade geográfica. Nem todos os conjuntos desagregam por região, e os que desagregam nem sempre usam a mesma divisão.
  • Verifique quebras de série. Reorganizações do SNS alteraram ao longo dos anos as unidades que reportam, o que pode produzir saltos que não são variação real do fenómeno.
  • Atenção aos dados mais recentes. Conjuntos atualizados diariamente ou mensalmente incluem frequentemente períodos ainda incompletos, que aparentam quebras acentuadas. Corte a série num período fechado.
  • Não confunda produção com necessidade. O número de contactos ou de exames mede atividade registada, não necessidade de cuidados nem acesso efetivo da população — uma distinção que a discussão da tese tem de fazer explicitamente.

Um último ponto sobre ética: usar dados agregados e publicamente disponíveis dispensa, em regra, o consentimento informado dos titulares, por não haver dados pessoais envolvidos. Não dispensa, porém, o cumprimento do procedimento interno da sua instituição, que em várias escolas exige registo ou parecer mesmo para trabalhos com dados secundários. Confirme com o orientador antes de assumir que está isento. Se o seu trabalho combina esta fonte com observação em contexto clínico, as regras mudam — o nosso guia sobre o relatório de ensino clínico em Enfermagem aborda as exigências de sigilo nesse contexto.

Para situar esta fonte no conjunto mais amplo de dados abertos disponíveis, incluindo catálogos nacionais e europeus, veja o nosso diretório de fontes de dados abertos para dados secundários. E se a sua tese for de Direito da Saúde e precisar de jurisprudência a par dos indicadores, o guia sobre como pesquisar jurisprudência no DGSI cobre a outra metade do trabalho.

Transforme os indicadores em capítulos

Escolhido o conjunto de dados e feita a extração, falta o mais demorado: escrever o enquadramento, justificar o método e discutir os resultados sem perder o fio. O Tesify ajuda-o a estruturar a dissertação capítulo a capítulo e a manter a coerência entre o que os dados permitem e o que o texto afirma — com o trabalho a continuar 100% escrito por si. Comece a sua tese no Tesify →

Perguntas frequentes

Preciso de parecer da comissão de ética para usar estes dados?

Os conjuntos são agregados e não contêm dados pessoais, pelo que não envolvem o consentimento informado exigido na recolha junto de participantes. Ainda assim, muitas instituições exigem registo ou parecer interno mesmo para trabalhos com dados secundários. Confirme o procedimento da sua escola com o orientador antes de assumir que está dispensado.

Posso obter dados de doentes individuais neste portal?

Não. O portal publica exclusivamente dados agregados — por região, por período, por unidade — e não regista informação ao nível do doente. Perguntas de investigação sobre associações entre características individuais e desfechos clínicos exigem outra via de acesso a dados, com autorização institucional e parecer ético próprios.

Quem devo citar como autor dos dados?

A entidade que produz o conjunto de dados — ACSS, Direção Executiva do SNS, INFARMED, INEM, DGS, INSA, IPST ou outra —, indicando o Portal da Transparência como local de acesso e a data de consulta. Atribuir a autoria ao portal é incorreto, porque este funciona como agregador do que várias entidades publicam.

Estes dados têm licença aberta?

Em agosto de 2026, nenhum dos 144 conjuntos declarava uma licença nos respetivos metadados. Trata-se de informação publicada por entidades públicas para efeitos de transparência, mas convém não afirmar na tese que os dados estão sob uma licença aberta concreta, já que os metadados não o indicam. Identifique a fonte, date a consulta e, em caso de dúvida, consulte as Notas Legais do portal.

Que tema tem menos dados disponíveis?

O tema Qualidade, com apenas onze conjuntos, contra sessenta e quatro em Acesso. Na prática, o portal caracteriza muito melhor a atividade e o acesso do que os resultados em saúde, pelo que uma dissertação centrada em qualidade assistencial trabalhará com um conjunto de indicadores mais estreito e deve assumir essa limitação.

Como garanto que a minha extração é reproduzível?

Guarde o ficheiro original sem edições, registe a data da extração e o conjunto de dados exato utilizado, e mantenha separado o ficheiro de trabalho onde faz limpeza e transformações. Se usar a API, guarde também o pedido exato. Sem esta separação torna-se impossível, meses depois, distinguir o que veio da fonte do que resultou de decisões suas.

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