Posso Usar na Tese uma Escala ou Questionário de Outro Autor? Autorização, Adaptação e Como Citar (2026)
Encontrou numa revisão de literatura uma escala que mede exatamente o construto da sua investigação. Faz sentido usá-la — mas surge logo a dúvida que trava muita gente durante semanas: posso? É preciso pedir autorização? A quem? E se tiver de traduzir? E se só quiser usar metade dos itens?
A resposta curta é que usar um instrumento já validado é quase sempre metodologicamente superior a inventar um questionário de raiz. Um instrumento validado traz consigo evidência de fiabilidade e validade, permite comparar os seus resultados com os de outros estudos e poupa-lhe a fase mais exigente de todas — a validação. O que não pode é fazê-lo sem tratar de três questões: a versão, a autorização e a citação.
Porque reutilizar é melhor do que criar
Há uma ideia difundida de que construir o próprio questionário demonstra mais mérito. Na avaliação de uma dissertação, o efeito costuma ser o inverso. Um instrumento criado de raiz obriga-o a demonstrar que mede aquilo que diz medir — o que exige um estudo de validação com amostra própria, análise da estrutura fatorial e verificação da consistência interna. Isso é, por si só, uma tese.
Ao adotar um instrumento validado, herda essa evidência e ganha uma vantagem adicional: a comparabilidade. Poder afirmar que a média obtida na sua amostra é superior à reportada no estudo de validação transforma um resultado descritivo isolado num resultado com significado. Um questionário original não permite qualquer comparação, porque nunca ninguém o usou antes.
Isto não invalida a construção de instrumentos próprios — invalida fazê-lo por defeito, sem perceber o que custa. Se depois de ler este guia concluir que não existe instrumento adequado ao seu construto, o nosso guia sobre como fazer um questionário para a tese, do design à validação cobre o caminho alternativo.
A questão que vem primeiro: qual versão?
Este é o erro que mais frequentemente compromete a análise de dados, e acontece antes de existir um único dado recolhido.
Uma escala validada nos Estados Unidos em inglês não está validada em português pelo simples facto de a ter traduzido. A tradução altera formulações, conotações e a familiaridade cultural dos itens; a estrutura fatorial demonstrada na população original pode não se reproduzir. Se aplicar a sua própria tradução e depois calcular um alfa de Cronbach, está a reportar a fiabilidade de um instrumento que, formalmente, ninguém validou.
Acresce uma distinção que muitos estudantes portugueses descobrem tarde: existir uma versão validada para português do Brasil não resolve o problema em Portugal. As diferenças de vocabulário e de contexto justificam validações separadas, e o júri sabe disso. Se apenas existir versão brasileira, tem duas saídas honestas: usá-la declarando explicitamente a limitação, ou conduzir uma adaptação cultural como parte do trabalho — o que é uma decisão de âmbito, não um detalhe.
Como encontrar o estudo de validação portuguesa

Os estudos de validação de instrumentos para a população portuguesa estão frequentemente publicados em teses e dissertações e em revistas nacionais, e não nas grandes bases internacionais. Um percurso que funciona:
- Comece pelos repositórios académicos portugueses. O RCAAP agrega os repositórios institucionais das universidades portuguesas e é, na prática, o sítio onde mais validações de instrumentos aparecem — muitas vezes como capítulo de uma dissertação de mestrado, com o instrumento reproduzido em anexo.
- Pesquise pelo nome do instrumento acompanhado de termos de validação, incluindo variantes: «validação», «adaptação», «propriedades psicométricas», «versão portuguesa», «adaptação cultural». Pesquisar apenas pelo nome da escala devolve os estudos que a usaram, não os que a validaram.
- Percorra as citações do artigo original. Quem valida uma escala cita sempre o artigo original; partir do original para a frente é frequentemente mais eficaz do que pesquisar por palavras.
- Verifique se o instrumento vem reproduzido. Um estudo de validação que não publica os itens obriga-o a pedir o instrumento ao autor, o que muda o seu calendário.
- Confirme a população de validação. Uma escala validada em idosos institucionalizados não está validada para estudantes universitários. A correspondência entre a população de validação e a sua amostra é um critério de qualidade que o júri verifica.
Registe, para cada instrumento candidato, a referência completa do estudo de validação, a população em que foi validado, o número de itens e a estrutura de dimensões. Essa tabela torna-se depois a base da secção «Instrumentos» da metodologia.
Quando é preciso pedir autorização — e como pedir
Os instrumentos dividem-se, na prática, em três situações distintas:
- Instrumentos de acesso livre para uso académico. Alguns autores declaram expressamente, no artigo ou numa página própria, que a escala pode ser usada em investigação sem autorização, bastando citar. Guarde essa declaração — imprima ou grave a página.
- Instrumentos comerciais. Vários testes, sobretudo em avaliação psicológica, são distribuídos por editoras mediante aquisição e, por vezes, mediante prova de qualificação do utilizador. Neste caso não há atalho: ou adquire a utilização, ou escolhe outro instrumento. Descobrir isto no início evita construir um projeto inteiro sobre um instrumento a que não terá acesso.
- Instrumentos publicados sem indicação expressa. É a situação mais comum. A escala aparece publicada num artigo científico sem qualquer declaração sobre reutilização. A prática recomendada é pedir autorização por escrito ao autor, tipicamente ao autor de correspondência do estudo de validação portuguesa.
O pedido não precisa de ser elaborado. Deve identificar quem é (nome, grau, instituição, orientador), qual o instrumento pretendido e em que versão, qual o objetivo e a população do estudo, e se pretende alguma alteração. Deve pedir explicitamente a autorização de utilização para fins académicos e, se necessário, o envio da versão completa com as instruções de cotação. Envie-o cedo: as respostas demoram, e algumas nunca chegam.
Guarde a resposta. Um email de autorização é o documento que sustenta a afirmação «foi obtida autorização do autor», que passará a constar da metodologia e, em muitas instituições, do processo submetido à comissão de ética. Sem esse email, a afirmação é indemonstrável.
Se o autor não responder, não interprete o silêncio como consentimento. As saídas legítimas são insistir uma vez, contactar outro autor do mesmo estudo, ou selecionar um instrumento alternativo. Nenhuma delas é escrever na tese que a autorização foi «tacitamente concedida».
Traduzir, adaptar ou usar só alguns itens
Três alterações frequentes, com consequências muito diferentes:
| Alteração | Consequência metodológica |
|---|---|
| Usar a versão validada tal como está | Herda as propriedades psicométricas publicadas e mantém a comparabilidade. Cenário ideal. |
| Traduzir por sua conta | Cria um instrumento novo, sem validação. Exige um processo formal de adaptação e passa a ser objeto de estudo, não ferramenta. |
| Remover itens | Quebra a estrutura fatorial e invalida as normas de cotação. As pontuações deixam de ser comparáveis com a literatura. |
| Alterar a escala de resposta | Passar de sete para cinco pontos altera a distribuição das respostas e as estatísticas de referência deixam de se aplicar. |
| Acrescentar itens próprios | Aceitável se forem analisados separadamente e não somados à pontuação da escala original. |
A regra prática: pode acrescentar, desde que separe; não pode subtrair nem mexer na escala de resposta sem assumir que passou a trabalhar com outro instrumento. A tentação de «encurtar o questionário para ter mais respostas» é compreensível e costuma custar mais do que rende — é preferível manter a escala intacta e reduzir noutro ponto do protocolo. Se a preocupação é o número de respostas, o problema real está no dimensionamento da amostra, tratado no nosso guia sobre como calcular o tamanho da amostra.
Como citar o instrumento na tese
Um instrumento validado noutra língua e depois adaptado para português tem, quase sempre, duas referências obrigatórias: o artigo em que a escala foi originalmente publicada e o estudo que a validou para a população portuguesa. Citar apenas o original sugere que usou a versão original; citar apenas a validação apaga a autoria do instrumento.
Na secção de instrumentos, o padrão esperado é indicar o nome do instrumento e a sigla, as duas referências, o número de itens e as dimensões, o formato de resposta, o modo de cotação e a fiabilidade reportada na validação portuguesa — acrescentando o valor obtido na sua própria amostra quando apresentar os resultados. Deve ainda declarar que foi obtida autorização de utilização, quando aplicável.
Sobre reproduzir o instrumento em anexo: é prática comum, mas não é automática. Se o instrumento é comercial ou o autor não autorizou a reprodução, incluir os itens completos em anexo pode exceder a autorização que lhe foi dada — a autorização para usar não é necessariamente autorização para publicar. Na dúvida, pergunte no mesmo email do pedido inicial e descreva o instrumento sem o reproduzir na íntegra.
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A secção de instrumentos é curta, mas é das que mais perguntas gera na defesa, porque é onde se vê se o autor percebeu o que estava a medir. O Tesify ajuda-o a estruturar a metodologia, a manter a coerência entre instrumento, construto e análise, e a redigir a dissertação capítulo a capítulo — 100% escrita por si. Comece a sua tese no Tesify →
Perguntas frequentes
Preciso mesmo de pedir autorização para usar uma escala publicada?
Se o autor declarou expressamente que o instrumento é de uso livre em investigação, basta citar e guardar essa declaração. Se não existir indicação, a prática recomendada é pedir autorização por escrito ao autor de correspondência do estudo de validação. Se o instrumento for comercial, a utilização exige aquisição junto da editora e, por vezes, prova de qualificação.
Posso traduzir eu próprio uma escala em inglês?
Pode, mas ao fazê-lo cria um instrumento sem validação: as propriedades psicométricas publicadas para a versão original deixam de lhe poder ser atribuídas. Uma tradução própria exige um processo formal de adaptação cultural, que transforma o instrumento em objeto de estudo e não em simples ferramenta de recolha. Procure primeiro uma versão já validada para português europeu.
Serve a versão validada para português do Brasil?
Não é equivalente. As diferenças de vocabulário e de contexto cultural justificam validações separadas para Portugal e para o Brasil. Se apenas existir versão brasileira, pode usá-la declarando explicitamente essa limitação na metodologia e na discussão, ou conduzir uma adaptação para o contexto português como parte do próprio trabalho.
Posso usar só algumas dimensões da escala?
Usar uma subescala completa é geralmente aceitável, desde que a validação tenha demonstrado que essa dimensão funciona autonomamente e que o declare. Já remover itens dentro de uma dimensão quebra a estrutura fatorial e invalida as normas de cotação, deixando as pontuações incomparáveis com as da literatura.
Quantas referências devo citar para o instrumento?
Habitualmente duas: o artigo original em que a escala foi publicada e o estudo que a validou para a população portuguesa. Citar apenas o original sugere que aplicou a versão original; citar apenas a validação omite a autoria do instrumento. Ambas devem constar da secção de instrumentos e da lista de referências.
E se o autor nunca responder ao meu pedido?
O silêncio não equivale a autorização e não deve ser descrito como consentimento tácito. As alternativas defensáveis são insistir uma vez após algumas semanas, contactar outro autor do mesmo estudo de validação, ou escolher um instrumento alternativo com autorização clara. Peça cedo, precisamente para ter tempo de recorrer a estas alternativas.
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