Que Cursos Escolhem Homens e Mulheres em Portugal? Os Números dos Novos Inscritos
No conjunto do ensino superior português, a repartição entre homens e mulheres é quase equilibrada. Quando se olha por área de formação, desaparece: há áreas em que as mulheres são quatro em cada cinco novos inscritos e áreas em que os homens são igualmente quatro em cada cinco. A média nacional esconde exatamente o que interessa.
A tabela completa por área

Inscritos no 1.º ano, pela 1.ª vez, por área de educação e formação, ano letivo 2024/2025 (RAIDES/DGEEC):
| Área de educação e formação | Homens | Mulheres | Total |
|---|---|---|---|
| Ciências empresariais, administração e direito | 15 137 | 19 969 | 35 106 |
| Engenharia, indústrias transformadoras e construção | 19 889 | 8 163 | 28 052 |
| Saúde e proteção social | 4 024 | 14 874 | 18 898 |
| Ciências sociais, jornalismo e informação | 5 888 | 13 154 | 19 042 |
| Artes e humanidades | 6 107 | 10 764 | 16 871 |
| Serviços | 5 808 | 3 490 | 9 298 |
| Ciências naturais, matemática e estatística | 3 871 | 4 756 | 8 627 |
| Educação | 1 675 | 5 908 | 7 583 |
| Tecnologias da informação e comunicação | 5 791 | 1 338 | 7 129 |
| Agricultura, silvicultura, pescas e ciências veterinárias | 1 299 | 1 751 | 3 050 |
| Área desconhecida | 38 | 50 | 88 |
| Total | 69 527 | 84 217 | 153 744 |
Os quatro extremos
| Área | Desequilíbrio |
|---|---|
| Tecnologias da informação e comunicação | ≈ 81 % homens — a área mais desequilibrada do sistema |
| Saúde e proteção social | ≈ 79 % mulheres |
| Educação | ≈ 78 % mulheres |
| Engenharia, indústrias transformadoras e construção | ≈ 71 % homens |
Duas leituras que os números sustentam e que valem mais do que a indignação genérica:
1. As TIC são mais desequilibradas do que a Engenharia. É contra-intuitivo, porque o debate público sobre mulheres em áreas técnicas costuma centrar-se na engenharia. Mas a engenharia recebeu 8 163 mulheres — mais de seis vezes as 1 338 das TIC — apesar de as duas áreas terem dimensões de entrada comparáveis quando se olha só para os homens (19 889 contra 5 791). Se o objetivo é atuar sobre o desequilíbrio, o dado aponta para as TIC.
2. Ciências naturais, matemática e estatística está praticamente equilibrada — 3 871 homens contra 4 756 mulheres. Isto desmonta a leitura simples de que «as mulheres não escolhem ciências»: escolhem, em maioria, numa das áreas mais exigentes em matemática do sistema. O desequilíbrio não é com a ciência; é com áreas específicas.
Porque é que a média nacional engana

A repartição agregada — 45,2 % homens e 54,8 % mulheres entre os novos entrantes — sugere um sistema quase equilibrado, e é o número que costuma ser citado. Mas é uma média de distribuições opostas: uma área com 81 % de homens e outra com 79 % de mulheres somam-se para produzir um agregado tranquilo que não descreve a experiência de ninguém.
É o mesmo tipo de armadilha que aparece noutras séries do ensino superior — o peso agregado de um subsistema que esconde diferenças na entrada, discutido nos números do ensino politécnico, ou a taxa nacional de participação de adultos em formação, que esconde um contraste de mais de quarenta pontos por nível de escolaridade, como se vê nos dados sobre educação e formação de adultos. A regra prática é a mesma: quando um agregado parece equilibrado, procure o corte que o compõe.
Onde está o volume, e porque isso importa
Um ponto que o debate sobre desequilíbrios costuma perder: as áreas mais desequilibradas não são as maiores. As duas maiores portas de entrada do sistema são Ciências empresariais, administração e direito (35 106 novos inscritos) e Engenharia, indústrias transformadoras e construção (28 052) — juntas, mais de 41 % de todas as entradas.
Já as TIC, a área mais desequilibrada, recebem 7 129 novos inscritos: menos de 5 % do total. Em termos absolutos, a diferença de 4 453 pessoas entre homens e mulheres nas TIC é menor do que a diferença de 11 726 na Engenharia — que, em percentagem, é bastante menos desequilibrada.
Como usar estes dados sem os esticar
- Diga sempre que são novos inscritos. Estes números referem-se a inscritos no 1.º ano pela 1.ª vez, não ao total de estudantes de cada área. Um curso de quatro anos acumula coortes; a fotografia da entrada não é a do conjunto.
- Identifique o ano letivo e o inquérito. «2024/2025, RAIDES/DGEEC». Sem isso, o número não é comparável com nada.
- Não converta escolha em preferência. Os dados mostram onde as pessoas se inscreveram, o que resulta também das vagas disponíveis, das médias de entrada e da oferta regional. Explicar o padrão exige mais do que esta tabela — as vias e limitações de acesso estão descritas no guia de acesso ao ensino superior em Portugal.
- Não extrapole para a conclusão nem para o emprego. Entrar não é concluir, e concluir não é exercer. Cada um desses passos tem a sua própria série estatística.
- Some com cuidado. «STEM» não é uma categoria desta classificação: juntar Engenharia, TIC e Ciências naturais é uma agregação sua, e deve ser declarada como tal — sobretudo porque as três se comportam de maneira muito diferente.
Perguntas frequentes
Qual é a área mais desequilibrada do ensino superior português?
As Tecnologias da informação e comunicação. Entre os inscritos no 1.º ano pela 1.ª vez em 2024/2025, registaram 5 791 homens contra 1 338 mulheres — cerca de 81 % de homens. É um desequilíbrio maior do que o da Engenharia, indústrias transformadoras e construção, que registou 19 889 homens e 8 163 mulheres, cerca de 71 % de homens.
As mulheres são maioria no ensino superior?
Entre os novos entrantes de 2024/2025, sim: 84 217 mulheres contra 69 527 homens, ou seja 54,8 % contra 45,2 %. Mas essa média agrega distribuições opostas — há áreas com quatro em cada cinco mulheres e áreas com quatro em cada cinco homens. Citar apenas o agregado descreve mal o sistema.
As mulheres evitam áreas científicas?
Os dados não sustentam essa leitura. Em Ciências naturais, matemática e estatística, as mulheres foram maioria entre os novos inscritos — 4 756 contra 3 871 homens. O desequilíbrio concentra-se em áreas específicas, sobretudo nas Tecnologias da informação e comunicação e na Engenharia, e não na ciência em geral. Agregar tudo sob «STEM» apaga precisamente essa distinção.
Qual é a maior área do ensino superior?
Entre os novos inscritos de 2024/2025, Ciências empresariais, administração e direito, com 35 106 entradas — 15 137 homens e 19 969 mulheres —, seguida de Engenharia, indústrias transformadoras e construção, com 28 052. Juntas representam mais de 41 % de todas as entradas no sistema. Os totais por área são somas dos valores por sexo publicados.
Estes números incluem todos os estudantes?
Não. Referem-se exclusivamente aos inscritos no 1.º ano pela 1.ª vez no ano letivo 2024/2025, que foram 153 744. O total de inscritos no ensino superior nesse ano letivo foi bastante superior, porque acumula todas as coortes em curso. Confundir os dois é o erro mais comum ao citar estas séries.
Onde encontro os dados originais?
Nos resultados do inquérito RAIDES publicados pela Direção-Geral de Estatísticas da Educação e Ciência para o ano letivo 2024/2025, e nas tabelas de dados do ensino superior da mesma direção-geral. Para trabalho académico, prefira as tabelas aos gráficos-resumo: dão o valor exato e permitem reconstruir totais, o que os infográficos com percentagens arredondadas não permitem.
Fontes: Direção-Geral de Estatísticas da Educação e Ciência (DGEEC), «Inscritos no Ensino Superior — Ano letivo 2024/2025», resultados do inquérito RAIDES, quadro de inscritos no 1.º ano pela 1.ª vez por área de educação e formação e sexo. As percentagens de desequilíbrio e os totais por área apresentados nesta página são calculados a partir dos valores publicados por sexo e estão assinalados como cálculo; os valores absolutos por sexo e os totais de 69 527, 84 217 e 153 744 são os publicados. A soma das duas colunas foi verificada contra os totais divulgados. ⚠️ Os dados referem-se a novos entrantes e não ao total de estudantes inscritos.
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