Entrevista Semi-Estruturada: Como Fazer para a Tese ou Dissertação em 2026

Entrevista Semi-Estruturada: Como Fazer para a Tese ou Dissertação em 2026

A entrevista semi-estruturada é um dos instrumentos de recolha de dados qualitativos mais utilizados em teses e dissertações em Portugal. Se estás a planear a tua investigação e não sabes por onde começar — como elaborar o guião, o que perguntar, quanto tempo deve durar ou como tratar os dados — este guia explica cada passo com exemplos reais.

Ao contrário da entrevista estruturada (que segue um questionário fixo) ou da entrevista não directiva (totalmente livre), a entrevista semi-estruturada combina o melhor dos dois mundos: dá ao entrevistador um fio condutor claro, mas permite que o participante desenvolva as suas respostas de forma natural. É por isso que é tão apreciada em estudos de caso, fenomenologia, grounded theory e investigação-acção.

Em resumo: Uma entrevista semi-estruturada baseia-se num guião com tópicos ou questões abertas que o investigador prepara antecipadamente, mas que podem ser aprofundados ou reordenados consoante o decurso da conversa. Os dados recolhidos são depois transcritos e analisados através de técnicas como a análise temática (Braun & Clarke) ou a análise de conteúdo (Bardin).

O que é uma entrevista semi-estruturada?

A entrevista semi-estruturada é uma técnica de recolha de dados qualitativa em que o investigador dispõe de um guião de entrevista com tópicos ou questões abertas previamente definidas, mas mantém flexibilidade para adaptar a sequência, aprofundar respostas inesperadas ou omitir questões irrelevantes no contexto da conversa.

Este tipo de entrevista distingue-se claramente das suas variantes:

Tipo Grau de estrutura Quando usar
Estruturada Guião fixo, mesmas perguntas para todos Estudos de grande escala, comparações
Semi-estruturada Guião flexível com tópicos-chave Explorar experiências e percepções
Não directiva (aberta) Mínima estrutura, segue o participante Fenomenologia, narrativas biográficas

Segundo Bryman (2016), nas ciências sociais a entrevista semi-estruturada é a modalidade mais frequente porque permite ao investigador manter o foco nos objectivos da investigação sem restringir a riqueza e profundidade das respostas dos participantes.

Quando usar entrevistas semi-estruturadas na tese?

A escolha da entrevista semi-estruturada como instrumento de recolha de dados deve ser fundamentada nos objectivos da investigação e no paradigma metodológico adoptado. Considera esta técnica quando:

  • O fenómeno em estudo é pouco explorado e não existem instrumentos validados adequados;
  • Precisas de compreender significados, motivações ou experiências subjectivas dos participantes;
  • Trabalhas com uma amostra pequena e intencional (tipicamente 8 a 20 participantes em estudos qualitativos);
  • Utilizas metodologias qualitativas como estudo de caso, fenomenologia, grounded theory ou investigação-acção;
  • Queres complementar dados quantitativos num design de métodos mistos.

Se a tua tese utiliza uma metodologia de investigação maioritariamente quantitativa, considera se um questionário não seria mais adequado para os teus objectivos. A entrevista semi-estruturada é particularmente poderosa quando o “como” e o “porquê” são mais importantes do que o “quantos”.

Como elaborar o guião de entrevista

O guião (ou roteiro de entrevista) é o documento central da tua recolha de dados. Não é um questionário rígido — é um mapa que te ajuda a navegar a conversa sem te perderes.

Estrutura recomendada do guião

  1. Questões de aquecimento (2-3 min): perguntas simples e não ameaçadoras para estabelecer rapport. Ex.: “Há quanto tempo trabalha nesta área?”
  2. Questões centrais (20-40 min): os tópicos principais da tua investigação, formulados como questões abertas. Devem ser em número reduzido (5 a 8 tópicos) para permitir aprofundamento.
  3. Questões de aprofundamento (probes): sub-questões que usas quando uma resposta é vaga ou interessante. Ex.: “Pode dar-me um exemplo?”, “O que sentiu nesse momento?”, “Como reagiu?”
  4. Questão de encerramento: dá ao participante a oportunidade de acrescentar o que considera relevante. Ex.: “Há algum aspecto que não abordámos e que considera importante para este estudo?”
Dica prática: Antes da primeira entrevista real, realiza uma entrevista piloto com um colega ou com alguém com um perfil semelhante ao dos teus participantes. Isto permite-te identificar questões ambíguas, estimar a duração real e ajustar o guião.

Exemplo de questão aberta vs. fechada

Questão fechada (evitar) Questão aberta (preferir)
“Gosta do seu trabalho?” “Como descreve a sua experiência nesta função?”
“Usou a IA no TCC?” “Conte-me como foi o seu processo de escrita académica.”
“Concordou com a decisão?” “O que pensou quando soube da decisão?”

Conduzir a entrevista: boas práticas

A qualidade dos dados recolhidos depende em grande medida de como o investigador conduz a entrevista. Eis as práticas essenciais:

  • Escolhe o local com cuidado: espaço silencioso, privado e confortável para o participante. As entrevistas online (Zoom, Teams) são válidas e amplamente aceites em investigação qualitativa desde 2020.
  • Grava sempre com permissão: a gravação áudio (ou vídeo) é indispensável para uma transcrição fiel. Confirma sempre o consentimento antes de iniciar.
  • Usa o silêncio estrategicamente: uma pausa de 3 a 5 segundos depois de uma resposta frequentemente leva o participante a aprofundar o que disse.
  • Evita perguntas indutoras: não digas “Acho que o problema é X, concorda?” — deixa o participante chegar às suas próprias conclusões.
  • Toma notas breves durante a entrevista para marcar momentos que queres aprofundar, sem perder o contacto visual.
  • Respeita os limites: se o participante demonstrar desconforto, redireciona a conversa ou permite que pare.

Para estudos que utilizam metodologia qualitativa, a postura do investigador durante a entrevista é parte integrante da validade do estudo. Reflexividade — a capacidade de reconhecer como as tuas próprias perspectivas influenciam a recolha de dados — deve ser documentada no diário de campo.

Consentimento informado e ética na investigação

Nenhuma entrevista de investigação pode ser realizada sem consentimento informado. Em Portugal, as normas éticas para investigação académica exigem que:

  1. Os participantes sejam informados do objectivo do estudo, da identidade do investigador e da instituição;
  2. Seja garantida a confidencialidade — os dados serão anonimizados e usados apenas para fins académicos;
  3. A participação seja voluntária e o participante possa desistir a qualquer momento sem consequências;
  4. O consentimento seja registado por escrito (formulário assinado) ou, em entrevistas online, por declaração verbal gravada.

Se a tua investigação envolve grupos vulneráveis (menores, pessoas em situação de vulnerabilidade), pode ser necessário submetê-la a um Comité de Ética da tua universidade. Consulta os regulamentos da tua instituição.

Transcrição e organização dos dados

A transcrição é o processo de converter o registo áudio em texto escrito. É trabalhosa mas essencial para a análise qualitativa rigorosa. Existem dois níveis de transcrição:

  • Transcrição verbatim: regista tudo o que foi dito, incluindo pausas, hesitações (“ehh”, “hmm”) e interrupções. Preferível em estudos de análise conversacional ou discursiva.
  • Transcrição limpa: mantém o conteúdo integral mas elimina os disfluentes e as repetições sem significado. Adequada para a maioria dos estudos temáticos.

Ferramentas como o Otter.ai, o Whisper (OpenAI) ou o Microsoft Word (ditado automático) podem acelerar o processo, mas a transcrição deve ser sempre verificada manualmente. Planeia cerca de 3 a 4 horas de trabalho de transcrição por cada hora de entrevista.

Para gerir as transcrições, o Zotero pode ser útil para organizar fontes, mas programas como o NVivo, ATLAS.ti ou o gratuito MAXQDA (versão de estudante) são especificamente concebidos para a gestão e análise de dados qualitativos.

Análise dos dados qualitativos

Após a transcrição, os dados precisam de ser analisados de forma sistemática. As abordagens mais comuns em teses portuguesas são:

Análise Temática (Braun & Clarke, 2006)

É o método mais utilizado e acessível para investigadores principiantes. Envolve seis fases: familiarização com os dados, geração de códigos iniciais, pesquisa de temas, revisão dos temas, definição e nomeação dos temas, e produção do relatório. Para saber mais, consulta o nosso guia sobre análise temática de Braun e Clarke.

Análise de Conteúdo (Bardin, 1977)

Mais estruturada e sistemática, envolve a criação de categorias de codificação a priori ou emergentes. Amplamente utilizada em ciências sociais e educação em Portugal. Vê o nosso guia sobre análise de conteúdo de Bardin.

Grounded Theory

Adequada quando o objectivo é gerar teoria a partir dos dados, sem um quadro conceptual prévio. Mais exigente em termos de tempo e experiência metodológica.

Como citar entrevistas nas normas APA 7.ª edição

A citação de entrevistas realizadas como parte da investigação própria segue regras específicas nas normas APA. Como os dados não estão acessíveis ao leitor, as entrevistas pessoais são consideradas comunicações pessoais:

Citação no texto:

J. Silva (comunicação pessoal, 15 de março de 2026) referiu que…

Nota: As comunicações pessoais NÃO aparecem na lista de referências bibliográficas.

Se as entrevistas foram realizadas por terceiros e estão publicadas (ex.: em jornais, podcasts ou documentários), cita-as como qualquer outra fonte publicada, com o formato adequado ao tipo de fonte. Consulta as normas APA 7.ª edição para exemplos detalhados.

Erros mais comuns a evitar

  • Guião demasiado longo: mais de 15 questões principais tornam a entrevista cansativa e difícil de aprofundar. Privilegia 5 a 8 tópicos centrais.
  • Perguntas dicotómicas: questões de sim/não bloqueiam a narrativa do participante. Reformula sempre em questões abertas.
  • Não realizar entrevista piloto: é frequente descobrir que certas perguntas são ambíguas ou que a duração foi subestimada.
  • Saturação prematura: em metodologias qualitativas, a saturação teórica — o ponto em que novas entrevistas já não acrescentam novos temas — deve ser justificada metodologicamente, não assumida.
  • Não reflexividade: ignorar como a tua posição como investigador pode influenciar os dados é uma falha metodológica grave em estudos qualitativos.
  • Transcrição descuidada: erros de transcrição comprometem a análise. Verifica sempre pelo menos 20% das transcrições automáticas.

Perguntas Frequentes

Quantas entrevistas semi-estruturadas devo fazer para a minha tese?

Não existe um número mágico. Em investigação qualitativa, o critério é a saturação teórica: o processo de recolha termina quando novas entrevistas já não acrescentam informação nova aos temas emergentes. Na prática, a maioria dos estudos de mestrado em Portugal trabalha com 8 a 15 participantes. O teu orientador poderá ajudar a calibrar este número com base no design específico da tua investigação.

Posso fazer entrevistas semi-estruturadas online?

Sim. As entrevistas online (via Zoom, Microsoft Teams ou Google Meet) são amplamente aceites em investigação académica. Em contextos de investigação qualitativa, vários estudos publicados após 2020 demonstraram que as entrevistas online produzem dados de qualidade semelhante às presenciais, com a vantagem de aumentar a acessibilidade geográfica. Certifica-te de que o participante está num local privado e silencioso, e grava a chamada com o seu consentimento.

Qual a duração ideal de uma entrevista semi-estruturada?

Para a maioria dos estudos académicos de mestrado, entre 30 a 60 minutos é o intervalo mais adequado. Entrevistas mais longas (60 a 90 minutos) podem ser necessárias em estudos aprofundados com participantes muito experientes, mas tendem a gerar transcrições volumosas e a cansar o participante. Comunica sempre a duração estimada no convite para participação.

Como garantir a validade e fiabilidade das entrevistas semi-estruturadas?

Em investigação qualitativa, os critérios equivalentes à validade e fiabilidade são a credibilidade, transferibilidade, dependabilidade e confirmabilidade (Lincoln & Guba, 1985). Práticas como a triangulação (cruzar entrevistas com documentos ou observação), o member checking (validar as interpretações com os participantes) e o audit trail (documentar todas as decisões metodológicas) aumentam o rigor do estudo.

Preciso de colocar o guião de entrevista nos anexos da tese?

Sim, é uma prática metodológica padrão e exigida pela maioria das faculdades portuguesas. O guião de entrevista deve constar nos anexos da tese, juntamente com o formulário de consentimento informado e, se aplicável, o parecer do comité de ética. Isto permite que outros investigadores avaliem a tua metodologia e replicar o estudo se necessário.

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