Onde Encontrar Dados para a Tese de Ciência Política em Portugal (2026)

Onde Encontrar Dados para a Tese de Ciência Política em Portugal (2026)

Depende da pergunta, não da tese em geral. Resultados oficiais e definitivos de uma eleição pedem-se à Comissão Nacional de Eleições (CNE); resultados rápidos por freguesia, na noite eleitoral ou pouco depois, estão no portal da Secretaria-Geral do Ministério da Administração Interna; séries longas de abstenção, mandatos e votos por partido calculam-se a partir da Pordata; o comportamento individual do eleitor só um inquérito responde; a atividade legislativa está nos dados abertos da Assembleia da República; e a comparação internacional usa bases como o Manifesto Project, o ParlGov ou o V-Dem. Cada fonte responde a um nível, nenhuma substitui as outras.

Este artigo funciona como a camada de Ciência Política sobre um levantamento mais geral de fontes: se ainda precisa de uma introdução aos dados abertos e secundários que qualquer tese pode usar — INE, Pordata, Eurostat, Banco Mundial — comece pelo diretório de fontes de dados abertos. Aqui o objetivo é mais estreito: mapear que pergunta de Ciência Política, Relações Internacionais ou Administração Pública cada base responde, e o que cada uma deixa de fora.

Qual é a sua unidade de análise?

Antes de abrir qualquer base de dados, decida a unidade de análise da investigação: o eleitor individual, a freguesia ou o concelho, o partido, o deputado, a iniciativa legislativa, ou o país-ano. Esta decisão é a coluna vertebral do capítulo de dados, porque cada fonte existe a um único destes níveis. Um erro comum que compromete uma tese inteira é recolher dados a um nível e interpretar a outro: usar percentagens de voto por concelho para concluir sobre a motivação de eleitores individuais é uma inferência ecológica, e o problema tem nome próprio.

Unidade de análise Tipo de pergunta Fonte
Eleitor individual Porque votou, atitudes, perceções sobre a democracia Inquéritos (ESS, CSES)
Freguesia ou concelho Resultados territoriais, geografia do voto Portal eleicoes.mai.gov.pt; CNE
Partido Posições ideológicas, manifestos, disciplina de voto Manifesto Project; dados abertos da AR
Deputado Atividade legislativa individual, registo biográfico Dados abertos da Assembleia da República
Iniciativa legislativa Tramitação, votações, diplomas aprovados Dados abertos da Assembleia da República
País-ano Comparação entre sistemas e regimes ParlGov; V-Dem

Resultados eleitorais oficiais: provisório não é o mesmo que oficial

A Comissão Nacional de Eleições (CNE) é a entidade que publica os resultados oficiais de qualquer eleição portuguesa, e trata também o calendário eleitoral, o esclarecimento eleitoral, o recenseamento, o registo de partidos e as queixas do processo. Para uma tese, isto significa que a CNE é a fonte citável para o número final de votos, mandatos e percentagens — não o número que circulou na noite da eleição. A distinção importa mais do que parece: no site da própria CNE consta, em agosto de 2026, um item intitulado «AL 2025 – Retificação do Mapa Oficial dos Resultados», datado de 6 de agosto de 2026 — quase um ano depois das autárquicas de 2025, o mapa oficial ainda estava a ser corrigido. Uma tabela extraída na noite eleitoral pode não coincidir com o registo oficial final.

Estudante a analisar um mapa eleitoral e tabelas de resultados no portátil numa biblioteca universitária

O portal eleicoes.mai.gov.pt, gerido pela Secretaria-Geral do Ministério da Administração Interna, intitula-se precisamente «Eleições – Resultados dos Escrutínios Provisórios» — e o nome deve ler-se à letra. Cobre presidenciais desde 2001, legislativas desde 1999, europeias desde 2004, autárquicas desde 2001 e regionais desde 2007, além do referendo de 2007, com detalhe territorial e rapidez que a CNE não tem no dia seguinte à eleição. É a fonte certa para trabalhar ao nível da freguesia ou produzir mapas de voto pouco depois do escrutínio, não para o número final citado na tese. Use o MAI para explorar e cruzar territorialmente, e reconcilie sempre com o mapa oficial da CNE.

Séries longas de participação e mandatos

Para uma série longa de abstenção, mandatos ou votos por partido, a fonte mais prática é a Pordata, na área «Participação Eleitoral». Os indicadores relevantes incluem «Eleitores, votantes e abstenção», «Taxa de abstenção», «Eleitos por partido ou coligação», «Votos válidos por partido ou coligação», «Votos válidos, brancos e nulos», «Mandatos por partido» e «Mandatos por sexo», com desagregação entre residentes em Portugal e no estrangeiro, e cobertura da Assembleia da República, das Assembleias Legislativas Regionais, das Autarquias Locais, do Parlamento Europeu e da Presidência da República. É a base mais conveniente para um gráfico da evolução da abstenção ao longo de várias legislaturas, ou para comparar mandatos por sexo entre eleições.

Um pormenor que o júri pergunta se não estiver escrito: a Pordata compila dados, não é a entidade produtora. Na metodologia, o produtor primário dos resultados eleitorais continua a ser a CNE, ou o MAI para os provisórios; a Pordata é o intermediário que trata e disponibiliza a série. Cite as duas coisas: a Pordata como fonte do ficheiro descarregado, e a entidade produtora original.

Dados abertos da Assembleia da República

A fonte mais rica, e a menos explorada pelas teses portuguesas de Ciência Política, é o portal de dados abertos da Assembleia da República, em XML e em JSON. Os datasets cobrem «Iniciativas», «Votações», «Intervenções», «Diplomas Aprovados», «Atividade dos Deputados», «Registo Biográfico», «Agenda Parlamentar», «Petições», «Perguntas e Requerimentos», «Orçamento do Estado», «Composição de Órgãos», «Delegações Permanentes», «Delegações Eventuais», «Cooperação Parlamentar» e «Grupos Parlamentares de Amizade», além do «Diário da Assembleia da República» desde 2009, com cobertura que se estende, em muitos conjuntos, desde a Assembleia Constituinte até à legislatura em curso.

Urna de voto ligada por setas a uma folha de cálculo e a gráficos, ilustrando a passagem dos resultados eleitorais a dados analisáveis

Esta fonte sustenta teses inteiras sobre comportamento legislativo, disciplina partidária, produção legislativa e representação — quantas iniciativas cada grupo parlamentar apresenta, como vota cada deputado em cada diploma, que perguntas um deputado faz ao longo do mandato. É também a única fonte deste artigo que trabalha ao nível do deputado e da iniciativa individual, não do partido ou do território; se a sua unidade de análise é o deputado, comece aqui.

Inquéritos: o que só um inquérito responde

Nenhuma das fontes anteriores diz porque é que um eleitor votou como votou, o que pensa sobre a democracia, ou como se posiciona no eixo esquerda-direita — isso só um inquérito responde. O European Social Survey (ESS) é a rota mais usada para este tipo de pergunta, e o procedimento de acesso — registo, escolha da ronda, aplicação da ponderação — já está descrito num guia passo a passo dos microdados. O Comparative Study of Electoral Systems (CSES), descrito como «um programa colaborativo de investigação entre equipas eleitorais», organiza-se em seis módulos de descarregamento aberto: Módulo 1 (1996–2001), instituições eleitorais e comportamento; Módulo 2 (2001–2006), representação e responsabilização; Módulo 3 (2006–2011), escolhas políticas e competição eleitoral; Módulo 4 (2011–2016), política distributiva e proteção social; Módulo 5 (2016–2021), perceções dos cidadãos face às elites; Módulo 6 (2021–2026), o papel dos cidadãos na democracia representativa. A participação portuguesa não está confirmada em todas as rondas: confirme se a ronda que lhe interessa inclui Portugal antes de desenhar o estudo à volta dela.

Vale a pena ser explícito sobre um erro frequente: os resultados eleitorais agregados, por mais detalhados que sejam ao nível da freguesia, não substituem um inquérito quando a pergunta é sobre o indivíduo. Concluir que «os eleitores mais jovens preferem o partido X» a partir de uma freguesia jovem que votou nesse partido é uma inferência ecológica, tratada com mais detalhe na comparação entre dados agregados de registos administrativos e microdados. Se a hipótese é sobre pessoas, precisa de dados de pessoas.

Bases comparativas internacionais

Quando a unidade de análise passa a ser o país, o partido comparado entre países, ou o regime ao longo do tempo, três bases dominam a literatura comparada. O Manifesto Project, mantido pelo WZB Berlin com a Universidade de Göttingen e financiamento da DFG, codifica manifestos eleitorais: a versão atual, 2025a, cobre 67 países, 877 eleições, 1412 partidos e 5285 manifestos, com 3 297 326 quase-frases codificadas manualmente, e fornece o índice esquerda-direita RILE. O descarregamento é gratuito; algumas funcionalidades exigem registo.

O ParlGov define-se como «uma infraestrutura de dados com informação sobre democracias da UE e da OCDE entre 1900 e 2023», cobrindo partidos, resultados eleitorais, gabinetes e governos, eleições europeias e posições dos partidos; a versão mais recente, «ParlGov 2024», é de 12 de agosto de 2024. Há uma armadilha de atualidade a assinalar: o projeto anunciou estar a retirar-se, «Retiring from ParlGov», a partir de 1 de outubro de 2024 — a série tem um fim conhecido. Na metodologia, declare a versão exata e o corte temporal; nunca escreva como se o ParlGov fosse uma base viva e em atualização contínua.

O V-Dem (Varieties of Democracy), versão 16, publicada em março de 2026 sob licença Creative Commons Atribuição-Compartilha Igual (CC BY-SA) 4.0, é a referência para medir qualidade democrática: 531 indicadores V-Dem e 251 índices, mais 62 indicadores de outras fontes, com a versão central a incluir 93 sub-índices e os 179 indicadores que os compõem. É estruturado por país-ano; a cobertura temporal exata de cada indicador não vem resumida numa única página, por isso leia-a no codebook.

Já tem as fontes. Falta escrever o capítulo de dados.

O Tesify escreve consigo a secção de dados da tese de Ciência Política — a proveniência de cada ficheiro, a unidade de análise, o período coberto e as limitações que o júri vai perguntar — e mantém a citação de cada fonte coerente do capítulo à bibliografia. Registo gratuito.

Escrever o capítulo de dados da minha tese com o Tesify

Três armadilhas que custam capítulos inteiros de correções

Todas têm solução simples se forem antecipadas:

  • Confiar no primeiro número que aparece. O resultado lido na noite eleitoral no portal do MAI é provisório por definição, e mesmo o mapa da CNE pode ser retificado meses depois; a versão final da tese deve citar a versão mais recente do mapa oficial, com a data de consulta registada.
  • Tratar uma série longa como automaticamente comparável. Partidos fundem-se, coligam-se e mudam de nome, e os limites de círculos eleitorais e freguesias também mudam ao longo das décadas; uma série que atravesse essas mudanças tem uma quebra de série que precisa de ser assinalada, como descrito a propósito das quebras de série em dados oficiais.
  • Cruzar resultados eleitorais com dados socio-demográficos sem cuidar do nível territorial. Juntar resultados por freguesia a variáveis dos Censos exige que as duas fontes definam a freguesia da mesma forma no mesmo ano; os níveis geográficos dos Censos 2021 ensinam a fazer o join sem perder nem duplicar unidades territoriais.
  • Descarregar um ficheiro sem o avaliar. Nem todo o dataset aberto português está pronto para uma tese: verifique atualidade, documentação, granularidade e licença, seguindo a grelha para encontrar e avaliar um dataset aberto português.

Como citar e descrever a fonte na metodologia

Todo o dataset usado no capítulo de dados precisa de quatro elementos na metodologia, e a maioria das teses só escreve dois: a entidade produtora, ou seja, quem gerou os dados e não quem os disponibiliza — a CNE, não a Pordata, quando a origem é eleitoral; a designação exata do dataset ou indicador, tal como aparece na fonte; a versão ou a data de extração, porque uma série consultada em 2024 não é a mesma que a mesma série consultada em 2026; e a unidade e o período cobertos.

Uma frase-modelo que cumpre os quatro elementos: «Os dados de participação eleitoral foram extraídos da Pordata, indicador Taxa de abstenção, consultado em agosto de 2026, com a Comissão Nacional de Eleições como entidade produtora original, ao nível da Assembleia da República, para o período 1975–2025.» Escreva uma frase equivalente para cada fonte; é o que torna o capítulo verificável e defensável na discussão.

Perguntas frequentes

Qual é a diferença prática entre a CNE e o portal eleicoes.mai.gov.pt?

A CNE publica o resultado oficial, que pode demorar meses a fechar e ser retificado depois; o portal do MAI publica escrutínios provisórios, rápidos e com detalhe territorial, mas assumidamente sujeitos a alteração. Use o MAI para explorar, a CNE para citar o número final numa tese.

Posso citar a Pordata como fonte primária dos resultados eleitorais?

Não. A Pordata compila e harmoniza séries produzidas por outras entidades, neste caso a CNE ou o MAI. Cite a Pordata como fonte do ficheiro descarregado e identifique também a entidade produtora original na metodologia, para que o júri não confunda o intermediário com o produtor.

O ESS tem sempre uma ronda com Portugal incluído?

Não presuma que sim. A participação de cada país varia de ronda para ronda, e este artigo não confirma cobertura portuguesa em nenhuma ronda específica; verifique a lista de países participantes da ronda que pretende usar antes de desenhar a investigação à volta dela.

Os dados abertos da Assembleia da República servem para estudar partidos ou só deputados?

Servem para ambos, mas a granularidade nativa é o deputado e a iniciativa individual. Para estudar o partido enquanto unidade, agregue votações e iniciativas por grupo parlamentar; se a pergunta é sobre posição ideológica do partido, o Manifesto Project costuma ser mais direto.

O que é a inferência ecológica e porque aparece tanto neste tema?

É o erro de atribuir a indivíduos uma conclusão tirada de dados agregados por território — dizer que «os jovens votam em X» porque uma freguesia jovem votou em X. Aparece muito em Ciência Política porque os resultados eleitorais só existem, na prática, agregados por freguesia ou concelho.

O ParlGov ainda está a ser atualizado?

Não. O projeto anunciou o encerramento a partir de outubro de 2024 e a versão mais recente é «ParlGov 2024», de agosto desse ano. Uma tese que o use deve declarar essa versão e esse corte temporal, em vez de o tratar como uma base em atualização contínua.

Quantas fontes diferentes é normal usar num único capítulo de dados de Ciência Política?

Três a cinco é habitual: uma para resultados eleitorais, uma para a série longa de contexto, e uma ou duas específicas da pergunta, como um inquérito ou uma base comparativa. Mais do que isso, o risco não é a quantidade, é perder o rigor na descrição de cada fonte.

Em resumo

O ponto de partida do capítulo de dados não é a base de dados, é a unidade de análise: decida se estuda eleitores, territórios, partidos, deputados, iniciativas ou países, e só depois escolha a fonte que existe a esse nível. Use a CNE para o número oficial, o MAI para a rapidez territorial, a Pordata para a série longa, os dados abertos da Assembleia da República para o comportamento legislativo, os inquéritos para o indivíduo, e as bases comparativas para o país-ano. Declare sempre a entidade produtora, a designação exata, a versão e o período de cada fonte, e o capítulo aguenta as perguntas do júri.

Escreve a tua tese ou TCC com IA

Editor inteligente, bibliografia automática (APA e ABNT) e verificação antiplágio num só sítio. Mais de 9.000 estudantes já escrevem em metade do tempo.