Quanto Custa Publicar em Acesso Aberto (APC)? Estatísticas 2026

Quanto Custa Publicar em Acesso Aberto (APC)? Estatísticas 2026

Publicar um artigo científico em acesso aberto já não é uma opção — para investigadores financiados pela FCT, CAPES ou Horizon Europe, é frequentemente uma obrigação. O problema surge quando o investigador chega ao passo de submissão e depara com um formulário de Article Processing Charge (APC) que pode variar entre 150 € e mais de 9.500 €. O custo APC em acesso aberto é um dos fatores que mais influencia a escolha de revista em 2026, mas os dados reais sobre o que se paga — por editora, por disciplina e por país — raramente são apresentados de forma clara.

Este artigo agrega as estatísticas mais recentes sobre APCs, incluindo os acordos transformativos negociados pela b-on para Portugal (2025-2027) e pela CAPES para o Brasil, os modelos gold vs. hybrid, e os caminhos alternativos que permitem publicar sem custo direto. Os valores são referenciados com fontes verificáveis e atualizados a 2026.

Resposta rápida: O custo médio global de uma APC ronda os 2.000 € (≈ 1.626 USD), mas varia enormemente: desde 0 € em revistas diamond OA até 9.500 € na revista Nature. Em 2023, o total mundial gasto em APCs pelos seis maiores grupos editoriais ultrapassou os 2,5 mil milhões de dólares. Para investigadores portugueses afiliados a instituições b-on, e para brasileiros em instituições CAPES, acordos transformativos cobrem as APCs de revistas híbridas nas principais editoras — sem custo adicional para o autor.

O que é uma APC e como funciona

Uma Article Processing Charge (APC) é a taxa cobrada ao autor — ou à sua instituição ou financiador — para que um artigo aceite seja disponibilizado em acesso aberto imediato. A lógica é simples: em vez de o leitor pagar uma assinatura para aceder ao conteúdo, é o lado da produção (autor/financiador) que cobre os custos de edição, revisão tipográfica, alojamento e distribuição.

Existem dois momentos em que a APC é exigida: no modelo gold open access, a revista é integralmente de acesso aberto e a APC é a única fonte de receita editorial; no modelo hybrid open access, a revista é por assinatura mas permite que artigos individuais sejam tornados públicos mediante pagamento de uma APC geralmente mais elevada. Um terceiro modelo, o diamond open access (ou platinum OA), não cobra qualquer taxa ao autor — a publicação é financiada por consórcios, universidades ou fundações.

Para saber como navegar em todo o processo de submissão, consulte o guia Como Fazer Artigo Científico: do IMRaD à Submissão em Periódicos, que detalha os critérios de seleção de revista e os passos de submissão.

Valores médios de APC em 2026: dados por editora

Os dados do projeto OPUS — que estimou os pagamentos globais de APC aos seis maiores grupos editoriais entre 2019 e 2023 — mostram uma aceleração sem precedentes nos custos. A tabela seguinte apresenta os intervalos de APC publicados pelas principais editoras, com base nas suas tabelas de preços oficiais:

Editora APC mínima APC máxima APC típica (gold)
Elsevier ≈ 200 USD ≈ 11.400 USD 2.000–3.500 €
Springer Nature 1.490 € 9.500 € (Nature) 2.190–3.590 €
Wiley ≈ 1.200 € ≈ 4.800 € 2.400–3.200 €
MDPI 300 CHF 2.900 CHF 1.000–1.800 €
Frontiers 900 € 3.900 € 1.500–2.500 €
PLOS 1.100 USD 3.900 USD ≈ 1.500 €
Taylor & Francis ≈ 800 € ≈ 4.500 € 2.000–3.000 €

Fonte: tabelas de preços oficiais das editoras; OPUS Project (2024). Valores em EUR calculados à taxa de câmbio EUR/USD de 2025. APCs sujeitas a IVA em alguns países.

Dado-chave: A mediana global de APC ronda os 1.626 USD (≈ 1.500 €), mas os valores efetivamente pagos tendem a ser superiores aos preços de tabela, de acordo com o estudo do OPUS Project — o que reflete que as negociações institucionais nem sempre descem abaixo do preço de lista para todas as categorias de artigos.

Gold OA vs. Hybrid OA: diferença de custos

A distinção entre gold e hybrid tem impacto financeiro direto. Revistas integralmente em acesso aberto (gold) praticam, em média, APCs substancialmente inferiores às das revistas híbridas. O estudo do OPUS Project (2019-2023) confirmou que os APCs das revistas híbridas ultrapassam consistentemente os das revistas gold — um fenómeno conhecido como double dipping quando a editora continua a cobrar assinaturas institucionais enquanto recebe APCs por artigos individuais.

  • Revistas gold OA: APC média entre 1.000 € e 2.500 €; sem receita de assinaturas.
  • Revistas híbridas: APC média entre 2.500 € e 4.500 €; a editora mantém receita de assinaturas em paralelo.
  • Diamond OA: 0 € para o autor; financiamento por consórcios públicos ou universidades.

Em termos de volume de receita, o OPUS Project estimou que, em 2023, apenas MDPI, Elsevier e Springer Nature geraram conjuntamente mais de 1,8 mil milhões de dólares em receitas de APC — MDPI com 681,6 M$, Elsevier com 582,8 M$ e Springer Nature com 546,6 M$.

Variação por disciplina científica

Nem todas as áreas científicas enfrentam o mesmo custo de APC. A revisão de literatura publicada na Learned Publishing (Borrego, 2023) e dados do OPUS Project apontam para padrões consistentes:

Área científica APC típica (intervalo) Observações
Ciências da Saúde / Medicina 2.000–4.000 € APCs mais elevadas; forte presença de revistas híbridas de prestígio
Ciências Naturais / STEM 1.500–3.500 € Alta proporção de gold OA
Engenharia e Tecnologia 1.200–3.000 € IEEE Access é uma opção relevante; acordos CAPES cobrem IEEE
Ciências Sociais 1.000–2.500 € Maior presença de SciELO e revistas diamond; acesso à b-on cobre muitas revistas Sage
Humanidades 500–1.500 € Menor pressão de APC; forte tradição de livros e atas

Fonte: Borrego (2023), Learned Publishing; OPUS Project (2024). Valores indicativos — a APC final depende sempre da revista específica escolhida.

Acordos transformativos: Portugal (b-on) e Brasil (CAPES)

O mecanismo mais relevante para investigadores lusófonos em 2026 é o acordo transformativo read & publish, que integra a assinatura institucional com o direito de publicar em acesso aberto sem custo adicional para o autor. Estes acordos transferem o pagamento das APCs das verbas individuais de investigação para contratos negociados centralmente pelas bibliotecas nacionais.

Portugal — b-on (2025-2027)

Para o triénio 2025-2027, a b-on negociou acordos com 12 editoras, cobrindo publicação em acesso aberto em revistas híbridas sem custos para autores afiliados a instituições membro. Os principais acordos e quotas aprovadas são:

Editora Quota anual (artigos) Cobertura
Elsevier 2.519 Maior quota; revistas da Freedom Collection
Springer Nature / FCCN 716 Mais de 60 instituições elegíveis
Taylor & Francis 310 Revistas híbridas selecionadas
ACS 112 Química e áreas afins
RSC 61 Royal Society of Chemistry
SAGE Ilimitado (híbridas) + 20% desconto em revistas gold
ACM, Annual Reviews, IOP, Emerald Ilimitado / quotas partilhadas Condições variáveis; consultar lista b-on

Fonte: b-on Open Access (2025). Nota: as quotas da IEEE e Wiley estão esgotadas para revistas híbridas em 2025; o IEEE permite green OA via repositório com licença CC-BY.

Para investigadores portugueses: Se a vossa instituição é membro da b-on e o artigo é aceite numa revista elegível, a APC está coberta pelo acordo — sem formulário de reembolso individual. O critério essencial é que a afiliação principal à data de aceitação seja a instituição b-on.

Brasil — CAPES (Portaria 120/2024)

Em 30 de abril de 2024, a CAPES publicou a Portaria n.º 120/2024, que estabelece as regras de financiamento de APCs para investigadores em instituições públicas brasileiras. Os acordos transformativos vigentes cobrem as seguintes editoras:

  • Springer Nature — 435 instituições elegíveis; 1.763 títulos (1.738 revistas híbridas)
  • Elsevier — 434 instituições; 1.619 revistas híbridas da Freedom Collection
  • Wiley — 434 instituições; mais de 1.000 revistas, publicação ilimitada em OA
  • IEEE — em vigor desde novembro de 2024; inclui IEEE Access
  • ACS — Química e áreas afins; sem custo após aprovação em peer review
  • Royal Society Publishing — 260 instituições; dez revistas cobertas

Uma condição transversal a todos os acordos CAPES: o autor correspondente deve ter um ORCID válido registado na plataforma CAPES antes da submissão. Para saber mais sobre como publicar em revistas científicas indexadas com apoio de IA, consulte o guia Como Publicar Artigo Científico com IA: Guia Pós-Graduação 2026.

Alternativas sem APC: green OA, diamond OA e repositórios

A via mais económica para o acesso aberto é o green open access, que não exige qualquer pagamento ao autor. O investigador deposita uma versão do manuscrito — normalmente o accepted manuscript (pós-revisão, pré-formatação editorial) — num repositório institucional ou temático. Em Portugal, o principal repositório agregador é o RCAAP, que ultrapassa 1 milhão de documentos; pode ver onde depositar dados e manuscritos no guia de repositórios de dados de investigação lusófonos. No Brasil, o BDTD e o Portal CAPES cumprem função semelhante.

O diamond open access é outra alternativa de custo zero para o autor: revistas financiadas por sociedades científicas, universidades ou agências de financiamento público que não cobram nem leitores nem autores. No espaço lusófono, plataformas indexadas no diretório de revistas de acesso aberto PT/BR (DOAJ, SciELO, RCAAP) albergam centenas de revistas diamond OA em múltiplas disciplinas. O Brasil é um dos países com mais títulos indexados no DOAJ, com centenas de revistas brasileiras listadas.

Atenção ao embargo: Muitas editoras permitem o depósito em repositório, mas impõem períodos de embargo de 6 a 24 meses. Antes de depositar, verifique a política da editora em SHERPA/RoMEO ou em Diadorim (Brasil) para evitar violações contratuais.

Uma terceira alternativa é a publicação de preprints em servidores como arXiv, bioRxiv, SocArXiv ou SSRN — gratuita e imediata, embora sem revisão por pares. Muitos financiadores (FCT incluída) aceitam preprints como prova de disseminação durante o período entre submissão e aceitação.

Tendências globais 2019-2026

O estudo do OPUS Project sobre os pagamentos aos seis maiores grupos editoriais entre 2019 e 2023 traça uma trajetória inequívoca de aceleração:

Ano Total global de APCs (6 editoras) Variação
2019 910,3 M USD Base
2020 ≈ 1.100 M USD +21%
2021 ≈ 1.400 M USD +27%
2022 ≈ 1.900 M USD +36%
2023 2.538 M USD +34% (total 2019-2023: +179%)

Fonte: OPUS Project — Estimating Global APCs Paid to Six Publishers (2024).

Gráfico do OPUS Project mostrando a evolução anual das receitas globais de APC pagas a seis grandes editoras científicas entre 2019 e 2023, com crescimento de 910 milhões para 2,5 mil milhões de dólares
Evolução das receitas globais de APC (2019-2023) pagas a seis grandes grupos editoriais. Fonte: OPUS Project (2024)

O crescimento é impulsionado por três fatores convergentes: (1) o aumento do número de artigos publicados, (2) a indexação de APCs acima da inflação, e (3) a expansão dos acordos transformativos que tornam o gold OA mais acessível institucionalmente, aumentando a procura. A pergunta que a comunidade científica debate em 2026 é se estes acordos beneficiam genuinamente a ciência aberta ou se transferem simplesmente os custos das bibliotecas para os autores sem financiamento institucional — nomeadamente investigadores independentes, de países de baixo rendimento, ou de disciplinas com menor acesso a bolsas de financiamento.

Para contexto adicional sobre o processo de submissão e escolha de revista, consulte também o guia Como Fazer Artigo Científico: do IMRaD à Submissão em Periódicos, que inclui estratégias para selecionar revistas indexadas e cumprir requisitos de acesso aberto.

Perspetiva para o Brasil (2026): A biblioteca virtual da FAPESP e o Blog da Biblioteca da ECA-USP documentaram que os artigos publicados em acesso aberto tendem a receber mais citações do que artigos por assinatura — um argumento de retorno sobre investimento que justifica o custo das APCs para investigadores com acesso a financiamento. Para investigadores sem cobertura CAPES, o green OA via repositórios institucionais continua a ser a via prioritária.

FAQ — Perguntas Frequentes sobre Custo APC e Acesso Aberto

Qual é o custo médio de uma APC em 2026?

O custo médio global de uma APC ronda os 1.500–2.000 € (≈ 1.626 USD), mas a variação é enorme: desde 0 € em revistas diamond OA até 9.500 € na revista Nature. O valor efetivamente pago depende da editora, da área científica e da existência de acordo transformativo da instituição do autor.

Investigadores portugueses têm de pagar APCs do próprio bolso?

Geralmente não, desde que a instituição seja membro da b-on e a revista faça parte do acordo transformativo em vigor (2025-2027). A FCT também financia APCs para bolseiros com projetos ativos. Fora destas situações, o investigador pode recorrer ao green OA (depósito no RCAAP) sem qualquer custo.

O que é o modelo diamond open access e quem o financia?

No modelo diamond OA, nem autores nem leitores pagam qualquer taxa. A publicação é financiada por consórcios universitários, sociedades científicas ou agências públicas. A SciELO é o maior exemplo no espaço lusófono: publica centenas de revistas sem APC para autores. O Brasil tem centenas de revistas listadas no DOAJ, a maioria sem APCs.

Os acordos CAPES cobrem todas as universidades públicas do Brasil?

Os acordos com Springer Nature, Elsevier e Wiley cobrem 434-435 instituições elegíveis, o que representa a grande maioria das universidades e institutos federais. É necessário verificar a lista de instituições elegíveis no portal Periódicos CAPES e ter um ORCID registado na plataforma antes de submeter o artigo.

Posso publicar em acesso aberto sem pagar se a minha bolsa FCT acabou?

Sim. A via green OA (depósito no repositório institucional ou no RCAAP) está disponível para qualquer investigador, independentemente do financiamento ativo. A chave é verificar o período de embargo permitido pela editora antes de depositar. SHERPA/RoMEO e Diadorim são as ferramentas de referência para esta consulta.

O MDPI é uma boa opção para publicar em acesso aberto com APC baixa?

O MDPI tem APCs entre 300 CHF e 2.900 CHF, abaixo da média das grandes editoras. Contudo, foi o maior recetor global de APCs em 2023 (681,6 M USD), o que reflete o seu elevado volume de publicação. A qualidade varia significativamente entre revistas MDPI: algumas têm fator de impacto relevante, outras são criticadas por práticas de revisão acelerada. Verifique sempre o indexamento em WoS/Scopus e o fator de impacto da revista específica antes de submeter. O blog do Sistema de Bibliotecas da UCS disponibiliza uma introdução ao MDPI e às suas revistas para quem começa a explorar esta opção.

Precisa de preparar o seu manuscrito para submissão?

A Tesify ajuda investigadores a estruturar e rever artigos científicos em português, com suporte às normas APA, Vancouver e Chicago. Da tese ao artigo de revista, num único workflow.

Experimentar gratuitamente

Escreve a tua tese ou TCC com IA

Editor inteligente, bibliografia automática (APA e ABNT) e verificação antiplágio num só sítio. Mais de 9.000 estudantes já escrevem em metade do tempo.