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Como Redigir uma Tese de Medicina: Registo Científico, Tempo Verbal e Nomenclatura

Como Redigir uma Tese de Medicina: Registo Científico, Tempo Verbal e Nomenclatura

Uma tese de Medicina bem investigada pode perder pontos por um problema que nada tem a ver com o conteúdo clínico: um registo de escrita inconsistente, tempos verbais trocados entre secções, ou nomenclatura que mistura nomes comerciais de fármacos com denominações comuns internacionais. Estas convenções não são um capricho estilístico — são o que permite a um leitor especializado avaliar a precisão do trabalho sem ter de decifrar ambiguidades de linguagem.

Este guia percorre as convenções que mais frequentemente diferem entre um rascunho escrito à pressa e o texto final revisto de uma tese de Medicina: o tempo verbal correto por secção, a escolha entre voz ativa e passiva, a nomenclatura de fármacos e termos clínicos, e a forma padronizada de reportar estatística, do primeiro esboço à versão que segue para o júri.

Tempo verbal: qual usar em cada secção

A convenção científica mais consistente distingue o tempo verbal pela função da secção, não pelo estilo pessoal do autor:

  • Introdução e revisão de literatura — presente do indicativo para factos estabelecidos e amplamente aceites (“a hipertensão arterial é um fator de risco cardiovascular major”); passado para estudos específicos já publicados (por exemplo, “um estudo de coorte publicado em 2022 reportou uma prevalência de…”).
  • Métodos — passado, porque descreve o que foi efetivamente feito (“os participantes foram recrutados entre janeiro e junho de 2025”; “a pressão arterial foi medida com um esfigmomanómetro validado”).
  • Resultados — passado, pela mesma razão (“a média de idade foi de 62 anos”; “observou-se uma redução significativa”).
  • Discussão — mistura deliberada: passado para os seus próprios achados, presente para relacioná-los com o conhecimento estabelecido (“os nossos resultados sugerem… o que é consistente com o que a literatura atual indica”).

Misturar estes tempos dentro da mesma secção — por exemplo, descrever os métodos ora no passado ora no presente — é um dos erros de registo mais visíveis numa primeira leitura, mesmo antes de qualquer avaliação do conteúdo.

Ilustração conceptual da escolha de tempo verbal por secção numa tese de Medicina
O tempo verbal certo depende da função de cada secção, não do estilo pessoal do autor.

Voz ativa vs. voz passiva

A tradição médica anglo-saxónica tem vindo a favorecer a voz ativa (“recrutámos 120 participantes”) sobre a voz passiva impessoal (“foram recrutados 120 participantes”), por ser mais direta e reduzir ambiguidade sobre quem executou a ação. Em português europeu, a voz passiva pronominal (“recrutaram-se 120 participantes”) ou a passiva analítica (“foram recrutados 120 participantes”) continuam amplamente aceites e até preferidas em muitas revistas e faculdades portuguesas, sobretudo na secção de métodos. Verifique a convenção específica da sua faculdade ou revista-alvo antes de escolher — e, seja qual for a escolha, mantenha-a consistente ao longo de toda a tese.

Como manter o tempo verbal ao rever o texto

Uma técnica prática de revisão é ler cada secção isoladamente, ignorando o resto da tese, e sublinhar todos os verbos principais das frases. Se, dentro da mesma secção de métodos ou resultados, encontrar uma mistura de presente e passado sem uma razão clara (como a distinção entre facto estabelecido e achado próprio explicada acima), uniformize para o tempo esperado dessa secção. Esta revisão isolada por secção é mais eficaz do que uma leitura corrida de início ao fim, porque o ouvido acostuma-se rapidamente a inconsistências que persistem ao longo de várias páginas.

Nomenclatura de fármacos e termos clínicos

Use sempre a denominação comum internacional (DCI) de um fármaco — por exemplo, “paracetamol”, não o nome comercial “Ben-u-ron” — exceto quando o nome comercial é especificamente relevante para o ponto que está a fazer (por exemplo, ao comparar formulações concretas). Da mesma forma, prefira a terminologia anatómica e clínica estabelecida pela Terminologia Anatómica Internacional e pelas classificações de referência da sua especialidade (CID-11, DSM-5-TR, consoante a área), em vez de termos coloquiais ou abreviaturas não convencionadas.

Defina toda a abreviatura ou sigla na primeira ocorrência no texto, mesmo que pareça óbvia para um leitor da área — “pressão arterial sistólica (PAS)” na primeira menção, “PAS” depois. Um júri que precise de procurar o significado de uma sigla não definida perde tempo e confiança no rigor do texto.

Ilustração conceptual de usar a denominação comum internacional em vez do nome comercial de um fármaco
Use sempre a denominação comum internacional de um fármaco, salvo justificação específica.

Unidades e formatação numérica

Elemento Convenção
Unidades Sistema Internacional (SI) como referência; unidades clínicas tradicionais (mg/dL, mmHg) quando é essa a prática corrente da especialidade
Valores de p p < 0,05 ou o valor exato (p = 0,032), nunca “p foi significativo” sem o número
Intervalos de confiança Sempre acompanhando a estimativa pontual: “OR 2,4 (IC 95%: 1,1–5,2)”
Casas decimais Consistentes ao longo de toda a tese para a mesma variável (não alternar entre 62,3 e 62,34 anos)
Vírgula decimal Português europeu usa vírgula (62,3), não ponto (62.3) — atenção especial em tabelas copiadas de software estatístico em inglês

Exemplo ilustrativo: o mesmo parágrafo, mal escrito e bem escrito

Considere, a título ilustrativo, um parágrafo de métodos mal escrito: “Os pacientes são selecionados de forma aleatória e o Ben-u-ron era administrado, sendo que os resultados mostraram melhoria.” Este parágrafo mistura presente e passado sem critério, usa um nome comercial em vez da denominação comum internacional, e não especifica nenhum número que sustente “melhoria”. Reescrito segundo o registo esperado: “Os participantes foram selecionados por amostragem aleatória simples. Foi administrado paracetamol na dose de 1 g a cada 6 horas. Observou-se uma redução média de 2,3 pontos na escala visual analógica de dor (IC 95%: 1,8–2,8; p < 0,001).” A segunda versão usa o passado de forma consistente, a denominação comum internacional do fármaco, e reporta o resultado com os números que o sustentam.

Consistência entre o resumo, o corpo do texto e as tabelas

Um erro de registo particularmente penalizado é a inconsistência entre os números reportados no resumo (abstract), no corpo do texto e nas tabelas — por exemplo, o resumo indica uma média de 62 anos, mas a tabela de caracterização da amostra mostra 61,8. Antes da entrega final, confira sistematicamente que todos os valores numéricos citados em mais do que um local da tese coincidem exatamente, incluindo casas decimais e unidades.

Como reportar resultados estatísticos com o registo esperado

Reporte sempre a estatística de teste, os graus de liberdade quando aplicável, e o valor de p — nunca apenas “houve diferença significativa” sem os números que a sustentam. Para desfechos clínicos, acompanhe sempre a medida de associação (razão de risco, odds ratio, diferença de médias) do seu intervalo de confiança, não apenas do valor de p isolado — esta é a convenção atual recomendada pelas principais diretrizes de relato científico em Medicina (como o CONSORT para ensaios clínicos e o STROBE para estudos observacionais).

Como escolher entre termos técnicos e linguagem mais acessível

Uma tese de Medicina destina-se a um júri especializado, o que justifica o uso pleno da terminologia técnica da área — mas isso não significa escrever de forma desnecessariamente hermética. Prefira sempre a formulação mais precisa e mais curta que a terminologia estabelecida permite, evitando tanto o extremo de simplificar em excesso (perdendo precisão clínica) como o de encadear jargão sobre jargão quando uma frase mais direta comunicaria a mesma informação com igual rigor. Releia cada parágrafo perguntando se uma palavra mais simples comunicaria exatamente a mesma informação sem perda de precisão — se sim, use-a.

Erros mais comuns de registo numa tese de Medicina

  • Misturar tempos verbais dentro da mesma secção de métodos — corrija para um tempo consistente, normalmente o passado.
  • Usar nomes comerciais de fármacos sem necessidade — substitua pela denominação comum internacional, salvo justificação específica.
  • Reportar “significativo” sem o valor de p — nunca afirme significância estatística sem o número que a sustenta.
  • Trocar vírgula e ponto decimal — reveja tabelas copiadas de software em inglês antes de as incluir na tese em português.
  • Sigla não definida na primeira ocorrência — percorra o texto e confirme que toda a sigla foi definida antes de ser usada isoladamente.

Estas convenções aplicam-se com igual rigor a teses de revisão sistemática, estudos de caso clínico e ensaios originais — o tipo de desenho de estudo muda o que se reporta, mas não a exigência de consistência no registo, no tempo verbal e na nomenclatura ao longo de todo o documento, do resumo à última página do anexo. Reveja também o resumo em inglês (abstract), quando exigido, com o mesmo cuidado de tempo verbal e nomenclatura aplicado ao corpo da tese em português, porque as duas versões são frequentemente lidas lado a lado pelo júri.

Perguntas Frequentes

Devo escrever em primeira pessoa (“eu”) ou em voz impessoal?

A primeira pessoa do plural (“nós”, “recrutámos”) é hoje amplamente aceite e até preferida por muitas revistas médicas, por ser mais clara do que a voz passiva impessoal — mas confirme sempre a preferência da sua faculdade ou orientador antes de escolher.

Posso usar abreviaturas em inglês mesmo escrevendo em português?

Só quando não existe equivalente estabelecido em português ou quando a sigla em inglês é a forma universalmente reconhecida na especialidade (por exemplo, “ECG” é aceite em português; outras siglas exigem verificação). Na dúvida, use o termo português por extenso na primeira ocorrência.

Que estilo de citação é mais comum em teses de Medicina em Portugal?

O estilo Vancouver (numérico, sequencial) é o mais comum em Medicina, embora algumas faculdades exijam outro estilo — confirme sempre o regulamento específico da sua instituição antes de escolher.

Como reportar um resultado não significativo sem soar evasivo?

Reporte o valor exato de p e a medida de efeito com o intervalo de confiança, tal como faria para um resultado significativo — “não se observou associação significativa (OR 1,1; IC 95%: 0,8–1,5; p = 0,42)” é mais informativo e mais honesto do que simplesmente “não houve diferença”.

Devo usar o sistema métrico ou as unidades clínicas tradicionais?

Use a unidade que é convenção corrente na sua especialidade e no seu país — em Portugal, muitos exames laboratoriais reportam-se em unidades SI, mas algumas áreas clínicas mantêm unidades tradicionais; siga a prática do serviço ou da revista-alvo, e seja consistente ao longo de toda a tese.

É aceitável usar linguagem coloquial em citações diretas de pacientes?

Sim, quando a tese inclui excertos verbatim de entrevistas com pacientes (por exemplo, numa componente qualitativa), a citação deve manter a linguagem original do participante, devidamente identificada como citação direta — a exigência de registo científico aplica-se ao texto analítico do investigador, não às palavras textuais de quem foi entrevistado.

Como tratar valores de referência laboratoriais que variam entre laboratórios?

Cite sempre o intervalo de referência do laboratório concreto que gerou os dados, nunca um intervalo genérico de um manual — os valores de referência variam consoante o método analítico e o equipamento, e essa variação deve ficar explícita quando é relevante para a interpretação dos resultados.

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Para a metodologia de uma especialidade próxima, veja como escrever a metodologia de uma tese de Medicina Veterinária. Para a redação de secções específicas, compare com o guia de como redigir um abstract estruturado em inglês. Para outra área clínica, veja como escrever a metodologia de uma tese de Medicina Dentária.

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