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Como Definir Objetivos, Perguntas de Pesquisa e Hipóteses da Tese Passo a Passo 2026

Como Definir Objetivos, Perguntas de Pesquisa e Hipóteses da Tese Passo a Passo 2026

Saber como definir objetivos e perguntas de pesquisa de uma tese é o passo que separa um projeto académico sólido de um texto sem rumo. Muitos estudantes chegam à fase de redação com uma ideia vaga do que querem estudar, mas sem conseguir articular com precisão o que pretendem alcançar, o que querem responder e o que esperam confirmar. O resultado são capítulos desalinhados, revisores insatisfeitos e defesas em que o júri questiona a coerência interna do trabalho.

Este guia percorre cada etapa de forma sequencial, com exemplos concretos e ferramentas práticas — nomeadamente a taxonomia de Bloom para a escolha de verbos — para que saia desta leitura com os seus objetivos, perguntas e hipóteses redigidos e prontos a integrar na introdução da tese. Em 2026, os critérios de avaliação das provas de dissertação apertaram: coerência entre objetivos, metodologia e conclusões é um requisito explícito na maioria dos regulamentos de mestrado e doutoramento nacionais.

Resposta rápida: O objetivo geral define o resultado central que a investigação pretende alcançar (uma frase, verbo no infinitivo). Os objetivos específicos decompõem esse resultado em etapas mensuráveis. A pergunta de pesquisa transforma o problema em interrogação respondível. A hipótese é a resposta provisória e testável a essa pergunta. Os quatro elementos devem estar alinhados entre si e com a metodologia escolhida.

Passo 1 — Compreender o problema de investigação antes de tudo

Nenhum objetivo nasce no vazio. Antes de redigir uma única palavra dos seus objetivos, é necessário delimitar o problema de investigação: a lacuna de conhecimento, a contradição na literatura ou o fenómeno ainda não explicado que justifica a existência do seu trabalho.

Faça as seguintes perguntas a si próprio:

  • O que ainda não se sabe sobre este tema?
  • Que contradição existe entre estudos anteriores?
  • Que problema prático esta investigação pode ajudar a resolver?

A resposta a pelo menos uma destas perguntas é o embrião do seu objetivo geral. Se não consegue responder a nenhuma, regresse à revisão de literatura — é sinal de que ainda não conhece o campo suficientemente bem para delimitar um problema original.

Exemplo de problema delimitado:
“Os programas de mentoria em contexto universitário têm demonstrado impacto positivo na retenção de estudantes do ensino superior, mas a investigação sobre o seu efeito específico em cursos de engenharia em Portugal é escassa.”

Passo 2 — Formular o objetivo geral

O objetivo geral é uma frase única que enuncia o resultado central que a investigação pretende atingir. Deve ser amplo o suficiente para abarcar todo o trabalho, mas específico o suficiente para ser alcançável num prazo académico realista.

Regras de redação

  • Comece sempre com um verbo no infinitivo (analisar, avaliar, desenvolver, identificar).
  • Inclua o objeto de estudo (o quê).
  • Inclua o contexto (onde, quando, em quem).
  • Evite verbos vagos como “estudar”, “perceber” ou “ver”.
Exemplo — Objetivo geral bem formulado:
“Analisar o impacto de programas de mentoria par a par na taxa de retenção de estudantes de primeiro ano em cursos de engenharia de universidades públicas portuguesas entre 2022 e 2024.”

Note que o exemplo contém verbo (analisar), objeto (impacto de programas de mentoria par a par), população (estudantes de primeiro ano em cursos de engenharia), contexto geográfico (universidades públicas portuguesas) e período temporal (2022-2024). Todos estes elementos devem estar presentes.

Passo 3 — Desdobrar em objetivos específicos com verbos de Bloom

Os objetivos específicos são as etapas operacionais que, em conjunto, permitem alcançar o objetivo geral. A taxonomia de Bloom é a ferramenta mais utilizada para selecionar verbos adequados ao nível de complexidade cognitiva exigido em cada etapa.

Níveis de Bloom e verbos recomendados para teses

Nível Descrição Verbos exemplares
Lembrar Recuperar informação factual identificar, listar, enumerar, definir
Compreender Interpretar e explicar descrever, caracterizar, explicar, resumir
Aplicar Usar conhecimento em contexto aplicar, demonstrar, implementar, utilizar
Analisar Decompor e examinar relações analisar, comparar, diferenciar, examinar
Avaliar Emitir juízos fundamentados avaliar, criticar, justificar, validar
Criar Produzir algo novo desenvolver, construir, propor, formular

Para uma dissertação de mestrado, os objetivos específicos devem cobrir pelo menos os níveis “Analisar” e “Avaliar”. Para um doutoramento, espera-se que pelo menos um objetivo pertença ao nível “Criar”.

Exemplo — Objetivos específicos derivados:

  1. Caracterizar os programas de mentoria par a par existentes nas universidades públicas portuguesas (Compreender).
  2. Analisar a relação entre a participação em programas de mentoria e as taxas de aprovação no 1.º ano (Analisar).
  3. Comparar os resultados de retenção entre estudantes participantes e não participantes com perfis socioeconómicos equivalentes (Analisar).
  4. Avaliar a perceção dos estudantes sobre a eficácia dos programas através de questionário validado (Avaliar).

Mantenha entre três e cinco objetivos específicos. Abaixo de três sugere superficialidade; acima de cinco fragmenta excessivamente o trabalho e torna o capítulo de resultados difícil de estruturar.

Passo 4 — Derivar a pergunta de pesquisa principal

A pergunta de pesquisa é o espelho interrogativo do objetivo geral. Se o objetivo enuncia o que se quer alcançar, a pergunta formula o que se quer responder. Nos regulamentos de muitas universidades portuguesas ambas coexistem; noutros contextos (nomeadamente anglo-saxónicos) a pergunta substitui o objetivo geral.

Estrutura de uma boa pergunta de pesquisa

  • Deve ser respondível — com os dados e métodos que tem ao seu dispor.
  • Deve ser original — não ter resposta clara na literatura existente.
  • Deve ser delimitada — população, contexto e período identificáveis.
  • Deve ser aberta — não admite resposta “sim/não” (para investigação qualitativa e mista) ou, se admite, a direção da resposta não é óbvia (para investigação quantitativa).

Para questões mais complexas, podem derivar-se perguntas secundárias que correspondem a cada objetivo específico. Mantenha a pergunta principal e, se necessário, até três perguntas secundárias.

Exemplo — Pergunta principal e secundárias:

Principal: “Em que medida os programas de mentoria par a par influenciam a taxa de retenção de estudantes de primeiro ano em cursos de engenharia de universidades públicas portuguesas?”

Secundária 1: “Que características dos programas de mentoria estão associadas a maiores taxas de retenção?”
Secundária 2: “Como perceciona o estudante mentorado o impacto da mentoria no seu desempenho académico?”

A elaboração de uma boa pergunta científica é, ela própria, uma competência que se treina. O blog Sobrevivendo na Ciência, de Marco Mello, tem um artigo detalhado sobre a arte de elaborar uma pergunta científica que vale a pena ler antes de fechar a sua formulação.

Passo 5 — Construir as hipóteses (quando se aplicam)

A hipótese é uma resposta provisória, fundamentada na literatura, à pergunta de pesquisa. Não é uma suposição arbitrária: é uma afirmação que pode ser testada e potencialmente refutada pelos dados recolhidos.

Quando formular hipóteses?

  • Obrigatório: em investigação quantitativa com testes de inferência estatística (qui-quadrado, t-test, ANOVA, regressão).
  • Opcional mas recomendado: em investigação mista, quando existe teoria suficiente para antecipar resultados.
  • Geralmente não aplicável: em investigação puramente qualitativa exploratória (fenomenologia, grounded theory), onde se usam “proposições” em vez de hipóteses.

Tipos de hipótese

  • Hipótese de investigação (H1): afirma a relação esperada entre variáveis.
  • Hipótese nula (H0): afirma a ausência de relação (usada em testes estatísticos).
  • Hipótese alternativa (H1/Ha): contrapõe a hipótese nula no teste estatístico.
Exemplo — Hipóteses para o caso da mentoria:

H1: “Os estudantes de engenharia que participaram em programas de mentoria par a par no 1.º ano apresentam taxas de retenção significativamente superiores às dos estudantes que não participaram.”

H0: “Não existe diferença estatisticamente significativa na taxa de retenção entre estudantes participantes e não participantes em programas de mentoria par a par.”

Uma hipótese bem construída especifica sempre: a variável independente (mentoria par a par), a variável dependente (taxa de retenção) e a direção ou natureza esperada da relação (superior/positiva). O Mettzer tem um guia dedicado a diferenças entre objetivo geral e objetivo específico que complementa esta etapa com exemplos de várias áreas.

Passo 6 — Verificar a coerência interna do conjunto

Este é o passo que mais estudantes saltam e que mais júris assinalam. Antes de avançar para a redação da metodologia, aplique o teste de coerência em quatro pontos:

Verificação Pergunta a fazer
Objetivo ↔ Pergunta A resposta à pergunta permite alcançar o objetivo geral?
Objetivos específicos ↔ Pergunta principal Cada objetivo específico contribui para responder à pergunta?
Hipótese ↔ Metodologia Os métodos escolhidos permitem testar a hipótese formulada?
Conjunto ↔ Título O título da tese reflete o objetivo geral e a pergunta principal?

Se alguma resposta for negativa, reveja o elemento problemático antes de prosseguir. Uma incongruência nesta fase custa muito menos do que reescrever capítulos inteiros depois de ter recolhido dados.

Cadeia lógica da investigação

Problema de investigação — lacuna ou contradição na literatura
Objetivo geral — resultado central a alcançar (verbo infinitivo)
Objetivos específicos — etapas mensuráveis (verbos de Bloom)
Pergunta de pesquisa — formulação interrogativa, respondível e original
Hipótese — resposta provisória e testável (quando aplicável)
Metodologia — design que testa a hipótese e responde à pergunta

Cadeia lógica entre os elementos centrais da investigação. Cada nível deve ser coerente com os anteriores.

Passo 7 — Integrar na estrutura da tese

O objetivo geral e a pergunta de pesquisa surgem na introdução, tipicamente no último ou penúltimo parágrafo do capítulo, após a justificação e delimitação do problema. Os objetivos específicos podem aparecer em lista ou em prosa nesse mesmo capítulo. As hipóteses surgem no capítulo de metodologia, antes da descrição do design de investigação.

Para compreender onde cada elemento se encaixa na macroestrutura, consulte o guia sobre como organizar uma tese por capítulos. A colocação correta destes elementos contribui diretamente para a clareza percebida pelos avaliadores — e para a pontuação final.

Na redação da metodologia, cada objetivo específico deve ter um correspondente claro no design: instrumento de recolha de dados, técnica de análise ou fonte documental. Se não consegue fazer essa correspondência, o objetivo pode ser excessivamente vago ou inatingível com os recursos disponíveis. O guia sobre como escrever a metodologia da tese detalha esse processo de alinhamento.

Para investigações que envolvam revisão sistemática de literatura como parte do processo de definição do estado da arte que fundamenta os seus objetivos, o protocolo PRISMA 2020 é o referencial indicado — veja como aplicá-lo no artigo sobre como fazer pesquisa académica com PRISMA 2020.

Erros mais comuns e como evitá-los

  • Objetivo geral demasiado amplo: “Estudar o impacto da educação no desenvolvimento humano” não é alcançável numa dissertação. Delimite população, contexto e período.
  • Objetivos específicos que não derivam do geral: Verifique se cada objetivo específico é necessário para alcançar o objetivo geral. Se não for, elimine-o.
  • Pergunta com resposta óbvia na literatura: Se a resposta já existe e é consensual, o seu trabalho não é original. Reformule a partir de uma lacuna real.
  • Hipótese sem base teórica: Uma hipótese não é uma suposição livre — deve ser fundamentada em teoria ou evidência empírica prévia. Cite as fontes que sustentam a direção esperada.
  • Usar verbos proibidos nos objetivos: “Compreender”, “ver” e “saber” não são mensuráveis. Substitua sempre por verbos de Bloom operacionalizáveis.
  • Não rever depois de definir a metodologia: A escolha do método pode impor limites ao que é alcançável. Volte aos objetivos após fechar o design e ajuste se necessário.

Perguntas Frequentes

Qual é a diferença entre objetivo geral e objetivo específico?

O objetivo geral descreve o resultado central e mais amplo da investigação — o destino final do trabalho. Os objetivos específicos são as etapas intermédias, cada uma focada numa componente mensurável que, em conjunto, permitem alcançar o objetivo geral. Uma analogia útil: o objetivo geral é o destino da viagem, os específicos são as paragens necessárias para lá chegar.

Quantos objetivos específicos deve ter uma dissertação de mestrado?

O número adequado situa-se geralmente entre três e cinco objetivos específicos para uma dissertação de mestrado. Menos de três pode indicar que o trabalho é insuficientemente desenvolvido; mais de cinco tende a fragmentar a investigação e a dificultar a estrutura do capítulo de resultados. Cada objetivo deve ter um correspondente claro na metodologia.

Todas as teses precisam de hipóteses?

Não. As hipóteses são obrigatórias em investigação quantitativa que recorre a testes de inferência estatística. Em investigação qualitativa exploratória — como fenomenologia, grounded theory ou estudos de caso interpretativos — as hipóteses são substituídas por proposições ou simplesmente não se aplicam. Em investigação mista, a necessidade depende do design e dos objetivos de cada componente.

Como sei se a minha pergunta de pesquisa é original?

A originalidade de uma pergunta de pesquisa confirma-se através da revisão de literatura sistemática: se a resposta já existe, é consensual e foi replicada em contextos semelhantes ao seu, a pergunta não é original. Uma lacuna pode ser de contexto (nunca estudado nesta população), de método (nunca testado com este design), de período temporal (dados desatualizados) ou de perspetiva teórica (nunca interpretado por este quadro conceptual).

Que verbos de Bloom devo usar nos objetivos de uma tese de doutoramento?

Numa tese de doutoramento, pelo menos um objetivo deve usar verbos do nível mais elevado da taxonomia de Bloom — o nível “Criar”: desenvolver, construir, propor, formular, conceber, integrar. Os restantes objetivos podem usar verbos de níveis inferiores (analisar, avaliar, comparar), mas a contribuição original — o requisito central do doutoramento — tem de estar representada por pelo menos um objetivo de nível criativo.

Posso alterar os objetivos depois de ter recolhido os dados?

Formalmente, não — os objetivos fixam o âmbito do trabalho e alterar retroativamente o que se pretendia alcançar compromete a integridade científica. Na prática, pequenos ajustes de redação para maior precisão são aceitáveis desde que não alterem o sentido. O que não é aceitável é reformular objetivos para que “encaixem” nos resultados obtidos — esta prática é considerada má conduta científica. Se os dados revelaram algo inesperado e relevante, isso deve ir para as limitações ou sugestões de investigação futura.

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