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Como Analisar Dados Qualitativos da Tese com NVivo e ATLAS.ti Passo a Passo 2026

Como Analisar Dados Qualitativos da Tese com NVivo e ATLAS.ti Passo a Passo 2026

Tem as entrevistas transcritas, os diários de campo guardados e os documentos recolhidos — mas agora precisa de saber como analisar dados qualitativos da tese com NVivo e ATLAS.ti de forma rigorosa e defensável. O problema não é falta de dados: é transformar centenas de páginas de texto em temas coerentes que respondam à sua pergunta de investigação. Este guia percorre os cinco passos principais do processo — desde a importação até à exportação — e ajuda-o a escolher entre as duas ferramentas CAQDAS líderes de mercado em 2026.

A análise qualitativa assistida por computador não substitui o pensamento do investigador. O NVivo e o ATLAS.ti são ferramentas de organização e auditoria, não máquinas de interpretação. O que eles fazem é tornar o processo transparente, rastreável e muito mais eficiente quando o corpus tem dezenas de fontes. Se está a planear a sua dissertação de mestrado ou doutoramento, ler este guia antes de começar a codificar vai poupar-lhe semanas de retrabalho.

Resposta rápida: Para analisar dados qualitativos com NVivo ou ATLAS.ti, siga cinco passos: (1) importar as fontes para o projeto, (2) codificar os excertos relevantes, (3) agrupar os códigos em temas, (4) executar queries para comparar padrões entre participantes, e (5) exportar relatórios para integrar no capítulo de resultados. NVivo é mais indicado para métodos mistos e dados de questionários; ATLAS.ti tem vantagem em análise de discurso e fenomenologia.

NVivo vs ATLAS.ti: qual escolher?

Antes de começar a trabalhar, a escolha do software é uma decisão metodológica que deve aparecer justificada no capítulo de metodologia da sua tese. Eis os critérios práticos para 2026:

Critério NVivo (versão 14/15) ATLAS.ti (versão 24)
Tipo de análise Análise temática, métodos mistos, análise de conteúdo Grounded theory, análise de discurso, fenomenologia
Tipos de dados Texto, áudio, vídeo, imagens, dados de survey Texto, PDFs, imagens, vídeo, social media
Redes conceptuais Mapas de cluster e diagramas básicos Network views avançadas — ponto forte
Presença em PT/BR Muito forte — padrão na maioria das universidades Forte, especialmente em ciências sociais e saúde
Licença académica PT Disponível via b-on para instituições aderentes Disponível via Serviços de Informática de muitas IES
Interface Mais próxima do Microsoft Office — curva suave Mais modular e visual — requer adaptação inicial

Regra prática: se o seu orientador não especificou uma ferramenta, e a sua análise é temática ou de conteúdo com entrevistas semi-estruturadas, escolha NVivo. Se trabalha com grounded theory ou a sua orientadora usa ATLAS.ti nos seus próprios projetos, opte pelo ATLAS.ti — facilitará o feedback nas revisões.

Para o guia de transcrição que deve preceder esta etapa, consulte o artigo Como Transcrever Entrevistas para a Tese com IA: Guia 2026, que detalha as ferramentas de transcrição automática e os cuidados de anonimização antes de importar os ficheiros para o CAQDAS.

Passo 1 — Importar os dados para o projeto

O primeiro passo é criar um projeto e importar todas as fontes de dados. Trate esta etapa como a construção do arquivo da sua investigação: tudo deve estar organizado antes de começar a codificar.

No NVivo

  1. Abra o NVivo e crie um novo projeto (New Project). Dê um nome descritivo, por exemplo “Mestrado_ISCTE_2026”.
  2. No painel Files, clique em Import e selecione os ficheiros Word (.docx) das transcrições ou os PDFs dos documentos.
  3. Organize os ficheiros em pastas temáticas dentro da área Files: por exemplo, uma pasta “Entrevistas”, outra “Documentos Institucionais” e outra “Notas de Campo”.
  4. Para cada ficheiro, adicione Classifications (atributos dos participantes): sexo, idade, cargo, instituição. Estes atributos serão usados mais tarde para comparar padrões entre grupos.

No ATLAS.ti

  1. Crie um novo projeto em File > New Project.
  2. Vá a Documents > Add Documents e importe os ficheiros. O ATLAS.ti aceita Word, PDF, áudio, vídeo e imagens no mesmo projeto.
  3. Crie Document Groups para organizar por tipo de fonte ou por perfil de participante. Esta segmentação permitirá filtrar a análise mais tarde.
  4. Active o Document Manager para ter uma visão global de todas as fontes antes de começar a codificar.
Atenção — anonimização: antes de importar transcrições, substitua todos os nomes próprios, instituições identificáveis e referências geográficas por pseudónimos (P1, P2… ou nomes fictícios). Este passo é obrigatório para cumprir o RGPD e deve constar no capítulo de ética da sua metodologia.

Passo 2 — Codificação (criação de nós e códigos)

A codificação é o núcleo de qualquer análise qualitativa assistida por computador. Consiste em selecionar excertos de texto e atribuí-los a categorias temáticas — chamadas nós (nodes) no NVivo ou códigos (codes) no ATLAS.ti. Existem duas abordagens:

  • Codificação dedutiva: começa com uma lista de categorias derivadas do referencial teórico ou do guião da entrevista. É mais rápida e adequada quando o quadro conceptual está bem definido.
  • Codificação indutiva: as categorias emergem da leitura dos dados, sem pré-definição. É mais demorada, mas produz análises mais ricas e menos enviesadas pela teoria prévia.

Na prática, a maioria das teses de mestrado usa uma abordagem híbrida: começa com alguns códigos dedutivos (derivados das perguntas de investigação) e vai criando novos códigos indutivos à medida que lê os dados.

Codificação passo a passo no NVivo

  1. Abra um ficheiro de transcrição. Leia o documento inteiro uma primeira vez, sem codificar — é a fase de familiarização.
  2. Na segunda leitura, selecione com o rato um excerto relevante, clique com o botão direito e escolha Code Selection > Code to Existing Node (se o nó já existe) ou New Node (para criar um novo).
  3. Dê um nome descritivo ao nó — por exemplo, “Barreiras ao acesso à formação” em vez de “Formação”. Nomes específicos facilitam a interpretação posterior.
  4. Repita o processo para todas as fontes. Não tente ser exaustivo na primeira passagem: o processo é iterativo.
  5. Use coding stripes (View > Coding Stripes) para ver visualmente quais excertos estão codificados e sob que nós.

Codificação passo a passo no ATLAS.ti

  1. Abra um documento no editor. Selecione um excerto de texto relevante.
  2. Na barra lateral de códigos, clique em New Code ou escreva o nome do código e prima Enter. O excerto fica ligado ao código com uma barra de citação (quotation bar) na margem.
  3. Para reutilizar um código existente, arraste-o da lista para o excerto selecionado no documento.
  4. Use codificação in vivo (botão direito > Code In Vivo) quando a própria fala do participante serve como nome do código — uma técnica frequente em grounded theory.
  5. Active o Code Manager regularmente para ver todos os códigos criados, o número de citações associadas e identificar eventuais duplicados.

A análise temática de Braun e Clarke — o método mais citado na literatura académica para este tipo de trabalho — guia o processo de codificação em seis fases que pode acompanhar em detalhe no artigo Análise Temática de Braun e Clarke: Guia Prático para a Tese 2026.

Passo 3 — Agrupar códigos em temas

Depois de codificar todo o corpus, terá provavelmente dezenas de códigos. O próximo passo é agrupa-los em temas mais abrangentes — as categorias analíticas que aparecerão no capítulo de resultados.

No NVivo: hierarquia de nós

O NVivo permite organizar nós em hierarquias: um nó-pai representa o tema, e os nós-filhos são os subcódigos. Para organizar:

  1. No painel de nós, arraste um nó para dentro de outro para criar uma relação pai-filho.
  2. Use Explore > Cluster Analysis para identificar automaticamente quais os nós com padrões de co-ocorrência nos dados — isto ajuda a detetar temas não previstos inicialmente.
  3. Crie uma matriz de codificação (Matrix Coding Query) para ver como diferentes participantes (linhas) se distribuem pelos temas (colunas). Esta tabela pode entrar diretamente no capítulo de resultados.

No ATLAS.ti: redes conceptuais (Networks)

O ATLAS.ti é particularmente poderoso nesta fase graças às suas Network Views:

  1. No Code Manager, selecione vários códigos relacionados, clique com o botão direito e escolha Open Network.
  2. Na janela de rede, ligue os códigos com relações tipificadas: is part of, is associated with, contradicts, is cause of. Estas relações tornam-se parte da argumentação da sua análise.
  3. Crie Code Groups para agrupar tematicamente sem destruir a estrutura de códigos existente — equivalente aos nós-pai do NVivo, mas mais flexível.
  4. Exporte a rede como imagem para incluir como figura no capítulo de resultados ou discussão.
Exemplo de Network View no ATLAS.ti mostrando as relações entre códigos gerados durante a análise qualitativa de dados
Uma rede conceptual no ATLAS.ti visualiza as relações entre códigos gerados a partir dos dados. Fonte: ATLAS.ti — Qualitative Data Analysis Guide
Dica metodológica: mantenha um diário analítico (memo no NVivo ou comment no ATLAS.ti) em que regista as decisões que tomou durante a codificação — por que criou um código, por que o fundiu com outro, que dúvidas interpretativas ficaram por resolver. Este diário é uma prova de rigor metodológico e pode ser mencionado na secção de fiabilidade da sua metodologia.

Passo 4 — Executar queries e visualizações

Com os temas definidos, é hora de interrogar os dados de forma sistemática. As queries permitem responder a perguntas do tipo: “Que participantes mencionam mais o tema X?”, “Há diferenças entre homens e mulheres na forma como descrevem Y?”, “Quais os excertos onde os temas A e B co-ocorrem?”.

Queries úteis no NVivo

  • Text Search Query: pesquisa uma palavra ou expressão em todas as fontes e agrupa os excertos onde aparece. Útil para verificar se um conceito foi abordado consistentemente.
  • Coding Query: filtra excertos codificados sob um nó específico, com opção de cruzar com atributos dos participantes (por exemplo, “mostrar apenas excertos de participantes com mais de 10 anos de experiência”).
  • Matrix Coding Query: cruza dois conjuntos de nós numa tabela — por exemplo, os cinco temas principais (colunas) contra os dez participantes (linhas). O resultado mostra quantos excertos cada participante contribuiu para cada tema.
  • Word Frequency Query: gera uma nuvem de palavras ou lista de termos mais frequentes. Embora não substitua a análise interpretativa, é útil para identificar vocabulário dominante e temas emergentes não codificados.

Queries úteis no ATLAS.ti

  • Code-Document Table: em Analysis > Code-Document Table, gera uma matriz com a presença de cada código por documento. Exportável para Excel.
  • Co-occurrence Table: em Analysis > Code Co-occurrence, mostra quais os pares de códigos que aparecem nas mesmas citações — fundamental para identificar relações entre temas.
  • Query Tool: em Analysis > Query Tool, permite combinar códigos com operadores lógicos (AND, OR, NOT) para localizar excertos com combinações específicas de categorias.
  • Sentiment Analysis (ATLAS.ti 24): a versão 24 inclui análise de sentimento automática por IA. Use com precaução — é um ponto de partida para a análise, não uma conclusão.

Passo 5 — Exportar resultados para a tese

A exportação é a ponte entre o CAQDAS e o capítulo de resultados. O objetivo não é copiar o software para a tese — é extrair as evidências (citações, tabelas, redes) que sustentam a sua interpretação.

No NVivo

  1. Para exportar um nó com todos os excertos codificados: clique com o botão direito no nó > Export Node > escolha Word ou PDF. O relatório lista cada citação com a referência à fonte.
  2. Para exportar a matriz de codificação: clique com o botão direito na query > Export Query Results > Excel. Esta tabela pode entrar diretamente na tese como quadro de resultados.
  3. Para exportar um mapa de cluster: Explore > Cluster Analysis > Export Chart.

No ATLAS.ti

  1. Para exportar um relatório de código: Reports > Code Report > selecione os códigos > gere em Word.
  2. Para exportar a rede conceptual: na janela de rede, File > Export > PNG ou PDF.
  3. Para exportar a tabela de co-ocorrência: Analysis > Code Co-occurrence > Export para Excel.

Ao escrever o capítulo de resultados, selecione citações exemplares — os excertos que melhor ilustram cada tema — e nunca cite em bloco todo o output do software. Para saber como estruturar este capítulo, consulte o guia Como Escrever o Capítulo de Resultados da Tese 2026. Se pretender complementar a análise qualitativa com dados quantitativos, o artigo Como Analisar Dados Quantitativos da Tese com SPSS e Jamovi: Guia Passo a Passo 2026 explica o processo equivalente para abordagens numéricas.

Erros comuns na análise qualitativa com CAQDAS

Depois de acompanhar centenas de mestranda/os no processo de análise, estes são os erros mais frequentes — e como evitá-los:

  • Criar demasiados códigos. Cinquenta códigos para seis entrevistas é sinal de hipersegmentação. Comece com menos categorias, mais abrangentes, e subdivida apenas quando os dados justificarem.
  • Codificar sem reler os dados globalmente primeiro. Saltar para a codificação sem uma leitura inicial de familiarização resulta em categorias inconsistentes e interpretações superficiais.
  • Confundir tema com resposta à pergunta. Um tema não é “os entrevistados falaram sobre motivação”. É uma construção interpretativa: “A motivação intrínseca como motor de adesão, em contraste com os constrangimentos organizacionais”.
  • Não usar memos. O diário analítico (memos no NVivo, comments no ATLAS.ti) é a memória metodológica do processo. Sem ele, é impossível reconstruir as decisões de codificação na secção de fiabilidade.
  • Apresentar capturas de ecrã do software como “resultados”. As imagens do NVivo ou ATLAS.ti são auxiliares de análise, não resultados em si. O que vai para a tese são as interpretações sustentadas pelas citações extraídas.

Para aprofundar como conduzir entrevistas antes de chegar a esta fase de análise, o guia do Mettzer sobre entrevista como técnica de recolha em pesquisa qualitativa cobre os cuidados metodológicos desde a preparação do guião até ao momento da transcrição. Se trabalhar com ATLAS.ti especificamente, o guia completo disponível em Tese Mestrado sobre ATLAS.ti detalha a interface e as funcionalidades para investigadores em Portugal.

Para quem trabalha com análise temática reflexiva como enquadramento metodológico, o guia sobre Análise Temática de Braun e Clarke disponível neste blogue explica as seis fases do método em detalhe e como articula com o uso de CAQDAS.

Perguntas frequentes

Qual é a diferença entre NVivo e ATLAS.ti para análise qualitativa?

NVivo é mais indicado para investigadores que trabalham com métodos mistos ou dados de questionários, e tem maior presença nas universidades portuguesas e brasileiras. ATLAS.ti tem vantagem nas análises de discurso, fenomenologia e grounded theory, com redes conceptuais (network views) mais poderosas. Ambos têm versões académicas disponíveis via b-on em Portugal.

O que é codificação qualitativa e como funciona no NVivo?

Codificação (coding) é o processo de selecionar um excerto de texto, entrevista ou documento e atribuí-lo a uma categoria temática — chamada “nó” (node) no NVivo. O investigador lê os dados, identifica passagens relevantes para a pergunta de investigação e agrupa-as em nós. A codificação pode ser dedutiva (categorias pré-definidas pelo referencial teórico) ou indutiva (categorias emergem dos próprios dados).

Quantas entrevistas são necessárias para a análise qualitativa?

Não existe um número fixo. O critério metodológico correto é a saturação teórica: quando novas entrevistas deixam de acrescentar temas ou perspetivas novas, o corpus está saturado. Em teses de mestrado, 8 a 15 entrevistas semi-estruturadas são habituais, mas o mais importante é justificar o critério ao orientador e na metodologia.

Posso usar o NVivo ou ATLAS.ti gratuitamente?

Ambos oferecem versões de avaliação gratuita por tempo limitado (14 a 30 dias). Em Portugal, investigadores de instituições aderentes à b-on podem aceder ao NVivo com licença académica. Muitas universidades disponibilizam licenças de ATLAS.ti através dos seus serviços de informática. Verifique junto dos Serviços de Informática da sua instituição antes de comprar.

Como exportar os resultados do NVivo ou ATLAS.ti para a tese?

No NVivo, aceda a Export > Export Items e escolha Word, Excel ou PDF. Pode exportar nós com excertos codificados, relatórios de frequência de código ou matrizes de comparação. No ATLAS.ti, use Reports > Code Report ou Tools > Export para gerar relatórios similares. O formato mais comum para inserir na tese é Word, que permite copiar as tabelas e citações diretamente para o capítulo de resultados.

É obrigatório usar software CAQDAS para análise qualitativa?

Não. O software facilita a gestão de grandes volumes de dados e a auditoria do processo, mas a análise manual em tabelas Word ou Excel é perfeitamente aceite em teses de mestrado, especialmente com corpora mais reduzidos. A decisão deve constar na metodologia, justificando o instrumento escolhido.

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