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Adaptar e Validar uma Escala Estrangeira para Português Europeu na Tese de Psicologia (2026)

Adaptar e Validar uma Escala Estrangeira para Português Europeu na Tese de Psicologia (2026)

Muitos dos instrumentos usados em Psicologia foram criados em inglês e nunca foram estudados com participantes portugueses. Se o seu instrumento está nessa situação, a tese tem de incluir um estudo de adaptação e validação: traduzir não basta, é preciso mostrar que a versão em português europeu mede o mesmo construto e que os resultados são fiáveis na sua população. Este guia explica quando precisa de adaptar, que etapas seguir, que evidências de validade e de fiabilidade deve relatar e como estruturar a secção, com exemplos de estudos portugueses publicados.

Primeiro decida: usar, adaptar ou construir

Antes de começar uma adaptação, confirme que ela é necessária. A decisão segue três perguntas, nesta ordem:

  1. Existe já uma versão portuguesa europeia com estudo de validação? Se sim, use-a e cite o estudo. O artigo sobre escalas e instrumentos de Psicologia validados para português europeu ajuda a procurar. Adaptar de novo uma escala já adaptada é trabalho desnecessário e o júri pode questioná-lo.
  2. Só existe a versão original, ou uma versão brasileira? Então a adaptação é o caminho. Uma versão validada no Brasil não dispensa o estudo para Portugal, porque o vocabulário, as expressões e as normas de resposta podem diferir.
  3. Não existe instrumento para o construto? Só então se justifica construir um novo, o que é um projeto maior do que a maioria das teses de mestrado comporta.

Se optar por adaptar, a tese pode ter duas formas: o estudo de adaptação é o objetivo principal (e a tese é um estudo de validação) ou é o passo prévio de um estudo maior, em que a escala adaptada é usada para testar hipóteses. Em ambos os casos, o capítulo de metodologia tem de descrever o processo de adaptação.

Adaptar não é traduzir

Num artigo de revisão publicado na revista Paidéia, Borsa, Damásio e Bandeira (2012) lembram que os termos “adaptação” e “tradução” são distintos: a adaptação inclui todos os processos que garantem a adequação cultural do instrumento, além da simples tradução, e a tradução é apenas a primeira etapa. Ao adaptar, consideram-se aspetos culturais, idiomáticos, linguísticos e contextuais. Os mesmos autores referem que, desde 1992, a International Test Commission trabalha numa proposta de diretrizes para a tradução e adaptação transcultural de instrumentos psicológicos, e lembram que o processo exige tanto evidências de equivalência semântica dos itens como propriedades psicométricas adequadas da nova versão.

Outra referência muito citada para o processo, sobretudo em instrumentos de autorrelato na saúde, é o artigo de Beaton, Bombardier, Guillemin e Ferraz (2000), publicado na revista Spine (vol. 25, n.º 24, pp. 3186–3191), com diretrizes para a adaptação transcultural de medidas de autorrelato. Leia-o no original e cite a versão que seguiu.

As etapas do processo de adaptação

Segundo a revisão de Borsa e colegas, a literatura indica cinco etapas essenciais: tradução do instrumento da língua original para a língua-alvo, síntese das versões traduzidas, análise da versão sintetizada por juízes especialistas, retroversão (tradução de volta para a língua original) e estudo-piloto. Os autores propõem uma sequência de seis etapas, que acrescenta a avaliação do instrumento pela população-alvo, e discutem uma sétima, a avaliação da estrutura fatorial:

Etapa O que fazer O que registar na tese
1. Tradução Traduzir os itens, as instruções e a escala de resposta para português europeu Quem traduziu e com que perfil; versões obtidas
2. Síntese Reunir as traduções numa versão única, resolvendo as diferenças Decisões tomadas e porquê
3. Juízes especialistas Peritos avaliam a clareza e a equivalência dos itens com o original Número e perfil dos juízes; critérios; alterações
4. População-alvo Participantes semelhantes à amostra avaliam a compreensão dos itens Dificuldades relatadas e ajustes
5. Retroversão Traduzir a versão portuguesa de volta para a língua original e comparar com o original Discrepâncias e como foram resolvidas
6. Estudo-piloto Aplicar a versão a uma amostra pequena e rever problemas práticos Amostra, tempo de resposta, problemas
7. Estrutura fatorial Verificar se a estrutura dos itens se mantém, com análise fatorial exploratória e/ou confirmatória Índices de ajustamento, cargas fatoriais, decisões

Os autores acrescentam que importa também discutir as alterações propostas com o autor do instrumento original. Faça-o por escrito e guarde a resposta, porque a autorização de uso e de adaptação é uma condição para publicar a versão. O artigo sobre usar na tese uma escala ou questionário de outro autor descreve o pedido.

Mesa com duas versões impressas de um questionário de psicologia lado a lado
A adaptação compara cada item da versão original com a versão portuguesa, passo a passo.

Que evidências relatar: três exemplos de estudos portugueses

O que se reporta num estudo de validação é relativamente estável. Os três exemplos seguintes, todos publicados em revistas portuguesas, mostram o tipo de informação que o júri espera:

  • Moura e Costa (2016), Análise Psicológica, vol. 34, n.º 1, pp. 87–99. Adaptação e validação da versão portuguesa da Teacher Interpersonal Self-Efficacy Scale (Brouwers e Tomic, 2001), com 24 itens e três fatores, em 658 professores do Ensino Básico, Secundário e Educação Especial. A análise fatorial confirmatória mostrou o ajustamento da estrutura original na amostra portuguesa, e a consistência interna e a estabilidade temporal das três dimensões tiveram valores adequados.
  • Ferreira, Fernandes, Haase e Santos (2009), Psychologica, 51, pp. 251–281. Adaptação do Minnesota Satisfaction Questionnaire – Short Form à população portuguesa. Os resultados mostraram consistência interna elevada, estabilidade teste-reteste adequada e validade convergente com o questionário S20/23 de Meliá e Peiró (1989); a análise fatorial exploratória apontou dois fatores.
  • Dinis, Gouveia, Duarte e Castro (2011), Psychologica, pp. 175–202. Validação da versão portuguesa da Escala de Respostas Ruminativas, versão reduzida, numa amostra da população geral. A análise fatorial confirmou uma estrutura de duas dimensões e as dimensões tiveram relações diferentes com medidas de psicopatologia.

Repare no padrão: estrutura fatorial, consistência interna, estabilidade temporal (teste-reteste) e validade convergente ou de critério com outro instrumento. Esse é o conjunto mínimo; acrescente outros conforme o instrumento e o objetivo.

Vocabulário: fiabilidade, validade e como relatar

Em Portugal usa-se “fiabilidade” (e no Brasil, “confiabilidade”), o que é um bom exemplo de diferença que a versão adaptada deve respeitar. Para usar os termos de medida com consistência, uma referência é a taxonomia consensual de propriedades de medida da iniciativa COSMIN (Mokkink e colaboradores, 2010, Journal of Clinical Epidemiology, vol. 63, pp. 737–745), obtida num estudo Delphi internacional com quatro rondas escritas, para instrumentos de saúde com resultados reportados pelos doentes. Se o seu instrumento é de saúde, pode usá-la para organizar o que reporta; noutras áreas, use-a como apoio terminológico.

Para a fundamentação geral do que significam validade e fiabilidade e das opções para as medir, leia o guia sobre validade e confiabilidade na investigação. Para a parte prática de pré-teste e do alfa de Cronbach, veja como validar um questionário da tese; para as análises estatísticas da estrutura, a análise fatorial exploratória no SPSS mostra o procedimento.

Amostras: uma para o piloto, outra para a validação

Use amostras diferentes para cada fim sempre que possível. O estudo-piloto serve para detetar problemas de compreensão e de tempo de resposta, com uma amostra pequena. O estudo de validação precisa de uma amostra maior, que depende do número de itens e do tipo de análise. Se pretende fazer análise fatorial exploratória e depois confirmatória, o ideal é usar subamostras distintas, para que a confirmação não seja feita com os mesmos dados que geraram a estrutura. Descreva a amostra com as variáveis sociodemográficas relevantes e discuta a generalização: uma escala validada com estudantes universitários não fica automaticamente validada para adultos em contexto clínico.

Como estruturar a secção na tese

  1. Instrumento original. Autor, ano, número de itens, dimensões, escala de resposta, propriedades psicométricas originais.
  2. Procedimento de adaptação. As etapas que seguiu, com a referência metodológica (por exemplo, a de Borsa e colegas ou a de Beaton e colegas) e as decisões tomadas.
  3. Participantes. Amostra do estudo-piloto e da validação, critérios de inclusão, recrutamento.
  4. Procedimentos estatísticos. Análises da estrutura, da fiabilidade e da validade, com o software.
  5. Resultados. Estrutura obtida, comparação com a original, fiabilidade de cada dimensão, correlações com outros instrumentos.
  6. Discussão. O que a versão portuguesa mede, diferenças face à original, limitações e usos recomendados.

Dez perguntas que o júri costuma fazer

  1. Porque adaptou em vez de usar uma escala já existente?
  2. Quem traduziu e com que formação?
  3. Como resolveu as diferenças entre as traduções?
  4. Quantos juízes avaliaram os itens e com que critérios?
  5. O que mudou na retroversão?
  6. Como escolheu a amostra e porque é adequada?
  7. A estrutura fatorial portuguesa coincide com a original? Se não, porquê?
  8. Que valores de fiabilidade obteve e como os interpreta?
  9. Que evidência tem de validade convergente ou de critério?
  10. Em que populações pode usar a escala e em quais não?
Investigadora a analisar os dados de uma escala num computador
Cada decisão da adaptação deve ficar registada, para a poder justificar na defesa.

Problemas de adaptação cultural: o que costuma exigir decisão

Algumas dificuldades repetem-se em quase todas as adaptações e convém antecipá-las nas etapas de síntese e de juízes:

  • Expressões idiomáticas. Itens com metáforas ou expressões da língua original que não têm equivalente direto exigem uma frase com o mesmo sentido, não uma tradução literal.
  • Referências culturais. Exemplos de atividades, instituições ou situações que não existem em Portugal têm de ser substituídos por outros equivalentes, com a concordância do autor.
  • Forma de tratamento. Em português europeu, escolha entre “tu” e “você” ou uma forma impessoal em função da população, e mantenha-a em todos os itens e nas instruções.
  • Escalas de resposta. Rótulos como “às vezes” ou “frequentemente” não têm o mesmo peso em línguas diferentes; verifique se a ordenação e a distância entre as opções se mantêm.
  • Itens negativos e invertidos. A negação pode mudar de sentido na tradução; confirme que o item invertido continua a ser invertido.
  • Termos clínicos. Em instrumentos de saúde, use a terminologia adotada pelos profissionais em Portugal, não a de outro país de língua portuguesa.

Registe cada decisão num quadro com três colunas (item original, versão portuguesa, razão da alteração). Esse quadro é o seu melhor aliado na defesa, porque mostra que as mudanças foram deliberadas e não arbitrárias.

Como redigir o parágrafo do procedimento (modelo ilustrativo)

O texto abaixo é um modelo inventado, com dados fictícios, para mostrar o tom e a ordem. Adapte-o ao que realmente fez e não reproduza números que não sejam os do seu estudo.

“A escala foi traduzida para português europeu por dois tradutores independentes, com formação em Psicologia e conhecimento da língua original. As duas versões foram comparadas e reunidas numa versão única pela equipa de investigação. Esta versão foi avaliada por um painel de juízes com experiência na área, que apreciaram a clareza e a equivalência de cada item com o original. A versão resultante foi aplicada a um pequeno grupo de participantes com características semelhantes às da amostra, para verificar a compreensão dos itens. Em seguida, foi feita a retroversão por um tradutor que não conhecia a escala original, e as diferenças foram discutidas com o autor do instrumento. Por fim, realizou-se um estudo-piloto, antes da recolha de dados da amostra final.”

Depois deste parágrafo, adicione os números do seu estudo: quantos juízes, quantos participantes no pré-teste e no piloto, quantos itens foram alterados e quais. Um parágrafo sem números e sem decisões concretas parece um modelo copiado; um parágrafo com os seus números mostra rigor.

Erros frequentes numa adaptação de escala

  • Traduzir sem retroversão nem juízes e chamar-lhe “validação”.
  • Usar a versão brasileira sem verificar o vocabulário e as normas para Portugal.
  • Não pedir autorização ao autor do instrumento original.
  • Relatar só o alfa de Cronbach como se fosse prova de validade.
  • Usar a mesma amostra para descobrir e confirmar a estrutura fatorial.
  • Alterar itens ou escala de resposta sem o declarar.
  • Generalizar a validade a populações que não fizeram parte do estudo.

Checklist antes de entregar

  • Existe justificação para adaptar e não usar uma versão portuguesa já validada.
  • Autorização do autor do instrumento original guardada.
  • Etapas de tradução, síntese, juízes, população-alvo, retroversão e piloto descritas.
  • Amostras do piloto e da validação descritas, com generalização discutida.
  • Estrutura fatorial, fiabilidade e validade convergente ou de critério reportadas.
  • Limitações e usos recomendados da versão portuguesa declarados.

Perguntas Frequentes

Preciso de adaptar a escala se já existe versão brasileira?

Em geral sim, se a sua amostra é portuguesa. O português do Brasil e o português europeu diferem em vocabulário, expressões e registo, e a validação numa amostra brasileira não garante a validade na portuguesa. Faça pelo menos uma verificação linguística e um estudo de validação com a sua amostra.

Quantos juízes especialistas são necessários?

Não há um número universal. Siga a referência metodológica que escolheu, justifique o número e descreva o perfil dos juízes, que devem conhecer o construto e a língua.

Posso fazer a validação de uma escala numa tese de licenciatura?

Depende da faculdade e do orientador. Um estudo completo exige uma amostra grande e várias análises; numa licenciatura pode ser mais realista usar uma escala já validada ou fazer um estudo preliminar de adaptação.

O alfa de Cronbach chega para provar que a escala é válida?

Não. O alfa é uma medida de consistência interna, parte da fiabilidade. A validade exige outras evidências, como a estrutura fatorial e a relação com outros instrumentos.

Preciso de aprovação ética para o estudo de adaptação?

Sim, se recolhe dados de participantes. Siga o procedimento da sua instituição e use o código deontológico da sua área; o consentimento informado deve descrever o objetivo do estudo de adaptação.

Posso publicar a versão que adaptei?

Pode, desde que tenha a autorização dos detentores dos direitos do instrumento e cumpra as condições da revista. Peça autorização antes de iniciar o estudo.

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