Quantos Abandonam o Mestrado e o Doutoramento em Portugal? Dados de Desistência na Fase de Tese 2026 (DGEEC)
No ano letivo 2025/2026, Portugal contava com 447 680 estudantes inscritos no ensino superior — o valor mais alto da última década, de acordo com dados do Inquérito de Inscritos da DGEEC divulgados em abril de 2026. Destes, 122 922 estavam matriculados no mestrado de 2.º ciclo, mais 7 361 do que no ano anterior (+6,4 %), e o doutoramento registou mais 1 121 inscritos face a 2024/2025. Os números falam de crescimento. O que raramente aparece nos comunicados é o reverso: quantos desses estudantes abandonam o mestrado e o doutoramento em Portugal antes de concluir a dissertação ou defender a tese — e que dados temos para medir esse fenómeno?
A resposta exige cruzar fontes heterogéneas: o portal Infocursos da Direção-Geral de Estatísticas da Educação e Ciência (DGEEC), o estudo Doutoramentos em Portugal (Silva e Sarrico, DGES, junho de 2023), os indicadores da OCDE Education at a Glance 2025 e dados institucionais avulsos. O resultado é uma fotografia incompleta mas reveladora — em especial para quem abandona já na fase de redação da tese, o fenómeno que na literatura anglo-saxónica se designa all but dissertation (ABD): tudo feito, menos a tese entregue.
Resposta rápida — principais dados 2026
- Doutoramento sem bolsa FCT: taxa de abandono de 41 %, tempo médio de conclusão de 81 meses (Silva & Sarrico, DGES, 2023).
- Doutoramento com bolsa FCT: taxa de abandono de 14 %, tempo médio de conclusão de 56 meses (DGES, 2023).
- Mestrado 2.º ciclo (após 1.º ano): desistência em queda pelo 2.º ano consecutivo em 2022/2023; dados de fase de dissertação não publicados de forma agregada (DGEEC/Infocursos).
- A desistência na fase de tese é o dado que mais falta nas estatísticas nacionais.
1. Contexto: inscrições em máximo histórico
O aumento de inscrições na pós-graduação é uma tendência estrutural em Portugal. Entre 2014/2015 e 2025/2026, o mestrado de 2.º ciclo cresceu de forma consistente, tornando-se o ciclo com maior expansão relativa no período mais recente. Em 2025/2026, os 122 922 mestrandos inscritos representam o valor mais alto registado desde que a DGEEC começou a publicar dados comparáveis (ECO, abril de 2026, com base no Inquérito de Inscritos da DGEEC).
O doutoramento, embora menor em escala absoluta, também cresceu: mais 1 121 inscritos em 2025/2026 face ao ano anterior, numa tendência de recuperação após anos de estagnação associados à retração do financiamento FCT. Em sentido contrário, a licenciatura recuou para 270 830 inscritos (menos 4 445 do que em 2024/2025), refletindo fatores demográficos e a absorção de diplomados pelo mercado de trabalho.
Este crescimento pós-graduado torna mais urgente perceber o que acontece depois da entrada. Para um enquadramento mais alargado sobre abandono geral no ensino superior português, consulte também Abandono no Ensino Superior em Portugal: Dados e Estatísticas 2026.
2. O que mede a DGEEC — e o que não mede
O portal Infocursos (infocursos.medu.pt), gerido pela DGEEC em parceria com a DGES, é a principal fonte pública de dados sobre percursos académicos em Portugal. O indicador central de abandono é a taxa de desistência após o 1.º ano: percentagem de novos inscritos num curso que, no ano letivo seguinte, não apresentam qualquer inscrição na mesma instituição nesse mesmo curso.
Este indicador tem três limitações críticas no contexto da pós-graduação:
- Capta apenas o abandono precoce. Quem completa a parte curricular do mestrado (1.º ano) e abandona durante a dissertação (2.º ano) não entra nesta contagem como «desistente» — entra, quando muito, em «não conclusão» depois de determinado prazo.
- Não distingue o tipo de saída. Mudanças para outra instituição (transferências) e desistências definitivas são contabilizadas separadamente, mas o agregado publicado nem sempre desagrega estas categorias de forma clara.
- O doutoramento não tem dados de fase publicados. A DGEEC mantém o Registo de Teses de Doutoramento em Curso, que permite acompanhar inscrições ativas, mas a taxa de abandono por coorte e por fase (curricular versus redação) não é publicada regularmente no portal Infocursos para o 3.º ciclo.
Estas limitações estruturais tornam o fenómeno ABD — doutorandos que concluíram toda a formação mas não entregam a tese — praticamente invisível nas estatísticas nacionais.
3. Mestrado 2.º ciclo: dados de desistência disponíveis
A tabela seguinte reúne os dados publicados pelo Infocursos/DGEEC para o ano letivo 2022/2023, os mais recentes disponíveis no conjunto de relatórios de síntese consultados à data de redação deste artigo (junho de 2026).
| Ciclo / Grau | Taxa de desistência | Tendência | Fonte |
|---|---|---|---|
| CTeSP | 26,9 % | ↑ Elevada | DGEEC/Infocursos, ECO jun. 2024 |
| Licenciatura (1.º ciclo) | 11,10 % | ↑ Máx. 8 anos | DGEEC/Infocursos, ECO jun. 2024 |
| Mestrado integrado | 3,6 % | ↓ A diminuir | DGEEC/Infocursos, 2024 |
| Mestrado 2.º ciclo | Em queda | ↓ 2.º ano consecutivo | DGEEC/Infocursos, 2024 |
Para o mestrado de 2.º ciclo, o Infocursos confirma que a taxa de desistência após o 1.º ano está em queda pelo segundo ano letivo consecutivo (dados de 2022/2023), mas não publica o valor percentual desagregado nos relatórios de síntese. A ferramenta de pesquisa em infocursos.medu.pt permite filtrar por área científica e instituição para obter dados de curso específico.
Um padrão recorrente, observado sobretudo em cursos com forte empregabilidade intermédia — como a Engenharia Informática —, é a concentração das saídas no 2.º ano, durante a fase de dissertação: muitos mestrandos recebem ofertas de emprego de empresas tecnológicas antes de concluir a tese e adiam ou abandonam a escrita. Este padrão de abandono tardio — depois de cumpridos os conteúdos curriculares e já na redação — é provavelmente transversal a outras áreas com elevada procura de mercado para licenciados.
Para análise comparada do tempo que os mestrandos e doutorandos demoram a concluir a tese em Portugal e no Brasil, veja Tempo Médio para Concluir a Tese: Dados e Estatísticas 2026.
4. Doutoramento: o estudo Silva & Sarrico (DGES, 2023)

O único estudo nacional com dados de coorte sobre abandono e conclusão no 3.º ciclo é Doutoramentos em Portugal, de Pedro Luís Silva e Cláudia S. Sarrico (CIPES/Uminho), publicado pela DGES em junho de 2023. A sua conclusão central é inequívoca: o financiamento é o maior preditor individual de conclusão do doutoramento em Portugal.
| Situação de financiamento | Taxa de abandono | Tempo médio de conclusão | Fonte |
|---|---|---|---|
| Com bolsa FCT ou equivalente | 14 % | 56 meses | Silva & Sarrico, DGES, 2023 |
| Sem bolsa | 41 % | 81 meses | Silva & Sarrico, DGES, 2023 |
A duração regulamentar do doutoramento em Portugal, ao abrigo do RJIES (Lei n.º 62/2007), é de 3 a 4 anos (180 a 240 ECTS). Com bolsa FCT, a conclusão demora em média 56 meses — cerca de 20 meses acima do limite superior regulamentar. Sem financiamento, o processo estende-se para 81 meses — quase o dobro do prazo máximo previsto — e a probabilidade de abandono é quase três vezes superior à dos doutorandos financiados.
«O financiamento é o maior preditor individual de conclusão: doutorandos com bolsa FCT concluem em média em 56 meses com abandono de 14 %; sem bolsa, a taxa sobe para 41 % e o tempo médio ultrapassa os 81 meses.»
Para saber como candidatar a uma bolsa FCT de doutoramento e o que os avaliadores valorizam, veja FCT Bolsas Doutoramento: Candidatura, Requisitos e Dicas 2026. Para uma visão geral sobre programas doutorais, universidades e financiamento, consulte também Doutoramento em Portugal: Guia Completo 2026.
5. A fase de tese — o dado que falta
Tanto no mestrado como no doutoramento, a fase de redação da dissertação ou tese é o ponto de maior risco de abandono — e o menos documentado pelas estatísticas oficiais portuguesas. O problema tem raízes metodológicas:
- A matrícula mantém-se ativa mesmo sem progressão. Um doutorando pode continuar inscrito durante anos, pagando propinas e constando nos registos da DGEEC como «estudante ativo», sem produzir qualquer capítulo. Enquanto mantiver a matrícula, não entra nos contadores de abandono.
- Não há prazo legal rígido de entrega em Portugal. Ao contrário de sistemas com hard deadlines impostos pelo financiador (Reino Unido, Países Baixos), Portugal permite prorrogações sucessivas, criando uma categoria de estudantes em limbo académico prolongado.
- O indicador DGEEC mede a saída precoce, não a não-conclusão tardia. A «taxa de desistência após o 1.º ano» não capta quem abandona no 2.º ano do mestrado (fase de dissertação) ou no 3.º-4.º ano do doutoramento (redação da tese).
O Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior (MCTES) reconheceu implicitamente este vazio em setembro de 2023, ao lançar o Programa de Promoção de Sucesso e Redução do Abandono no Ensino Superior com uma linha de financiamento específica para o mestrado e o doutoramento — uma admissão de que as taxas de não-conclusão são «preocupantes» e justificam intervenção pública direta (MCTES, setembro de 2023).
6. Comparação internacional: OCDE Education at a Glance 2025

Portugal insere-se num contexto internacional onde a não-conclusão de doutoramentos é um problema reconhecido entre os países da OCDE. O relatório Education at a Glance 2025, publicado em setembro de 2025, assinala que Portugal apresenta uma das menores proporções de jovens adultos que ingressam em programas de doutoramento antes dos 30 anos entre os países membros com dados disponíveis — o que sugere que o acesso tardio e frequentemente sem financiamento é uma característica estrutural do sistema português.
A OCDE aponta que, nos países com taxas de conclusão mais elevadas, os fatores comuns incluem: financiamento garantido durante toda a duração regulamentar, sistemas de monitorização periódica da relação orientador-doutorando, e limites formais de inscrição que desincentivam o prolongamento indefinido. Nenhum destes mecanismos está plenamente implementado a nível nacional em Portugal.
A PORDATA (base de dados Portugal Contemporâneo), que agrega indicadores da DGEEC e do INE, permite acompanhar a evolução longitudinal das diplomações e do número de inscritos por ciclo, constituindo um complemento útil ao Infocursos para análises de série temporal.
7. Fatores de risco documentados para o abandono na fase de tese
A investigação disponível — nacional e internacional — identifica um conjunto recorrente de fatores que precipitam o abandono durante a escrita da dissertação ou tese:
- Ausência de financiamento — O fator com maior peso estatístico documentado em Portugal (DGES, 2023). Doutorandos sem bolsa combinam frequentemente o doutoramento com atividade profissional a tempo inteiro, reduzindo o tempo de escrita disponível e aumentando o risco de paralisia.
- Relação deficiente com o orientador — Supervisão ausente, irregular ou com expectativas mal comunicadas é consistentemente apontada como causa de abandono tardio. Portugal não dispõe de um sistema padronizado de avaliação periódica obrigatória da relação orientador-doutorando ao nível nacional.
- Isolamento académico — A fase de escrita é solitária. Programas sem seminários regulares de doutorandos ou sem comunidades de pares ativas expõem os estudantes a um isolamento que, associado à incerteza de carreira, aumenta o risco de desistência.
- Pressão do mercado de trabalho — Particularmente relevante no mestrado em áreas com forte empregabilidade intermédia (tecnologia, engenharia, saúde). O pull-factor de ofertas de emprego durante a dissertação é particularmente visível nestas áreas, onde os licenciados são absorvidos pelo mercado antes de concluírem a tese.
- Saúde mental — O stress associado à escrita da tese, à incerteza da carreira académica e ao sentimento de impostorismo é um fator de risco amplamente documentado na literatura internacional e crescentemente reconhecido pelas instituições portuguesas.
8. Resposta institucional: Programa MCTES e FCT
A resposta do sistema português está ainda numa fase inicial. Os instrumentos em vigor são:
- Bolsas FCT 2026 — O Concurso de Bolsas de Doutoramento da FCT mantém-se como o principal mecanismo de retenção, dado o impacto documentado no abandono (14 % versus 41 %). A edição de 2026 manteve candidaturas abertas com critérios de elegibilidade alargados para áreas estratégicas.
- Programa de Promoção de Sucesso (MCTES, 2023) — Linha de financiamento a instituições de ensino superior para criação de programas estruturados de acompanhamento de mestrandos e doutorandos na fase de escrita. Os resultados ainda não foram publicados de forma agregada.
- Registo de Teses da DGEEC — A base de dados Registo de Tese de Doutoramento em Curso permite às instituições e à DGEEC monitorizar a situação dos doutorandos inscritos, mas não é um instrumento de alerta precoce de abandono publicamente acessível.
A Tesify integra ferramentas de estruturação e acompanhamento da dissertação especificamente concebidas para mestrandos e doutorandos em fase de escrita — incluindo guias de capítulo, verificação de conformidade e apoio à redação em português europeu e brasileiro.
Perguntas Frequentes
Qual é a taxa de abandono no doutoramento em Portugal?
Segundo o estudo Doutoramentos em Portugal (Silva & Sarrico, DGES, junho de 2023), a taxa de abandono é de 14 % para doutorandos com bolsa FCT e de 41 % para os sem financiamento. O tempo médio de conclusão é de 56 meses com bolsa e de 81 meses sem bolsa, face a uma duração regulamentar de 36–48 meses.
A DGEEC publica dados específicos sobre abandono na fase de dissertação do mestrado?
Não de forma agregada e sistemática. O indicador Infocursos mede a «taxa de desistência após o 1.º ano», que não captura o abandono durante a fase de dissertação (tipicamente o 2.º ano do mestrado). Este é um reconhecido gap nas estatísticas portuguesas do ensino superior pós-graduado.
Quantos estudantes estão inscritos no mestrado e no doutoramento em Portugal em 2025/2026?
No ano letivo 2025/2026 havia 122 922 inscritos no mestrado de 2.º ciclo — aumento de 6,4 % face aos 115 561 de 2024/2025 — e o doutoramento registou mais 1 121 inscritos em relação ao ano anterior, atingindo o valor mais alto da última década (ECO/DGEEC, abril de 2026).
O que é o fenómeno «all but dissertation» (ABD) e existe em Portugal?
ABD designa estudantes que concluíram todos os requisitos curriculares do doutoramento mas não entregaram a tese. Em Portugal, este fenómeno existe mas não está quantificado nas estatísticas oficiais: a ausência de prazos rígidos de entrega e a possibilidade de matrícula continuada criam condições para que doutorandos permaneçam em limbo durante anos, sem serem registados como «desistentes» pela DGEEC.
Qual é o impacto das bolsas FCT na conclusão do doutoramento?
O impacto é muito significativo. Doutorandos com bolsa FCT têm uma taxa de abandono de 14 % e concluem em média em 56 meses. Sem financiamento, a taxa de abandono sobe para 41 % e o tempo médio estende-se para 81 meses — quase o dobro do prazo regulamentar máximo (Silva & Sarrico, DGES, 2023).
Que fatores aumentam o risco de abandono durante a escrita da tese?
Os fatores mais documentados são: ausência de financiamento (preditor estatístico mais forte em Portugal, DGES 2023), supervisão deficiente ou irregular, isolamento académico na fase de escrita, pressão do mercado de trabalho em áreas com alta empregabilidade intermédia, e dificuldades de saúde mental associadas ao processo de tese.
