Quantas Teses São Baseadas em Artigos? Dados PT/BR 2026

Quantas Teses São Baseadas em Artigos? Dados PT/BR 2026

A pergunta é simples, mas a resposta surpreende muitos doutorandos: uma parte significativa das teses de doutoramento apresentadas hoje — especialmente em ciências exatas, biomédicas e engenharia — não segue o formato monográfico tradicional. Em vez disso, organizam-se como compilações de artigos publicados ou aceites em revistas indexadas. Saber a percentagem de teses por compilação e perceber onde este formato domina é essencial antes de escolher como estruturar o seu próprio trabalho.

Os dados precisos sobre a prevalência global deste formato são difíceis de encontrar num único relatório — as instituições raramente publicam estatísticas desagregadas por tipo de formato. Ainda assim, é possível traçar um quadro realista recorrendo a dados do Catálogo de Teses e Dissertações da CAPES, à Biblioteca Digital Brasileira de Teses e Dissertações (BDTD/IBICT), e a análises académicas internacionais sobre o fenómeno, nomeadamente nos países nórdicos, no Reino Unido, na Austrália e em Portugal.

Resposta direta: Não existe uma percentagem nacional única publicada para Portugal ou para o Brasil. As estimativas internacionais apontam para que, nas áreas STEM e ciências da saúde, a tese por compilação de artigos represente entre 40 % e 70 % das teses defendidas — enquanto nas humanidades e ciências sociais o formato monográfico ainda é dominante. Em Portugal, a opção é permitida em praticamente todas as universidades públicas mas os dados institucionais desagregados por formato não são publicados de forma centralizada.

O que dizem os dados internacionais

A literatura académica especializada confirma que a tese por compilação de artigos — conhecida internacionalmente como thesis by publication, paper-based thesis ou manuscript-based thesis — está em expansão global, mas com ritmos muito diferentes entre disciplinas e países.

Nos países nórdicos (Suécia, Noruega, Finlândia, Dinamarca), o formato por artigos é há décadas o padrão dominante nas ciências naturais, medicina e engenharia. Investigadores como Paltridge e Starfield (2020) e estudos publicados na Journal of Further and Higher Education documentam que nas ciências exatas nórdicas a tese por artigos representa a maioria esmagadora das teses defendidas, enquanto nas ciências sociais e humanidades a monografia ainda mantém presença forte mas decrescente.

Um estudo de 2024 publicado na Studies in Higher Education — “What makes a Thesis by Publication? An international study of policy requirements and restrictions” — analisou políticas em múltiplos países e confirmou que o formato está em expansão transversal, incluindo no sul da Europa, onde Portugal e Espanha acompanham a tendência, especialmente nas faculdades de ciências e medicina.

No Reino Unido, onde o PhD by publication foi formalmente instituído pela Universidade de Cambridge em 1966, a versão retrospetiva (submissão de trabalhos já publicados) coexiste com o modelo prospetivo adotado na maioria dos países lusófonos. A adoção varia: nas ciências biológicas e clínicas, a maioria dos programas exige ou encoraja a publicação prévia de artigos; nas humanidades, a tese monográfica continua a ser a norma.

Para compreender as especificidades do modelo por artigos vs monografia, incluindo critérios de escolha e estrutura comparativa, consulte o guia dedicado a este tema.

Fonte: Acadêmica — Diário de uma doutoranda, ep. 151

Portugal: regulação e adoção por área

Em Portugal, a possibilidade de apresentar a tese de doutoramento como compilação de artigos está consagrada nos regulamentos internos de praticamente todas as universidades públicas. Não existe, no entanto, uma plataforma nacional que publique estatísticas desagregadas por formato de tese — ao contrário do que acontece com, por exemplo, dados de inscrições e diplomados publicados pela DGEEC (Direção-Geral de Estatísticas da Educação e Ciência).

O que é possível afirmar com base nos regulamentos disponíveis e em evidências qualitativas:

  • Ciências da vida, biomédicas e farmacêuticas: A compilação de artigos tornou-se o formato predominante. Programas doutorais de biologia molecular, medicina, farmácia e bioquímica nas principais universidades (ULisboa, UP, Uminho, UC) esperam tipicamente que os candidatos apresentem dois a quatro artigos publicados ou aceites antes da defesa.
  • Ciências exatas e engenharia: A adoção é crescente mas ainda partilhada com a monografia. Em engenharia, a escolha depende frequentemente da área de especialidade e do orientador.
  • Ciências sociais, psicologia e educação: O formato monográfico mantém clara predominância, embora regulamentos como os do ISCTE-IUL, da ULisboa e da UCatólica já admitam explicitamente a compilação de artigos.
  • Humanidades e artes: A monografia continua a ser o formato quase exclusivo.

Para saber onde é permitido em Portugal e quais os requisitos específicos por universidade, existe um guia completo com os regulamentos de UP, ULisboa, UC, Uminho, ISCTE-IUL e Nova.

Brasil: CAPES, BDTD e tendências

No Brasil, o Catálogo de Teses e Dissertações da CAPES é a maior base de dados nacionais de produção científica pós-graduada. Em fevereiro de 2025, o IBICT anunciou que a BDTD — que indexa teses e dissertações de 154 instituições — atingiu a marca de um milhão de registos, dos quais 281 461 são teses de doutoramento e 719 707 são dissertações de mestrado.

Contudo, nem a CAPES nem a BDTD publicam actualmente dados desagregados por formato de tese (monografia vs compilação de artigos). A plataforma Sucupira recolhe estas informações ao nível dos programas, mas os dados agregados por formato não estão disponíveis nos relatórios públicos.

O que os investigadores brasileiros documentam é uma tendência clara de crescimento. Um artigo académico de 2023 publicado no ResearchGate intitulado “Tese em artigos: por que escolher e como fazer?” identifica o formato como “uma tendência da pós-graduação” e utiliza terminologia diversa internacionalmente: collection of papers, manuscript-based, multiple-paper thesis, paper-based thesis e PhD by publication. A análise de Taborga et al. (2021) publicada na Revista Brasileira de Política e Administração da Educação examinou 13 programas doutorais (chilenos e internacionais) e identificou tanto vantagens como riscos da implementação da tese por compêndio de publicações nas ciências sociais e na educação — domínio onde o modelo ainda enfrenta mais resistência institucional.

No Brasil, a CAPES defendeu em 2023 um total de cerca de 25 000 teses de doutoramento — um número que cresce de forma consistente mas cuja decomposição por formato não é publicada de forma centralizada. Quem pretenda publicar os artigos da tese em revistas Q1 do JCR encontrará, neste contexto, uma pressão institucional crescente para o fazer antes da defesa, particularmente nos programas avaliados com conceito 6 ou 7 pela CAPES.


Consultar o Catálogo de Teses e Dissertações — BDTD/IBICT (1 milhão de registos em 2025)
Fonte: BDTD — Biblioteca Digital Brasileira de Teses e Dissertações (IBICT)

Percentagem estimada por área científica

Com base na literatura internacional disponível e nos regulamentos institucionais portugueses e brasileiros, é possível elaborar uma estimativa qualitativa da adoção por área científica. Estes valores são orientadores, não dados estatísticos nacionais verificados:

Estimativa de prevalência da tese por compilação de artigos por área (PT/BR, 2026)
Área científica Prevalência estimada (PT) Prevalência estimada (BR) Tendência
Ciências biomédicas e saúde Alta (maioria dos programas) Alta (programas nota 6-7 CAPES) Estável ou crescente
Ciências biológicas e naturais Alta Alta Crescente
Engenharia e tecnologia Média-alta Média Crescente
Química, física e matemática Média-alta Média-alta Estável
Psicologia e ciências do comportamento Média Média Crescente
Ciências sociais e educação Baixa-média Baixa Crescente lento
Humanidades, artes e filosofia Baixa Muito baixa Estável (monografia dominante)

A tabela sintetiza padrões observáveis na literatura e nos regulamentos, mas não deve ser usada como dado estatístico. A variação entre programas dentro da mesma área pode ser considerável.

Requisitos mínimos nas principais instituições

Apesar da ausência de dados agregados, os regulamentos institucionais permitem perceber o que é exigido para optar pelo formato por compilação. Eis os requisitos verificados nas principais universidades:

Requisitos para tese por compilação de artigos — principais universidades PT (2026)
Instituição Mínimo de artigos Indexação exigida Autoria
ISCTE-IUL 3 artigos (publicados ou aceites) Bases internacionais (Scopus/WoS) 1.º autor em pelo menos 2
IHMT-NOVA (Regulamento 192/2025) 2 artigos (publicados ou aceites) Scopus ou WoS, peer review 1.º ou 2.º autor; 1.º em pelo menos 1
UCatólica — FEP (Regulamento 2020) 3 trabalhos de investigação Revistas de reconhecido mérito Contribuição substancial do candidato
ULisboa (geral) 2 a 4 (varia por faculdade) Indexadas internacionalmente 1.º autor preferencial
UP (varia por faculdade) 2 a 3 (consultar programa) Scopus/WoS recomendado Contribuição principal do candidato

Em todos os casos, a compilação deve ser enquadrada por uma introdução alargada e original — o chamado kappa — e por uma discussão integradora final. Saber escrever o kappa com rigor é uma das competências mais críticas para quem adopta este formato, pois é nele que se demonstra a coerência e a relevância global da investigação.

No Brasil, os regulamentos variam por programa. Os programas com conceito CAPES 6 e 7 tendem a exigir publicação em revistas Qualis A1 ou A2 (equivalente aos quartis Q1-Q2 do JCR), enquanto programas com conceito 4 ou 5 aceitam frequentemente artigos em revistas B1 ou superiores. Não existe um número mínimo federal padronizado: cada programa define os seus critérios internamente.

Por que o formato cresce: vantagens documentadas

A expansão do formato por artigos não é aleatória. Responde a pressões institucionais, académicas e de mercado de trabalho que a literatura especializada documenta de forma consistente. Segundo o blog Pílulas de Escrita Científica de Marco Armello — uma referência em escrita académica lusófona — publicar durante o doutoramento é hoje parte integrante do processo de formação, e não apenas um requisito formal.

As principais razões documentadas para o crescimento do formato:

  • Pressão por produtividade científica: A avaliação de programas de doutoramento — pela FCT em Portugal, pela CAPES no Brasil — inclui critérios de produção científica. Doutorandos que publicam durante a formação contribuem directamente para a classificação do seu programa.
  • Empregabilidade: Para carreiras académicas e de investigação, ter artigos publicados no momento da defesa representa uma vantagem competitiva considerável. Segundo a análise disponível no blog Ferramentas para Doutorandar, a tese por artigos também facilita a conversão posterior do trabalho em capítulos de livro ou em nova monografia.
  • Visibilidade internacional: Artigos publicados em revistas indexadas ficam disponíveis imediatamente na comunidade científica internacional, sem esperar pela publicação ou depósito da tese. Bases como o BDTD/IBICT e o Catálogo de Teses CAPES indexam as teses, mas com menor visibilidade imediata do que uma revista Q1.
  • Alinhamento com o tempo médio real de doutoramento: O tempo médio de doutoramento em Portugal ronda os 5 a 7 anos para quem o conclui — período suficiente para acumular dois a quatro artigos publicados, integrando a escrita científica no fluxo regular de trabalho.
  • Feedback externo durante o percurso: A revisão por pares dos artigos ao longo do doutoramento fornece feedback especializado externo que melhora a qualidade global da investigação — algo que a monografia tradicional só recebe na fase final, na defesa.

FAQ — Perguntas frequentes

Qual a percentagem exacta de teses por compilação em Portugal em 2026?

Não existe uma percentagem nacional publicada de forma centralizada. A DGEEC publica dados de diplomados por área científica, mas não desagrega por formato de tese. Com base nos regulamentos institucionais e na literatura internacional, estima-se que em áreas STEM e ciências da saúde a tese por compilação seja já o formato maioritário ou co-dominante; nas humanidades, é ainda minoritária.

O Brasil tem dados nacionais sobre teses por artigos?

A CAPES e a BDTD/IBICT não publicam dados desagregados por formato de tese. A BDTD atingiu um milhão de registos em 2025 (281 461 teses de doutoramento), mas sem separação por tipo de formato. Os dados por programa existem na Plataforma Sucupira, mas não estão disponíveis em relatórios públicos consolidados.

Quantos artigos são normalmente necessários para uma tese por compilação?

Em Portugal, o mínimo mais comum é dois a três artigos publicados ou aceites em revistas indexadas (Scopus ou WoS). O IHMT-NOVA exige dois; o ISCTE-IUL exige três. Em muitos programas de ciências biomédicas, a prática informal situa-se entre três e quatro artigos. No Brasil, não há mínimo federal: cada programa define os seus critérios, geralmente entre dois e quatro artigos.

Onde é que a tese por artigos é mais comum — Portugal ou Brasil?

Nos programas de excelência (FCT em PT, CAPES nota 6-7 no BR), o formato por artigos é igualmente valorizado e cada vez mais comum. A diferença está na formalização: Portugal tem regulamentos institucionais mais explícitos; no Brasil, a opção depende mais do programa e do orientador. Em ambos os países, a tendência é de crescimento nas áreas STEM e ciências da saúde.

Posso escolher o formato por compilação em qualquer universidade portuguesa?

Na generalidade das universidades públicas portuguesas, sim — mas a autorização depende do programa doutoral e do orientador. Algumas faculdades, especialmente nas humanidades, ainda não têm regulamento explícito para este formato. Antes de optar, confirme o regulamento específico do programa e discuta com o orientador.

A tese por artigos tem mais probabilidade de obter distinção?

Não há evidência de que o formato influencie a menção final. A distinção (Aprovado com Distinção e Louvor em Portugal; Excelente no Brasil) depende da qualidade científica demonstrada, da originalidade e da performance na defesa — não do formato. Dito isto, artigos publicados em revistas Q1 durante o doutoramento tendem a ser bem valorizados pelo júri como evidência de impacto.

O que é o kappa numa tese por compilação?

O kappa é a introdução integradora alargada que enquadra todos os artigos da compilação num argumento científico coerente. É a parte mais exigente e original da tese por compilação: deve contextualizar o estado da arte, justificar a relevância conjunta dos artigos e demonstrar a contribuição global da investigação. Sem um kappa sólido, a compilação não passa da soma das partes.

Onde posso encontrar teses por artigos para consultar como modelo?

Em Portugal, consulte os repositórios institucionais (Repositório Aberto da UP, Repositório da ULisboa, RepositóriUM da Uminho) filtrando por “compilação de artigos” ou “tese por artigos”. No Brasil, pesquise no Catálogo de Teses da CAPES ou na BDTD. A maioria das teses está em acesso aberto.

Conclusão: o que os dados nos dizem — e o que não dizem

A resposta honesta à pergunta “quantas teses são por compilação de artigos?” é: sabemos que o número cresce, sabemos onde cresce mais (STEM, saúde), e sabemos que os dados nacionais centralizados não existem de forma pública e desagregada — nem em Portugal, nem no Brasil. O que existe são regulamentos institucionais cada vez mais permissivos, pressão dos sistemas de avaliação da FCT e da CAPES, e uma tendência internacional bem documentada de expansão do formato.

Para o doutorando, a decisão prática deve assentar em três perguntas: o regulamento do meu programa permite a compilação? O meu orientador apoia? A minha área científica valoriza este formato nos critérios de avaliação? Se as três respostas forem afirmativas, a tese por artigos é uma escolha estratégica sólida — e cada vez mais comum.