Investigador a analisar quadro teórico de tese de doutoramento com livros e notas académicas
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Quadro Teórico: 5 Erros Fatais Que Reprovam Teses

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5 min de leitura

Após anos de investigação, não deixe que um capítulo mal construído destrua todo o seu trabalho académico.

Sabia que mais de 40% das teses de doutoramento devolvidas para correção em Portugal apresentam problemas significativos no enquadramento teórico? Este número revela uma realidade que muitos doutorandos preferem ignorar: o desenvolvimento de quadro teórico para teses de doutoramento é, possivelmente, o maior desafio de toda a jornada académica.

E aqui está o mais frustrante: não são falhas de conhecimento que reprovam a maioria das teses. São erros evitáveis. Erros que, com a orientação certa, qualquer investigador pode corrigir antes de chegar à banca.

Neste guia, vou revelar-lhe exatamente quais são esses 5 erros fatais que tenho visto ao longo de décadas a acompanhar o mundo académico português. Mais importante ainda, vou mostrar-lhe como evitá-los — passo a passo, com exemplos práticos e ferramentas que pode aplicar imediatamente.

Prepare-se. O que vai ler nas próximas linhas pode salvar anos do seu trabalho.

💡 Dica de leitura: Para compreender como o quadro teórico se encaixa na estrutura global da sua tese, consulte o nosso guia sobre Estrutura de Teses de Doutoramento em Portugal | 7 Erros.

O Que É um Quadro Teórico e Por Que É Tão Crítico?

Antes de mergulharmos nos erros que destroem teses, precisamos de clarificar algo fundamental. Muitos doutorandos confundem três conceitos que, embora relacionados, têm funções distintas: quadro teórico, revisão de literatura e referencial teórico.

Ilustração conceptual que mostra o quadro teórico como uma lente que transforma informação dispersa em conhecimento organizado
O quadro teórico funciona como lentes que organizam a sua visão da investigação

Pense no quadro teórico como os óculos que usa para ver o mundo da sua investigação. Não são quaisquer óculos — são lentes específicas, cuidadosamente selecionadas, que determinam o que consegue ver, o que fica desfocado e o que simplesmente ignora.

A revisão de literatura é o processo de identificar, ler e analisar tudo o que foi escrito sobre o seu tema. É trabalho de pesquisa, de busca, de organização. Já o quadro teórico é o resultado desse processo — a estrutura conceptual que emerge quando decide: “Estes são os conceitos-chave. Esta é a forma como se relacionam. E é através desta lente que vou interpretar os meus dados.”

O referencial teórico, por sua vez, refere-se ao conjunto de teorias e modelos que fundamentam a sua análise. É a base sobre a qual constrói o seu argumento.

📌 O QUE É O QUADRO TEÓRICO?

O quadro teórico é o capítulo da tese de doutoramento que:

  • Mapeia e analisa criticamente a literatura existente
  • Identifica lacunas no conhecimento
  • Estabelece os conceitos-chave que orientam a investigação
  • Justifica a relevância e originalidade do estudo
  • Fundamenta as escolhas metodológicas

As bancas de doutoramento em Portugal têm expectativas muito específicas que nem sempre são explicitadas pelos orientadores. Os critérios de avaliação mais comuns incluem: coerência conceptual, profundidade de análise e articulação com os objetivos de investigação.

A obra Metodologia do Trabalho Científico de Antônio Joaquim Severino, referência clássica em língua portuguesa (disponível no Repositório USP), estabelece critérios fundamentais de qualidade: argumentação sólida, coerência conceitual e uso correto de fontes. Estes critérios mantêm-se atuais e são frequentemente invocados por avaliadores portugueses.

Agora que entendemos a importância do enquadramento teórico, está na hora de revelar os erros que destroem teses. O primeiro é, de longe, o mais comum.

Erro Fatal #1 — Transformar o Quadro Teórico em Colagem de Citações

Reconhece esta situação? O doutorando está nervoso. Quer impressionar a banca. Então enche o capítulo de citações de autores reconhecidos, uma atrás da outra, como quem constrói uma muralha de erudição para se proteger.

O resultado? Um texto que parece uma colcha de retalhos. Citação aqui, citação ali. Zero análise. Zero voz própria. A banca, que já viu este filme centenas de vezes, anota: “Falta pensamento crítico. O candidato limita-se a reproduzir autores sem os analisar.”

Contraste visual entre citações fragmentadas e desconectadas versus análise crítica integrada e fluída
À esquerda, citações isoladas; à direita, análise integrada onde as ideias dialogam

Este erro acontece por duas razões principais. A primeira é a pressão para demonstrar erudição — a sensação de que quanto mais citações incluir, mais impressionado ficará o avaliador. A segunda é a falta de método — simplesmente não saber como passar da citação para a análise.

Como é que as bancas identificam este erro? Procuram sinais específicos: ausência da voz do investigador, transições abruptas entre parágrafos, falta de sínteses parciais, citações longas sem qualquer comentário e justaposição de autores sem análise comparativa.

❌ Parágrafo problemático:

“Segundo Silva (2020), a liderança transformacional é fundamental para as organizações. Para Costa (2019), os líderes devem inspirar os colaboradores. Já Martins (2021) refere que a motivação é essencial no contexto laboral.”

✅ Parágrafo bem articulado:

“A literatura sobre liderança organizacional revela uma convergência significativa: autores como Silva (2020) e Costa (2019) concordam que o papel inspiracional do líder é determinante para o desempenho das equipas. No entanto, enquanto Silva enfatiza a dimensão visionária da liderança transformacional, Costa centra-se nos mecanismos de comunicação. Esta tensão conceptual é parcialmente resolvida por Martins (2021), que propõe a motivação como elemento integrador — embora o seu modelo permaneça limitado ao contexto das PME, deixando por explorar a aplicabilidade a grandes organizações.”

Consegue notar a diferença? No segundo exemplo, o investigador dialoga com os autores. Identifica convergências, divergências, limitações. A sua voz é claramente audível.

Para cada autor ou conceito que introduz no seu quadro teórico, siga a Técnica dos 3 Passos: primeiro, apresente a ideia ou teoria do autor; depois, analise criticamente as suas forças, limitações e contexto de desenvolvimento; por fim, posicione-se — como é que isto se relaciona com a sua investigação?

Use verbos de análise crítica: argumenta, contrapõe, complementa, limita-se a, negligencia, avança, problematiza.

📚 Recurso recomendado: Para dominar a técnica de síntese crítica, consulte o guia Revisão de Literatura: Aprenda a Fazer em Apenas 4 Passos.

✅ CHECKLIST: Evitar a “Colagem de Citações”

  • Cada citação está seguida da minha análise?
  • Existe ligação lógica entre parágrafos?
  • Identifico convergências e divergências entre autores?
  • A minha voz é audível ao longo do texto?
  • Há uma narrativa teórica clara?

Erro Fatal #2 — Não Explicitar a Estratégia de Revisão da Literatura

Imagine que está numa defesa de doutoramento. O arguente olha fixamente para si e pergunta: “Como chegou a estes autores e não a outros?”

Este momento é onde muitos candidatos congelam. Porque a verdade é que selecionaram os autores “por afinidade”, porque encontraram primeiro, porque o orientador sugeriu, ou simplesmente porque eram os que estavam disponíveis.

A falta de uma estratégia de revisão explícita tem consequências graves: viés de seleção (incluir apenas autores que confirmam a sua perspetiva), falta de reprodutibilidade (outro investigador não conseguiria replicar o seu processo), questionamento pela banca e, inevitavelmente, perda de credibilidade.

Existem diferentes abordagens para conduzir uma revisão de literatura. A Revisão Narrativa é mais flexível, adequada quando o objetivo é contextualizar um tema amplo. A Revisão Sistemática segue um protocolo rigoroso e transparente, ideal quando se pretende mapear exaustivamente a evidência disponível. A Revisão Integrativa combina elementos de ambas, permitindo sintetizar diferentes tipos de estudos de forma metódica.

📌 ELEMENTOS DE UM PROTOCOLO DE REVISÃO

  1. Pergunta de investigação orientadora
  2. Bases de dados consultadas (Scopus, Web of Science, B-on)
  3. Termos de busca e operadores booleanos
  4. Período temporal da pesquisa
  5. Critérios de inclusão e exclusão
  6. Processo de seleção (triagem, elegibilidade)
  7. Estratégia de análise e síntese

Recursos para aprofundar:

📹 Recurso Complementar: Para uma explicação visual sobre como estruturar a sua revisão com rigor académico, assista ao webinar da Profª Sílvia Caldeira (Universidade Católica Portuguesa):

Erro Fatal #3 — Ignorar a Ligação Entre Quadro Teórico e Originalidade

Já alguma vez ouviu um avaliador dizer: “Muito interessante, mas o que é que isto acrescenta?”

Esta pergunta devastadora surge quando o quadro teórico, por mais completo que seja, não conduz a uma lacuna clara. O doutorando construiu uma enciclopédia — impressionante em extensão, vazia em direção.

Diagrama em funil mostrando a progressão da revisão abrangente até à lacuna específica de investigação
Do geral para o específico: a jornada até à sua contribuição original

Muitos investigadores tratam o quadro teórico como um exercício de “mostrar que leram muito”. Percorrem décadas de literatura, citam centenas de autores, constroem capítulos de 100 páginas… e, no final, a banca não consegue perceber qual é a contribuição original.

O enquadramento teórico não existe para impressionar. Existe para fundamentar. Cada autor citado, cada conceito explorado, deve servir um propósito: conduzir o leitor, logicamente, até à lacuna que a sua investigação vai preencher.

Pense no quadro teórico como um funil invertido. Começa amplo — as grandes questões do campo, as principais correntes teóricas. Vai afunilando — debates específicos, tensões não resolvidas, questões em aberto. Culmina numa ponta afiada — a lacuna exata que justifica a sua investigação.

Use esta estrutura para articular a passagem da revisão para a sua contribuição:

“Embora os estudos de X, Y e Z tenham avançado significativamente na compreensão de [tema], permanece por explorar [lacuna específica]. Esta lacuna é particularmente relevante porque [justificação]. A presente investigação propõe-se a [contribuição].”

Cada conceito do seu quadro teórico deve preparar o terreno para esta conclusão. Se não contribui para identificar a lacuna, questione se realmente precisa de estar ali.

📖 Leitura essencial: A demonstração de originalidade é um dos critérios mais exigentes das bancas portuguesas. Consulte Originalidade em Teses de Doutoramento: Guia 2025.

Erro Fatal #4 — Gestão Deficiente de Referências Bibliográficas

Este erro é, talvez, o mais doloroso de todos. Não porque seja o mais difícil de evitar — pelo contrário, é puramente técnico. Mas porque as consequências são devastadoras e totalmente desnecessárias.

Imagine: anos de trabalho, uma defesa marcada, e a banca identifica citações incompletas, referências em falta, normas misturadas. A credibilidade académica desmorona em minutos.

Os problemas mais comuns incluem: citações sem referência correspondente, mistura de normas (APA num parágrafo, Harvard no seguinte), referências desatualizadas, ausência de autores-chave do campo e excesso de citações secundárias.

Estes erros não são vistos como “pequenos descuidos”. São interpretados como falta de rigor académico, negligência, potencial plágio (mesmo que não intencional) e desconhecimento das normas básicas da escrita científica.

🚫 5 ERROS DE REFERÊNCIAS QUE REPROVAM TESES

  1. Citar autor sem incluir na lista de referências
  2. Misturar normas de citação no mesmo documento
  3. Usar apenas fontes com mais de 10 anos
  4. Excesso de citações indiretas (apud)
  5. Não verificar DOI e links das fontes eletrónicas

A solução passa por um sistema de gestão rigoroso: use um gestor de referências (Zotero, Mendeley ou EndNote) desde o primeiro dia; verifique sistematicamente se todas as citações têm referência e vice-versa; equilibre clássicos fundacionais com literatura dos últimos 5 anos; priorize fontes primárias minimizando o “apud”; e faça uma última verificação antes de submeter.

⚠️ Leitura obrigatória: Os erros de gestão bibliográfica são uma das principais causas de reprovação. Consulte Erros na Gestão de Referências Que Reprovam Teses | Guia.

Erro Fatal #5 — Falta de Articulação Conceptual e Coerência Interna

O último erro fatal é, paradoxalmente, o mais difícil de identificar — especialmente pelo próprio autor. Acontece quando os conceitos são apresentados de forma isolada, como ilhas num arquipélago sem pontes.

A banca lê o capítulo e comenta: “Não percebo como estes conceitos se relacionam.” Ou pior: “Há contradições entre o que disse na secção 2 e o que defende na secção 4.”

Os sintomas de alerta incluem: cada secção parece um mini-ensaio independente; ausência de transições entre temas; conceitos definidos de formas diferentes ao longo do texto; autores que se contradizem citados sem resolver a tensão; o leitor perde-se entre secções; e a conclusão do capítulo não sintetiza o enquadramento.

Este erro surge, geralmente, de um processo de escrita fragmentado. O doutorando escreve sobre um conceito hoje, outro daqui a três meses, mais um depois das férias. Sem um plano integrador, as partes não formam um todo coerente.

A solução é mapear antes de escrever. Antes de redigir uma única linha do seu quadro teórico, crie um mapa conceptual. Identifique quais são os conceitos-chave, como se relacionam entre si, onde existem tensões ou contradições, e como cada conceito contribui para os objetivos da investigação.

📌 MODELO DE MAPA CONCEPTUAL

[CONCEITO CENTRAL]
├── Conceito A (definição + autores-chave)
│   └── Relação com investigação
├── Conceito B (definição + autores-chave)
│   └── Tensão/complementaridade com A
└── Conceito C (definição + autores-chave)
    └── Síntese integradora → Lacuna identificada

Estratégias adicionais que fazem a diferença: use parágrafos de transição explícitos entre secções; inclua sínteses parciais ao final de cada secção major; termine com uma síntese integradora que prepare o leitor para a metodologia; peça a alguém fora da sua área para ler — se essa pessoa não conseguir seguir o raciocínio, há um problema de coerência.

Tendências 2025: O Que as Bancas Estão a Valorizar

O mundo académico evolui, e as expectativas das bancas também. Conhecer as tendências atuais pode dar-lhe uma vantagem significativa na defesa da sua tese.

Transparência Metodológica: Há uma exigência crescente de explicitar como a revisão foi conduzida. Mesmo em áreas tradicionalmente narrativas, as bancas querem ver critérios claros de seleção de fontes. O uso de protocolos como o PRISMA está a expandir-se para outras disciplinas.

Diálogo Interdisciplinar: Os quadros teóricos que cruzam disciplinas estão a ser cada vez mais valorizados. A capacidade de mobilizar conceitos de áreas adjacentes demonstra maturidade intelectual. O risco? Superficialidade. A solução? Profundidade seletiva — escolha poucos conceitos de outras áreas, mas explore-os bem.

Posicionamento Crítico Explícito: Acabou a era da “falsa neutralidade”. As bancas valorizam cada vez mais investigadores que assumem uma posição teórica clara, fundamentada e defendida com argumentos sólidos.


O desenvolvimento de um quadro teórico sólido não é apenas um requisito académico — é a fundação sobre a qual toda a sua investigação se ergue. Evitar estes cinco erros fatais não garante aprovação, mas elimina as armadilhas mais comuns que destroem anos de trabalho árduo.

Lembre-se: cada hora investida a estruturar, articular e verificar o seu enquadramento teórico é uma hora que pode poupar em correções dolorosas no futuro. A sua tese merece esse cuidado. Você merece esse cuidado.


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