Após anos de investigação, não deixe que um capítulo mal construído destrua todo o seu trabalho académico.
Sabia que mais de 40% das teses de doutoramento devolvidas para correção em Portugal apresentam problemas significativos no enquadramento teórico? Este número revela uma realidade que muitos doutorandos preferem ignorar: o desenvolvimento de quadro teórico para teses de doutoramento é, possivelmente, o maior desafio de toda a jornada académica.
E aqui está o mais frustrante: não são falhas de conhecimento que reprovam a maioria das teses. São erros evitáveis. Erros que, com a orientação certa, qualquer investigador pode corrigir antes de chegar à banca.
Neste guia, vou revelar-lhe exatamente quais são esses 5 erros fatais que tenho visto ao longo de décadas a acompanhar o mundo académico português. Mais importante ainda, vou mostrar-lhe como evitá-los — passo a passo, com exemplos práticos e ferramentas que pode aplicar imediatamente.
Prepare-se. O que vai ler nas próximas linhas pode salvar anos do seu trabalho.
💡 Dica de leitura: Para compreender como o quadro teórico se encaixa na estrutura global da sua tese, consulte o nosso guia sobre Estrutura de Teses de Doutoramento em Portugal | 7 Erros.
O Que É um Quadro Teórico e Por Que É Tão Crítico?
Antes de mergulharmos nos erros que destroem teses, precisamos de clarificar algo fundamental. Muitos doutorandos confundem três conceitos que, embora relacionados, têm funções distintas: quadro teórico, revisão de literatura e referencial teórico.

Pense no quadro teórico como os óculos que usa para ver o mundo da sua investigação. Não são quaisquer óculos — são lentes específicas, cuidadosamente selecionadas, que determinam o que consegue ver, o que fica desfocado e o que simplesmente ignora.
A revisão de literatura é o processo de identificar, ler e analisar tudo o que foi escrito sobre o seu tema. É trabalho de pesquisa, de busca, de organização. Já o quadro teórico é o resultado desse processo — a estrutura conceptual que emerge quando decide: “Estes são os conceitos-chave. Esta é a forma como se relacionam. E é através desta lente que vou interpretar os meus dados.”
O referencial teórico, por sua vez, refere-se ao conjunto de teorias e modelos que fundamentam a sua análise. É a base sobre a qual constrói o seu argumento.
O quadro teórico é o capítulo da tese de doutoramento que:
- Mapeia e analisa criticamente a literatura existente
- Identifica lacunas no conhecimento
- Estabelece os conceitos-chave que orientam a investigação
- Justifica a relevância e originalidade do estudo
- Fundamenta as escolhas metodológicas
As bancas de doutoramento em Portugal têm expectativas muito específicas que nem sempre são explicitadas pelos orientadores. Os critérios de avaliação mais comuns incluem: coerência conceptual, profundidade de análise e articulação com os objetivos de investigação.
A obra Metodologia do Trabalho Científico de Antônio Joaquim Severino, referência clássica em língua portuguesa (disponível no Repositório USP), estabelece critérios fundamentais de qualidade: argumentação sólida, coerência conceitual e uso correto de fontes. Estes critérios mantêm-se atuais e são frequentemente invocados por avaliadores portugueses.
Agora que entendemos a importância do enquadramento teórico, está na hora de revelar os erros que destroem teses. O primeiro é, de longe, o mais comum.
Erro Fatal #1 — Transformar o Quadro Teórico em Colagem de Citações
Reconhece esta situação? O doutorando está nervoso. Quer impressionar a banca. Então enche o capítulo de citações de autores reconhecidos, uma atrás da outra, como quem constrói uma muralha de erudição para se proteger.
O resultado? Um texto que parece uma colcha de retalhos. Citação aqui, citação ali. Zero análise. Zero voz própria. A banca, que já viu este filme centenas de vezes, anota: “Falta pensamento crítico. O candidato limita-se a reproduzir autores sem os analisar.”

Este erro acontece por duas razões principais. A primeira é a pressão para demonstrar erudição — a sensação de que quanto mais citações incluir, mais impressionado ficará o avaliador. A segunda é a falta de método — simplesmente não saber como passar da citação para a análise.
Como é que as bancas identificam este erro? Procuram sinais específicos: ausência da voz do investigador, transições abruptas entre parágrafos, falta de sínteses parciais, citações longas sem qualquer comentário e justaposição de autores sem análise comparativa.
❌ Parágrafo problemático:
“Segundo Silva (2020), a liderança transformacional é fundamental para as organizações. Para Costa (2019), os líderes devem inspirar os colaboradores. Já Martins (2021) refere que a motivação é essencial no contexto laboral.”
✅ Parágrafo bem articulado:
“A literatura sobre liderança organizacional revela uma convergência significativa: autores como Silva (2020) e Costa (2019) concordam que o papel inspiracional do líder é determinante para o desempenho das equipas. No entanto, enquanto Silva enfatiza a dimensão visionária da liderança transformacional, Costa centra-se nos mecanismos de comunicação. Esta tensão conceptual é parcialmente resolvida por Martins (2021), que propõe a motivação como elemento integrador — embora o seu modelo permaneça limitado ao contexto das PME, deixando por explorar a aplicabilidade a grandes organizações.”
Consegue notar a diferença? No segundo exemplo, o investigador dialoga com os autores. Identifica convergências, divergências, limitações. A sua voz é claramente audível.
Para cada autor ou conceito que introduz no seu quadro teórico, siga a Técnica dos 3 Passos: primeiro, apresente a ideia ou teoria do autor; depois, analise criticamente as suas forças, limitações e contexto de desenvolvimento; por fim, posicione-se — como é que isto se relaciona com a sua investigação?
Use verbos de análise crítica: argumenta, contrapõe, complementa, limita-se a, negligencia, avança, problematiza.
📚 Recurso recomendado: Para dominar a técnica de síntese crítica, consulte o guia Revisão de Literatura: Aprenda a Fazer em Apenas 4 Passos.
- Cada citação está seguida da minha análise?
- Existe ligação lógica entre parágrafos?
- Identifico convergências e divergências entre autores?
- A minha voz é audível ao longo do texto?
- Há uma narrativa teórica clara?
Erro Fatal #2 — Não Explicitar a Estratégia de Revisão da Literatura
Imagine que está numa defesa de doutoramento. O arguente olha fixamente para si e pergunta: “Como chegou a estes autores e não a outros?”
Este momento é onde muitos candidatos congelam. Porque a verdade é que selecionaram os autores “por afinidade”, porque encontraram primeiro, porque o orientador sugeriu, ou simplesmente porque eram os que estavam disponíveis.
A falta de uma estratégia de revisão explícita tem consequências graves: viés de seleção (incluir apenas autores que confirmam a sua perspetiva), falta de reprodutibilidade (outro investigador não conseguiria replicar o seu processo), questionamento pela banca e, inevitavelmente, perda de credibilidade.
Existem diferentes abordagens para conduzir uma revisão de literatura. A Revisão Narrativa é mais flexível, adequada quando o objetivo é contextualizar um tema amplo. A Revisão Sistemática segue um protocolo rigoroso e transparente, ideal quando se pretende mapear exaustivamente a evidência disponível. A Revisão Integrativa combina elementos de ambas, permitindo sintetizar diferentes tipos de estudos de forma metódica.
- Pergunta de investigação orientadora
- Bases de dados consultadas (Scopus, Web of Science, B-on)
- Termos de busca e operadores booleanos
- Período temporal da pesquisa
- Critérios de inclusão e exclusão
- Processo de seleção (triagem, elegibilidade)
- Estratégia de análise e síntese
Recursos para aprofundar:
- Revisão Integrativa de Literatura — Guia Completo
- Revisões da Literatura Sistemáticas — Bibliotecas UCP
- Revisões Sistemáticas e Outros Tipos de Síntese — SciELO
📹 Recurso Complementar: Para uma explicação visual sobre como estruturar a sua revisão com rigor académico, assista ao webinar da Profª Sílvia Caldeira (Universidade Católica Portuguesa):
Erro Fatal #3 — Ignorar a Ligação Entre Quadro Teórico e Originalidade
Já alguma vez ouviu um avaliador dizer: “Muito interessante, mas o que é que isto acrescenta?”
Esta pergunta devastadora surge quando o quadro teórico, por mais completo que seja, não conduz a uma lacuna clara. O doutorando construiu uma enciclopédia — impressionante em extensão, vazia em direção.

Muitos investigadores tratam o quadro teórico como um exercício de “mostrar que leram muito”. Percorrem décadas de literatura, citam centenas de autores, constroem capítulos de 100 páginas… e, no final, a banca não consegue perceber qual é a contribuição original.
O enquadramento teórico não existe para impressionar. Existe para fundamentar. Cada autor citado, cada conceito explorado, deve servir um propósito: conduzir o leitor, logicamente, até à lacuna que a sua investigação vai preencher.
Pense no quadro teórico como um funil invertido. Começa amplo — as grandes questões do campo, as principais correntes teóricas. Vai afunilando — debates específicos, tensões não resolvidas, questões em aberto. Culmina numa ponta afiada — a lacuna exata que justifica a sua investigação.
Use esta estrutura para articular a passagem da revisão para a sua contribuição:
“Embora os estudos de X, Y e Z tenham avançado significativamente na compreensão de [tema], permanece por explorar [lacuna específica]. Esta lacuna é particularmente relevante porque [justificação]. A presente investigação propõe-se a [contribuição].”
Cada conceito do seu quadro teórico deve preparar o terreno para esta conclusão. Se não contribui para identificar a lacuna, questione se realmente precisa de estar ali.
📖 Leitura essencial: A demonstração de originalidade é um dos critérios mais exigentes das bancas portuguesas. Consulte Originalidade em Teses de Doutoramento: Guia 2025.
Erro Fatal #4 — Gestão Deficiente de Referências Bibliográficas
Este erro é, talvez, o mais doloroso de todos. Não porque seja o mais difícil de evitar — pelo contrário, é puramente técnico. Mas porque as consequências são devastadoras e totalmente desnecessárias.
Imagine: anos de trabalho, uma defesa marcada, e a banca identifica citações incompletas, referências em falta, normas misturadas. A credibilidade académica desmorona em minutos.
Os problemas mais comuns incluem: citações sem referência correspondente, mistura de normas (APA num parágrafo, Harvard no seguinte), referências desatualizadas, ausência de autores-chave do campo e excesso de citações secundárias.
Estes erros não são vistos como “pequenos descuidos”. São interpretados como falta de rigor académico, negligência, potencial plágio (mesmo que não intencional) e desconhecimento das normas básicas da escrita científica.
- Citar autor sem incluir na lista de referências
- Misturar normas de citação no mesmo documento
- Usar apenas fontes com mais de 10 anos
- Excesso de citações indiretas (apud)
- Não verificar DOI e links das fontes eletrónicas
A solução passa por um sistema de gestão rigoroso: use um gestor de referências (Zotero, Mendeley ou EndNote) desde o primeiro dia; verifique sistematicamente se todas as citações têm referência e vice-versa; equilibre clássicos fundacionais com literatura dos últimos 5 anos; priorize fontes primárias minimizando o “apud”; e faça uma última verificação antes de submeter.
⚠️ Leitura obrigatória: Os erros de gestão bibliográfica são uma das principais causas de reprovação. Consulte Erros na Gestão de Referências Que Reprovam Teses | Guia.
Erro Fatal #5 — Falta de Articulação Conceptual e Coerência Interna
O último erro fatal é, paradoxalmente, o mais difícil de identificar — especialmente pelo próprio autor. Acontece quando os conceitos são apresentados de forma isolada, como ilhas num arquipélago sem pontes.
A banca lê o capítulo e comenta: “Não percebo como estes conceitos se relacionam.” Ou pior: “Há contradições entre o que disse na secção 2 e o que defende na secção 4.”
Os sintomas de alerta incluem: cada secção parece um mini-ensaio independente; ausência de transições entre temas; conceitos definidos de formas diferentes ao longo do texto; autores que se contradizem citados sem resolver a tensão; o leitor perde-se entre secções; e a conclusão do capítulo não sintetiza o enquadramento.
Este erro surge, geralmente, de um processo de escrita fragmentado. O doutorando escreve sobre um conceito hoje, outro daqui a três meses, mais um depois das férias. Sem um plano integrador, as partes não formam um todo coerente.
A solução é mapear antes de escrever. Antes de redigir uma única linha do seu quadro teórico, crie um mapa conceptual. Identifique quais são os conceitos-chave, como se relacionam entre si, onde existem tensões ou contradições, e como cada conceito contribui para os objetivos da investigação.
[CONCEITO CENTRAL]
├── Conceito A (definição + autores-chave)
│ └── Relação com investigação
├── Conceito B (definição + autores-chave)
│ └── Tensão/complementaridade com A
└── Conceito C (definição + autores-chave)
└── Síntese integradora → Lacuna identificada
Estratégias adicionais que fazem a diferença: use parágrafos de transição explícitos entre secções; inclua sínteses parciais ao final de cada secção major; termine com uma síntese integradora que prepare o leitor para a metodologia; peça a alguém fora da sua área para ler — se essa pessoa não conseguir seguir o raciocínio, há um problema de coerência.
Tendências 2025: O Que as Bancas Estão a Valorizar
O mundo académico evolui, e as expectativas das bancas também. Conhecer as tendências atuais pode dar-lhe uma vantagem significativa na defesa da sua tese.
Transparência Metodológica: Há uma exigência crescente de explicitar como a revisão foi conduzida. Mesmo em áreas tradicionalmente narrativas, as bancas querem ver critérios claros de seleção de fontes. O uso de protocolos como o PRISMA está a expandir-se para outras disciplinas.
Diálogo Interdisciplinar: Os quadros teóricos que cruzam disciplinas estão a ser cada vez mais valorizados. A capacidade de mobilizar conceitos de áreas adjacentes demonstra maturidade intelectual. O risco? Superficialidade. A solução? Profundidade seletiva — escolha poucos conceitos de outras áreas, mas explore-os bem.
Posicionamento Crítico Explícito: Acabou a era da “falsa neutralidade”. As bancas valorizam cada vez mais investigadores que assumem uma posição teórica clara, fundamentada e defendida com argumentos sólidos.
O desenvolvimento de um quadro teórico sólido não é apenas um requisito académico — é a fundação sobre a qual toda a sua investigação se ergue. Evitar estes cinco erros fatais não garante aprovação, mas elimina as armadilhas mais comuns que destroem anos de trabalho árduo.
Lembre-se: cada hora investida a estruturar, articular e verificar o seu enquadramento teórico é uma hora que pode poupar em correções dolorosas no futuro. A sua tese merece esse cuidado. Você merece esse cuidado.




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