Artigo Científico Passo a Passo: Estrutura, Formatação e Submissão

Artigo Científico Passo a Passo: Estrutura, Formatação e Submissão

Escrever um artigo científico passo a passo é um processo com etapas bem definidas — mas que poucos cursos ensinam explicitamente. A maioria dos estudantes aprende por osmose, analisando artigos publicados e tentando replicar a sua estrutura sem compreender os princípios por detrás de cada secção. O resultado são manuscritos rejeitados por erros evitáveis: abstracts vagos, secções de métodos incompletas, discussões que repetem os resultados sem os interpretar.

Este guia apresenta o processo completo de escrita de um artigo científico do zero — com especial atenção às convenções usadas em Portugal e no Brasil — para que possa passar da investigação concluída ao manuscrito submetido com confiança.

Resposta rápida: Um artigo científico segue a estrutura IMRaD: Introdução (o porquê), Métodos (o como), Resultados (o quê), Discussão (o que significa). A escrita começa pelos Métodos e Resultados (secções mais concretas), seguida da Introdução e Discussão, e termina com o Resumo. Formate segundo as normas da revista-alvo antes de submeter.

Antes de escrever: organizar os dados

Começar a escrever antes de ter os dados organizados é um erro frequente que resulta em manuscritos com estrutura caótica. Antes de escrever uma única linha, faça o seguinte:

  • Defina a mensagem central do artigo numa frase: “Este estudo mostra que [X] tem o efeito [Y] sobre [Z], o que sugere [implicação].”
  • Seleccione as 3–5 tabelas ou figuras mais importantes que contam a história dos seus dados. O artigo existe para contextualizar e interpretar estas figuras.
  • Identifique a contribuição específica do artigo para a literatura — o que é genuinamente novo? Sem uma contribuição clara, nenhum editor irá aceitar o manuscrito.

Título: 12 palavras que fazem toda a diferença

O título é a porta de entrada do artigo. É o que aparece nos resultados do Google Scholar, no Scopus e nas notificações de alerta dos investigadores da área. Um bom título científico é:

  • Informativo: indica as principais variáveis, o contexto e, quando possível, a direcção do resultado.
  • Conciso: idealmente 10–15 palavras; evite artigos e preposições desnecessárias.
  • Rico em palavras-chave: inclui os termos pelos quais os investigadores da área farão a pesquisa.
  • Sem abreviaturas: excepto as universalmente reconhecidas na área (e.g., HIV, DNA).

Exemplo fraco: “Estudo sobre o impacto da tecnologia na aprendizagem.”
Exemplo forte: “Uso de plataformas de aprendizagem adaptativa e rendimento académico em estudantes universitários de primeiro ano: um estudo quasi-experimental.”

Abstract: como escrever um resumo eficaz

O abstract é lido antes do artigo e, para muitos investigadores, é o único que lêem. Um abstract eficaz tem 150–300 palavras e responde a quatro perguntas:

  1. Objectivo: “O objectivo deste estudo foi…” ou “Este artigo investiga…”
  2. Método: Design, participantes, instrumentos e procedimento em 2–3 frases.
  3. Resultados: Os resultados mais importantes com valores concretos — não “os resultados mostram diferenças significativas” mas “o grupo experimental obteve resultados 23% superiores (p = .003)”.
  4. Conclusão e implicações: O que significa este resultado e para quem é relevante?
Atenção: O abstract não tem referências bibliográficas, não usa abreviaturas não definidas e não menciona nada que não esteja no artigo. Escreva-o por último — depois de o artigo estar concluído.

Palavras-chave: escolha estratégica

As palavras-chave determinam em que pesquisas o artigo vai aparecer. Inclua 4–8 termos que os investigadores da área usariam para encontrar estudos como o seu. Siga estas regras:

  • Não repita palavras já presentes no título (não acrescentam valor indexado).
  • Use termos controlados dos tesauros da área (e.g., MeSH para a saúde, ERIC Thesaurus para educação).
  • Inclua tanto termos específicos como mais gerais para cobrir diferentes estratégias de pesquisa.
  • Para artigos em português, inclua versão inglesa dos termos principais — muitas bases de dados indexam em inglês independentemente do idioma do artigo.

Introdução: o funil invertido

A introdução funciona como um funil: começa largo (o contexto geral do fenómeno) e vai estreitando até à lacuna específica que o seu estudo preenche. Segue tipicamente uma lógica de 4 movimentos (modelo CARS de Swales):

  1. Estabelecer o território: Contextualizar o campo e mostrar a relevância do tema.
  2. Identificar a lacuna: Mostrar o que a investigação existente não sabe ou não explorou adequadamente.
  3. Preencher a lacuna: Apresentar o propósito do estudo e a sua contribuição específica.
  4. Declarar o objectivo: Formular a pergunta de investigação ou a hipótese de forma explícita.

A introdução cita a literatura relevante — não para resumir tudo o que já foi feito, mas para construir o argumento de que a sua contribuição é necessária. Para uma revisão de literatura rigorosa que fundamente este argumento, consulte o nosso guia sobre revisão de literatura para dissertações e teses.

Métodos: o standard de replicabilidade

A secção de Métodos deve ser detalhada o suficiente para que outro investigador replique o estudo. Inclui:

  • Design do estudo: experimental, quasi-experimental, descritivo, correlacional, qualitativo, misto.
  • Participantes / amostra: critérios de inclusão e exclusão, processo de selecção, tamanho e características demográficas.
  • Instrumentos: describe cada instrumento (nome, autores, versão, escala, propriedades psicométricas). Para questionários originais, descreva o processo de validação — veja o nosso guia sobre como fazer questionário para tese.
  • Procedimentos: como, quando e onde foram recolhidos os dados.
  • Análise: software utilizado (SPSS versão X, R versão X, NVivo 14), testes estatísticos ou abordagem qualitativa, nível de significância adoptado.

Escreva os Métodos antes da Introdução — é mais fácil começar pelo concreto. Os Métodos são o esqueleto do artigo; o resto é construído à sua volta.

Resultados: dados sem interpretação

A secção de Resultados apresenta os dados de forma organizada e neutra. Não interprete, não compare com a literatura e não tire conclusões — isso fica para a Discussão. As regras principais:

  • Siga a ordem das perguntas de investigação ou das hipóteses apresentadas na Introdução.
  • Comece sempre com a estatística descritiva (características da amostra) antes dos resultados inferenciais.
  • Use tabelas para dados complexos e figuras para tendências e padrões visuais. Nunca duplicar o mesmo dado em tabela e texto.
  • Para resultados qualitativos, apresente excertos das entrevistas ou documentos como evidências, identificados por código do participante.
  • Reporte todos os resultados relevantes, incluindo os que não confirmam as hipóteses — o cherry-picking de dados é uma prática não-ética que conduz a ciência reprodutível.

Discussão e Conclusão: onde a ciência acontece

A Discussão é a secção mais difícil de escrever e a mais valorizada pelos revisores. Aqui o investigador mostra que compreende o que os dados significam no contexto mais amplo do conhecimento existente. Segue uma estrutura de 4 movimentos:

  1. Resumo dos principais resultados (1–2 parágrafos): sem estatísticas, apenas os achados centrais.
  2. Interpretação à luz da literatura: Como os resultados confirmam, contradizem ou complementam estudos anteriores? Esta é a secção que requer uma revisão de literatura sólida.
  3. Limitações do estudo: Seja honesto — tamanho de amostra, design, instrumentos, contexto geográfico ou temporal. As limitações bem articuladas fortalecem a credibilidade do artigo.
  4. Implicações e investigação futura: Para a teoria, para a prática profissional e para futuros estudos.

Referências: APA, ABNT e Vancouver

O estilo de referências depende da área e da revista. As três normas mais comuns em Portugal e no Brasil são:

Principais estilos de citação por área
Estilo Áreas predominantes Formato in-text
APA 7.ª ed. Psicologia, Educação, Ciências Sociais, Gestão (Autor, Ano)
ABNT (NBR 6023) Todas as áreas no Brasil AUTOR, Ano (autor-data) ou numeral
Vancouver Ciências da Saúde e Medicina Numeral sobrescrito [1]

Use um gestor bibliográfico (Zotero — gratuito e open-source — ou Mendeley) para manter a consistência das referências e formatar automaticamente segundo o estilo da revista. Uma única inconsistência no estilo pode resultar em rejeição técnica. Para um guia detalhado de formatação de referências, consulte o nosso artigo sobre referências bibliográficas: regras e formatação.

Formatação antes da submissão

Antes de submeter, verifique meticulosamente:

  • Número de palavras dentro do limite da revista (incluindo ou excluindo referências — verifique as Author Guidelines).
  • Tipo e tamanho de letra, espaçamento e margens conforme especificado.
  • Figuras e tabelas numeradas sequencialmente e mencionadas no texto antes de aparecerem.
  • Abstract dentro do limite de palavras e sem referências.
  • Todos os autores com afiliação completa e ORCID (obrigatório na maioria das revistas desde 2024).
  • Declaração de conflito de interesses e, se aplicável, aprovação ética com número de processo.
  • Verificação anti-plágio com ferramenta como iThenticate ou Turnitin — o índice de similaridade aceitável varia, mas tipicamente <15% é considerado adequado.

Para o processo completo de submissão e publicação — incluindo como responder aos revisores e as plataformas de submissão mais comuns — consulte o nosso guia detalhado sobre como publicar artigo científico.

Perguntas Frequentes

Por onde devo começar a escrever o artigo?

Comece pelos Métodos e Resultados — são as secções mais concretas e fáceis de escrever porque descrevem o que já fez e o que já tem. Em seguida, escreva a Discussão (para enquadrar o significado dos resultados), depois a Introdução (que estabelece a necessidade do estudo), e por último o Abstract e as palavras-chave. O título pode ser revisto várias vezes ao longo do processo.

Quantas referências deve ter um artigo científico?

Não existe um número obrigatório — varia muito por área e tipo de artigo. Artigos de revisão têm tipicamente 50–150+ referências; artigos empíricos originais têm 25–60. O importante é que todas as afirmações factuais relevantes estejam suportadas por referências e que estas sejam actuais (preferencialmente dos últimos 5–10 anos, excepto para obras clássicas da área).

Posso publicar o capítulo da tese como artigo científico?

Sim, mas requer adaptação substancial. Um capítulo de tese é escrito para um júri que conhece o contexto institucional; um artigo é escrito para um público internacional que não tem essa informação. É necessário condensar (um artigo é muito mais curto que um capítulo), reformular a introdução sem pressupor conhecimento do contexto português/brasileiro específico, e adaptar as referências ao público da revista. Verifique também se a sua universidade tem política sobre a publicação derivada de teses antes da defesa.

Qual a diferença entre artigo de revisão e artigo original?

Um artigo original (também chamado artigo empírico ou research article) reporta dados primários — recolhidos pelo próprio investigador. Um artigo de revisão sintetiza e analisa criticamente a literatura existente sobre um tema sem recolher novos dados (revisão narrativa) ou usando metodologia sistemática e critérios de inclusão explícitos (revisão sistemática ou meta-análise). Para teses, os artigos originais são mais comuns; as revisões sistemáticas são frequentemente publicadas como artigos independentes da tese propriamente dita.

É obrigatório ter ORCID para submeter um artigo?

A maioria das revistas indexadas passou a exigir ou fortemente recomendar o ORCID (Open Researcher and Contributor ID) para todos os autores. O ORCID é um identificador único permanente que distingue o seu trabalho do de investigadores com nome semelhante e facilita a atribuição correcta das publicações. É gratuito e demora menos de 5 minutos a criar em orcid.org. Em Portugal, a FCT passou a associar o ORCID a todas as candidaturas de bolsas e projectos.

Escreva o seu artigo com mais confiança

O Tesify apoia investigadores na revisão e melhoria de textos académicos — da escrita do abstract à verificação das referências. Combine com o nosso guia de escrita académica para elevar a qualidade do seu manuscrito antes da submissão.