Posso Usar “apud” (Citação de Citação) na Tese em 2026? Quando É Permitido
Sim — mas apenas quando a fonte primária é genuinamente inacessível. Tanto as normas ABNT (NBR 10520:2023) como a APA 7.ª edição permitem a citação de fonte secundária, desde que usada com parcimónia e devidamente assinalada no texto. Usar “apud” para fontes que estão disponíveis online ou em biblioteca é um dos erros que os júris identificam com mais facilidade.
O que é uma citação de fonte secundária?
Uma citação de fonte secundária ocorre quando o autor A cita uma ideia ou passagem do autor B, e o estudante lê o trabalho de A mas não consegue aceder ao trabalho original de B. Em vez de omitir a atribuição ou fingir ter lido B, o correto é indicar que a informação foi obtida através de A.
Em contexto ABNT, esta operação designa-se formalmente por citação de citação e faz-se com a palavra “apud” (do latim, com o sentido de “em” ou “junto de”). Em APA 7, a expressão equivalente em inglês é “as cited in”; em textos redigidos em português académico utiliza-se frequentemente “como citado em” ou “citado por”.
Situações em que a citação secundária pode ser legítima:
- Um clássico cujo original está esgotado e sem versão digitalizada acessível em repositório aberto.
- Uma obra publicada numa língua rara que o estudante não domina e sem tradução publicada.
- Dissertações e teses depositadas em arquivos institucionais fechados, sem acesso remoto.
- Atas de conferências antigas sem versão digital disponível.
- Relatórios internos de organizações sem distribuição pública.
O critério decisivo é a inacessibilidade genuína do original. Se a obra existe em formato digital num repositório de acesso aberto, numa biblioteca universitária ou numa plataforma de subscrição a que a instituição tem acesso, a justificação para usar “apud” não é válida.
Quando é permitido usar “apud”?
As normas ABNT e APA 7 são explícitas: a citação de fonte secundária é um recurso de exceção. A NBR 10520:2023 estabelece que se deve “indicar o documento não consultado, seguido da expressão apud e da referência do documento consultado, que será incluído nas referências”. O Manual de Publicação da APA 7.ª edição aconselha a “tentar localizar a fonte original” e a recorrer à citação secundária apenas “quando a fonte original não está disponível”.
Em termos práticos, o uso é aceitável quando:
- A obra original está definitivamente fora de alcance após pesquisa nas principais bases de dados, repositórios abertos e catálogos de biblioteca.
- A citação é relevante para o argumento e não existe forma alternativa de transmitir o mesmo conteúdo com fontes primárias acessíveis.
- O número total de ocorrências é residual no conjunto da tese ou dissertação.
O uso não é aceitável quando a obra original está disponível em formato digital (mesmo em língua estrangeira), quando existe uma versão traduzida publicada, ou quando a pesquisa foi superficial. Orientadores e membros de júri verificam regularmente se os autores citados via “apud” eram de facto inacessíveis.
Como se formata “apud” em ABNT (NBR 10520:2023)?
A norma não impõe itálico para “apud”. A maior parte dos manuais universitários brasileiros usa a palavra em redondo. Para garantir coerência, siga o manual de normalização da sua instituição.
No texto — citação indireta (paráfrase)
A estrutura é: SOBRENOME DO AUTOR NÃO CONSULTADO, ano apud SOBRENOME DO AUTOR CONSULTADO, ano.
Vygotsky (1934 apud Oliveira, 2021) argumenta que o desenvolvimento precede a aprendizagem...
...a linguagem estrutura o pensamento (VYGOTSKY, 1934 apud OLIVEIRA, 2021).
O sobrenome do autor original (que não leu) vem primeiro, seguido do ano da obra original. A seguir, “apud” e o autor que efetivamente leu com o ano da obra consultada.
No texto — citação direta (transcrição literal)
Nas citações diretas inclui-se obrigatoriamente o número de página da obra consultada:
"A aprendizagem desperta processos internos de desenvolvimento"
(VYGOTSKY, 1934 apud OLIVEIRA, 2021, p. 45).
A página indicada é a da obra que leu (Oliveira, 2021), não a da obra original. Não é possível indicar a página de um livro que não consultou.
Na lista de referências
Entra apenas a obra efetivamente consultada. Listar a obra original que não leu é um erro académico grave — e muito fácil de detetar pelo júri, que verificará se o estudante teve acesso real ao texto.
OLIVEIRA, M. K. de. Vygotsky: aprendizado e desenvolvimento —
um processo sócio-histórico. 5. ed. São Paulo: Scipione, 2021.
A obra de Vygotsky (1934) não aparece nas referências. Esta é a regra mais frequentemente violada em citações com “apud”.
Como a APA 7 trata a citação de fonte secundária?
O Manual de Publicação da APA 7.ª edição utiliza “as cited in” (em inglês). Em teses redigidas em português — incluindo dissertações de mestrado e teses de doutoramento em Portugal — as formulações mais aceites são “como citado em” e “citado por”. Confirme com o manual da sua faculdade qual a preferida; na ausência de indicação, “como citado em” é a opção mais próxima do original inglês. Para uma referência detalhada das normas APA 7 aplicadas à tese em contexto português, consulte o guia completo de citação e referências APA 7.
No texto
Piaget (1952, como citado em Ferreira, 2019) defendia que...
...(Piaget, 1952, como citado em Ferreira, 2019, p. 78).
O ano da obra primária (1952) é incluído porque situa historicamente a ideia. O ano e o número de página referem-se à obra consultada (Ferreira, 2019), onde o estudante encontrou a passagem. Para uma visão completa das convenções de citação em vigor em Portugal, consulte o guia normas APA 7 em Portugal 2026: citações e referências na tese passo a passo.
Na lista de referências
Tal como em ABNT, só entra a obra consultada:
Ferreira, A. (2019). Teorias do desenvolvimento cognitivo aplicadas ao ensino. Almedina.
A obra de Piaget (1952) não entra nas referências. Se a obra de Piaget não estiver listada mas aparecer citada em texto sem “como citado em”, o júri poderá interpretar isso como erro de atribuição ou, em casos graves, como uma forma de plágio por omissão de fonte. Para compreender melhor a distinção entre paráfrase, citação direta e atribuição correta de fontes, consulte o guia como citar sem plagiar: paráfrase, citação direta e erros que reprovam a tese.
Porque é que os júris penalizam o abuso de “apud”?
Os membros do júri interpretam um número elevado de citações secundárias como sinal de três problemas distintos:
- Revisão de literatura superficial. Se uma parte significativa das referências de um capítulo chega via “apud”, surge a dúvida sobre se o estudante leu de facto os autores fundamentais da área ou se se limitou a citar o que outros autores citaram.
- Falta de competência de pesquisa. Não conseguir aceder a obras disponíveis em repositórios abertos ou em bibliotecas universitárias é lido como incapacidade de localizar e gerir fontes — uma competência central de qualquer investigador.
- Risco de cadeia de erros. Quando A cita B, é possível que A tenha parafraseado de forma imprecisa ou descontextualizado B. Citar através de A sem ter verificado B propaga um possível erro intelectual.
Existe ainda um problema técnico frequente: o estudante indica a obra original (que não leu) nas referências por engano, criando uma inconsistência imediatamente detetável. Antes da entrega final, vale a pena verificar o texto quanto a plágio e autoplágio e confirmar que cada entrada nas referências corresponde a uma obra efetivamente consultada.
A recomendação generalizada dos orientadores portugueses é limitar o “apud” a casos verdadeiramente excecionais — idealmente não mais do que um ou dois ao longo de toda a dissertação — e justificar em nota de rodapé as razões pelas quais não foi possível aceder ao original.
Alternativas ao “apud”: como encontrar a fonte primária
Antes de recorrer à citação secundária, percorra estes passos por ordem:
- b-on e catálogo da biblioteca universitária. Em Portugal, o consórcio b-on dá acesso a milhares de publicações científicas. Verifique se a obra consta do catálogo da sua instituição antes de concluir que é inacessível.
- Google Scholar e RCAAP. O Google Scholar indexa muitos pre-prints e versões de autor depositadas livremente. O RCAAP (Repositório Científico de Acesso Aberto de Portugal) agrega os repositórios institucionais das universidades portuguesas.
- Pedido de empréstimo interbibliotecário. Os serviços de documentação das universidades têm protocolos de empréstimo interbibliotecário que permitem aceder a obras noutras instituições, por vezes em 48 a 72 horas.
- Contacto direto com o autor. Para artigos em acesso restrito, pode contactar o autor via ResearchGate, Academia.edu ou e-mail institucional e pedir o manuscrito. A maioria dos autores responde positivamente.
- Open Access Button e Unpaywall. Estas extensões de navegador procuram automaticamente versões legais em acesso aberto de artigos pagos e indicam onde estão depositadas.
Se após estes passos continuar sem acesso, a citação secundária está justificada. Pode ainda acrescentar uma nota de rodapé a indicar as diligências realizadas — o que demonstra rigor metodológico e protege a investigação perante o júri.

Perguntas frequentes
O que significa “apud” numa tese?
“Apud” é uma palavra latina que significa “em” ou “junto de”. Em contexto académico ABNT, indica que a citação foi retirada não da obra original do autor, mas de um segundo trabalho que citou esse autor. Equivale a “as cited in” em APA 7 ou “como citado em” / “citado por” em português.
A obra original vai para a lista de referências quando uso “apud”?
Não. Nas referências entra apenas a obra que efetivamente consultou. Listar uma obra que não leu é um erro académico grave, detetável por qualquer membro do júri que verifique as fontes. Esta regra é idêntica em ABNT e APA 7.
Posso usar “apud” em citações diretas?
Sim. A estrutura mantém-se igual, mas inclui o número de página da obra consultada: (AUTOR-ORIGINAL, ano apud AUTOR-CONSULTADO, ano, p. X) em ABNT, ou (Autor-Original, ano, como citado em Autor-Consultado, ano, p. X) em APA 7. A página indicada é a da obra que leu, não do texto que não consultou.
Quantas vezes posso usar “apud” numa dissertação de mestrado?
Nenhuma norma fixa um número máximo, mas a recomendação generalizada dos orientadores é que seja um recurso verdadeiramente excecional — idealmente não mais do que um ou dois casos em toda a dissertação. Um número elevado é interpretado como fraqueza na revisão de literatura.
Em APA 7, “como citado em” e “citado por” são equivalentes?
Funcionalmente sim, mas a formulação mais próxima do original inglês “as cited in” é “como citado em”. Alguns manuais institucionais portugueses e brasileiros preferem “citado por”. Consulte o manual da sua faculdade e seja consistente ao longo de todo o trabalho.
A NP 405 usa “apud”?
A NP 405 (norma portuguesa de referências bibliográficas) não define explicitamente um formato para citações secundárias equivalente ao “apud” da ABNT. Em teses portuguesas que seguem NP 405, a prática habitual é adotar a formulação APA 7 (“como citado em”) ou explicitar em nota de rodapé que se trata de uma citação de segunda mão e indicar a obra efetivamente consultada.
O que acontece se o orientador descobrir que usei “apud” para uma obra acessível?
Na melhor das hipóteses, será solicitada a substituição pela citação direta da fonte original antes da entrega. Na pior, pode ser interpretado como desonestidade académica, especialmente se a obra estiver disponível no repositório da universidade. A diligência mínima esperada é verificar o catálogo da biblioteca e as bases de dados a que a instituição tem acesso.
Posso usar “apud” para citar uma tese de doutoramento?
Sim, a regra é a mesma independentemente do tipo de fonte consultada. Se leu uma tese de doutoramento que cita um autor e não consegue aceder ao trabalho original, pode usar “apud” (ABNT) ou “como citado em” (APA 7), indicando o autor original em primeiro lugar e a tese consultada em segundo.
E se houver uma cadeia — A cita B que cita C?
As normas não prevêem “apud de apud”. Identifique a fonte mais próxima que conseguiu ler e use apenas uma citação secundária. Se leu B (que cita C), registe “C apud B” — nunca crie uma cadeia tripla. Quando a cadeia é muito extensa, o mais adequado é parafrasear a ideia e indicar que é discutida em B, sem tentar reproduzir C.
Os detetores de plágio identificam o uso incorreto de “apud”?
Os detetores de plágio convencionais (Turnitin, iThenticate, Compilatio) avaliam correspondências de texto, não a lógica das citações. O erro de incluir a obra original nas referências ou de omitir “apud” é identificado manualmente pelo orientador e pelo júri durante a revisão das referências — não por software automático.
Quer garantir que as suas citações estão todas corretas?
O Tesify verifica e formata automaticamente as suas referências em APA 7, NP 405 e ABNT — incluindo a distinção entre citações primárias e secundárias. Evite penalizações do júri por erros de formatação que uma ferramenta inteligente deteta em segundos.
