Como Escrever os Agradecimentos da Tese: Estrutura, Tom e Exemplos
Os agradecimentos da tese são a única secção do documento em que ninguém vai avaliar a tua metodologia, mas em que quase todos os leitores — orientador, júri, colegas, família — vão parar para ler com atenção. É por isso que tantos estudantes ficam bloqueados diante de uma página em branco depois de terem escrito 80 ou 100 páginas de conteúdo técnico sem hesitar. Este artigo dá-te uma estrutura clara para os agradecimentos da tese: a quem agradecer, em que ordem, que tom usar e como adaptar o texto ao teu caso concreto, com modelos prontos a editar.
A boa notícia é que esta secção tem uma convenção bastante estável nas universidades portuguesas, o que significa que não precisas de reinventar nada — só de seguir a estrutura certa e preencher com a tua experiência real.
Resposta rápida: Os agradecimentos da tese seguem normalmente esta ordem: orientador (e coorientador, se existir), instituição e júri, entidade financiadora ou bolsa, colegas e equipa de investigação, e por fim família e amigos. O tom começa mais formal e vai ficando mais pessoal à medida que avanças na lista. Uma página costuma chegar — o essencial é que cada agradecimento seja específico, não genérico.
A quem agradecer (e porquê)
Antes de escrever uma única frase, vale a pena fazer uma lista simples de quem contribuiu de facto para o teu trabalho. Nem toda a gente que gostas precisa de aparecer nos agradecimentos da tese — esta secção não é uma lista de amigos, é um registo de quem tornou o projeto possível. As categorias mais comuns são:
- Orientador e coorientador — quem acompanhou a investigação de perto, deu feedback e assinou o projeto perante a instituição.
- Instituição e júri — a faculdade, o departamento, e por vezes os membros do júri de provas públicas, quando o regulamento permite mencioná-los antes da defesa.
- Entidade financiadora — FCT, Erasmus+, projetos de investigação, bolsas internas da universidade ou de empresas parceiras.
- Colegas e equipa de investigação — colegas de laboratório, grupo de investigação, participantes do estudo (quando aplicável e sem comprometer o anonimato).
- Família e amigos — o apoio pessoal que sustentou o processo, normalmente no final do texto.
Se um nome não corresponde a nenhuma destas categorias e não consegues justificar em uma frase o que essa pessoa fez pelo teu trabalho, é provavelmente um sinal de que pertence a uma mensagem privada, não à tese.
Vídeo: dicas práticas para escrever os agradecimentos da dissertação ou tese, pelo canal sejaphd.
A ordem recomendada, passo a passo
A lógica mais usada — e a que os orientadores portugueses costumam recomendar — é ir do mais institucional para o mais pessoal. Isto evita que o texto salte de um registo académico para um registo íntimo e depois volte atrás, o que soa desorganizado.
- Orientador (e coorientador). Vai sempre em primeiro lugar. É quem valida cientificamente o trabalho e, na maioria dos casos, quem mais tempo investiu contigo ao longo do processo.
- Instituição, departamento e júri. Podes agradecer à faculdade pelo acesso a recursos (laboratórios, bases de dados, bibliotecas) e, quando apropriado, aos membros do júri.
- Financiamento e bolsas. Se recebeste uma bolsa FCT, Erasmus+, ou financiamento de projeto, esta é a secção onde a instituição financiadora espera ver-se mencionada — muitas vezes com a referência exata da bolsa ou do projeto.
- Colegas, equipa de investigação e participantes. Quem colaborou em recolha de dados, revisão de código, discussões metodológicas ou simplesmente partilhou o percurso académico contigo.
- Família e amigos. Reservado para o fim, normalmente com o tom mais pessoal do texto inteiro.
Esta progressão de contexto institucional para pessoal também é a que encontrarás na maioria dos manuais de formatação das universidades portuguesas, que costumam situar os agradecimentos logo a seguir à página de rosto e antes do resumo e das palavras-chave — confirma sempre o guia específico da tua faculdade, porque a posição exata pode variar entre departamentos. Se quiseres perceber onde os agradecimentos se encaixam no conjunto de todos os capítulos e elementos pré-textuais de uma dissertação, o guia completo sobre a estrutura de uma dissertação mapeia a ordem de todos os elementos, do pré-textual ao pós-textual.
Que tom usar em cada parte
Uma dúvida frequente é se os agradecimentos devem soar formais como o resto da tese ou se podem ter um tom mais pessoal. A resposta prática é: os dois, em proporções diferentes ao longo do texto.
| Secção | Registo recomendado |
|---|---|
| Orientador / instituição | Formal, específico, sem exageros — refere o que concretamente ajudou (disponibilidade, rigor, orientação numa fase difícil). |
| Financiamento | Formal e factual, quase protocolar — nome da entidade, tipo de apoio, referência se existir. |
| Colegas / equipa | Semiformal, pode incluir uma nota de humor ou uma memória concreta partilhada. |
| Família / amigos | Pessoal e caloroso — é a única parte da tese onde a primeira pessoa emocional é totalmente aceitável. |
O critério mais útil, independentemente da secção, é a especificidade: uma frase genérica como “obrigado por tudo” diz muito pouco sobre a relação real. Uma frase como “obrigado por teres lido três versões do capítulo metodológico num fim de semana” comunica muito mais e soa mais genuína — precisamente porque é verificável e concreta.

Que extensão devem ter os agradecimentos
Não existe um número fixo de linhas exigido pelos regulamentos, mas há um padrão prático que se repete em quase todas as teses portuguesas: entre meia página e uma página completa. Dissertações de mestrado tendem para o limite inferior desse intervalo, porque o número de pessoas diretamente envolvidas costuma ser menor. Teses de doutoramento, com vários anos de trabalho, mais financiamento envolvido e mais colaborações, justificam com naturalidade uma página inteira.
Um agradecimento excessivamente longo tende a diluir o que é genuíno — se cada linha tenta agradecer a alguém diferente sem dizer nada de específico sobre essa pessoa, o texto perde força. É preferível uma página curta e concreta a três páginas genéricas.
Erros comuns a evitar
- Esquecer o orientador ou colocá-lo depois da família. Mesmo sendo a secção mais pessoal do texto, a convenção académica espera que a orientação científica seja reconhecida em primeiro lugar.
- Omitir a entidade financiadora. Se tiveste uma bolsa FCT ou de outro tipo, verifica o contrato — muitas bolsas exigem, formalmente, a menção da entidade e da referência do projeto nos agradecimentos ou nas páginas iniciais da tese.
- Copiar um modelo genérico da internet sem adaptar nada. Um júri lê dezenas de agradecimentos por época de defesas; frases decoradas e impessoais destacam-se pelas piores razões.
- Escrever agradecimentos tão longos que competem em extensão com a introdução. Mantém o foco: esta é a secção mais curta do documento, não a mais elaborada.
- Usar linguagem excessivamente informal com o orientador quando a relação foi, na prática, distante ou profissional — o tom deve refletir a relação real, não uma intimidade forçada.
Modelos e exemplos prontos a adaptar
Os modelos abaixo são pontos de partida. Substitui os nomes, instituições e detalhes por informação real do teu processo — nunca publiques um agradecimento com dados genéricos ou inventados.
Modelo 1 — Formal e conciso (mestrado)
Ao Professor Doutor [Nome], meu orientador, agradeço a disponibilidade constante, o rigor nas revisões e a paciência nas fases mais difíceis deste percurso. À [Faculdade/Universidade], agradeço o acesso aos recursos que tornaram esta investigação possível. Aos meus colegas de curso, obrigado pela partilha de dúvidas e materiais ao longo destes dois anos. À minha família, obrigado pelo apoio incondicional e pela paciência nos meses de maior dedicação a este trabalho.
Modelo 2 — Mais pessoal e desenvolvido (doutoramento)
Ao meu orientador, Professor Doutor [Nome], devo o rigor científico e a liberdade para explorar caminhos que inicialmente pareciam arriscados — sem essa combinação, este trabalho teria sido bem mais pobre. À Fundação para a Ciência e a Tecnologia, agradeço o financiamento através da bolsa [referência], sem o qual esta investigação não teria sido viável. Ao grupo de investigação [nome do grupo/laboratório], obrigado pelas discussões que moldaram várias das decisões metodológicas deste projeto. Aos colegas [nomes], obrigado por partilharem tanto os dados como as frustrações deste percurso. Aos meus pais e à minha irmã, obrigado por nunca terem duvidado, mesmo quando eu duvidei.
Modelo 3 — Curto e direto (TFC / licenciatura)
Agradeço à Professora Doutora [Nome] pela orientação atenta ao longo deste trabalho. Agradeço também à [Instituição] pelas condições disponibilizadas para a realização deste projeto. Por fim, agradeço à minha família e aos meus amigos pelo apoio ao longo deste ano.
Modelo 4 — Quando a relação com o orientador foi mais distante
Agradeço ao Professor Doutor [Nome] pela orientação científica deste trabalho e pela disponibilidade nos momentos em que foi necessária. Agradeço à [Instituição] pelo acesso aos recursos que permitiram a realização desta investigação. O meu maior agradecimento vai para [família/amigos/colegas], sem os quais este processo teria sido significativamente mais difícil.
Repara que, mesmo no modelo 4, a frase sobre o orientador é breve mas educada e profissional — cumpre a convenção sem forçar um entusiasmo que não existiu.
Adaptações por tipo de trabalho
Licenciatura e trabalho final de curso (TFC)
Nestes casos, o círculo de pessoas envolvidas costuma ser mais pequeno: orientador, eventualmente um coorientador, a instituição e a família. Um parágrafo único de quatro a seis linhas costuma ser suficiente — não é preciso alongar artificialmente esta secção só porque outras teses de mestrado o fazem.
Dissertação de mestrado
Além do orientador e da instituição, é comum incluir colegas de curso e, quando existiu, uma entidade de acolhimento em estágio ou empresa parceira do projeto. Meia página costuma ser o ponto de equilíbrio entre completo e conciso.
Tese de doutoramento
Aqui o leque é naturalmente maior: orientador, coorientador, júri, entidade financiadora (com referência de bolsa, quando aplicável), grupo de investigação, colaboradores externos e, por fim, família. É a única situação em que uma página inteira de agradecimentos é não só aceitável como esperada, dado o tempo e o número de pessoas envolvidas ao longo de vários anos de trabalho.
Perguntas Frequentes
Os agradecimentos da tese são obrigatórios?
Não são obrigatórios em termos regulamentares, mas são uma convenção quase universal nas teses e dissertações portuguesas. A maioria dos regulamentos de mestrado e doutoramento não exige esta secção, mas incluí-la é prática corrente e esperada por orientadores e júris.
Os agradecimentos entram antes ou depois do resumo?
Nas universidades portuguesas, os agradecimentos (por vezes junto com a dedicatória) surgem depois da página de rosto e antes do resumo em português e do abstract em inglês. Confirma sempre o guia de formatação da tua faculdade, porque a ordem exata pode variar entre departamentos.
Posso escrever os agradecimentos em tom informal?
Sim, esta é normalmente a secção mais pessoal do documento. É comum começar num registo mais formal ao agradecer ao orientador e à instituição, e afrouxar o tom para a família e os amigos. Evita apenas humor excessivo ou referências que só fazem sentido para ti.
Quantas páginas devem ter os agradecimentos?
Entre meia página e uma página é o intervalo mais comum. Um mestrado costuma ficar mais próximo de meia página; um doutoramento, com mais anos de trabalho e mais pessoas envolvidas, pode justificar uma página inteira.
Preciso de agradecer à entidade financiadora?
Se tiveste uma bolsa (FCT, Erasmus+, bolsa de investigação da instituição, financiamento de projeto) é prática esperada mencionar a entidade e, quando aplicável, a referência da bolsa ou do projeto. Verifica se o teu contrato de bolsa tem uma cláusula de menção obrigatória.
E se não tive uma boa relação com o orientador?
Mesmo numa relação difícil, o mínimo esperado é uma frase curta e factual de agradecimento pela orientação, sem elogios que não sintas genuínos. Não é obrigatório escrever parágrafos entusiásticos — uma frase honesta e profissional cumpre a convenção sem soar falsa.
Antes de fechar esta secção
Os agradecimentos são normalmente escritos por último, mesmo aparecendo perto do início do documento — só depois de teres a versão final da tese fechada é que sabes exatamente quem contribuiu para quê. Se ainda estás a organizar o resto do documento, vale a pena rever também como estruturar a tese capítulo a capítulo, como escrever uma introdução que situe claramente o problema de investigação, e como manter uma boa relação de trabalho com o orientador ao longo do processo — a pessoa que, afinal, vais agradecer em primeiro lugar.
